quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Trem noturno para Lisboa

Desconfio um pouco de quem bate no peito e diz: "eu continuo o mesmo de sempre". Primeiro, porque não acho possível ser o mesmo sempre. E segundo, porque, se possível for, não vejo vantagem nenhuma em ser o mesmo de sempre.

Eu me mudei para o Rio de Janeiro quando tinha 21 anos. Eu tinha medo, pudor e um monte de preconceitos comigo mesmo, com os outros e com a vida de um modo geral. Via mais coisas erradas do que certas em cada ação. No início, as pessoas me diziam para não sair à rua de relógio. E eu não saía. Não saía à rua. Desconfiava de todo mundo. Não tomava cerveja. Não dormia tarde. Não passava do ponto, nem da hora. Não blefava. E acima de tudo, não falhava. Chato...

Um dos meus primeiros endereços, ainda que provisório, no Rio foi a rua Dias Ferreira, no Leblon. Quem conhece sabe que dificilmente poderia ser muito melhor que isso. No apartamento, havia uns quatro ou cinco caras. Um deles era estrangeiro. Creio que colombiano, talvez. Jovens se lançando à cidade grande. Saíam à noite quase diariamente para ver o que o bairro do Manoel Carlos tinha a oferecer. Eu não. Além da razão óbvia e inevitável da grana curta, eu não achava certo. Ou porque era terça-feira, ou porque eu tinha que dormir cedo como gente honesta faz, ou porque eu não bebia, ou porque eu poderia ser assaltado,  ou porque eu não fazia muita questão de me misturar com gente nova, ou porque eu tinha uma namorada a mil e tantos quilômetros dali e "ai, meu Deus, o que ela vai pensar" ou, ainda pior, "se eu não saio aqui, ela não sai lá, melhor assim". Bom, dá para imaginar que eu não era dos seres humanos mais evoluídos aos 21.

Acontece que eu mudei, veja só. Pode-se dizer que o mundo me mudou. Ou ainda que o meu mundo mudou. Enfim... Não serei tão cretino a ponto de dizer "olha que pessoa incrível eu me tornei". Longe disso. Até porque o processo todo é uma estrada onde o objetivo é caminhar e não, chegar. E que assim seja.

Tudo isso me ocorre na seguinte conjuntura: são 22h55, estou há uma hora dentro de um trem que partiu de Madri rumo a Lisboa, junto com gente de todas as caras e cores. Na última noite, resolvi conhecer um pouco mais da vida noturna da capital espanhola e dormi cerca de umas três horas apenas. Nas noites anteriores, não havia sido muito mais que isso também. No quarto do hostel, quando saí, estavam dois brasileiros e um venezuelano. Mas, pouco antes, eram duas australianas e um australiano. Um monte de gente legal e um monte de gente estranha. Espanhol, português, inglês, migué de italiano, música de Edith Piaf pra ajudar no francês... A comunicação acontece, impressionantemente.

Hoje, passei o dia todo caminhando em Toledo sob um sol de 41ºC. Minhas pernas doem. Meus pés estão cheios de bolhas. Estou sujo. Ainda faltam umas oito ou nove horas para o meu destino. Não sei quando vou dormir ou comer bem de novo. 


Eu tinha medo de viajar sozinho, confesso. Nunca me senti confortável em conhecer e conviver com gente muito diferente de mim. Tinha um certo pé atrás com esse negócio de hostel. Costumo dizer que sou o antissocial mais social que existe, mas tinha medo da solidão. Uma bobagem sem tamanho. Agora, passa da metade de uma viagem sonhada, mas não muito, planejada, mas não tanto, e que, até agora está saindo melhor que a encomenda. Morto de cansaço, fora da minha zona de conforto, mas não consigo me ver mais feliz do que estou.

Nos últimos dez dias, não foram poucas as vezes que estive bem perto de chorar de emoção. Os olhos molharam. Foi assim quando estava caminhando pelo Parc Guell, em Barcelona, o vento anunciava a chuva em pingos esparsos e trazia também música. Com uma vista linda da cidade, um cara tocava Viva La Vida no violino. Não sei julgar se era um bom violinista ou não, e isso também não vem ao caso. Mas, as pessoas paravam hipnotizadas para ouvir. Sentei e ali fiquei por umas três ou quatro músicas. Do meu lado, um casal não se de onde e um bebê no carrinho, que eles fazia questão de deixar voltado para o artista.

Dias depois, a poucas horas de deixar Barcelona, correndo para dar tempo de tudo, cansado e quase sem forças para caminhar, me vi mais um entre uma infinidade de turistas a admirar o espetáculo das fontes da Praça Espanha, numa noite inesquecível. Parecia uma criança, me enfiando entre as pessoas, com a câmera na mão, em busca da melhor foto. Uma alegria infantil, de sorriso frouxo, acompanhada de perto pela minha nova amiga catalã, uma dessas pessoas raras que a vida nos apresenta de vez em quando.

Quase chorei também quando, depois de subir uma dezena de escadas rolantes, ansioso, sei lá, como um noivo no altar, tomando uma mixta (bebida de cerveja com limão, boazinha até), saí pelo "vomitorio 606-W" e me vi no alto de um infinito Santiago Bernabeu, que recebia mais de 70 mil pessoas numa segunda-feira para Real Madrid x Córdoba, pela primeira rodada do Campeonato Espanhol.

Houve e vai haver outros grandes momentos por aqui. Ainda tem todo o passeio por Portugal pela frente, onde, me diz um amigo que cá viveu, vou entender muito do que é o Brasil. Sei que vai demorar um tempo para eu digerir e entender tudo que esses dias "sozinho" na Península Ibérica vão significar para mim daqui para frente.

É como se todo chopp negado no Leblon dez anos atrás estivesse sendo vingado, sem vingança nenhuma, a cada "sim" que respondo a mim mesmo e à vida. Este trem vai me levar a Lisboa. Daqui uma semana, um avião me levará de volta a São Paulo. Mas, não sei aonde estou indo. E tudo bem. No momento, só me interessa saber que nunca vou ser aquele que bate no peito e diz: "eu continuo o mesmo de sempre".

sábado, 16 de agosto de 2014

A amizade é importante, porra!

A amizade é importante. Parece lógico e é. Mas, nem sempre a gente se dá conta disso. Eu, por exemplo, sempre estive cercado de grandes amigos. Toda a vida, tive a impressão de que eram poucos. Mas, fazendo a contabilidade hoje, percebo o quanto estava errado. E mesmo cercado de grandes amigos, muitas vezes, eu pouco me dei o privilégio de desfrutar destas grandes amizades. Tive relacionamentos longos, com pessoas que sempre foram grandes amigas (bom, quase todas) e isso, naquele momento, por preguiça ou outra bobagem qualquer, acabava por me tirar grande parte do tempo com os amigos. Não precisava ser assim. Acho que nunca mais será assim. Mas, foi. E ok também. Aprendizado.

Mas, hoje, eu vejo com mais clareza como é legal estar cercado por bons amigos. Por exemplo, cheguei agora do churrasco de aniversário do Flavinho, um irmão pra mim. Outro dia, passei uma tarde de sábado sem pressa, bebendo e conversando com o Breno, que está se mudando para São Paulo. Essa semana mesmo, me encontrei com o Leandro e o Rodrigo, amigos há mais de 20 anos. Ouvir as histórias malucas da Regina é sensacional. Eu não a julgo, ela não me julga e é assim mesmo.

Sei que posso sempre contar com o Júlio no trabalho e fora dele. Com o Ricardo, é legal fazer planos para dominar o mundo, escrever uma minissérie ou chamar a atenção daquela garota. Gosto de saber que o Luiz César espera minha visita em sua casa ou insiste para marcarmos mais uma vez aquele chopp com o Alberto e o Ângelo. 

Sempre que o Rodolfo vem a São Paulo, aproveito para rever o querido casal João e Naiara. Aliás, morar nesta cidade é bom por isso também. Os amigos sempre passam por aqui. E é maravilhoso tirar um tempinho, por mais corrido que seja, por mais tarde que seja, por mais terça-feira que seja, para estar com a Ana Cristina. Ou com a Marina. Ou com o Felipe. 

Faz um bem danado saber que, mesmo a distância, grande distância, e a falta de tempo não diminuem em nada grandes amizades. Com a Marisa, que está lá na Europa, meia dúzia de mensagens pela internet são suficientes para nos sabermos próximos. O filho do Túlio que está para nascer lá no Rio de Janeiro eu terei o prazer de chamar de sobrinho. E como falar em Rio de Janeiro, sem falar na Dona Alzira? Uma amiga tão improvável e tão disponível, tão sábia, tão capaz de me jogar pra cima. Tanta saudade.

Todos os nomes citados até agora são fictícios. Não tinha a pretensão de citar todos os grandes amigos que cruzaram e cruzam meus caminhos. Eu tinha certeza que esqueceria alguém, cometeria injustiças... Enfim... Quem é sabe que é.

Mas, de um amigo, eu devo falar o nome. Porque o André Luiz Vieira Barboza é o personagem do texto que publico logo abaixo.

Gosto da minha profissão, entre outras coisas, porque ela me permite conhecer pessoas e suas histórias. E foi indo atrás de uma dessas histórias que, num ambiente mais que inesperado, o Cemitério da Colônia, num lugar distante e pouco conhecido da cidade de São Paulo, fiz um grande amigo. A vida do André me deu um TCC para a pós-graduação. Daria um livro. Um filme. O que se propusesse a fazer. Mas, não é isso que importa. O que importa é que ali, no cemitério, com este amigo, eu renasci nos momentos mais difíceis dos últimos dois anos. Naquelas despretensiosas tardes de sábado, jogando conversa fora, no silêncio e na paz daquele lugar místico, eu aprendi muita coisa importante para a minha vida.

Ando em dívida com o André. Há um bom tempo não lhe faço uma visita. Mas, a "culpa" é dele mesmo. Ando sem tempo porque alguém me ajudou a ver que "a vida é linda, dura, sofrida, carente em qualquer continente, mas boa de se viver em qualquer lugar".

Eis o perfil do André - artista, administrador, agitador cultural, guerreiro -, publicado pela primeira vez.


As reinações de um saci de carne e osso
maio de 2012

“O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe.” Monteiro Lobato

A primeira vez que vi uma foto do André em uma rede social na internet acabei com qualquer resquício de dúvida que ainda havia sobre a história de ele ter sido um dos primeiros sacis da TV Globo. Era incrível! Seus olhos eram exatamente o que eu imaginava que um saci teria. Meio debochados, meio misteriosos, daqueles que te dão a impressão de que ele está aprontando alguma e a certeza de que você nunca saberá o que é. São esses olhos, acompanhados de um sorriso malandro sob o bigode, que me recebem e, rapidamente, me fazem sentir como um amigo próximo, ao final da corrida de quase 30 quilômetros da minha casa em direção ao mais sul da zona sul de São Paulo, no bairro da Colônia.

Não é difícil imaginar André Luiz Vieira Barboza de carapuça vermelha, cachimbo no canto da boca e pulando numa perna só. Mas, ali, no ambiente de trabalho, ele ostenta um figurino muito diferente. Calça social cinza, camisa branca de manga longa, gravata prateada com listras em diagonal, cinto e sapatos pretos vestem o corpo magro, atlético, de cerca de 1,80m, que nega veemente os 46 anos que o RG indica. No bolso da camisa, uma caneta e pequenas aparas de papel com os afazeres do dia. “Palmtop tabajara”, ele brinca. Na lapela, um bordado: Cemitério de Colônia.

Para entender a aura que envolve André e o Cemitério de Colônia, pegue uma quase desconhecida colonização alemã localizada num bairro com cara de cidadezinha do interior, tão afastado geográfica e culturalmente do restante da cidade, que você só acredita que está na cidade de São Paulo porque o mapa lhe diz isso. Adicione um negro carioca com alma de artista, fôlego de criança, vocação para liderar e nenhuma disposição para acreditar na palavra “impossível”. Misture tudo isso no cemitério particular mais antigo do Brasil e acrescente uma trilha sonora oriental vinda do vizinho, um clube de imigrantes japoneses, que só aumenta o clima transcendental do campo-santo. Depois de tudo isso, você estará pronto para acreditar quando André disser: “Tudo aqui acontece no cemitério”.

Para abrir a porta


Conta-se que, logo depois da Independência do Brasil, para agradar a esposa austríaca Maria Leopoldina, o imperador Dom Pedro I mandou trazer de Innsbruck, na Áustria, colonos para habitar a região entre Itapecerica da Serra, Santo Amaro e Parelheiros, constituindo uma colônia agrícola na zona sul de São Paulo. A história oficial aponta a chegada de um grupo de 226 alemães, austríacos e suíços ao porto de Santos em dezembro de 1827. Dois anos depois, o Império lhes ofereceu as terras na zona sul da cidade de São Paulo, onde se estabeleceram 94 famílias, formando o bairro da Colônia Alemã – que, com a Segunda Guerra Mundial, passou a ser chamado de Colônia Paulista, até ficar apenas Colônia. E foi no mesmo ano, 1829, que os colonos alemães construíram ali o Cemitério de Colônia, o primeiro cemitério particular do Brasil.

Em 2001, o Cemitério de Colônia estava pronto para reabrir. Depois de enfrentar inúmeros problemas desde a Segunda Guerra Mundial, devido à origem alemã, o cemitério estava fechado havia mais de 40 anos. Na época da reativação, André orgulhava-se de ser o maior vendedor de material de construção da Colônia e região. Com uma estratégia ousada, quase suicida, de acreditar no cliente, vendendo fiado até para quem ele não conhecia, Barboza, como é chamado pelo pessoal do bairro, construiu um nome na praça, um círculo de amizades e uma vasta carteira de clientes cativos para o negócio de Mário Reimberg Christe, o Marinho, um homem simples de nome pomposo, representante da quarta geração dos alemães fundadores do bairro e presidente da ACCA (Associação Cívica Colônia Alemã).

Com André, a loja de Marinho forneceu todo o material utilizado na construção do novo escritório da administração do cemitério. Prestes a ser inaugurado, o predinho recebeu a visita de Barboza. Na sala vazia, apenas um telefone no chão. Empolgado e orgulhoso com a construção que também era um pouco sua, ele pediu ao rapaz que tomava conta do lugar para usar o telefone. Queria ligar para a mãe no Rio de Janeiro. “Um dia eu ainda vou ter uma salinha com telefone aqui”, profetizou agradecido após a ligação autorizada.

