Não faz tanto tempo assim, mas quando eu era criança, a infância era bem diferente. Basta imaginar um mundo sem celular, smartphone, tablet, notebook, nem um 386 sequer. Um mundo onde ainda era normal um menino de oito anos ir a um bar e comprar cigarrinhos de chocolate.
O bar, no caso, era do meu avô. E, lá, em todas as tardes de domingo, todas, sem falta, as portas eram fechadas, mesas e cadeiras postas na calçada e o truco rolava solto, com muito grito e fumaça de cigarro de palha. Eu ainda não tinha idade para fazer parte daquela confraria, mas as cartas sempre exerceram sobre mim um fascínio hipnótico. Eu queria aprender mais e mais jogos. Inclusive um que, nas tramas da TV, ganhava ares de coisa proibida, o que o tornava ainda mais fascinante. O pôquer, dos uísques, charutos, dinheiro e mulheres.
Minha infância não tinha Google, mas toda casa tinha uma bela coleção da Barsa, exibida quase como uma peça de decoração no rack da sala. Na minha casa, a enciclopédia de tomos já amarelados e empoeirados era Delta Larousse, uma edição de 1974, que ainda trazia uma série de circunflexos de época, como "êle" ou "relêvo". E foi lá que eu procurei o verbete PÔQUER. Mergulhei na história e nas regras do jogo, sempre sob o olhar cauteloso da minha mãe. Naquela época, ninguém queria ter um filho viciado em jogo.
A mesa raramente tinha mais do que três jogadores: minha mãe, meu irmão e eu. Começamos com milho e feijões. Depois, subimos o stack inicial para uma caixa de Bis. E a modalidade era sempre o 5-Card Draw clássico, como nos filmes. "Quero trocar duas."
O tempo passou, aprendi o que era mouse, Internet, e-mail e conheci a TV a cabo. Conheci também um torneio chamado World Series of Poker, transmitido pela ESPN. E uma nova modalidade do jogo: o Texas Hold'Em. A aura de coisa errada já não estava tão presente como antes, o lance de sorte ou azar era cada vez mais insignificante e era até legal falar para os amigos que você sabia jogar pôquer. E aí, descobria-se que vários deles também sabiam. E gostavam.
No Rio de Janeiro, com a turma do Sportv, as fichas eram as moedinhas de troco do ônibus nosso de cada dia. A coisa já tinha algumas regrinhas, que geravam discussões, principalmente quando alguém que estava ganhando muito levantava e dizia: "Galera, preciso ir nessa". Aí, veio a mudança para São Paulo, a adesão ao pôquer on-line, o jogo foi ganhando respeito e caráter de esporte da mente...
No meu segundo trabalho semestral para a pós, me propus a mergulhar no mundo do pôquer do Brasil, a partir do BSOP Millions, aquele que, na época, final de 2011, foi o terceiro maior torneio já realizado no Mundo. Foi uma experiência fascinante e muito surpreendente. Em nada se justificava a preocupação com o vício da jogatina, os ambientes eram saudáveis e familiares, as pessoas solícitas, do bem e remavam juntas em prol do esporte. A reportagem me deu a oportunidade de fazer parte de um grupo de amigos que, até hoje, se reúnem periodicamente para jogar e se divertir, gastando infinitamente menos do que com qualquer outro programa de fim de semana. Passei a prestar mais atenção, estudar, conversar e pensar sobre o jogo.
Na minha modesta opinião, foi a maior e melhor reportagem que já escrevi. Parte dela, uma parte realmente pequena e adaptada, foi publicada na revista Brasileiros, alguns meses depois, com fotos minhas, inclusive. Se há algo a lamentar, é apenas o fato de não ter levado adiante a ideia de transformar o trabalho em livro ou documentário. Mas, sempre é tempo.
O conteúdo todo era inédito até agora. Até agora.
Add-on - Você ainda vai se sentar à mesa
dezembro de 2011
Entre murmurinhos abafados e
misturados, o tilintar das fichas é quase hipnotizante. Ela está em silêncio.
Olhar perdido e semblante blasé, que,
assim como caras fechadas e desconfiadas, não é raro de se ver nas mesas
espalhadas pelo salão. Além de escorar a cabeça cansada, o punho no queixo
 |
| Iara parece estar longe. Só parece |
lhe dá
um ar de menininha enfadada. Estatísticas não-oficiais dão conta de que Iara
Moraes, de 20 anos, é uma das competidoras mais jovens do maior torneio de
pôquer da América Latina, a última etapa do BSOP (Brazilian Series of Poker), o circuito brasileiro, disputada no fim
de novembro, em São Paulo.
As fichas parecem querer abandoná-la,
quando Iara anuncia o all in. Aposta
tudo que tem. Pressionada pelo adversário, um oriental de óculos escuros, ela
não teve escolha.
Ele paga e ela mostra um par de 10. O
adversário está à frente com dois pares: 9 e 5. Falta apenas o river. E ele precisa ser um 2, um 8 ou um 10 para que a garota permaneça
no torneio. O dealer segura o
suspense por meio segundo e revela: 2 de espadas.
Iara, então, desperta do enfado, dá um
soco na mesa e se levanta, revelando que a menina é, na verdade, uma mulher,
alta, de longas unhas vermelhas e cabelos loiros. Na cabeça, um boné bege, onde
se lê Mykonos ao lado de uma bandeira
da Grécia.
A garota vira-se em direção à faixa que
separa parentes, amigos e curiosos das mesas, e um rapaz forte de camiseta azul
faz um gesto de vitória com o punho cerrado. Ela se senta e, comportada,
agradece: “Obrigada”. Sabe que a vitória naquela mão não foi apenas um golpe de
sorte. “O flop era baixo. Eu sabia
que ele não tinha um par maior que o meu”, ensinaria, mais tarde, didática.
O rapaz de azul, Marco Antônio, é seu
namorado, o maior responsável pela chegada dela, corretora de imóveis do
Guarujá, a uma mesa de pôquer há menos de três meses. Queria uma companheira
para o hobby. Ganhou um belo motivo para se orgulhar. Ele caiu logo no primeiro
dia do torneio. Ela, na posição 304, deixou para trás 1.142 jogadores e seguiu
adiante.
Passadas quatro horas de jogo, Marco se
mantém na mesma posição. Está com Iara nos gestos e olhares, mas,
principalmente, no boné, presente de familiares da Grécia, do qual a garota se
apossou. Ali está o segredo.
Iara se sente mais corajosa e agressiva
quando está usando o boné. Jura que fica inibida sem ele. E, em voz baixa, como
a revelar um segredo, ela completa: “e esta roupa é a mesma que eu estava usando
quando joguei pôquer pela primeira vez”. Coisa da sua cabeça ou não, ela
garante que jamais perdeu um all in.
Poucas
horas depois, Iara cai com uma dama e um rei, contra um ás e um rei, quando
restam 198 jogadores na disputa. Quem presencia o momento deixa escapar no ar
um “ahhhh”. A mascote da mesa sai do torneio. “Mas, continuo sem perder um all in”, consola-se.
As séries brasileiras
Esqueça a imagem de senhores à mesa com
seus scotches on the rocks, apostando
relógios de ouro, carrões e fazendas, ao lado de belas garotas de pernas de
fora e mergulhados em muita fumaça de charuto.
Na última etapa do BSOP, há, sim,
senhores. Há também senhoras. E jovens. Muitos jovens. Meninos e meninas. Ao
todo, são 1.446 jogadores, dos mais variados naipes, como se constata com uma
passada de olhos pelo salão.
São jovens empolgados, de chinelos e
camisas de clubes de futebol. São homens maduros em busca de diversão e com
alguma expectativa de fazer render os R$ 1.800 do buy in, a taxa de inscrição. São jogadores profissionais que procuram
demonstrar tranquilidade, enquanto checam seus iphones após cada mão. São
figuras enigmáticas, escondidas sob capuzes ou bonés, isoladas do mundo por
fones de ouvido, protegidas por estilosos óculos escuros.
Ocultam
seus sentimentos a todo custo. Contêm, quase sempre, suas alegrias e
frustrações. Os poucos gritos têm o tom de desabafo nas mãos ganhas e de
arrependimento nas perdidas, principalmente, naquelas em que o dealer anuncia para os quatro ventos do
ar condicionado: “Eliminação!”.
Ao redor das mesas, quatro massagistas estão
prontas para amenizar a tensão de horas e horas de jogo, não sem ouvir um
gracejo aqui outro ali. E se o trabalho destas profissionais não for suficiente
para relaxar os jogadores, garçons circulam incansavelmente pelo salão, com uísque,
energético, cerveja, refrigerante, café e água.
Massagistas
e garçons são uma pequena parcela dos 120 empregos diretos gerados pela oitava
etapa do circuito brasileiro. Apenas uma pitada do gigantismo do torneio, que
nasceu quase mambembe, com 28 competidores, em 2006.
A
saideira do BSOP 2011 impressiona desde o hall de entrada. Enormes banners
conferem aos vencedores das etapas anteriores uma aura de heróis imortais e compõem
uma espécie de portal.
No
corredor de entrada, uma bancada de uma agência de viagens especializada em
levar amantes do pôquer aos grandes campeonatos com todas as facilidades e um
estande de souvenires do torneio,
parada obrigatória para os aficionados. Lá, se encontra de chaveiros a
camisetas, de simples baralhos a livros que ensinam os segredos dos grandes
campeões.
À
medida que se aproxima o salão principal, é fácil cruzar com jogadores
eliminados, com cara cansada, explicando-se ao celular. “Ele tinha exatamente
6% de chance de ganhar de mim.” “Eu sabia que ele não tinha 9 e 3.”
Um
passo adiante e o significado da expressão “maior torneio da América Latina”
vai ficando mais claro. São centenas de quilos de equipamentos de transmissão de
uma tevê on-line, que precisaram de
dois caminhões para chegar até ali, junto com as 61 mesas profissionais, 630
cadeiras, 576 baralhos novos (que, ao final do torneio, serão implacavelmente
descartados para que nenhuma de suas cartas seja vista em outras mesas por aí)
e milhares de fichas.
 |
| Salão lotado para o recordista BSOP Million |
Não
à toa, a última disputa do ano foi chamada de BSOP Million. O número recorde de
inscritos em território nacional a coloca como terceiro maior torneio do mundo.
Em disputa, uma premiação total de 2 milhões e 200 mil reais. Os 153 primeiros
colocados sairão dos seis dias de torneio com algum no bolso. Só o campeão
levará mais de 440 mil reais. É verdade que já houve premiações maiores pagas no
Brasil, mas com inscrições bem mais salgadas do que os R$ 1.800 cobrados no
BSOP Million.
A
grandiosidade desta etapa é também responsável por coroar seu vencedor como
campeão brasileiro de pôquer em 2011, mesmo que não tenha jogado nenhuma das
sete etapas anteriores. A pontuação no ranking anual é proporcional ao número
de inscritos e à premiação paga em cada evento.
Flops,
turns e rivers
Muitos
dizem que ele nasceu na Pérsia. Para outros, foi na China. Há também quem
acredite que foram os franceses que o criaram. O fato é que o pôquer cresceu e
se popularizou nos Estados Unidos.
Baseado
em combinações de cinco cartas, o jogo explodiu a partir da criação do Texas
Hold’Em, versão mais conhecida hoje em todo o mundo. Ele substituiu as cinco
cartas que ficavam na mão do jogador por apenas duas. E colocou à mesa cinco
cartas comunitárias. As três primeiras a serem abertas pelo dealer, o carteador, chamadas de flop. A quarta, de turn. E a quinta, de river.
Os
jogadores, normalmente de dois a dez por mesa, continuam precisando formar
combinações de cinco cartas – duas da mão e três da mesa, uma da mão e quatro
da mesa, ou até mesmo, por incrível que pareça, nenhuma da mão e as cinco da
mesa, o que pode configurar um empate. Ganha quem tiver a melhor mão ou fizer
os adversários acreditarem nisso e se retirarem do jogo, pressionando-os com as
apostas, o chamado blefe.
O
Texas Hold’Em revolucionou o pôquer no século passado, trazendo ao jogo mais
dinamismo, mais emoção e mais dois fatores que ajudam a explicar o momento
atual.
O
primeiro desses fatores é a introdução definitiva do raciocínio lógico baseado
em probabilidades matemáticas e estatística. Conhecendo as duas cartas de sua
mão mais cinco da mesa, o jogador pode avaliar quais são as chances que tem de
formar uma mão (combinação de cinco cartas) melhor do que as de seus adversários.
Isso
afasta o pôquer dos chamados jogos de azar, onde o fator sorte é largamente predominante,
se não o único, a determinar vitória ou derrota. É o que diz o artigo 50 do
Decreto Lei número 3.688, a chamada Lei das Contravenções Penais, que data do
longínquo ano de 1941.