A chance de realizar seu sonho estava mais perto do que André imaginava. Seu patrão, Marinho, havia prometido aos representantes da ACP (Associação de Cemitérios Protestantes) que indicaria alguém para o cargo de administrador do Cemitério de Colônia. A ideia de Marinho era se desfazer de um empregado que não vinha atendendo suas expectativas. E que, obviamente, não se chamava André Barboza. Acontece que, sem querer, querendo, Barboza soube dessa missa apenas a metade.

Teatral, ele conta que um dia, quando caminhava da loja de material de construção até a sua casa na hora do almoço, passou na frente do cemitério e sentiu uma mão invisível o puxando pela ladeira que leva à administração. “Minha religião era mulher, samba, futebol e umas coisinhas erradas de vez em quando”, revela garantindo que não era de acreditar em coisas sobrenaturais. Apostou no instinto e subiu a rua para mudar sua vida. 

Em uma sala da administração, 15 pessoas, em sua maioria alemães e descendentes, estavam reunidas, tratando dos detalhes da reabertura do cemitério. André venceu o autopreconceito que ele confessa ter sentido por ser um negro “invadindo” o território dos brancos e ficou parado na porta. A reunião, por sua vez, também parou. Alguém rispidamente perguntou:

- O que você quer aqui?
- Tô sabendo que estão precisando de gente para trabalhar aqui. – respondeu com firmeza André.

Flávio Magalhães, o senhor que parecia ser o chefe do grupo, não lhe deu confiança e pediu que ele se retirasse para poder prosseguir a reunião. Contrariado, Barboza foi saindo, quando Reinaldo Dantas, um bom amigo que ele conheceu naquele momento, deixou a reunião e pediu que ele voltasse no dia seguinte para participar da seleção. Com as esperanças renovadas, André retornou à sala, apertou fortemente a mão do homem que havia pedido para ele sair e disse olhando nos seus olhos.

- Meu nome é André Luiz Barboza e eu peço desculpas por ter atrapalhado a reunião de vocês. Eu garanto que, se os senhores me contratarem para trabalhar aqui, vou fazer o meu melhor por esse cemitério.

Disse isso e saiu. Tempos depois, soube que, pelo menos por alguns minutos, ele foi a pauta da reunião após sua saída. O mesmo senhor que foi praticamente confrontado por André ficou impressionado por sua ambição e sua atitude. Há onze anos, Flávio Magalhães é um dos patrões de Barboza na ACP.

“O que você faz para abrir aquela porta?”, André me pergunta e eu percebo que ele está me testando. “Uso a chave”, respondo sem maior elaboração. “Não”, ele me olha professoral, com o dedo em riste apontado para a porta. “Para se abrir uma porta, é preciso ir até ela primeiro.” Ele ouviu essa frase em uma palestra do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para nunca mais esquecer. “Aquilo mudou minha vida”, continua, encenando a vibração que teve quando soube que seria contratado para o cemitério. Às lágrimas, repete: “minha vida mudou, minha vida mudou”. Só ele sabe o que passou desde que foi obrigado a guardar, talvez para sempre, o sonho de ser uma estrela de tevê.

O sol nascente é tão belo


Quando André tinha 12 anos, seu pai, Altamiro, ouviu no rádio que a TV Globo estava abrindo testes para saci do Sítio do Picapau Amarelo e percebeu ali a possibilidade de ver o filho realizar seu sonho antigo de ser ator. “Me lembro bem da seleção. Devia ter uns 400 meninos. Ele não queria, não. Mas, eu insisti. Eu sempre disse para ele: ‘você é meu Silvio Santos’”, lembra seu Altamiro, uma figura única, que explica muito do que André é. “Meu sonho sempre foi ser ator. Eu faço figuração na Globo. Bom, fazia... Faz tempo que não faço. Mas, se ainda tiver chance, eu vou lá. Eu canto, eu sou compositor. Se souber de alguma coisa, me dá um toque”, seu Altamiro me pediu, articulado e com uma bonita voz, quando André surpreendentemente estendeu-me o telefone: “Fala aí com meus pais no Rio”.

Após o teste, André foi escolhido para ser um dos sacis do episódio “A Sacizada” do Sítio. Eram cinco: o Saci Pererê, vivido por Romeu Evaristo, até hoje no casting da Globo; o Saci Trique-Trique; o Saci Matinta-Pereira; o Saci Lambão, e o Saci Tê-Pereré, o juiz da sacizada, papel de André. Os episódios gravados ficaram no ar por cinco anos. Neste período, o menino humilde do Vidigal se sentiu importante. Viveu o sonho de ser conhecido, divertindo-se, enquanto trabalhava. Ousou até cultivar um amor platônico por Rosana Garcia, a eterna Narizinho. Pode-se dizer, sem dúvidas, que era um dos adolescentes mais felizes de todo o Rio de Janeiro.

Além do Sítio, participou do programa de Chico Anysio – onde, segundo ele, inventou até fala onde não tinha – e de especiais da TV Globo. Um dos únicos registros que André tem desse tempo é do musical Pirlimpimpim, exibido pela emissora em homenagem aos 100 anos de Monteiro Lobato, em 1982. O clipe da música Saci Pererê, com Jorge Ben vestido de Saci; Baby Consuelo, de Emília, e Moraes Moreira, como o Visconde de Sabugosa, está no Youtube, que ele faz questão de acessar no computador um tanto ultrapassado de seu escritório no cemitério.

A dois minutos e 49 segundos de vídeo, ele para a exibição. O rosto malandro em close na tela é o mesmo de 30 anos depois, com exceção do bigode, de uma ou outra ruga e do brilho marejado dos olhos, que passa despercebido para as outras três pessoas que assistem ao vídeo do seu lado, conhecendo pela primeira vez o passado famoso do homem com quem convivem diariamente na comunidade.

André não esconde a emoção. Parece um menino que entra pela primeira vez em um estúdio de tevê. Comento que, no clipe da música de Jorge Ben, ele é um dos que mais se diverte e se destaca entre os meninos vestidos de saci. Envaidecido, ele repete o gingado no ritmo da música. “Sempre tive essa postura de liderança”, ele fala sem tirar os olhos da tela. E vai lembrando os amigos. “Esse aqui era o único que tinha uma perna só. Era piradão! A gente zoava muito.” “Outro dia, encontrei o Romeu Evaristo. Ele disse que eu deveria ter continuado, que eu tinha talento”, e o rosto dele vai mudando o tom.

- Queria que tivesse sido diferente! – olhando para a tela com sua imagem parada, ele diz para mim como se dissesse para si mesmo. Estamos só nós dois na sala.
- Mesmo com tudo que você conquistou? – insisto, me referindo à liderança na comunidade, ao emprego no cemitério, aos amigos que fez pelo caminho.
- Mesmo com tudo que tenho! – ele não hesita em responder, quase mordendo os lábios para não chorar.
- Se te chamarem hoje para você fazer algo na tevê, você larga tudo e vai? – provoco.
- Vou e arrebento! Vou e arrebento! – ele repete com um sorriso de quem diz: “você não me conhece, rapaz”.

André conta que, há poucos anos, soube de uma campanha da TV Cultura em busca de atores para um programa sobre a raça negra. Pois, ele descolou um espacinho na agenda cheia de administrador do cemitério (ao contrário do que pode parecer, a agenda de um administrador de cemitério é bem cheia, sim) para ir até a porta, que dessa vez não se abriu.

“Eu tenho capacidade de ser o ator principal da minha vida. Minha tela da Globo é a minha comunidade.” Frasista de mão cheia, Barboza tenta mostrar de várias maneiras que o passado de artista é algo superado. Mas, em voz baixa e tom grave, ele confessa, desnecessariamente, que sente até hoje a saída da TV Globo. Se no Rio de Janeiro, os amigos de antigamente o chamam de Saci até hoje, ali na Colônia, poucos sabem do passado de André. No dia a dia, ele evita tocar no assunto. Evita tocar numa ferida que há 30 anos carrega sem cicatrizar.

Depois das temporadas como saci, programas especiais e participações no programa de Chico Anysio, André cresceu, deixou de ser o adolescente magrelo perfeito para representar um saci. Ganhou corpo, tornou-se homem e os papeis foram rareando. Até que recebeu um convite para um trabalho ao qual nunca se sujeitaria. Um diretor de novelas queria que o garoto lhe fizesse companhia nas festas da tevê e, principalmente, depois delas. André recusou firmemente as investidas do tal diretor e foi desligado da emissora assim que o contrato acabou.

A dura reconstrução de si mesmo


“Meu pai sempre me dizia para eu ser humilde. ‘Hoje você tá na Globo, amanhã você não sabe onde vai estar’, ele dizia”, lembra-se. O “amanhã” de André foi na fila para tentar um emprego como ajudante de pedreiro. Ele se recorda da molecada cochichando: “aquele não é o saci da Globo?”. “Eu trabalhei na construção do Hotel Sheraton por um dia. No dia seguinte fui parar no Hospital Miguel Couto”, diverte-se ao lembrar que o porte físico não era o mais adequado à construção civil.

Era necessário correr atrás do pão de cada dia. Aos 19 anos, ele já havia sido fiscal de caixa de supermercado e começava uma carreira na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, passando de office boy a operador. Tinha casa própria e cursava Administração de Empresas, quando teve seu único filho, Bruno, com o primeiro amor de sua vida, Kátia. Mas, a vida que parecia encaminhada lhe passou uma rasteira. A mulher foi embora com o filho e deixou para André uma frustração ainda maior que a de ter saído da tevê: a de não ter participado de perto da criação de Bruno. “Ele é meu amigo de todas as horas. Todo dia a gente se fala. A distância acabou nos unindo ainda mais”, exalta o filho. (Sim, o eterno saci também telefonou para o garoto no Rio e me passou a ligação de surpresa.)

Sem rumo, André largou o emprego, a faculdade e passou a percorrer caminhos sombrios na noite carioca. “Se eu ainda estivesse no Rio, estaria morto”, sentencia com o olhar perdido, como se estivesse a lembrar da vida de exageros que ele tinha consciência que não lhe fazia bem, mas com a qual não soube lidar.

O emprego na firma que imprimia códigos de barras em embalagens de produtos foi o responsável pela ponte aérea que trouxe André para São Paulo, deixando tudo e todos na Cidade Maravilhosa. A oportunidade de trabalhar na filial paulista foi vista por ele como a chance de uma nova vida, num lugar conhecido como uma terra de oportunidades e longe de tudo que lhe fazia mal.

André ri ao lembrar que, sem imaginar o que o futuro lhe reservava, naquela época, brincava com os colegas de trabalho de falar alemão, língua que, hoje, numa posição de destaque entre descendentes germânicos e como criador e principal organizador da Colônia Fest, festa tradicional dos imigrantes realizada no bairro, domina com certa habilidade.

Conversando com André, percebe-se quantas facetas ele pode ter. Num instante, ele deixa o tom sério, compenetrado e cerimonioso que usa para contar algumas passagens de sua vida, para assumir o tom escrachado, expansivo e de gestos largos próprio de um carioca da gema. E, se hoje em dia ele já está mais “apaulistanado”, sua chegada a São Paulo, em 1991, foi uma extensão desse jeito mais carioca de se levar a vida. Hospedado em um famoso hotel do centro da cidade, tudo era uma festa sem fim. Certa vez, o ex-saci conta às gargalhadas, foi almoçar tranquilamente no Shopping Paulista, ali onde começa a Avenida Paulista, com uma amiga, também do Rio. Ele de sunga e ela de biquíni, chocando os nativos e divertindo-se sem pudor.

Na mesma medida que Barboza chocou a cidade de São Paulo, ele ficou chocado com ela. Se profissionalmente a cidade representava tudo que ele queria, o tom mais frio do paulistano o assustava. Quando a solidão batia, André tomava um ônibus qualquer, ia até o ponto final e entrava num bar para beber e tentar alguma amizade. Até o dia em que tomou uma “dura” da Rota às duas da manhã numa dessas incursões pela periferia de São Paulo e percebeu que precisaria se adaptar ao novo hábitat.

Disposto a vencer na capital paulista, Barboza resolveu apostar, junto com Adriane, a esposa com quem vive há 20 anos, na dica de um amigo: um terreno para construir sua casa no remoto bairro de Vargem Grande. “Na primeira vez que vim aqui, a gente andava, andava, andava e nada de chegar. Só mato, mato, mato, barro”, lembra André. Naquele pedaço de chão, que parecia absolutamente perdido no mapa, o saci se encontrou.

O carioca do Vidigal soube transformar o lugar onde vive – com a esposa, a sogra e o enteado de 25 anos – no seu próprio Rio de Janeiro. “Logo que eu cheguei aqui, bati na porta de um vizinho e pedi uma xícara de açúcar. Ele me olhou feio e disse: ‘não tem dinheiro pra comprar açúcar, não?’.” Uma volta ao lado de André mostra como as coisas mudaram por lá. A cada minuto, um cumprimento, uma brincadeira, uma pergunta pela família. Ele conhece todos pelo nome. Todos o conhecem pelo que ele faz pela região. Um vereador sem mandato e sem a intenção de ter um. “Eu sempre falei pra ele: ‘não se meta com política’. Ele faz política, sim. Mas, uma política sadia”, destaca Seu Altamiro.

Negro em uma comunidade de descendentes alemães, Barboza só se lembra da palavra preconceito quando perguntado por alguém. E todo mundo acaba perguntando. Mas, mesmo que tenha percebido um olhar de discriminação uma vez ou outra nos seus quase 20 anos de Colônia, ele tira de letra o assunto. Desde pequeno, quando a mãe era empregada na casa da família americana do gerente do Citibank no Rio de Janeiro, André está acostumado a conviver com as diferenças.

A vida nasce e renasce no cemitério


O mais novo empreendimento de André está revolucionando a vida esportiva em Vargem Grande. No começo do ano, um sujeito anunciou que abriria uma academia no bairro, recolheu a matrícula de uma centena de interessados e, no dia da grande inauguração, sumiu no mundo, levando o dinheiro de todos e negando a eles o direito da malhação. Barboza viu ali uma oportunidade. Propôs sociedade a um amigo, professor de Educação Física, e abriu a sua própria academia. Em menos de dois meses, já contava com cerca de 250 alunos matriculados se amontoando no pequeno salão.