De
lá para cá, são inúmeros os estudos e laudos de polícia técnico-científica que
atestam que o pôquer não se enquadra nessa definição. Não é, portanto, uma
atividade proibida, como muitos acreditam até hoje, muito em razão do
fechamento dos cassinos. A verdade é que os cassinos sempre usaram atividades
legais e populares – como o pôquer e o boxe – como atrativos de público para os
muitos jogos de azar que abrigavam.
A
roleta, por exemplo, é um típico jogo de azar. Não há nada que o jogador possa
fazer para melhorar seu desempenho. Se a bolinha parar no preto-17, quem
apostou neste número ganha. Se não parar no preto-17, perde. Ponto final.
Estudos
indicam que esse é o componente viciante dos jogos de azar: a possibilidade de
se tornar um milionário sem esforço algum, apenas por obra do acaso. É sedutora
a ideia de apenas comprar uma cartela de bingo e levar para casa o prêmio
principal. E há a possibilidade real disso acontecer. Afinal, alguém tem de
ganhar.
No
pôquer, um jogador apenas sortudo pode se sentar à mesa com campeões e vencer
uma mão. Mas, ao longo de algumas poucas horas, ele será fatalmente engolido
pelas feras, que, além de estudar o jogo, vão estar prontas para ler cada
mínimo sinal corporal que indique o que esse jogador tem nas mãos.
Um
estudo americano, realizado em 2009 pela Cigital, uma das maiores consultorias
mundiais em softwares de segurança,
analisou 103 milhões de mãos de Hold’Em jogadas no maior site de pôquer on-line do mundo, o Pokerstars.
Percebeu-se que em quase 76% delas, o vencedor não precisou mostrar as cartas,
liquidando a fatura apenas pelas apostas, sem necessariamente ter o melhor
jogo. Em cerca de 12%, houve abertura de cartas, mas o dono da melhor mão já
tinha “fugido”. E em apenas 12% das vezes, o jogador premiado de início com as
melhores cartas venceu. Conclusão: no Texas Hold’Em, 88% das vitórias se devem à
habilidade (ou falta de habilidade do adversário) e 12%, à sorte.
O
outro fator trazido pelo Hold’Em, preponderante para a formação de um exército
universal de amantes do pôquer, é o dinamismo e a plasticidade, que levaram a
televisão a se interessar pelo jogo. A introdução das cartas abertas e
comunitárias tornou o Hold’Em um produto viável para a exibição e altamente
atrativo para o telespectador. Legiões de admiradores do pôquer foram formadas
à frente da telinha, tentando adivinhar o que aconteceria a seguir, torcendo
por um ou por outro jogador e, principalmente, aprendendo a jogar.
Brasil, o país do pôquer
Apesar
do terno e da gravata impecáveis, é possível notar um toque de jogador de
futebol no rapaz moreno, magro, de estatura mediana, com cabelos e cavanhaque
cuidadosamente aparados, que está em todos os lugares do salão do BSOP Million.
O batido jargão boleiro “joga nas onze” se aplica perfeitamente a ele. É
falante; está sempre ocupado; se desloca com desenvoltura por entre as mesas; interrompe,
apressada e educadamente, conversas para resolver problemas através da
comunicação que desce pelo seu ouvido esquerdo, e carrega com altivez a
responsabilidade de ser um dos principais organizadores de torneios de pôquer
no Brasil.
Durante muito tempo, Alberoni Lino de
Castro, o Bill, quis porque quis ser jogador de futebol. Jogou com Kaká nas
categorias de base do São Paulo. Chegou até a passar 65 dias na Europa, com
apenas 12 anos, apoiando o ataque e voltando para marcar, como um autêntico
lateral direito. “Nunca fui craque.” Mas, pulmão não lhe faltava.
O que começou a faltar, com o tempo,
foi tesão pelo futebol. Com 15, 16 anos, o sonho de passar a vida correndo
atrás de uma bola já não povoava as noites de Bill. Os joelhos reclamavam. Passou
a querer ser médico. Queria porque queria.
Estudou à exaustão. Pesquisou sobre
todo tipo de especialidade médica. Contabilizou os ganhos que a profissão
poderia lhe dar. E chegou a uma conclusão que parecia óbvia desde os sete anos
de idade: seu caminho era mesmo dentro do esporte. Não tinha jeito. Estava na
veia do competitivo Bill.
A faculdade de Esportes – uma irmã da
Educação Física pouco conhecida no Brasil – lhe abriu um leque de
possibilidades. Entre elas, se jogar nos Estados Unidos, em 2004, com o intuito
de trabalhar com futebol. Fez de tudo por lá, inclusive trabalhar com futebol.
Mas, de tudo que viu e aprendeu, o que mais tinha a ver com o que o futuro lhe
reservava foram as transmissões de pôquer dos canais ESPN. “Lá, é impossível
não ter contato com o pôquer.”
Bill não conhecia o jogo, nunca tinha
se sentado à mesa para jogar e também não foi ali que ele se tornou um
apaixonado pelo pôquer. Foi apenas um primeiro flerte.
Só tempos depois, quando um amigo o
convidou para ajudá-lo a organizar um “campeonatinho” de Texas Hold’Em, ele
voltou a cruzar com o esporte. Quando se deu conta, o tal campeonatinho no ABC
paulista, com cerca de 40 participantes, havia sido simplesmente o segundo
maior evento de pôquer no Brasil na época.
Em 2005, a cena do pôquer no país se
resumia a uns muitos gatos pingados espalhados desorganizadamente e escondidos
sob o medo e o preconceito. As tias diziam: “agora deu pra se meter com jogo”.
As mães acendiam velas para que os filhos se afastassem do vício. Os pais
chamavam-nos de vagabundos. As esposas achavam que os maridos poderiam ser
presos a qualquer momento. Os jogadores, coitados, corriam a minimizar
rapidamente a janela do computador quando entrava alguém no quarto. “No começo,
eu não contava para ninguém o que eu fazia. E não deixava minha mãe contar”,
lembra Bill.
“Todo
mundo já ouviu a história de alguém que perdeu fazenda no pôquer. Mas, ninguém
conhece alguém que ganhou a tal fazenda no pôquer”, ironiza. “Pensar em
torneios nacionais com buy in de 200
reais, seis anos atrás, era coisa de maluco!”
Quem
jogava naquela época, é tido hoje como um dinossauro do esporte. É a “velha
guarda”, são “os caras das antigas”. Quem levantava a bandeira do pôquer
naquela época é visto como um mito, um herói.
Ao contrário de quase a totalidade dos
que vivem o mundo do pôquer atualmente, Bill não era nem nunca se tornou um
jogador. Era uma figura saída da academia preparada para dar ao pôquer um
sentido de organização e estrutura de esporte. No começo de 2010, ele era
exatamente o que a recém-instituída Confederação Brasileira de Texas Hold’Em, a
CBTH, necessitava.
 |
| Igor Federal (à esquerda) e Bill: a CBTH resumida em uma foto |
CBTH
é sinônimo de Bill e Igor Trafane. O primeiro é diretor executivo da entidade.
O “pau pra toda obra” responsável por atender jogadores, orientar empresários
interessados em trabalhar com pôquer, buscar investimentos para a realização de
torneios e realizá-los, além de mais uma dezena de atribuições.
O
segundo é conhecido como Federal. Tudo por causa de uma brincadeira. Convidado
a participar de um home game – aquele
carteadinho caseiro – onde não conhecia quase ninguém da mesa, esperou um
momento de alta tensão no jogo e anunciou aos gritos:
–
Polícia Federal! Todo mundo com a mão na cabeça! A casa caiu! – Exibia uma
carteirinha semelhante à da PF e falava ao celular. – Pode subir que tá tudo
dominado!
Igor
não demorou a cair na risada. Passado o susto, ganhou alguns tapas na cabeça,
bons amigos e o apelido que soa muito adequado à sua atual função.
Igor
Federal é presidente da CBTH, além de empresário, jogador e principal
articulador político da regulamentação do pôquer. Um sujeito simpático e
acessível. Bonachão, até. “Aqui, no pôquer, não tem frescura.” É o homem-forte
do esporte no Brasil.
Especializou-se em franchising, morou nos Estados Unidos e na Inglaterra e,
rapidamente, se tornou um empresário de sucesso com uma rede de escolas de
inglês. Hoje, é dono ou sócio de quase todo tipo de empreendimento que pode ser
ligado ao pôquer: uma empresa de organização de eventos, uma revista e um site
especializados, além de representar os interesses comerciais de um site de jogo
on-line. Respira pôquer 24 horas por
dia.
Em novembro, ele, a CBTH e a IFP
(Federação Internacional de Pôquer, que teve a CBTH como uma de suas criadoras)
escreveram seus nomes na história. Foi organizado o 1º Campeonato Mundial de
Pôquer, na London Eye, a famosa roda-gigante de Londres. Doze países
participaram da “Copa do Mundo”, nas competições de seleções e individuais. O
Brasil foi um deles, chegando ao vice-campeonato com o time formado por
Alexandre Gomes, André Akkari, Caio Pimenta, Christian Kruel, Daniela Zapiello,
Felipe Mojave e Thiago Decano. E o país também conquistou a terceira posição no
torneio individual, com Igor Federal, deixando para trás mais de 130
adversários.
A organização do mundial foi a última
exigência a ser cumprida para que o pôquer ganhe, definitivamente, status de
esporte da mente pela IMSA (Associação Internacional de Esportes da Mente),
assim como xadrez, damas, bridge e go.
A
confirmação deve ser feita na próxima assembleia, no início de 2012. Com isso,
o pôquer fará parte dos Jogos Mundiais dos Esportes da Mente, evento que
acontecerá paralelamente aos Jogos Olímpicos, em Londres, no próximo ano.
No torneio de seleções, a Copa do Mundo
trouxe uma novidade, chamada Duplicate
Poker. É uma modalidade que pretende eliminar de vez o fator sorte. Seis
jogadores de cada seleção jogam em posições diferentes de seis mesas, isoladas
entre si (há, portanto, um brasileiro na posição 1 da mesa A, outro na posição
2 da mesa B, outro na posição 3 da mesa C e assim por diante). As cartas dos
jogadores e comunitárias são as mesmas para todas as mesas.
Por
exemplo, se um brasileiro recebe um par de damas na posição 1 da mesa A, cinco
estrangeiros recebem o mesmo par de damas na posição 1 das outras mesas. O flop, o turn e o river também
serão os mesmos. O que vai determinar derrota ou vitória é o que o
representante de cada país é capaz de fazer com as mesmas cartas que os
adversários de outros países em outras mesas.
“O boom ainda está por vir”, avisa Bill,
animado com as novidades. Ele sente o crescente interesse pelo esporte no dia a
dia da CBTH, que reúne hoje 16 federações estaduais, número que aumenta ano a
ano. Embora ainda seja impossível mensurar quanta gente joga pôquer no Brasil,
a CBTH tem quase seis mil jogadores credenciados, ou seja, aqueles que participaram
de pelo menos uma etapa de um dos dois principais torneios do país, o Brasil
Poker Tour e o BSOP.
Fiel
Na
mesa 23 do evento principal do BSOP Million, Marino está sofrendo. Mal começou
o dia 2 do torneio, às 15h22 do domingo, e ele digita uma mensagem de texto
para a esposa. “Acende uma vela. Estou muito tenso.”
O
motivo de sua tensão não está nas cartas que o dealer lhe entrega ou nas fichas que vão e vêm. Está no peito, no
lado esquerdo da camisa polo. Está a pouco mais de 700 quilômetros dali e chega
até ele pelos fones de ouvido.
Em
Florianópolis, o Corinthians, amor que o acompanha desde os primeiros de seus
53 anos, está prestes a entrar em campo para buscar, contra o Figueirense, o
título brasileiro antecipado. Pelo menos pelas próximas horas, Marino terá o
foco desviado de seu objetivo: vencer o torneio.
Ao
contrário dos grandes jogadores de pôquer, ele não consegue disfarçar a
ansiedade. Levanta, senta, levanta de novo. Esfrega as mãos no rosto. Coça o
cavanhaque branco. A todo momento, muda a posição do boné e dos extravagantes
óculos escuros de aro branco. Aperta o fone de ouvido para escutar melhor.
Durante
todo o segundo tempo da partida, Marino não joga sequer uma mão. Apenas paga os
blinds (os “pingos”, apostas
obrigatórias que antecedem a distribuição das cartas). Até que, às 18h51, ele explode sem gritar. Levanta-se da mesa e se
agacha com os punhos cerrados. O movimento brusco faz os óculos voarem para um
lado e o fone de ouvido, quebrado, para outro. O Fluminense empata o jogo
contra o Vasco, placar que daria o título ao Corinthians. Ele está em pé e
completamente fora do que está se passando na mesa.