Movido pela nova paixão, André, que já é formado em Administração de Empresas e pós-graduado em Gestão Ambiental, iniciou uma graduação à distância em Educação Física e buscou um espaço maior para acolher toda a demanda da região. “Minha cabeça tá voltada para 2016”, afirma, sonhando acordado com as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Abusado, ele ataca até de instrutor, quando é preciso.

Não é à toa que o dia de André começa às 5h30 e só termina depois que ele fecha a academia às 23 horas. Além da academia e da administração do Cemitério de Colônia, ele também acompanha de perto uma biblioteca comunitária que funciona em uma casa nos fundos do cemitério, onde quatro jovens se revezam no trabalho; cria projetos sociais e ambientais, que esperam por patrocinadores e os quais ele tem orgulho de ter batizado – “Com o óleo usado, transforme o saber”, “Corrente dos valores”, “Acorde das águas”, “Pequeno guerreiro”, e centraliza a organização da Colônia Fest.

Em 2012, a festa da comunidade alemã vai realizar sua sétima edição entre 29 de junho e 1º de julho. Desde março, a organização está a todo vapor, a cargo da Associação Comunitária Habitacional Vargem Grande. No comando das ações, Barboza tem planos ambiciosos para a festa. Seu horizonte é a famosa Oktoberfest, de Blumenau, Santa Catarina. Pela primeira vez, ele conta com a ajuda de Marco Aurélio, um profissional de fora da comunidade com a experiência de buscar patrocínio de grandes empresas para projetos culturais. Mas, André faz questão de não deixar de lado a ideia principal contida na Colônia Fest desde o começo: valorizar os comerciantes locais.

Em sua luta para fazer a melhor festa da história da Colônia, Barboza tem alcançado importantes vitórias. Em insistentes peregrinações até subprefeituras, prefeitura municipal e Assembleia Legislativa, conseguiu o apoio de um conhecido deputado estadual e a inclusão de mais três linhas de ônibus extraordinárias nos dias do evento para levar o público à Colônia Fest, saindo dos terminais Jabaquara, Santo Amaro e Varginha.

Já passa das três da tarde de um sábado quente. Vestido com seu uniforme de trabalho, a calça social e a camisa de manga longa, André está na sala onde são realizados os velórios, sentado em uma cadeira, de frente para um grupo de aproximadamente 12 pessoas. Homens e mulheres simples, de bermudas e chinelos, que resolveram deixar suas casas por algumas horas para ouvir o que Barboza tem a dizer sobre a festa que é de todos eles. São representantes do comércio local, Marco Aurélio e Sebá, um senhor magro e baixo, de vastos cabelos brancos e óculos, que, além de cantor e compositor, é também o apresentador da Colônia Fest.

Didático e cauteloso, mas firme, André coloca para os expositores os tópicos mais importantes a serem conversados na reunião. A festa está crescendo ano a ano e, com isso, os custos para manter uma barraquinha não têm como serem tão baixos como já foram. Nem todos entendem essa matemática.

- Detesto fofoquinha, disse-me-disse aí na rua. O que tiver que falar, vamos falar aqui. Passou daqui pra fora, acabou. Somos todos amigos. Se a festa sair bem, mais vamos vender, melhor pra todo mundo. Quem ganha não é o Barboza, não é o fulano. É a festa, somos todos nós.

A liderança de André é calma. Ele não se altera ou muda o tom de voz mesmo nas divergências. E é difícil discordar dele. As ideias contrárias são colocadas com cuidado e respeito.

- O que você quer que seja feito sobre isso, André? – alguém pergunta.
- Não sou eu que quero. Somos nós. – corrige, embora não seja difícil perceber que André gosta de estar no centro das ações. Mesmo assim, ele pede ajuda na divisão das tarefas. São muitos os desafios em se conseguir apoio para uma festa realizada numa comunidade humilde afastada quase 50 quilômetros do centro de São Paulo.
- O bairro é longe. O IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] é baixo. As pessoas veem como periferia, bairro de pobre. Não tem retorno nenhum para as empresas. – Barboza não mede as palavras para enumerar as dificuldades contra as quais todos ali devem se unir.
- Eu levei a proposta para o executivo de uma grande empresa de bebidas. Quando o cara viu a localização no Google Earth, já descartou. – completa Marco Aurélio, que vive na zona norte da cidade e se desloca de ônibus até o bairro da Colônia aos sábados para as reuniões da festa. O fascínio de Marco pela figura de André e seu envolvimento com a Colônia Fest ficam evidente na sua fala, quase um puxão de orelha nos expositores.

- Tá dando o sangue aqui! – diz, apontando para a porta por onde Barboza acaba de deixar sala. – O cara tá correndo pra cima e pra baixo pra fazer a melhor festa possível. Não dá pro pessoal ficar faltando às reuniões.

Minutos depois, André volta com café fresco e serve um a um os presentes. Sua dedicação em fazer o melhor em tudo parece contagiar os outros, que vão arregaçando as mangas para o trabalho. “Eu posso fazer isso!” “Posso fazer aquilo.”

A reunião termina e as pessoas vão retornando às suas famílias e ao curso normal de seu fim de semana. Sinto-me impelido a colaborar de alguma forma e me aproximo de André. Ele está “pilhado”, aceso com todas as propostas, ideias e sabe-se lá mais o que se passa em sua “cabeça maluca”, como ele mesmo diz.

Sugiro que eles se aproveitem da proximidade de datas entre a Côlonia Fest e a Eurocopa, o campeonato europeu de futebol. Emissoras de televisão adoram colônias europeias torcendo em trajes típicos por suas seleções. Então, é só organizar algo interessante diante de um telão e jogar uma fagulha na cabeça dos pauteiros e produtores. A ideia, que não chega a ser original, cai nas graças do inquieto Barboza. Ele corre até o computador, pesquisa as datas de jogos da Alemanha e comemora como se fizesse um gol, me cumprimentando efusivamente. E parece que foi meu o passe para o gol dele.

Fico feliz pela sua reação. Para mim, é uma pequena forma de recompensá-lo pelas lições dos dias de convivência. Lições de otimismo de quem encontrou o recomeço onde todos veem o fim.

- O cemitério é meu oráculo! É onde eu recarrego minhas forças. Aqui eu choro... Eu gosto mais daqui do que da minha casa. - O André me disse em uma de nossas primeiras conversas, enquanto ele me apresentava o cemitério.

- Eu dou ‘bom dia’ pra eles todos os dias. – continuou, admirando o seu lugar favorito. Distraído, fiz a desnecessária pergunta:
- Pra eles quem?
- Pra eles! – André repete, apontando as lápides, com seu olhar de saci e sorriso malandro, que sempre me deixam na dúvida se ele está mesmo falando sério. Assim como o saci de Monteiro Lobato, Barboza comete travessuras, nunca maldades.

sábado, 9 de agosto de 2014

O verbete pôquer

Não faz tanto tempo assim, mas quando eu era criança, a infância era bem diferente. Basta imaginar um mundo sem celular, smartphone, tablet, notebook, nem um 386 sequer. Um mundo onde ainda era normal um menino de oito anos ir a um bar e comprar cigarrinhos de chocolate. 

O bar, no caso, era do meu avô. E, lá, em todas as tardes de domingo, todas, sem falta, as portas eram fechadas, mesas e cadeiras postas na calçada e o truco rolava solto, com muito grito e fumaça de cigarro de palha. Eu ainda não tinha idade para fazer parte daquela confraria, mas as cartas sempre exerceram sobre mim um fascínio hipnótico. Eu queria aprender mais e mais jogos. Inclusive um que, nas tramas da TV, ganhava ares de coisa proibida, o que o tornava ainda mais fascinante. O pôquer, dos uísques, charutos, dinheiro e mulheres.

Minha infância não tinha Google, mas toda casa tinha uma bela coleção da Barsa, exibida quase como uma peça de decoração no rack da sala. Na minha casa, a enciclopédia de tomos já amarelados e empoeirados era Delta Larousse, uma edição de 1974, que ainda trazia uma série de circunflexos de época, como "êle" ou "relêvo". E foi lá que eu procurei o verbete PÔQUER. Mergulhei na história e nas regras do jogo, sempre sob o olhar cauteloso da minha mãe. Naquela época, ninguém queria ter um filho viciado em jogo.

A mesa raramente tinha mais do que três jogadores: minha mãe, meu irmão e eu. Começamos com milho e feijões. Depois, subimos o stack inicial para uma caixa de Bis. E a modalidade era sempre o 5-Card Draw clássico, como nos filmes. "Quero trocar duas."

O tempo passou, aprendi o que era mouse, Internet, e-mail e conheci a TV a cabo. Conheci também um torneio chamado World Series of Poker, transmitido pela ESPN. E uma nova modalidade do jogo: o Texas Hold'Em. A aura de coisa errada já não estava tão presente como antes, o lance de sorte ou azar era cada vez mais insignificante e era até legal falar para os amigos que você sabia jogar pôquer. E aí, descobria-se que vários deles também sabiam. E gostavam. 

No Rio de Janeiro, com a turma do Sportv, as fichas eram as moedinhas de troco do ônibus nosso de cada dia. A coisa já tinha algumas regrinhas, que geravam discussões, principalmente quando alguém que estava ganhando muito levantava e dizia: "Galera, preciso ir nessa". Aí, veio a mudança para São Paulo, a adesão ao pôquer on-line, o jogo foi ganhando respeito e caráter de esporte da mente...

No meu segundo trabalho semestral para a pós, me propus a mergulhar no mundo do pôquer do Brasil, a partir do BSOP Millions, aquele que, na época, final de 2011, foi o terceiro maior torneio já realizado no Mundo. Foi uma experiência fascinante e muito surpreendente. Em nada se justificava a preocupação com o vício da jogatina, os ambientes eram saudáveis e familiares, as pessoas solícitas, do bem e remavam juntas em prol do esporte. A reportagem me deu a oportunidade de fazer parte de um grupo de amigos que, até hoje, se reúnem periodicamente para jogar e se divertir, gastando infinitamente menos do que com qualquer outro programa de fim de semana. Passei a prestar mais atenção, estudar, conversar e pensar sobre o jogo.

Na minha modesta opinião, foi a maior e melhor reportagem que já escrevi. Parte dela, uma parte realmente pequena e adaptada, foi publicada na revista Brasileiros, alguns meses depois, com fotos minhas, inclusive. Se há algo a lamentar, é apenas o fato de não ter levado adiante a ideia de transformar o trabalho em livro ou documentário. Mas, sempre é tempo. 

O conteúdo todo era inédito até agora. Até agora.

Add-on - Você ainda vai se sentar à mesa

dezembro de 2011

Entre murmurinhos abafados e misturados, o tilintar das fichas é quase hipnotizante. Ela está em silêncio. Olhar perdido e semblante blasé, que, assim como caras fechadas e desconfiadas, não é raro de se ver nas mesas espalhadas pelo salão. Além de escorar a cabeça cansada, o punho no queixo
Iara parece estar longe. Só parece
lhe dá um ar de menininha enfadada. Estatísticas não-oficiais dão conta de que Iara Moraes, de 20 anos, é uma das competidoras mais jovens do maior torneio de pôquer da América Latina, a última etapa do BSOP (
Brazilian Series of Poker), o circuito brasileiro, disputada no fim de novembro, em São Paulo.


As fichas parecem querer abandoná-la, quando Iara anuncia o all in. Aposta tudo que tem. Pressionada pelo adversário, um oriental de óculos escuros, ela não teve escolha.

Ele paga e ela mostra um par de 10. O adversário está à frente com dois pares: 9 e 5. Falta apenas o river. E ele precisa ser um 2, um 8 ou um 10 para que a garota permaneça no torneio. O dealer segura o suspense por meio segundo e revela: 2 de espadas.

Iara, então, desperta do enfado, dá um soco na mesa e se levanta, revelando que a menina é, na verdade, uma mulher, alta, de longas unhas vermelhas e cabelos loiros. Na cabeça, um boné bege, onde se lê Mykonos ao lado de uma bandeira da Grécia.

A garota vira-se em direção à faixa que separa parentes, amigos e curiosos das mesas, e um rapaz forte de camiseta azul faz um gesto de vitória com o punho cerrado. Ela se senta e, comportada, agradece: “Obrigada”. Sabe que a vitória naquela mão não foi apenas um golpe de sorte. “O flop era baixo. Eu sabia que ele não tinha um par maior que o meu”, ensinaria, mais tarde, didática.

O rapaz de azul, Marco Antônio, é seu namorado, o maior responsável pela chegada dela, corretora de imóveis do Guarujá, a uma mesa de pôquer há menos de três meses. Queria uma companheira para o hobby. Ganhou um belo motivo para se orgulhar. Ele caiu logo no primeiro dia do torneio. Ela, na posição 304, deixou para trás 1.142 jogadores e seguiu adiante.

Passadas quatro horas de jogo, Marco se mantém na mesma posição. Está com Iara nos gestos e olhares, mas, principalmente, no boné, presente de familiares da Grécia, do qual a garota se apossou. Ali está o segredo.

Iara se sente mais corajosa e agressiva quando está usando o boné. Jura que fica inibida sem ele. E, em voz baixa, como a revelar um segredo, ela completa: “e esta roupa é a mesma que eu estava usando quando joguei pôquer pela primeira vez”. Coisa da sua cabeça ou não, ela garante que jamais perdeu um all in.

Poucas horas depois, Iara cai com uma dama e um rei, contra um ás e um rei, quando restam 198 jogadores na disputa. Quem presencia o momento deixa escapar no ar um “ahhhh”. A mascote da mesa sai do torneio. “Mas, continuo sem perder um all in”, consola-se.

As séries brasileiras


Esqueça a imagem de senhores à mesa com seus scotches on the rocks, apostando relógios de ouro, carrões e fazendas, ao lado de belas garotas de pernas de fora e mergulhados em muita fumaça de charuto.