Mas, sete minutos depois, a luz no
rosto de Marino se apaga. Ele se cala e senta. “Gol do Vasco”, consente
contrariado. A decisão do Brasileirão fica para a semana seguinte. É hora de
voltar ao BSOP Million.
Meia
hora depois, na parada para o jantar, Marino recebe um telefonema. É a esposa.
Palmeirense, ela sabe que tem motivos para se preocupar. O marido fez a
cirurgia de redução do estômago e é hipertenso. Ele, porém, garante que não há
motivos para esquentar a cabeça e provoca, antes de desligar: “semana que vem,
vamos ser campeões em cima de vocês, viu?”.
O
corretor de seguros Marino Sbrissa, hoje figurinha carimbada do mundo do
pôquer, não conhecia o Texas Hold’Em, cinco anos atrás. Mesmo com um histórico
familiar de gerações e gerações interessadas e envolvidas em todo tipo de jogo,
ele tinha em mente a visão comum a grande parte da população. Jogo de azar,
vício que destruía vidas e levava famílias à falência.
Numa tarde de domingo, em 2006, a
família estava reunida em casa, quando os filhos, Armando, então com 21 anos, e
Victor, com 17, foram se despedindo para sair. Marino estranhou. “Vão aonde a
essa hora?”
Os
dois meninos já frequentavam há algum tempo um dos muitos clubes de pôquer da
cidade de São Paulo, mas só naquele dia “lembraram-se” de informar o pai.
Marino esboçou uma discussão: “Senta aqui... Que história é essa?”.
Argumento para cá, argumento para lá,
Armando e Victor convidaram Marino a acompanhá-los no Torneio da Pizza para ver
que não tinha nada demais naquela diversão. O pai não só constatou que não
tinha mesmo, como se apaixonou pelo jogo, que, mal sabia ele, se tornaria o
ganha-pão dos herdeiros.
O clã dos Sbrissa
Os irmãos Sbrissa são da geração Counter Strike, o jogo de video game que virou febre entre os
adolescentes da primeira metade dos anos 2000. As lan houses se popularizaram, organizando corujões que varavam a
noite. Os pais pagavam o pato. Como tinham que buscar os filhos na lan de madrugada, Marino e sua esposa,
Rita, matavam o tempo fazendo uma “fezinha” num bingo das redondezas.
Passou a febre CS, fecharam-se os bingos e, certo dia, Armando e Victor vieram a
conhecer o Texas Hold’Em em um programa do Silvio Santos. De lá para cá, o que
se passou na vida desses dois rapazes educados e informais em seus bermudões e
barbas por fazer, é história, como dizem por aí.
Ao contrário da maioria dos jovens, os
irmãos Sbrissa entraram no mundo do pôquer participando de torneios e cash games (jogos nos quais as fichas
equivalem ao seu valor em dinheiro) presenciais. Os jogos on-line vieram a seguir. Com o tempo, os dois perceberam que, se
quisessem algo mais, precisariam estudar. E eles queriam. Passavam horas
assistindo a mesas pela internet, acompanhavam as estratégias dos ídolos do
pôquer brasileiro, como André Akkari, e tentavam conciliar a paixão nascente com
as atividades triviais do dia a dia, como estudar e trabalhar.
Em 2008, o técnico em redes Armando
completava, descontente, seis anos em uma fundação do governo estadual. Já
jogava cerca de quatro horas por dia, pela internet, quando teve a primeira grande
cravada, como dizem os jogadores de pôquer. Em uma noitada virtual, ele e o
irmão garantiram o primeiro e o segundo lugares de um torneio. Dobradinha que
rendeu 11 mil dólares à família Sbrissa. Em uma só noite.
Armando
não queria mais brincar de jogar pôquer.
Em casa, a notícia da
“profissionalização” do filho mais velho no pôquer não foi bem digerida. Se
para Marino, muito mais habituado ao mundo das cartas, foi difícil de aceitar,
para Rita foi quase traumático. “Ela tiltou”,
brinca o marido.
Ela
trabalhara desde muito nova sempre em busca de estabilidade, carteira assinada,
os sonhos de uma geração. Ouvir as amigas contarem que os filhos estavam se
formando na faculdade e arrumando emprego era um martírio. Para completar, Rita
passou a ter um novo diretor no trabalho. De 27 anos, quase a idade de Armando.
A representação em carne e osso do sucesso profissional que o filho não
almejava.
Armando sabia que estava entrando por
um caminho arriscado. Para convencer os pais, e talvez até a si mesmo, de que
estava fazendo a coisa certa, era fundamental ter resultados. Leia-se:
dinheiro. “Apanhei pra caramba no começo.” Estudar para melhorar seu jogo era,
então, uma obrigação. Victor, nos passos do mais velho, também começou a
estudar. Mais o pôquer do que a publicidade, carreira que não demorou a
abandonar, antes de se formar.
Nordeste
Poker Fest – Uma festa do Poker na terra do sol. Com esse slogan e com uma
premiação garantida de 300 mil reais, o torneio disputado em Fortaleza era o
sonho de consumo dos irmãos Sbrissa em dezembro de 2008.
Marino,
no papel de “paitrocinador”, cuidou da viagem: um pacote turístico de uma
semana para os irmãos. Mas, ainda era preciso dar uma cavalada, como é apelidada a relação entre o jogador (o cavalo) e quem patrocina seu buy in. Normalmente, um “tiozão do
pôquer”, que aposta no sucesso dos garotos para depois dividir com eles os
lucros.
O
cavalo passou selado e os meninos montaram. Armando foi o sexto colocado e
Victor cravou o primeiro lugar. Juntos, teriam trazido do Ceará uma premiação
de mais de 86 mil reais. “Teriam” se a organização do torneio não tivesse lhes
aplicado um calote de quase um terço do valor, manchando a imagem do evento e,
de certa forma, dos irmãos, que precisavam se acertar com o “dono dos cavalos”.
Percalços
à parte, o resultado de Armando e Victor em Fortaleza ajudou a arrefecer os
ânimos de Rita. Aquilo tudo passou a fazer um pouco mais sentido para quem
trabalhara a vida toda e estava se aposentando com um acerto de contas menor do
que o que os filhos ganharam em uma semana.
Do
Nordeste ao Sul. Em um grande torneio latino-americano disputado em
Florianópolis, Victor conheceu um daqueles mecenas do pôquer. Estabeleceram
algumas “cavaladas” em torneios live e
on-line. Nada comparado a um
telefonema que o rapaz recebeu em 2010.
–
E aí, Victor, como tá seu passaporte? Tá tudo em ordem?
–
Tá... – o garoto respondeu, tentando adivinhar o que vinha pela frente.
–
Dá pra você ir buscar um dinheiro pra mim em Portugal?
Depois
de um certo suspense, as coisas ficaram mais claras. A corrida do cavalo iria
mais longe dessa vez. O patrocinador estava disposto a bancar todas as despesas
de Victor, então com 21 anos, no European Poker Tour, um dos maiores torneios
de pôquer do mundo.
Rita,
Marino e até mesmo o próprio Victor se assustaram. O caçula nunca tinha saído
do Brasil, não falava inglês muito bem e iria atravessar o Atlântico sozinho, carregando
nas costas um investimento de 20 mil dólares. “Sonho? Verdade? Vou! Tô aqui pra
isso.”
Daquela
vez, o investimento não teve retorno. Mas, fez Rita chegar a uma conclusão, a
sós com o marido em casa:
–
Nós somos dois loucos.
“Domingo é religioso”
Entre
setembro de 2010 e setembro de 2011, Armando Sbrissa foi uma das sete cobaias
de uma experiência inédita no mundo, batizada de Poker Villa.
Caio
Brites, William Arruda e Marcos Sketch, donos do time profissional de pôquer
4Bet, tiveram uma ideia: instalar no mesmo ambiente, durante um longo período
de tempo, vários jogadores de nível altíssimo com o intuito de estudar e
desenvolver estratégias de jogo dia e noite. E jogar, é claro.
O
lugar escolhido foi uma casa de oito quartos (sendo cinco suítes), oito
banheiros, duas salas, terraço, piscina, hidromassagem, garagem, churrasqueira,
caseiro, empregada, cozinheira, portaria e segurança 24 horas, com vista para o
mar, no Guarujá, litoral de São Paulo. Cada jogador tinha à disposição um
computador de última geração, acoplado a dois monitores de 23 polegadas, para
jogar on-line durante cerca de 10
horas por dia, cinco dias na semana, alimentados por três conexões de internet,
de modo a eliminar o risco de se desconectar em um momento importante do jogo.
Com todas as despesas pagas.
Entende-se
porque Armando repete tanto que a mudança mais importante na decisão de se
tornar profissional não foi financeira e, sim, no estilo de vida. “É unir o
útil ao agradável.”
Os
organizadores justificam a Poker Villa como uma forma de dedicação total para a
rápida evolução do nível dos jogadores. “As situações e mãos que ali
aconteceram são discutidas por todos e podem ser colocadas em prática já no dia
seguinte. Ou seja: uma situação que um jogador comum encontraria apenas uma vez
a cada 10 dias acontecerá 10 vezes mais rápido na casa. Uma situação que
qualquer jogador de pôquer sonharia”, diz o site do programa.
Qualquer
jogador sonharia, mas apenas sete, entre 19 e 29 anos, viveram. “A evolução do
meu jogo foi absurda”, resume Armando. Como nem só de evolução do jogo vive o
homem, os jogadores da Poker Villa ficavam com um quarto do lucro individual
nos torneios on-line. “Tinha bastante
cobrança. O projeto começou perdendo muito dinheiro. Depois, fomos
recuperando.”
 |
| Armando Sbrissa, profissão: jogador de pôquer |
Enquanto
fala, Armando joga dois torneios simultaneamente no site Pokerstars. É cerca de
12h30 de domingo. Começou o expediente. Para quem se admira com o fato de ele
estar se “desdobrando” em duas frentes, ele calmamente explica que chega a
jogar 18 torneios simultâneos. Ou seja, 18 janelinhas abertas nos dois
monitores de 24 polegadas de uma de suas máquinas, precisando tomar decisões a
todo instante. Mas, com uma importante aliada: a tecnologia.
No
escritório dos Sbrissa, que fica no andar de cima do espaçoso sobrado onde mora
a família na zona leste de São Paulo, são quatro computadores e três notebooks,
recheados de softwares especiais para jogadores profissionais de pôquer, com as
estatísticas próprias e dos rivais. “Eu tenho 13 mil mãos desse cara”, conta
Armando, apontando para o cara que está sentado à sua direita na mesa virtual.
Suas decisões, em grande parte, são baseadas neste background.
De
domingo a quinta-feira, Armando acorda por volta do meio dia, sempre pensando
que poderia ter se levantado mais cedo. Almoça e senta-se ao computador para
trabalhar às 14 horas. Seu horário é ditado pela grade de torneios do site onde
joga. São, no mínimo, 10 horas diárias. Cerca de vinte e cinco torneios.
“Domingo
é religioso.” Os principais e mais lucrativos torneios on-line são concentrados nesse dia. “Se tudo der errado, ele só vai
se levantar dessa cadeira às 22 horas”, resume Victor. E se tudo der certo? “Se
tudo der certo, lá pelas 5 horas da manhã, ele vai estar jogando ainda e a
gente vai estar dando cambalhotas aqui do lado.” E eles sabem bem o que é dar
cambalhotas num domingo.
No
dia 31 de outubro de 2010, os irmãos Sbrissa não estavam nem aí para o
Halloween. Armando deixou a Poker Villa, no Guarujá, para trabalhar como
mesário no segundo turno das eleições presidenciais, em São Paulo. Voltou
correndo para casa, em São Paulo, e chegou a três mesas finais de torneios
grandes. Um deles o Sunday Million, uma das mais conhecidas competições on-line. Armando cravou o torneio. E, com
cambalhota ou não, arrebanhou 250 mil dólares.
“Sem
resultado não se consegue convencer ninguém que isso é algo bom, sadio”, assume
Armando, que teve dificuldades para fazer a noiva entender seus horários pouco
convencionais. Ele praticamente não participa de programas familiares e vive
perdendo encontros com a namorada. “Engordei pra cacete”, lamenta-se com uma
caixa de sucrilhos ao lado do monitor.