Na última etapa do BSOP, há, sim, senhores. Há também senhoras. E jovens. Muitos jovens. Meninos e meninas. Ao todo, são 1.446 jogadores, dos mais variados naipes, como se constata com uma passada de olhos pelo salão.
         
São jovens empolgados, de chinelos e camisas de clubes de futebol. São homens maduros em busca de diversão e com alguma expectativa de fazer render os R$ 1.800 do buy in, a taxa de inscrição. São jogadores profissionais que procuram demonstrar tranquilidade, enquanto checam seus iphones após cada mão. São figuras enigmáticas, escondidas sob capuzes ou bonés, isoladas do mundo por fones de ouvido, protegidas por estilosos óculos escuros.

Ocultam seus sentimentos a todo custo. Contêm, quase sempre, suas alegrias e frustrações. Os poucos gritos têm o tom de desabafo nas mãos ganhas e de arrependimento nas perdidas, principalmente, naquelas em que o dealer anuncia para os quatro ventos do ar condicionado: “Eliminação!”.

Ao redor das mesas, quatro massagistas estão prontas para amenizar a tensão de horas e horas de jogo, não sem ouvir um gracejo aqui outro ali. E se o trabalho destas profissionais não for suficiente para relaxar os jogadores, garçons circulam incansavelmente pelo salão, com uísque, energético, cerveja, refrigerante, café e água.

Massagistas e garçons são uma pequena parcela dos 120 empregos diretos gerados pela oitava etapa do circuito brasileiro. Apenas uma pitada do gigantismo do torneio, que nasceu quase mambembe, com 28 competidores, em 2006.

A saideira do BSOP 2011 impressiona desde o hall de entrada. Enormes banners conferem aos vencedores das etapas anteriores uma aura de heróis imortais e compõem uma espécie de portal.

No corredor de entrada, uma bancada de uma agência de viagens especializada em levar amantes do pôquer aos grandes campeonatos com todas as facilidades e um estande de souvenires do torneio, parada obrigatória para os aficionados. Lá, se encontra de chaveiros a camisetas, de simples baralhos a livros que ensinam os segredos dos grandes campeões.

À medida que se aproxima o salão principal, é fácil cruzar com jogadores eliminados, com cara cansada, explicando-se ao celular. “Ele tinha exatamente 6% de chance de ganhar de mim.” “Eu sabia que ele não tinha 9 e 3.”

Um passo adiante e o significado da expressão “maior torneio da América Latina” vai ficando mais claro. São centenas de quilos de equipamentos de transmissão de uma tevê on-line, que precisaram de dois caminhões para chegar até ali, junto com as 61 mesas profissionais, 630 cadeiras, 576 baralhos novos (que, ao final do torneio, serão implacavelmente descartados para que nenhuma de suas cartas seja vista em outras mesas por aí) e milhares de fichas.

Salão lotado para o recordista BSOP Million
Não à toa, a última disputa do ano foi chamada de BSOP Million. O número recorde de inscritos em território nacional a coloca como terceiro maior torneio do mundo. Em disputa, uma premiação total de 2 milhões e 200 mil reais. Os 153 primeiros colocados sairão dos seis dias de torneio com algum no bolso. Só o campeão levará mais de 440 mil reais. É verdade que já houve premiações maiores pagas no Brasil, mas com inscrições bem mais salgadas do que os R$ 1.800 cobrados no BSOP Million.

A grandiosidade desta etapa é também responsável por coroar seu vencedor como campeão brasileiro de pôquer em 2011, mesmo que não tenha jogado nenhuma das sete etapas anteriores. A pontuação no ranking anual é proporcional ao número de inscritos e à premiação paga em cada evento.

Flops, turns e rivers


Muitos dizem que ele nasceu na Pérsia. Para outros, foi na China. Há também quem acredite que foram os franceses que o criaram. O fato é que o pôquer cresceu e se popularizou nos Estados Unidos.

Baseado em combinações de cinco cartas, o jogo explodiu a partir da criação do Texas Hold’Em, versão mais conhecida hoje em todo o mundo. Ele substituiu as cinco cartas que ficavam na mão do jogador por apenas duas. E colocou à mesa cinco cartas comunitárias. As três primeiras a serem abertas pelo dealer, o carteador, chamadas de flop. A quarta, de turn.  E a quinta, de river.

Os jogadores, normalmente de dois a dez por mesa, continuam precisando formar combinações de cinco cartas – duas da mão e três da mesa, uma da mão e quatro da mesa, ou até mesmo, por incrível que pareça, nenhuma da mão e as cinco da mesa, o que pode configurar um empate. Ganha quem tiver a melhor mão ou fizer os adversários acreditarem nisso e se retirarem do jogo, pressionando-os com as apostas, o chamado blefe.

O Texas Hold’Em revolucionou o pôquer no século passado, trazendo ao jogo mais dinamismo, mais emoção e mais dois fatores que ajudam a explicar o momento atual.

O primeiro desses fatores é a introdução definitiva do raciocínio lógico baseado em probabilidades matemáticas e estatística. Conhecendo as duas cartas de sua mão mais cinco da mesa, o jogador pode avaliar quais são as chances que tem de formar uma mão (combinação de cinco cartas) melhor do que as de seus adversários.

Isso afasta o pôquer dos chamados jogos de azar, onde o fator sorte é largamente predominante, se não o único, a determinar vitória ou derrota. É o que diz o artigo 50 do Decreto Lei número 3.688, a chamada Lei das Contravenções Penais, que data do longínquo ano de 1941.

De lá para cá, são inúmeros os estudos e laudos de polícia técnico-científica que atestam que o pôquer não se enquadra nessa definição. Não é, portanto, uma atividade proibida, como muitos acreditam até hoje, muito em razão do fechamento dos cassinos. A verdade é que os cassinos sempre usaram atividades legais e populares – como o pôquer e o boxe – como atrativos de público para os muitos jogos de azar que abrigavam.

A roleta, por exemplo, é um típico jogo de azar. Não há nada que o jogador possa fazer para melhorar seu desempenho. Se a bolinha parar no preto-17, quem apostou neste número ganha. Se não parar no preto-17, perde. Ponto final.

Estudos indicam que esse é o componente viciante dos jogos de azar: a possibilidade de se tornar um milionário sem esforço algum, apenas por obra do acaso. É sedutora a ideia de apenas comprar uma cartela de bingo e levar para casa o prêmio principal. E há a possibilidade real disso acontecer. Afinal, alguém tem de ganhar.

No pôquer, um jogador apenas sortudo pode se sentar à mesa com campeões e vencer uma mão. Mas, ao longo de algumas poucas horas, ele será fatalmente engolido pelas feras, que, além de estudar o jogo, vão estar prontas para ler cada mínimo sinal corporal que indique o que esse jogador tem nas mãos.

Um estudo americano, realizado em 2009 pela Cigital, uma das maiores consultorias mundiais em softwares de segurança, analisou 103 milhões de mãos de Hold’Em jogadas no maior site de pôquer on-line do mundo, o Pokerstars. Percebeu-se que em quase 76% delas, o vencedor não precisou mostrar as cartas, liquidando a fatura apenas pelas apostas, sem necessariamente ter o melhor jogo. Em cerca de 12%, houve abertura de cartas, mas o dono da melhor mão já tinha “fugido”. E em apenas 12% das vezes, o jogador premiado de início com as melhores cartas venceu. Conclusão: no Texas Hold’Em, 88% das vitórias se devem à habilidade (ou falta de habilidade do adversário) e 12%, à sorte.

O outro fator trazido pelo Hold’Em, preponderante para a formação de um exército universal de amantes do pôquer, é o dinamismo e a plasticidade, que levaram a televisão a se interessar pelo jogo. A introdução das cartas abertas e comunitárias tornou o Hold’Em um produto viável para a exibição e altamente atrativo para o telespectador. Legiões de admiradores do pôquer foram formadas à frente da telinha, tentando adivinhar o que aconteceria a seguir, torcendo por um ou por outro jogador e, principalmente, aprendendo a jogar.


Brasil, o país do pôquer


Apesar do terno e da gravata impecáveis, é possível notar um toque de jogador de futebol no rapaz moreno, magro, de estatura mediana, com cabelos e cavanhaque cuidadosamente aparados, que está em todos os lugares do salão do BSOP Million. O batido jargão boleiro “joga nas onze” se aplica perfeitamente a ele. É falante; está sempre ocupado; se desloca com desenvoltura por entre as mesas; interrompe, apressada e educadamente, conversas para resolver problemas através da comunicação que desce pelo seu ouvido esquerdo, e carrega com altivez a responsabilidade de ser um dos principais organizadores de torneios de pôquer no Brasil.

Durante muito tempo, Alberoni Lino de Castro, o Bill, quis porque quis ser jogador de futebol. Jogou com Kaká nas categorias de base do São Paulo. Chegou até a passar 65 dias na Europa, com apenas 12 anos, apoiando o ataque e voltando para marcar, como um autêntico lateral direito. “Nunca fui craque.” Mas, pulmão não lhe faltava.

O que começou a faltar, com o tempo, foi tesão pelo futebol. Com 15, 16 anos, o sonho de passar a vida correndo atrás de uma bola já não povoava as noites de Bill. Os joelhos reclamavam. Passou a querer ser médico. Queria porque queria.

Estudou à exaustão. Pesquisou sobre todo tipo de especialidade médica. Contabilizou os ganhos que a profissão poderia lhe dar. E chegou a uma conclusão que parecia óbvia desde os sete anos de idade: seu caminho era mesmo dentro do esporte. Não tinha jeito. Estava na veia do competitivo Bill.

A faculdade de Esportes – uma irmã da Educação Física pouco conhecida no Brasil – lhe abriu um leque de possibilidades. Entre elas, se jogar nos Estados Unidos, em 2004, com o intuito de trabalhar com futebol. Fez de tudo por lá, inclusive trabalhar com futebol. Mas, de tudo que viu e aprendeu, o que mais tinha a ver com o que o futuro lhe reservava foram as transmissões de pôquer dos canais ESPN. “Lá, é impossível não ter contato com o pôquer.”

Bill não conhecia o jogo, nunca tinha se sentado à mesa para jogar e também não foi ali que ele se tornou um apaixonado pelo pôquer. Foi apenas um primeiro flerte.

Só tempos depois, quando um amigo o convidou para ajudá-lo a organizar um “campeonatinho” de Texas Hold’Em, ele voltou a cruzar com o esporte. Quando se deu conta, o tal campeonatinho no ABC paulista, com cerca de 40 participantes, havia sido simplesmente o segundo maior evento de pôquer no Brasil na época.

Em 2005, a cena do pôquer no país se resumia a uns muitos gatos pingados espalhados desorganizadamente e escondidos sob o medo e o preconceito. As tias diziam: “agora deu pra se meter com jogo”. As mães acendiam velas para que os filhos se afastassem do vício. Os pais chamavam-nos de vagabundos. As esposas achavam que os maridos poderiam ser presos a qualquer momento. Os jogadores, coitados, corriam a minimizar rapidamente a janela do computador quando entrava alguém no quarto. “No começo, eu não contava para ninguém o que eu fazia. E não deixava minha mãe contar”, lembra Bill.

“Todo mundo já ouviu a história de alguém que perdeu fazenda no pôquer. Mas, ninguém conhece alguém que ganhou a tal fazenda no pôquer”, ironiza. “Pensar em torneios nacionais com buy in de 200 reais, seis anos atrás, era coisa de maluco!”

Quem jogava naquela época, é tido hoje como um dinossauro do esporte. É a “velha guarda”, são “os caras das antigas”. Quem levantava a bandeira do pôquer naquela época é visto como um mito, um herói.

Ao contrário de quase a totalidade dos que vivem o mundo do pôquer atualmente, Bill não era nem nunca se tornou um jogador. Era uma figura saída da academia preparada para dar ao pôquer um sentido de organização e estrutura de esporte. No começo de 2010, ele era exatamente o que a recém-instituída Confederação Brasileira de Texas Hold’Em, a CBTH, necessitava.

Igor Federal (à esquerda) e Bill: a CBTH resumida em uma foto
CBTH é sinônimo de Bill e Igor Trafane. O primeiro é diretor executivo da entidade. O “pau pra toda obra” responsável por atender jogadores, orientar empresários interessados em trabalhar com pôquer, buscar investimentos para a realização de torneios e realizá-los, além de mais uma dezena de atribuições.

O segundo é conhecido como Federal. Tudo por causa de uma brincadeira. Convidado a participar de um home game – aquele carteadinho caseiro – onde não conhecia quase ninguém da mesa, esperou um momento de alta tensão no jogo e anunciou aos gritos:

– Polícia Federal! Todo mundo com a mão na cabeça! A casa caiu! – Exibia uma carteirinha semelhante à da PF e falava ao celular. – Pode subir que tá tudo dominado!

Igor não demorou a cair na risada. Passado o susto, ganhou alguns tapas na cabeça, bons amigos e o apelido que soa muito adequado à sua atual função.

Igor Federal é presidente da CBTH, além de empresário, jogador e principal articulador político da regulamentação do pôquer. Um sujeito simpático e acessível. Bonachão, até. “Aqui, no pôquer, não tem frescura.” É o homem-forte do esporte no Brasil.

Especializou-se em franchising, morou nos Estados Unidos e na Inglaterra e, rapidamente, se tornou um empresário de sucesso com uma rede de escolas de inglês. Hoje, é dono ou sócio de quase todo tipo de empreendimento que pode ser ligado ao pôquer: uma empresa de organização de eventos, uma revista e um site especializados, além de representar os interesses comerciais de um site de jogo on-line. Respira pôquer 24 horas por dia.

Em novembro, ele, a CBTH e a IFP (Federação Internacional de Pôquer, que teve a CBTH como uma de suas criadoras) escreveram seus nomes na história. Foi organizado o 1º Campeonato Mundial de Pôquer, na London Eye, a famosa roda-gigante de Londres. Doze países participaram da “Copa do Mundo”, nas competições de seleções e individuais. O Brasil foi um deles, chegando ao vice-campeonato com o time formado por Alexandre Gomes, André Akkari, Caio Pimenta, Christian Kruel, Daniela Zapiello, Felipe Mojave e Thiago Decano. E o país também conquistou a terceira posição no torneio individual, com Igor Federal, deixando para trás mais de 130 adversários.