A
rotina de Victor é diferente. E ele está feliz da vida por isso. “Agora eu
posso ir à academia, dormir legal, não viro noites jogando.” Antes, ele também
fazia parte de um time. Saiu para investir em si mesmo com recursos próprios. Bate
ponto de segunda a sexta, das 16 h às 23 horas, em um clube de pôquer próximo
ao Parque do Ibirapuera. Vai deixando o dinheiro acumular no caixa da casa e, quando
precisa de algum, vai lá e saca. Não tem do que reclamar.
“O
pôquer me abriu portas que se eu tivesse em uma empresa formal não seriam
abertas. Ou pelo menos, levaria muito tempo para serem”, comemora Armando,
lembrando viagens, situações, contatos. Sem falar no aprendizado. “O pôquer te
ensina a lidar com a frustração, por exemplo. Se eu deixar cair um copo e quebrar,
não vou sair gritando e acabar com meu dia. Hoje, eu entendo que essas coisas
acontecem”, filosofa, enquanto monitora de rabo de olho a tela do computador.
Enquanto
joga, Victor se imagina com uma loja, um negócio próprio daqui a dez ou 15
anos. Armando também não pensa em levar essa rotina para sempre. Por outro
lado, não quer ficar tão longe da mesa. “O pôquer, para mim, significou uma
oportunidade de crescer rápido. Não pretendo deixar de ganhar dinheiro com
isso.”
Batendo bola com os ídolos
Talvez
o pôquer seja o único esporte no qual você, peladeiro, terá a oportunidade de
jogar de forma oficial com seus ídolos. E mais, sonhar em ser um deles. Mais
ainda: se houver dedicação, as chances de chegar lá não são tão remotas quanto
se imagina.
No
começo da noite de segunda-feira, penúltimo dia do BSOP Million, um jovem
gerente de soluções de informática de São Paulo lidera o torneio. Criando um
curioso contraste com o tipo físico levemente gordinho, Rafael D’Auria leva na
camiseta os seguintes dizeres: “SOU ATLETA. JOGO POKER”.
Por
enquanto, é apenas um sonho. Mas, o garoto de 24 anos cultiva com seriedade a
vontade de ser jogador profissional de pôquer. “Ainda é cedo”, reconhece, mais
tentando convencer a si mesmo do que aos outros.
A
vitória no maior torneio da América Latina encurtaria e muito o caminho para
realizá-lo. E é nisso que ele pensa, enquanto aproveita o intervalo para comer
um cachorro quente na companhia da mãe, da namorada, da irmã e da
“patrocinadora”. Neste momento, ele é o chip
leader (líder em fichas) entre os 30 jogadores que ainda sobrevivem no
torneio. Já garantiu, pelo menos, seis mil reais. Mas, ele quer mais. Vai
vencer? “Pretendo.”
É
evidente que, depois de quase 30 horas jogando, Rafael está cansado. E ansioso,
embora garanta que toda a ansiedade não se senta à mesa com ele. Uma das
mulheres que o rodeiam tentando ajudá-lo a relaxar é Lucy Raposo, a tal
“patrocinadora”.
Lucy
é sócia da Ludus Luderia, um bar temático em meio às cantinas italianas do
tradicional bairro do Bixiga em São Paulo. Lá, se encontra toda sorte de jogos
de tabuleiro nacionais e importados, com monitores à disposição para ensinar qualquer
pessoa a jogar. Inclusive, pôquer.
É
lá que, toda semana, Rafael joga uma liga de pôquer entre amigos. Não apenas
joga, como estuda o jogo, troca experiências com outros sonhadores atletas de
fim de semana e se prepara o ano todo para a etapa paulistana do BSOP,
patrocinado pelo negócio de Lucy.
O
sistema é simples. Ao longo do ano, os frequentadores pagam uma taxa para jogar.
Lucy não distribui premiações em dinheiro. Premia os vencedores com vales para
serem usados no próprio bar e outros agrados. Uma boa porcentagem do que é
arrecadado vai para uma caixinha que, no fim do ano, é usada para bancar o buy in dos três melhores jogadores do
ano. Em 2011, Rafael foi o segundo melhor. A esta altura do campeonato, ele é o
único dos meninos de Lucy ainda na disputa. E ela jura: “o que ele ganhar é só
dele”.
À
beira da mesa, Débora, uma pequena e jovem senhora de aflitos olhos claros, vai
até o limite permitido e ali permanece, em vigília, há mais de cinco horas. A
mãe de Rafael está ansiosa, mas confiante. “Ele aprendeu comigo”, gaba-se e dá
uma risada nervosa sem tirar os olhos da mesa.
Nela,
uma das únicas três mesas que restam no BSOP Million, o clima também é tenso.
Se por um lado, o passar do tempo ajuda a descontrair os jogadores, que
conversam muito mais do que no início do torneio, por outro, as rixas também se
tornam maiores. Sob o boné e os óculos escuros, Rafael tenta não se indispor
com ninguém. Sabe que a maratona é longa para quem tem grandes ambições.
Para
Rafael, ela chega ao fim, às 2 horas da manhã de terça-feira. Em seu primeiro
BSOP, Rafael foi mais longe do que poderia imaginar. Na 12ª posição, ficou com
pouco mais de 20 mil reais – e com o gostinho de quero mais por não estar entre
os nove que formam à mesa final.
Uma pelada com os amigos
Já
passa das 23h30 de sábado, quando Fábio começa a receber os amigos em sua casa,
no Campo Limpo, em São Paulo. Na espaçosa sala do sobrado, o pai, a mãe e o
tio, descansando no sofá, assistem às últimas do esporte e comentam com
entusiasmo mais uma vitória do Barcelona sobre o Real Madrid.
Um
a um, os amigos de Fábio vão chegando e dominando a cena. Um deles traz uma
bonita toalha de feltro verde para cobrir a mesa do jantar. Outro traz um
baralho cheio de estilo de uma companhia aérea estrangeira. Outro vem com fome
de leão e não demora a devorar um sanduíche e partir para o amendoim. Há também
refrigerante, cerveja, uísque e muita vontade de tirar onda com a galera, no
ritmo do pôquer.
Os
pais se recolhem, o tio fica, e está formada a mesa da noite. Pelo menos uma
vez por mês, a maioria daqueles nove rapazes se reúne para varar a madrugada
jogando. O cacife é baixo, só para dar graça. Dificilmente, alguém ali vai
gastar mais do que dez reais na noite.