A organização do mundial foi a última exigência a ser cumprida para que o pôquer ganhe, definitivamente, status de esporte da mente pela IMSA (Associação Internacional de Esportes da Mente), assim como xadrez, damas, bridge e go.

A confirmação deve ser feita na próxima assembleia, no início de 2012. Com isso, o pôquer fará parte dos Jogos Mundiais dos Esportes da Mente, evento que acontecerá paralelamente aos Jogos Olímpicos, em Londres, no próximo ano.

No torneio de seleções, a Copa do Mundo trouxe uma novidade, chamada Duplicate Poker. É uma modalidade que pretende eliminar de vez o fator sorte. Seis jogadores de cada seleção jogam em posições diferentes de seis mesas, isoladas entre si (há, portanto, um brasileiro na posição 1 da mesa A, outro na posição 2 da mesa B, outro na posição 3 da mesa C e assim por diante). As cartas dos jogadores e comunitárias são as mesmas para todas as mesas.

Por exemplo, se um brasileiro recebe um par de damas na posição 1 da mesa A, cinco estrangeiros recebem o mesmo par de damas na posição 1 das outras mesas. O flop, o turn e o river também serão os mesmos. O que vai determinar derrota ou vitória é o que o representante de cada país é capaz de fazer com as mesmas cartas que os adversários de outros países em outras mesas.

“O boom ainda está por vir”, avisa Bill, animado com as novidades. Ele sente o crescente interesse pelo esporte no dia a dia da CBTH, que reúne hoje 16 federações estaduais, número que aumenta ano a ano. Embora ainda seja impossível mensurar quanta gente joga pôquer no Brasil, a CBTH tem quase seis mil jogadores credenciados, ou seja, aqueles que participaram de pelo menos uma etapa de um dos dois principais torneios do país, o Brasil Poker Tour e o BSOP.

Fiel


Na mesa 23 do evento principal do BSOP Million, Marino está sofrendo. Mal começou o dia 2 do torneio, às 15h22 do domingo, e ele digita uma mensagem de texto para a esposa. “Acende uma vela. Estou muito tenso.”

O motivo de sua tensão não está nas cartas que o dealer lhe entrega ou nas fichas que vão e vêm. Está no peito, no lado esquerdo da camisa polo. Está a pouco mais de 700 quilômetros dali e chega até ele pelos fones de ouvido.

Em Florianópolis, o Corinthians, amor que o acompanha desde os primeiros de seus 53 anos, está prestes a entrar em campo para buscar, contra o Figueirense, o título brasileiro antecipado. Pelo menos pelas próximas horas, Marino terá o foco desviado de seu objetivo: vencer o torneio.

Ao contrário dos grandes jogadores de pôquer, ele não consegue disfarçar a ansiedade. Levanta, senta, levanta de novo. Esfrega as mãos no rosto. Coça o cavanhaque branco. A todo momento, muda a posição do boné e dos extravagantes óculos escuros de aro branco. Aperta o fone de ouvido para escutar melhor.

Durante todo o segundo tempo da partida, Marino não joga sequer uma mão. Apenas paga os blinds (os “pingos”, apostas obrigatórias que antecedem a distribuição das cartas). Até que, às 18h51, ele explode sem gritar. Levanta-se da mesa e se agacha com os punhos cerrados. O movimento brusco faz os óculos voarem para um lado e o fone de ouvido, quebrado, para outro. O Fluminense empata o jogo contra o Vasco, placar que daria o título ao Corinthians. Ele está em pé e completamente fora do que está se passando na mesa.

Mas, sete minutos depois, a luz no rosto de Marino se apaga. Ele se cala e senta. “Gol do Vasco”, consente contrariado. A decisão do Brasileirão fica para a semana seguinte. É hora de voltar ao BSOP Million.

Meia hora depois, na parada para o jantar, Marino recebe um telefonema. É a esposa. Palmeirense, ela sabe que tem motivos para se preocupar. O marido fez a cirurgia de redução do estômago e é hipertenso. Ele, porém, garante que não há motivos para esquentar a cabeça e provoca, antes de desligar: “semana que vem, vamos ser campeões em cima de vocês, viu?”.

O corretor de seguros Marino Sbrissa, hoje figurinha carimbada do mundo do pôquer, não conhecia o Texas Hold’Em, cinco anos atrás. Mesmo com um histórico familiar de gerações e gerações interessadas e envolvidas em todo tipo de jogo, ele tinha em mente a visão comum a grande parte da população. Jogo de azar, vício que destruía vidas e levava famílias à falência.

Numa tarde de domingo, em 2006, a família estava reunida em casa, quando os filhos, Armando, então com 21 anos, e Victor, com 17, foram se despedindo para sair. Marino estranhou. “Vão aonde a essa hora?”

Os dois meninos já frequentavam há algum tempo um dos muitos clubes de pôquer da cidade de São Paulo, mas só naquele dia “lembraram-se” de informar o pai. Marino esboçou uma discussão: “Senta aqui... Que história é essa?”.

Argumento para cá, argumento para lá, Armando e Victor convidaram Marino a acompanhá-los no Torneio da Pizza para ver que não tinha nada demais naquela diversão. O pai não só constatou que não tinha mesmo, como se apaixonou pelo jogo, que, mal sabia ele, se tornaria o ganha-pão dos herdeiros.

O clã dos Sbrissa


Os irmãos Sbrissa são da geração Counter Strike, o jogo de video game que virou febre entre os adolescentes da primeira metade dos anos 2000. As lan houses se popularizaram, organizando corujões que varavam a noite. Os pais pagavam o pato. Como tinham que buscar os filhos na lan de madrugada, Marino e sua esposa, Rita, matavam o tempo fazendo uma “fezinha” num bingo das redondezas.

Passou a febre CS, fecharam-se os bingos e, certo dia, Armando e Victor vieram a conhecer o Texas Hold’Em em um programa do Silvio Santos. De lá para cá, o que se passou na vida desses dois rapazes educados e informais em seus bermudões e barbas por fazer, é história, como dizem por aí.

Ao contrário da maioria dos jovens, os irmãos Sbrissa entraram no mundo do pôquer participando de torneios e cash games (jogos nos quais as fichas equivalem ao seu valor em dinheiro) presenciais. Os jogos on-line vieram a seguir. Com o tempo, os dois perceberam que, se quisessem algo mais, precisariam estudar. E eles queriam. Passavam horas assistindo a mesas pela internet, acompanhavam as estratégias dos ídolos do pôquer brasileiro, como André Akkari, e tentavam conciliar a paixão nascente com as atividades triviais do dia a dia, como estudar e trabalhar.

Em 2008, o técnico em redes Armando completava, descontente, seis anos em uma fundação do governo estadual. Já jogava cerca de quatro horas por dia, pela internet, quando teve a primeira grande cravada, como dizem os jogadores de pôquer. Em uma noitada virtual, ele e o irmão garantiram o primeiro e o segundo lugares de um torneio. Dobradinha que rendeu 11 mil dólares à família Sbrissa. Em uma só noite.

Armando não queria mais brincar de jogar pôquer.

Em casa, a notícia da “profissionalização” do filho mais velho no pôquer não foi bem digerida. Se para Marino, muito mais habituado ao mundo das cartas, foi difícil de aceitar, para Rita foi quase traumático. “Ela tiltou”, brinca o marido.

Ela trabalhara desde muito nova sempre em busca de estabilidade, carteira assinada, os sonhos de uma geração. Ouvir as amigas contarem que os filhos estavam se formando na faculdade e arrumando emprego era um martírio. Para completar, Rita passou a ter um novo diretor no trabalho. De 27 anos, quase a idade de Armando. A representação em carne e osso do sucesso profissional que o filho não almejava.

Armando sabia que estava entrando por um caminho arriscado. Para convencer os pais, e talvez até a si mesmo, de que estava fazendo a coisa certa, era fundamental ter resultados. Leia-se: dinheiro. “Apanhei pra caramba no começo.” Estudar para melhorar seu jogo era, então, uma obrigação. Victor, nos passos do mais velho, também começou a estudar. Mais o pôquer do que a publicidade, carreira que não demorou a abandonar, antes de se formar.

Nordeste Poker Fest – Uma festa do Poker na terra do sol. Com esse slogan e com uma premiação garantida de 300 mil reais, o torneio disputado em Fortaleza era o sonho de consumo dos irmãos Sbrissa em dezembro de 2008.

Marino, no papel de “paitrocinador”, cuidou da viagem: um pacote turístico de uma semana para os irmãos. Mas, ainda era preciso dar uma cavalada, como é apelidada a relação entre o jogador (o cavalo) e quem patrocina seu buy in. Normalmente, um “tiozão do pôquer”, que aposta no sucesso dos garotos para depois dividir com eles os lucros.

O cavalo passou selado e os meninos montaram. Armando foi o sexto colocado e Victor cravou o primeiro lugar. Juntos, teriam trazido do Ceará uma premiação de mais de 86 mil reais. “Teriam” se a organização do torneio não tivesse lhes aplicado um calote de quase um terço do valor, manchando a imagem do evento e, de certa forma, dos irmãos, que precisavam se acertar com o “dono dos cavalos”.

Percalços à parte, o resultado de Armando e Victor em Fortaleza ajudou a arrefecer os ânimos de Rita. Aquilo tudo passou a fazer um pouco mais sentido para quem trabalhara a vida toda e estava se aposentando com um acerto de contas menor do que o que os filhos ganharam em uma semana.


Do Nordeste ao Sul. Em um grande torneio latino-americano disputado em Florianópolis, Victor conheceu um daqueles mecenas do pôquer. Estabeleceram algumas “cavaladas” em torneios live e on-line. Nada comparado a um telefonema que o rapaz recebeu em 2010.

– E aí, Victor, como tá seu passaporte? Tá tudo em ordem?
– Tá... – o garoto respondeu, tentando adivinhar o que vinha pela frente.
– Dá pra você ir buscar um dinheiro pra mim em Portugal?

Depois de um certo suspense, as coisas ficaram mais claras. A corrida do cavalo iria mais longe dessa vez. O patrocinador estava disposto a bancar todas as despesas de Victor, então com 21 anos, no European Poker Tour, um dos maiores torneios de pôquer do mundo.

Rita, Marino e até mesmo o próprio Victor se assustaram. O caçula nunca tinha saído do Brasil, não falava inglês muito bem e iria atravessar o Atlântico sozinho, carregando nas costas um investimento de 20 mil dólares. “Sonho? Verdade? Vou! Tô aqui pra isso.”

Daquela vez, o investimento não teve retorno. Mas, fez Rita chegar a uma conclusão, a sós com o marido em casa:

– Nós somos dois loucos.

“Domingo é religioso”


Entre setembro de 2010 e setembro de 2011, Armando Sbrissa foi uma das sete cobaias de uma experiência inédita no mundo, batizada de Poker Villa.

Caio Brites, William Arruda e Marcos Sketch, donos do time profissional de pôquer 4Bet, tiveram uma ideia: instalar no mesmo ambiente, durante um longo período de tempo, vários jogadores de nível altíssimo com o intuito de estudar e desenvolver estratégias de jogo dia e noite. E jogar, é claro.

O lugar escolhido foi uma casa de oito quartos (sendo cinco suítes), oito banheiros, duas salas, terraço, piscina, hidromassagem, garagem, churrasqueira, caseiro, empregada, cozinheira, portaria e segurança 24 horas, com vista para o mar, no Guarujá, litoral de São Paulo. Cada jogador tinha à disposição um computador de última geração, acoplado a dois monitores de 23 polegadas, para jogar on-line durante cerca de 10 horas por dia, cinco dias na semana, alimentados por três conexões de internet, de modo a eliminar o risco de se desconectar em um momento importante do jogo. Com todas as despesas pagas.

Entende-se porque Armando repete tanto que a mudança mais importante na decisão de se tornar profissional não foi financeira e, sim, no estilo de vida. “É unir o útil ao agradável.”

Os organizadores justificam a Poker Villa como uma forma de dedicação total para a rápida evolução do nível dos jogadores. “As situações e mãos que ali aconteceram são discutidas por todos e podem ser colocadas em prática já no dia seguinte. Ou seja: uma situação que um jogador comum encontraria apenas uma vez a cada 10 dias acontecerá 10 vezes mais rápido na casa. Uma situação que qualquer jogador de pôquer sonharia”, diz o site do programa.

Qualquer jogador sonharia, mas apenas sete, entre 19 e 29 anos, viveram. “A evolução do meu jogo foi absurda”, resume Armando. Como nem só de evolução do jogo vive o homem, os jogadores da Poker Villa ficavam com um quarto do lucro individual nos torneios on-line. “Tinha bastante cobrança. O projeto começou perdendo muito dinheiro. Depois, fomos recuperando.”

Armando Sbrissa, profissão: jogador de pôquer
Enquanto fala, Armando joga dois torneios simultaneamente no site Pokerstars. É cerca de 12h30 de domingo. Começou o expediente. Para quem se admira com o fato de ele estar se “desdobrando” em duas frentes, ele calmamente explica que chega a jogar 18 torneios simultâneos. Ou seja, 18 janelinhas abertas nos dois monitores de 24 polegadas de uma de suas máquinas, precisando tomar decisões a todo instante. Mas, com uma importante aliada: a tecnologia.

No escritório dos Sbrissa, que fica no andar de cima do espaçoso sobrado onde mora a família na zona leste de São Paulo, são quatro computadores e três notebooks, recheados de softwares especiais para jogadores profissionais de pôquer, com as estatísticas próprias e dos rivais. “Eu tenho 13 mil mãos desse cara”, conta Armando, apontando para o cara que está sentado à sua direita na mesa virtual. Suas decisões, em grande parte, são baseadas neste background.

De domingo a quinta-feira, Armando acorda por volta do meio dia, sempre pensando que poderia ter se levantado mais cedo. Almoça e senta-se ao computador para trabalhar às 14 horas. Seu horário é ditado pela grade de torneios do site onde joga. São, no mínimo, 10 horas diárias. Cerca de vinte e cinco torneios.

“Domingo é religioso.” Os principais e mais lucrativos torneios on-line são concentrados nesse dia. “Se tudo der errado, ele só vai se levantar dessa cadeira às 22 horas”, resume Victor. E se tudo der certo? “Se tudo der certo, lá pelas 5 horas da manhã, ele vai estar jogando ainda e a gente vai estar dando cambalhotas aqui do lado.” E eles sabem bem o que é dar cambalhotas num domingo.

No dia 31 de outubro de 2010, os irmãos Sbrissa não estavam nem aí para o Halloween. Armando deixou a Poker Villa, no Guarujá, para trabalhar como mesário no segundo turno das eleições presidenciais, em São Paulo. Voltou correndo para casa, em São Paulo, e chegou a três mesas finais de torneios grandes. Um deles o Sunday Million, uma das mais conhecidas competições on-line. Armando cravou o torneio. E, com cambalhota ou não, arrebanhou 250 mil dólares.

“Sem resultado não se consegue convencer ninguém que isso é algo bom, sadio”, assume Armando, que teve dificuldades para fazer a noiva entender seus horários pouco convencionais. Ele praticamente não participa de programas familiares e vive perdendo encontros com a namorada. “Engordei pra cacete”, lamenta-se com uma caixa de sucrilhos ao lado do monitor.

A rotina de Victor é diferente. E ele está feliz da vida por isso. “Agora eu posso ir à academia, dormir legal, não viro noites jogando.” Antes, ele também fazia parte de um time. Saiu para investir em si mesmo com recursos próprios. Bate ponto de segunda a sexta, das 16 h às 23 horas, em um clube de pôquer próximo ao Parque do Ibirapuera. Vai deixando o dinheiro acumular no caixa da casa e, quando precisa de algum, vai lá e saca. Não tem do que reclamar.

“O pôquer me abriu portas que se eu tivesse em uma empresa formal não seriam abertas. Ou pelo menos, levaria muito tempo para serem”, comemora Armando, lembrando viagens, situações, contatos. Sem falar no aprendizado. “O pôquer te ensina a lidar com a frustração, por exemplo. Se eu deixar cair um copo e quebrar, não vou sair gritando e acabar com meu dia. Hoje, eu entendo que essas coisas acontecem”, filosofa, enquanto monitora de rabo de olho a tela do computador.

Enquanto joga, Victor se imagina com uma loja, um negócio próprio daqui a dez ou 15 anos. Armando também não pensa em levar essa rotina para sempre. Por outro lado, não quer ficar tão longe da mesa. “O pôquer, para mim, significou uma oportunidade de crescer rápido. Não pretendo deixar de ganhar dinheiro com isso.”
          

Batendo bola com os ídolos


Talvez o pôquer seja o único esporte no qual você, peladeiro, terá a oportunidade de jogar de forma oficial com seus ídolos. E mais, sonhar em ser um deles. Mais ainda: se houver dedicação, as chances de chegar lá não são tão remotas quanto se imagina.

No começo da noite de segunda-feira, penúltimo dia do BSOP Million, um jovem gerente de soluções de informática de São Paulo lidera o torneio. Criando um curioso contraste com o tipo físico levemente gordinho, Rafael D’Auria leva na camiseta os seguintes dizeres: “SOU ATLETA. JOGO POKER”.

Por enquanto, é apenas um sonho. Mas, o garoto de 24 anos cultiva com seriedade a vontade de ser jogador profissional de pôquer. “Ainda é cedo”, reconhece, mais tentando convencer a si mesmo do que aos outros.

A vitória no maior torneio da América Latina encurtaria e muito o caminho para realizá-lo. E é nisso que ele pensa, enquanto aproveita o intervalo para comer um cachorro quente na companhia da mãe, da namorada, da irmã e da “patrocinadora”. Neste momento, ele é o chip leader (líder em fichas) entre os 30 jogadores que ainda sobrevivem no torneio. Já garantiu, pelo menos, seis mil reais. Mas, ele quer mais. Vai vencer? “Pretendo.”

É evidente que, depois de quase 30 horas jogando, Rafael está cansado. E ansioso, embora garanta que toda a ansiedade não se senta à mesa com ele. Uma das mulheres que o rodeiam tentando ajudá-lo a relaxar é Lucy Raposo, a tal “patrocinadora”.

Lucy é sócia da Ludus Luderia, um bar temático em meio às cantinas italianas do tradicional bairro do Bixiga em São Paulo. Lá, se encontra toda sorte de jogos de tabuleiro nacionais e importados, com monitores à disposição para ensinar qualquer pessoa a jogar. Inclusive, pôquer.

É lá que, toda semana, Rafael joga uma liga de pôquer entre amigos. Não apenas joga, como estuda o jogo, troca experiências com outros sonhadores atletas de fim de semana e se prepara o ano todo para a etapa paulistana do BSOP, patrocinado pelo negócio de Lucy.

O sistema é simples. Ao longo do ano, os frequentadores pagam uma taxa para jogar. Lucy não distribui premiações em dinheiro. Premia os vencedores com vales para serem usados no próprio bar e outros agrados. Uma boa porcentagem do que é arrecadado vai para uma caixinha que, no fim do ano, é usada para bancar o buy in dos três melhores jogadores do ano. Em 2011, Rafael foi o segundo melhor. A esta altura do campeonato, ele é o único dos meninos de Lucy ainda na disputa. E ela jura: “o que ele ganhar é só dele”.


À beira da mesa, Débora, uma pequena e jovem senhora de aflitos olhos claros, vai até o limite permitido e ali permanece, em vigília, há mais de cinco horas. A mãe de Rafael está ansiosa, mas confiante. “Ele aprendeu comigo”, gaba-se e dá uma risada nervosa sem tirar os olhos da mesa.

Nela, uma das únicas três mesas que restam no BSOP Million, o clima também é tenso. Se por um lado, o passar do tempo ajuda a descontrair os jogadores, que conversam muito mais do que no início do torneio, por outro, as rixas também se tornam maiores. Sob o boné e os óculos escuros, Rafael tenta não se indispor com ninguém. Sabe que a maratona é longa para quem tem grandes ambições.

Para Rafael, ela chega ao fim, às 2 horas da manhã de terça-feira. Em seu primeiro BSOP, Rafael foi mais longe do que poderia imaginar. Na 12ª posição, ficou com pouco mais de 20 mil reais – e com o gostinho de quero mais por não estar entre os nove que formam à mesa final.

Uma pelada com os amigos


Já passa das 23h30 de sábado, quando Fábio começa a receber os amigos em sua casa, no Campo Limpo, em São Paulo. Na espaçosa sala do sobrado, o pai, a mãe e o tio, descansando no sofá, assistem às últimas do esporte e comentam com entusiasmo mais uma vitória do Barcelona sobre o Real Madrid.

Um a um, os amigos de Fábio vão chegando e dominando a cena. Um deles traz uma bonita toalha de feltro verde para cobrir a mesa do jantar. Outro traz um baralho cheio de estilo de uma companhia aérea estrangeira. Outro vem com fome de leão e não demora a devorar um sanduíche e partir para o amendoim. Há também refrigerante, cerveja, uísque e muita vontade de tirar onda com a galera, no ritmo do pôquer.

Os pais se recolhem, o tio fica, e está formada a mesa da noite. Pelo menos uma vez por mês, a maioria daqueles nove rapazes se reúne para varar a madrugada jogando. O cacife é baixo, só para dar graça. Dificilmente, alguém ali vai gastar mais do que dez reais na noite.

“A gente define as regras antes, como na pelada”, explica o dono da casa. As regras, no caso, são simples: cinco reais por mil fichas, blinds subindo de 20 em 20 minutos e re-buys (direito a comprar mais fichas quando acabam) até a 1h30. No fim, o montante será dividido entre os três primeiros. A sorte está lançada.

O jogo é muito mais falado que nos torneios. As brincadeiras e “tirações” de sarro são constantes. Muitas vezes, os garotos têm dificuldades de definir o resultado de uma mão. Bruno, além de dono do baralho, é também quem tem mais ares de jogador de verdade. Joga toda semana na casa de seu chefe. E mostra conhecimento do vocabulário do jogo. “Showdown!”, diz pedindo para os amigos mostrarem as cartas.

A turma é bem heterogênea. Vai de 17 a 40 anos. Estudante, estagiário, assistente administrativo, designer, técnico em elétrica, jornalistas, gerentes e diretor comercial. Desde aqueles que não têm renda nenhuma até os que ganham 10 mil reais por mês. Uma pequena amostra do alcance do jogo.

Nenhum deles tem aspirações reais de se tornarem profissionais do pôquer. Conheceram o jogo nas transmissões da televisão. Jogam, vez ou outra, pela internet. Sempre com dinheiro fictício. E começaram a bater cartas por um motivo mais do que nobre.

Há cerca de um ano e meio, Kiko, um dos mais divertidos da turma, descobriu que tinha câncer de estômago. Aos 27 anos de idade. Na luta contra a doença, passou a não poder mais sair para acompanhar os amigos nas festas. “Não por isso”, pensaram os parceiros, que passaram a se reunir em casa para ficar com Kiko. O pretexto, inicialmente, foi o video game. Logo, o pôquer entrou na pauta.

Em fevereiro de 2011, no entanto, o câncer deu uma última cartada e tirou Kiko da mesa para sempre. Um baque sem tamanho para todos, mas principalmente para o melhor amigo: Nem, seu irmão mais novo, de 22 anos.

Nem é um menino alto astral, talvez o mais brincalhão da turma. Depois de mais de nove meses, fala sobre o irmão falecido com naturalidade. Relembra, às gargalhadas, as brincadeiras e as idas aos jogos do Corinthians. Recorda também como foi difícil voltar a jogar baralho. “O Kiko era um dos que mais gostava de jogo. E o que ele mais gostava era de blefar...”, conta Nem, trocando rapidamente a nostalgia pela diversão, que lhe é peculiar. Virou verbo. Quando um jogador tenta levar os outros na conversa, blefando, está dando uma “kikada”.

Nem se afastou do jogo o tempo que julgou necessário. Mas, percebendo que a galera continuava se divertindo junta ao redor de uma mesa, voltou. E voltou com tudo.

Os adversários iam saindo um atrás do outro e se entregando às outras duas febres dos tempos modernos capazes de rivalizar com o pôquer: video game, na grande tela LCD da televisão, e UFC, na transmissão via internet do notebook. “Nossa o cara quebrou o braço do Minotauro!”

Fazendo-se de sortudo e levando tudo na brincadeira, Nem permanece à mesa até o fim e chega a sua terceira vitória em quatro encontros – “No outro, eu não vim”. Leva para casa a bagatela de 40 reais. E muito mais do que isso em valores que não se pode contar.

Careca e seu exército


No universo profissional, circulando quase imperceptíveis (e fazendo de tudo para realmente serem), há um exército que veste calça, camisa, sapato e gravata pretos, além de um colete azul. São chamados de dealers, a versão em inglês de sua profissão. Mas, também atendem por crupiê, a versão afrancesada, e carteador, para falar em bom português. Na etapa final do BSOP, são 64.

Na mão destes profissionais, está o destino dos competidores. É deles a responsabilidade de manter a ordem à mesa. São eles que embaralham as cartas e pagam as fichas da vitória. Tudo isso sem se dar ao luxo de bater papo ou fazer amizades à mesa. E sem poder errar.

Felipe Inui, um pequeno oriental com uma cara esperta e sorridente de quem está se divertindo muito, leu uma reportagem que anunciava uma profissão em ascensão, na qual havia falta de mão de obra, que pagava logo de saída R$ 2.500, com direito a uma bela gorjeta – carinhosamente chamada de capilé – de vez em quando.

Aos 19 anos, ele havia acabado de largar a faculdade de Engenharia, já tinha feito bicos em marcenaria, lojas de roupa e de video games, e não sabia o que fazer da vida. Resolveu apostar. Dois meses depois, já ganha mais do que a reportagem prometia. Só pelos seis dias de BSOP Million, serão R$ 2 mil.

A família não gosta do novo emprego do menino. Associa o jogo à “coisa perigosa, de bandido”. Ele pretende voltar a estudar, só não sabe o quê. No momento, Felipe está curtindo, pensa até em trabalhar como dealer fora do Brasil. E, apesar da cara de garoto, ele garante que não perde o controle da mesa. “Se precisar, eu falo alto.”


Ninguém, no entanto, fala mais alto que Joubert Camardo, o Careca. Mesmo com mais de 1,80m de altura e com uma careca branca reluzente, ele quase não é notado quando se veste todo de preto.

É o comandante do exército. Anda de um lado para o outro com uma planilha na mão, comunicação no ouvido esquerdo, cara de bravo, dando ordens. “Biel, para a sala dos dealers. Carlinha, mesa 28, Espeto, na 2. César, na 7. E vocês vão lá pra baixo. Ficam lá 18 minutos, até quando faltar meia hora pro break.”

Dito assim, Careca ganha ares de carrasco. Nada mais injusto, porém. De perto, descobre-se uma figura com coração enorme. “Você não quer jantar? Vai jantar. Às sete e quinze, eu preciso de todo mundo aqui para uma reunião.” Enquanto ele distribui tíquetes para a refeição dos dealers, o tom é assertivo, mas muito paternal. “Sou linha dura. Quando tenho que brigar, brigo. Mas, logo depois, eu passo a mão na cabeça. Sou pai, conselheiro amoroso e agência de emprego para eles”, diverte-se.

Sentado à mesa – cena rara nos seis dias de torneio –, Careca elabora a lista dos 40 dealers que vão trabalhar no dia da grande final. Ele se preocupa em não sobrecarregar ninguém. Escolhe com cuidado aqueles que vão tomar conta da mesa que é exibida ao vivo pela tevê on-line. Pensa também em fazer piadinhas para descontrair o ambiente. Ele conhece bem o cansaço que seus comandados estão sentindo. É o primeiro a chegar e o último a ir embora no BSOP.

Disposição para trabalhar não faltou quando Careca, a mulher e um filho de três anos de idade desembarcaram no Japão, em 2001, depois que sua empresa de condicionadores de ar, em São Paulo, quebrou. “Eu não sabia nem falar ‘obrigado’.”

O objetivo era um só: fazer dinheiro. Trabalhava 19 horas por dia. Tinha quatro folgas por mês. Soldava cascos de navios, fabricava pneus e carros. Em seis meses, tinha casa própria e dois carros na garagem. Até que um acidente de trabalho com uma empilhadeira lhe rendeu um joelho quebrado e a porta de entrada no mundo do pôquer.

“No Japão, se você não trabalha, você não recebe.” E Careca precisava receber. Alguns amigos, então, lhe pediram para dar cartas em seus jogos de pôquer, em troca de uns capilés. E gostaram do serviço.

Com a esposa grávida do terceiro filho, Careca achou que já era hora de voltar. Chegou ao Brasil sem emprego e, novamente, o pôquer cruzou sua vida. O irmão mais novo já trabalhava como dealer e deu a dica: “aprende direito esse negócio que trabalho não vai faltar”.

Ele, que sempre foi de aprender rápido, se dedicou profundamente a seguir o conselho do irmão. Hoje, é o responsável pelo treinamento, supervisão e coordenação dos dealers dos maiores torneios do Brasil. Ganha mais do que se tivesse se formado engenheiro, como chegou a sonhar um dia.


Careca no comando
“Menos, menos, menos...” Careca pede silêncio a seu exército. Ele quer começar a reunião no horário combinado. O objetivo é divulgar a escala de trabalho do último dia e relembrar algumas orientações. Em poucos minutos, irá começar o 6-Max, um dos torneios paralelos do BSOP que abraçam muitos dos eliminados no evento principal. Com, no máximo, seis jogadores por mesa, o 6-Max tem procedimentos ligeiramente diferentes para os dealers.

O que tira Careca do sério – um pouquinho, pelo menos – é quando alguém fala junto com ele. “Presta atenção no que eu falo. Quem eu não dei mesa, lá pra baixo agora.” Em segundos, o bando se dispersa. O “lá pra baixo” é a sala dos dealers. Quando não estão em alguma mesa, é lá que eles descansam, dormem, comem, assistem a tevê e... jogam. Pôquer, caxeta, dominó. Um lugar só deles. Nem jogadores, nem parceiros, nem grande parte do pessoal da organização têm acesso. O segurança, na porta, tem ordens expressas para não deixar passar ninguém que não vista colete azul. Com raras exceções.

Careca, uma das exceções, tem, com seus comandados, reuniões de dar inveja a muitos especialistas em recursos humanos. “Vocês foram escolhidos a dedo para este último dia. São os 40 que menos me deram trabalho. São os 40 que mais me ajudaram. Espero que vocês continuem me deixando orgulhoso, como me deixaram até agora. Não tive uma reclamação de nenhum dealer neste torneio. Só elogios. É por isso que tenho certeza de que a melhor equipe de dealers do Brasil tá aqui, não tá em nenhum outro lugar.” Aplausos, gritos de euforia, alto astral. O exército está pronto para o último dia de batalha.

Profissão: dealer


Muitos dos 64 dealers que trabalham no BSOP carregam na lapela um broche que diz “Dealer Pro”. O nome remete a um sobrado de esquina, que lembra vagamente um castelinho, na Barra Funda, em São Paulo.

Quem atende à campainha? O Careca. À paisana, de camiseta polo listrada, calça jeans, tênis esportivo e barba ligeiramente por fazer. Bem diferente do homem de preto do BSOP.

Ali, Careca também dá as cartas. Na Dealer Pro, a única escola de dealers do Brasil reconhecida pela CBTH, ele é o mestre responsável por formar esses profissionais. Reúne baralhos e apostilas, enquanto espera a chegada de mais uma turma para a primeira aula. São, pelo menos, duas por mês. Jovens que pagam R$ 1.600, em troca de duas semanas de aulas teóricas e práticas, sonhando com vencimentos que podem variar entre dois e sete mil reais por mês, em uma vida sem horários regrados e com muitas viagens. E muito trabalho também.

No Brasil, falta mão de obra especializada em dar as cartas da maneira correta e com conhecimento total das regras. Com alguma dedicação e empenho, quase a totalidade dos dealers deixa a escola diretamente para as mesas de clubes e torneios em todo o país.

Os candidatos a crupiê vão chegando aos poucos. Em uma pequena turma de quatro alunos, uma variedade de estilos. Luan trabalha numa metalúrgica e quer ser jogador profissional. Vanessa não sabe o nome dos naipes do baralho. Bruno é músico. E uma quarta aluna, que vai acabar largando o curso ainda na primeira semana. Basicamente, dois tipos de gente: os apaixonados pelo esporte e os que querem ganhar dinheiro.

No bate-papo inicial, Careca já deixa aflorar seu lado paizão. “Ah, você mora em Guaianazes? Então, você vai ganhar uma carona, que eu vou pra casa do meu pai que mora lá perto.” E Luan, de 19 anos, não consegue esconder o sorriso.

O lado exigente, porém, também está presente. Careca avisa que vai cobrar dedicação, atenção e treinamento. E passa uma lista de itens indispensáveis para um bom dealer: postura, vestuário, comportamento, aparência, impessoalidade, boca fechada... “E outra coisa: não tem coisa mais feia que dealer que fica pedindo caixinha! Deixa que eu peço por vocês...”

Ele sabe bem a importância de seguir essas orientações. Trabalhando direito e passando despercebido, Careca é crupiê em cash games na casa de uma lista de celebridades da tevê e do esporte, que, como bom dealer, ele prefere não citar. “Todos os dias, tem cash game em São Paulo. Eu tenho trabalho todo dia. Não aceito porque não aguento.”


Em 2009, empresários ligados ao pôquer perceberam que o número de casas de jogos e torneios crescia vertiginosamente e não havia gente para trabalhar neles. A maioria dos carteadores nacionais carregava uma herança vinda dos vizinhos argentinos, paraguaios e uruguaios, onde os cassinos não são proibidos. Um aprendizado informal, no qual erros eram repassados de geração em geração.

Em 2010, fundada em sociedade por Devanir Campos, o DC, e André Schuartz, a Dealer Pro buscou parâmetros internacionais para criar um método de formação de dealers no Brasil. Principalmente, nos Estados Unidos, onde André conheceu a profissão.

Quando cursava administração em Los Angeles, o jovem se deparou com um anúncio no mural da universidade. Dizia algo como: “Torne-se um dealer e trabalhe em Las Vegas”.

André sabia muito pouco sobre o jogo, mas tinha uma curiosidade imensa por Las Vegas, cassinos, dinheiro, mulheres. Não via aquilo como profissão quando fez o curso, mas achou legal. E, principalmente, achou rentável.

Trabalhou como dealer nos Estados Unidos por dois anos, concluiu a faculdade e voltou para o Brasil com uma certeza: queria trabalhar com o jogo. “Jogo pouco e jogo mal”, confessa. “Eu queria era ganhar dinheiro e o único lugar em que se ganha dinheiro no pôquer é atrás da mesa.”

Hoje, tem 35 empregados em duas empresas: a Dealer Pro e a Cassinera, que promete levar à sua festa toda a estrutura de um cassino, totalmente legalizado por não envolver dinheiro.

Malandro é malandro, mané é mané


Envolver dinheiro é tudo que querem os nove sobreviventes do BSOP Million. Melhor dizendo, todos que estão na mesa final já envolveram bastante dinheiro. O nono colocado, primeiro a ser eliminado na noite, já garantiu quase 29 mil reais. E isso é impressionantemente natural para todos eles.

A composição da mesa final mostra a penetração do pôquer no Brasil. Estão representadas sete cidades de quatro regiões do país: Apucarana (PR), Jundiaí (SP), São Paulo, Belo Horizonte, João Pessoa, São Luiz e Manaus.

Entrevista ao vivo com os integrantes da mesa final
Eles são tratados como celebridades. Dão entrevistas ao vivo pela tevê on-line, contam com torcida na arquibancada de três degraus montada especialmente para a final e têm direito a uma entrada triunfal com a música que escolherem.

Entre Nirvana e Black Eyed Peas, o paraibano Flávio Reis, de 23 anos, surge por entre a fumaça, de blusa de moletom branca e boné, ao som de Malandro é malandro, mané é mané, de Bezerra da Silva. É sua primeira vez no BSOP.

Malandro ou não, Flávio chega à mesa final como chip leader, com mais de oito milhões de fichas. Ele hesita em se definir como jogador profissional. No twitter, que ele não para de checar e atualizar durante as mãos, se define: “Estudante de Gestão Financeira-Uniuol, Poker Player e Apaixonado por Raquel Lima”.

O menino tímido está confiante. Na noite anterior, teve dificuldade de dormir. Mais pela ansiedade do que pela gripe que ameaçava chegar em hora imprópria. O relógio já marcava 5 horas e ele conversava consigo mesmo. “Esse é o meu momento. Cheguei aonde eu queria.” Acordado, sonhava: “quero me divertir”.

Nos últimos instantes antes da decisão, usa um netbook para falar com os amigos em João Pessoa. Naquela noite, pelo menos uma pequena parte da cidade parou à frente do computador para acompanhar seu filho ilustre.


A poucos metros de onde está Flávio, Nilton Shibuya olha fixamente para a mesa. Parece estar fazendo um check list mental. Ele é o dealer escolhido por Careca para abrir a mesa final. “Adoro isso! Mesa final sempre dá uma ansiedade!” diz, genuinamente empolgado, o descendente de japoneses do interior paulista.

Careca se aproxima para desejar-lhe sorte e Shibuya dá um tapinha nas costas do chefe. “Tenho muito a agradecer a este peão aqui.” O coordenador retribui com um abraço e um beijo no rosto: “boa sorte!”. Neste momento, Shibuya só pensa em fazer o seu melhor.


A mesa final é tensa. Mais fold (desistência) do que jogo. Ninguém se arrisca muito. A torcida acompanha os lances por dois grandes monitores LCD colocados acima da mesa. Em pé, ao redor dela, com microfone na mão, Bill, “pau pra toda obra” que é, narra as jogadas. Para aqueles que entendem a linguagem do pôquer, é bom que se diga.

Mesa final do BSOP Millions, com narração do Bill
“Marco é o small blind. Thiago é o big blind. Juvaldir fold. Guilis com a ação... Guilis fold. Renato com a ação... Renato dá um raise para 160 mil fichas. Leo fold. Wagner anuncia o all in. Flávio, Fábio, Marco, Thiago, Juvaldir e Guilis, todos fold. Renato anuncia call. Temos all in e call!!! Wagner, com menos fichas, apresenta ás de ouro e 10 de paus. Renato tem ás de copas e dama de ouros. Renato lidera. Flop: 4 de copas, dama de espadas, rei de ouros. Renato lidera. Turn é um 6 de espada. Renato à frente. River é um 5 de paus... Wagner é eliminado na nona posição. Uma salva de palmas para Wagner!”

É claro que não se pode comparar pôquer e futebol. Mas, quando um jogador aposta tudo que tem, o adversário paga e todos se levantam ansiosos à espera das cartas que o dealer vai revelar, a emoção toma conta.

Leonardo “Todasso” Martins, de São Paulo, é quem tem a maior torcida na arquibancada. As cartas, porém, não estão lhe sorrindo. E quanto mais short ele fica, mais a galera se agita.

Ele anuncia all in. Guilis paga e Leo vai para a arquibancada esperar seu destino, enquanto pula e grita abraçado com os amigos. “Valete! Valete! Valete!” O valete vem e a massa, de sete ou oito parceiros, entra em êxtase. Leo ganha uma sobrevida no jogo.

Mas, a tática obrigatoriamente suicida do paulista não o leva muito longe. Uma hora depois, ele dá all in com ás e rei contra um par de reis do manauara Marco Antônio. Leo corre para a arquibancada e pede junto aos seus: “ás, ás, ás, ás, ás”. O dealer apresenta mais um rei, Marco faz a trinca, elimina Leo e tira onda com dois amigos de Manaus: “ás, ás, ás, ás, ás...”


Flávio quase não joga. Como tem muito mais fichas que os outros, não entra em bola dividida. Vai deixando os adversários se matarem. Pelo aparelho celular, tuíta: “Foco, foco, foco”.

No intervalo, porém, é cobrado ao telefone. “Você tá muito devagar”, diz a namorada, que acompanha tudo lá de João Pessoa. Ele sabe que o “devagar” é parte da estratégia que adotou e não se incomoda. O maior adversário de Flávio, no momento, parece ser o forte ar condicionado da sala. Tosse, toma remédio, não quer comer nem beber nada.

Se a família de Flávio está a 2.800 quilômetros dali, a de Guilherme Garcia, o Guilis, chega de uma viagem mais curta, às 23 horas. No meio da tarde, a esposa, a cunhada grávida, o cunhado e a sogra tomaram a decisão de sair de Apucarana, a cerca de 600 quilômetros de São Paulo, para acompanhar a final.

A família chega na hora certa. As cartas não estão ajudando Guilis. Ele, então, arrisca o all in com um par de 7. O par vira trinca e ele dobra suas fichas, mantendo-se no jogo. A sogra, uma senhora de seus 60 anos, pula como criança na arquibancada. Ela não entende nada do que está se passando à mesa, mas é tida como o pé de coelho de Guilis.

Parece que a sorte trazida do Paraná pela sogra dá resultado. Horas depois, só restam Guilis e Flávio no heads up, mano a mano. Duas horas de batalha entre os dois coroam mais de 45 horas de pôquer, jogadas por ambos ao longo de quase uma semana.

Flávio Reis: malandro é malandro, mané é mané
Com um par de 8, Flávio, que curiosamente nasceu em 1988, vê se materializar o resultado das oito horas diárias de jogo on-line que pratica há três anos. Paga o all in de Guilis, que tem par de 7. As cartas lhe trazem um full house – uma trinca e um par – e consagram Flávio Reis como o campeão brasileiro de 2011.

Além do substancial prêmio em dinheiro, o estudante de Gestão Financeira ganha também um pacote para jogar o WSOP (Série Mundial de Pôquer) em Las Vegas, em 2012. Lá, só o buy in é de 10 mil dólares. Lá, o sonho rompe limites.

No topo do mundo


“Ser parabenizado pelo André Akkari, que é o meu maior ídolo de todos os esportes, e ainda poder estar junto dele e de outros brasileiros, lutando pelo título no maior torneio de pôquer do mundo, em Las Vegas, é algo surreal demais. Só uma palavra pra resumir tudo isso: SONHO! Boa noite, galera.” Foi o que Flávio escreveu em sua conta no Twitter três dias depois da vitória em São Paulo. Todos querem ser André Akkari.

Em 27 de junho de 2011, Akkari deixou o cassino em Las Vegas, com a mulher Paula, as filhas Maria Eduarda e Giovanna, e a certeza de que tinha uma grande chance nas mãos. Estava onde todo jogador de pôquer do mundo sonha, durante a vida toda, estar. No heads up da mesa final de um evento do WSOP, contra o americano Nachman Berlin.

A família estava tensa, pois Akkari tinha 3,4 milhões de fichas contra 9,4 milhões de Berlin, quando o evento parou para ser retomado no dia seguinte. No apartamento em que estavam hospedados, ele se prolongou no banho mais que o normal.

Entre as tantas coisas que passavam em sua cabeça, estava a morte do pai, quase três meses antes. André, que sempre fora cobrado por ter ótimos resultados on-line e não vencer no live, recebeu a notícia quando estava indo muito bem em um grande torneio latino-americano no Peru. Precisou abrir mão da chance de conquistar um bom resultado para voltar ao Brasil.

Naquela hora, no banho, André, que não é dado a acreditar em coisas sobrenaturais, começou a sentir algo bom. Ria de gargalhar. Uma alegria over. Uma certeza da vitória tomou conta de seu corpo na forma de um arrepio estranho, mas gostoso. “Ganhei! Acabou! Não tem pra ninguém.” E ria. Ria muito. O pai, que tão ausente tinha sido em vida, estava ali com ele. “Acho que ele pensou: ‘tirei o título do moleque no Peru, agora vou dar uma ajudinha’.”

Saiu do banheiro e falou para Paula: “Por que essa cara? Relaxa! Já ganhei! Já é nosso!”, escutando, em seguida, uma sonora bronca pelo excesso de autoconfiança. Na sua certeza de vitória, Akkari pouco dormiu naquela noite. Ficou repassando mentalmente cada mão jogada e fazendo um raio-x completo do adversário.

“Jogador de pôquer não acredita em coincidência.” No entanto, não há palavra melhor para contar que 28 de junho, o dia da grande decisão, seria justamente aniversário do pai de Akkari. Ele estava focado. Sabia que não podia errar. E não errou.

André Akkari superou o último dos 2.857 jogadores e, diante de 80 brasileiros na arquibancada, trouxe para o Brasil 675 mil dólares e o segundo bracelete do WSOP do país (o primeiro tinha sido ganho por Alexandre Gomes, em 2008). “Não sei o que falar. Não paro de chorar. Obrigado, Jesus. Obrigado, Brasil. Obrigado, minha família. Brasil, eu te amo! Vou ter um ataque do coração, não paro de chorar!”, tuitou, após a vitória.


Em uma sala ampla e pouco mobiliada de um sobrado no Tatuapé, em São Paulo, cinco homens esperam para uma reunião com André, sentados em volta de uma bonita mesa profissional de pôquer ou em um grande sofá branco de três lugares, meio desgastado. São jogadores do time profissional mantido por Akkari e pessoas que trabalham com ele na TV Poker Pro, a tevê on-line da qual é sócio de Gabriel Goffi e do ex-piloto de Stock Car, Gualter Salles. Nela, são exibidas, pelo menos, quatro horas de programação ao vivo todos os dias.

Akkari chega e, em clima de descontração, já escuta uma notícia ruim: é impossível fazer os caracteres da transmissão da tevê entrarem com a cor e a forma que ele gostaria. Ele se mantém tranquilo, embora discorde nitidamente do colega. Sorridente, ele propõe:

– Vamos fazer um bet (aposta) que é possível fazer como eu tô falando? – André estende a mão.
– Quanto? – concorda o amigo, um oriental de pele morena e cabelo arrepiado, visivelmente acima do peso.
– Não sei... Não quero te machucar muito.

Todos riem. Sabem que não é bom negócio entrar em uma aposta alta com alguém que já ganhou 675 mil dólares em apenas um torneio. André insiste:

– Vai, eu não quero te machucar. Uma pizza!

Nos dez minutos seguintes, André Akkari iria apostar mais duas pizzas com seus empregados/amigos.

– Pô, essa aposta é freeroll [tipo de torneio gratuito com prêmio em dinheiro]! Eu ia pagar a pizza de qualquer jeito! Eu sempre pago! – diverte-se o chefe.


Akkari tem consciência de que, atualmente, é a grande referência do pôquer no Brasil, mas nem por isso deixa de ir ao samba ou ao jogo do Corinthians com sua turma. Mesmo sendo reconhecido em shoppings e aeroportos depois de aparecer em jornais e programas de tevê, continua ligando para os amigos só para perguntar “tá tudo bem com você?”. “Tenho 13 amigos trabalhando comigo na TV Poker Pro. Eu procuro ajudar a todos. Se o cara está precisando e eu sinto que tem a mínima chance de dar certo, eu trago para trabalhar comigo”, conta.

Vestindo uma camiseta com a estampa de divertidas caveiras mexicanas e tênis com detalhes em neon, Akkari parece mais jovem que seus 37 anos. Vive correndo. Tem um blog. Passa sete meses por ano em viagens pelo mundo. Comenta para a ESPN. Escreve colunas em revistas especializadas. Tem um time de pôquer, com cinco jogadores que o ajudam nas transmissões da TV Poker Pro. E, para janeiro de 2012, promete o lançamento de uma empresa especializada na organização de eventos de pôquer.


Pelé e Garrincha


Até os 16 anos, André rodou o Brasil tentando ser jogador de futebol. Viu que aquele não seria o caminho de seu sucesso e formou-se publicitário. Em 2005, recebeu a tarefa que mudaria seu destino: desenvolver um site para uma empresa americana de jogos on-line. Nunca tinha jogado baralho na vida.

Começou a brincar com dinheiro fictício e tomou gosto. Achou que valia a pena estudar um pouco o assunto. Mesmo com a grana curta, comprou um livro sobre o jogo na Amazon. Entrou em torneios que pagavam quatro centavos de dólar ao vencedor. Jogou tanto que juntou 100 dólares. Achou que era hora de partir para voos maiores. Perdeu tudo. E voltou aos torneios de quatro centavos.

Em agosto de 2005, ganhou seu primeiro torneio polpudo: 2.500 dólares. “Foi uma emoção violenta. Nenhum outro torneio foi importante como aquele. Fiquei jogando até as 6 horas da manhã, com vários amigos conectados, torcendo por mim. E tinha que ir trabalhar às 8 horas!”, lembra André.

Naquele dia, Akkari foi trabalhar. Mas, logo não iria mais. Em janeiro do ano seguinte, já estava ganhando mais que o dobro de seu salário no pôquer. Virou jogador profissional. A mãe entrou em pânico. Conversava com o filho. Pedia ajuda à nora. “Vocês têm duas meninas pra criar...”


Uma das pessoas que ajudaram André a convencer a todos que pôquer não é coisa de bandido foi Fátima Bernardes. No fim de março de 2010, ela entrou no ar com o Globo Notícia e anunciou que o pôquer passaria a ser reconhecido como esporte da mente. Akkari, que estava em casa, assistindo a tevê sem saber de nada, hoje tira onda. “Quer saber se pôquer é esporte? Pergunta pra Fátima Bernardes!”

Brincadeiras à parte, Akkari vê na organização da Copa do Mundo de Londres, em novembro, a concretização de um discurso que encampa há pelo menos seis anos. “A intenção de fazer o melhor pelo país mostra o envolvimento mundial que o evento teve. Ninguém estava ali pensando em dinheiro.”

Uma das principais estrelas da seleção brasileira, André partiu para Londres, sentindo-se como Pelé e Garrincha, em 1958, no primeiro título do país do futebol. O garoto que sempre quis ser um astro da bola estava pronto para fazer história em outros campos. “É como se você estivesse vendo de perto uma Fifa nascer. Não sabemos o que pode ser do pôquer daqui a 20 ou 30 anos.” Para ele, o segundo lugar foi um excelente resultado para o Brasil. “Sabemos que temos que plantar o melhor agora, pois novas gerações irão colher tudo isso no futuro”, escreveu em sua coluna da revista Flop.


Mais que um bem-sucedido jogador de pôquer, Akkari se tornou uma bandeira do esporte. Milita com responsabilidade e conhecimento de causa. Sabe que, o seu bracelete, abriu espaço na mídia para que seja passada uma mensagem, que aos poucos pode mudar a mentalidade da sociedade sobre o jogo. E, principalmente, usa seu nome para boas causas.

“Sempre tentei fazer o bem.” A frase que, na boca de muitos, poderia soar totalmente pedante, na de Akkari soa natural. É fácil acreditar na cara de bom moço de olhos claros. Assim como é fácil perceber que aquilo ali é a essência do campeão. “Um grande ídolo que eu tenho é o Sócrates. Uma vez, eu o ouvi dizer que não concordava em ser tratado de modo diferente do porteiro do seu prédio. Eu também não consigo entender isso. Não me sinto melhor do que ninguém porque tenho um bracelete em casa.”

Akkari conta com o twitter para mandar seu recado. Mandar e receber. Depois de sua vitória em Las Vegas, uma pessoa que não o conhecia pessoalmente lhe escreveu para dizer que estava chorando de emoção. “Você dizer que está chorando pela vitória de alguém é muito forte! Eu não consigo dizer isso para alguém. É forte!”

Sem se colocar como dono da verdade ou dar lição de moral, André usa o espaço virtual para comentar assuntos do dia a dia e divulga pequenas e grandes ações sociais, que organiza ou das quais participa.

No Natal de 2009, ele e mais 11 jogadores profissionais fizeram uma vaquinha, compraram brinquedos e se vestiram de Papai Noel para entregá-los a crianças carentes na quadra da escola de samba Rosas de Ouro, em São Paulo. No ano seguinte, promoveu pela internet um “criança esperança do pôquer”, que juntou mais de 60 mil reais para o instituto dos pilotos Rubens Barrichello e Tony Kanaan. Neste Natal, não haverá ação social. Akkari está preparando algo maior.

Em fevereiro, ele pretende lançar um instituto de investimento para levantar verba no mundo do pôquer e direcioná-la a outras entidades beneficentes. A ideia é que, em 2013, o instituto passe a ter um espaço próprio, no Tatuapé, para trabalhar atividades relacionadas a esporte e artes com crianças carentes.

Talvez por força do hábito de esconder sentimentos à mesa do pôquer, a alegria de André ao contar seus projetos não é exagerada. Está genuinamente presente no sorriso e no olhar. Sem afetação.

Recorde mundial, satisfação pessoal


Depois de ver tantos flops, turns e rivers, o que mais se quer é ver mais flops, turns e rivers. Desta vez, os seus próprios flops, turns e rivers. Clicar naquele iconezinho vermelho, há tempos esquecido no desktop do computador, portanto, não é opção. É quase uma necessidade.

Comemorando dez anos de existência, o Pokerstars quer quebrar o próprio recorde mundial de torneio com o maior número de participantes da história. Serão 200 mil vagas a um buy in de apenas um dólar.

Nos dias que antecedem o recorde, são abertos pequenos torneios-satélite que darão vagas na competição principal. Mesas de dez jogadores com buy in de dez centavos de dólar. O vencedor de cada mesa estará no maior torneio da história.

É claro que não há sacrifício nenhum em se pagar um dólar para entrar diretamente no torneio principal. Mas, o que me instiga a jogar o satélite é a curiosidade em conhecer o sabor de eliminar, um a um, nove adversários e conquistar uma vaga. Tento uma, duas, três vezes. Na terceira, começo a imaginar como jogariam os campeões do BSOP. Busco imitá-los.

Com meus parcos conhecimentos, escolho a dedo as mãos que vou jogar. Fold, fold, puxo um pote. Fold, fold, fold, puxo outro pote. As coisas vão dando certo. Estamos mano a mano. Um português e eu.

A sensação de tomar as fichas do último adversário e se ver sozinho na mesa é quase indescritível. Não se trata apenas de um dólar ganho. Nas frações de segundo que sucedem a vitória, você se sente capaz de realizar qualquer coisa que se proponha a fazer.


No domingo, quatro de dezembro, às 15h30, me junto a 199.999 jogadores de todo o mundo para construir o recorde mundial, registrado pelo Guinness. São 50.804 jogadores a mais do que a marca anterior, que já durava dois anos.

A velocidade do torneio é turbo, ou seja, os valores dos blinds sobem em curtos intervalos de tempo, o que faz com que os competidores sejam eliminados com uma rapidez espantosa. No primeiro intervalo, com apenas 28 minutos de jogo, 39.507 jogadores já estão fora da disputa pelos prêmios, que somam 250 mil dólares.

Em uma mesa com cara de reunião da ONU, com jogadores de Ucrânia, Eslovênia, Reino Unido, Filipinas, Rússia, Bielorrússia e Nova Zelândia, tento resistir como posso. Com pouco mais de uma hora de jogo, vejo minhas fichas diminuírem radicalmente depois de uma bad beat (literalmente, falta de sorte): tinha uma sequência, encontrei um flush (mão na qual se combinam cinco cartas do mesmo naipe).

Fico, então, só esperando a oportunidade certa para o all in. Aposto em um par de valetes. Um adversário da Bielorrússia paga. Ele está à frente, com par de reis.

No entanto, o flop me traz um valete. Prendo a respiração por alguns instantes. Nem o turn nem o river atrapalham minha trinca. Mais que dobrei minhas fichas em uma das mãos mais emocionantes da minha curta vida no pôquer.

O bom momento, no entanto, não durou muito. Uns dez minutos depois, fui obrigado a anunciar all in novamente e perdi, terminando na 46.658ª posição.

Fiquei longe do meu objetivo inicial, que era estar entre os 12.150 primeiros e ganhar, pelo menos, quatro dólares. Fiquei ainda mais longe do melhor brasileiro, de apelido “mrgardem”, que ficou em 23º e levou 600 dólares. E fiquei infinitamente distante da mesa final, que, com cerca de sete horas de torneio, premiou um jogador russo com mais de 40 mil dólares (não custa lembrar que ele investiu, no máximo, um dólar).


E mesmo ficando aquém de tudo isso, ao fim, não há frustração. Há, sim, uma vontade inquietante de puxar uma cadeira, sentar-se à mesa e ver mais flops, turns e rivers.