“A
gente define as regras antes, como na pelada”, explica o dono da casa. As
regras, no caso, são simples: cinco reais por mil fichas, blinds subindo de 20 em 20 minutos e re-buys (direito a comprar mais fichas quando acabam) até a 1h30. No
fim, o montante será dividido entre os três primeiros. A sorte está lançada.
O
jogo é muito mais falado que nos torneios. As brincadeiras e “tirações” de
sarro são constantes. Muitas vezes, os garotos têm dificuldades de definir o
resultado de uma mão. Bruno, além de dono do baralho, é também quem tem mais
ares de jogador de verdade. Joga toda semana na casa de seu chefe. E mostra conhecimento
do vocabulário do jogo. “Showdown!”,
diz pedindo para os amigos mostrarem as cartas.
A
turma é bem heterogênea. Vai de 17 a 40 anos. Estudante, estagiário, assistente
administrativo, designer, técnico em elétrica, jornalistas, gerentes e diretor
comercial. Desde aqueles que não têm renda nenhuma até os que ganham 10 mil
reais por mês. Uma pequena amostra do alcance do jogo.
Nenhum
deles tem aspirações reais de se tornarem profissionais do pôquer. Conheceram o
jogo nas transmissões da televisão. Jogam, vez ou outra, pela internet. Sempre
com dinheiro fictício. E começaram a bater cartas por um motivo mais do que
nobre.
Há
cerca de um ano e meio, Kiko, um dos mais divertidos da turma, descobriu que
tinha câncer de estômago. Aos 27 anos de idade. Na luta contra a doença, passou
a não poder mais sair para acompanhar os amigos nas festas. “Não por isso”,
pensaram os parceiros, que passaram a se reunir em casa para ficar com Kiko. O pretexto,
inicialmente, foi o video game. Logo,
o pôquer entrou na pauta.
Em
fevereiro de 2011, no entanto, o câncer deu uma última cartada e tirou Kiko da
mesa para sempre. Um baque sem tamanho para todos, mas principalmente para o
melhor amigo: Nem, seu irmão mais novo, de 22 anos.
Nem
é um menino alto astral, talvez o mais brincalhão da turma. Depois de mais de
nove meses, fala sobre o irmão falecido com naturalidade. Relembra, às
gargalhadas, as brincadeiras e as idas aos jogos do Corinthians. Recorda também
como foi difícil voltar a jogar baralho. “O Kiko era um dos que mais gostava de
jogo. E o que ele mais gostava era de blefar...”, conta Nem, trocando
rapidamente a nostalgia pela diversão, que lhe é peculiar. Virou verbo. Quando
um jogador tenta levar os outros na conversa, blefando, está dando uma
“kikada”.
Nem
se afastou do jogo o tempo que julgou necessário. Mas, percebendo que a galera
continuava se divertindo junta ao redor de uma mesa, voltou. E voltou com tudo.
Os
adversários iam saindo um atrás do outro e se entregando às outras duas febres
dos tempos modernos capazes de rivalizar com o pôquer: video game, na grande tela LCD da televisão, e UFC, na transmissão
via internet do notebook. “Nossa o cara quebrou o braço do Minotauro!”
Fazendo-se
de sortudo e levando tudo na brincadeira, Nem permanece à mesa até o fim e
chega a sua terceira vitória em quatro encontros – “No outro, eu não vim”. Leva
para casa a bagatela de 40 reais. E muito mais do que isso em valores que não
se pode contar.
Careca e seu exército
No universo profissional, circulando quase
imperceptíveis (e fazendo de tudo para realmente serem), há um exército que veste
calça, camisa, sapato e gravata pretos, além de um colete azul. São chamados de
dealers, a versão em inglês de sua
profissão. Mas, também atendem por crupiê,
a versão afrancesada, e carteador, para falar em bom português. Na etapa
final do BSOP, são 64.
Na mão destes profissionais, está o
destino dos competidores. É deles a responsabilidade de manter a ordem à mesa.
São eles que embaralham as cartas e pagam as fichas da vitória. Tudo isso sem
se dar ao luxo de bater papo ou fazer amizades à mesa. E sem poder errar.
Felipe Inui, um pequeno oriental com uma
cara esperta e sorridente de quem está se divertindo muito, leu uma reportagem
que anunciava uma profissão em ascensão, na qual havia falta de mão de obra,
que pagava logo de saída R$ 2.500, com direito a uma bela gorjeta –
carinhosamente chamada de capilé – de vez em quando.
Aos 19 anos, ele havia acabado de
largar a faculdade de Engenharia, já tinha feito bicos em marcenaria, lojas de
roupa e de video games, e não sabia o
que fazer da vida. Resolveu apostar. Dois meses depois, já ganha mais do que a
reportagem prometia. Só pelos seis dias de BSOP Million, serão R$ 2 mil.
A família não gosta do novo emprego do
menino. Associa o jogo à “coisa perigosa, de bandido”. Ele pretende voltar a
estudar, só não sabe o quê. No momento, Felipe está curtindo, pensa até em
trabalhar como dealer fora do Brasil.
E, apesar da cara de garoto, ele garante que não perde o controle da mesa. “Se
precisar, eu falo alto.”
Ninguém, no entanto, fala mais alto que
Joubert Camardo, o Careca. Mesmo com mais de 1,80m de altura e com uma careca
branca reluzente, ele quase não é notado quando se veste todo de preto.
É o comandante do exército. Anda de um
lado para o outro com uma planilha na mão, comunicação no ouvido esquerdo, cara
de bravo, dando ordens. “Biel, para a sala dos dealers. Carlinha, mesa 28, Espeto, na 2. César, na 7. E vocês vão
lá pra baixo. Ficam lá 18 minutos, até quando faltar meia hora pro break.”
Dito assim, Careca ganha ares de
carrasco. Nada mais injusto, porém. De perto, descobre-se uma figura com
coração enorme. “Você não quer jantar? Vai jantar. Às sete e quinze, eu preciso
de todo mundo aqui para uma reunião.” Enquanto ele distribui tíquetes para a
refeição dos dealers, o tom é
assertivo, mas muito paternal. “Sou linha dura. Quando tenho que brigar, brigo.
Mas, logo depois, eu passo a mão na cabeça. Sou pai, conselheiro amoroso e
agência de emprego para eles”, diverte-se.
Sentado
à mesa – cena rara nos seis dias de torneio –, Careca elabora a lista dos 40 dealers que vão trabalhar no dia da
grande final. Ele se preocupa em não sobrecarregar ninguém. Escolhe com cuidado
aqueles que vão tomar conta da mesa que é exibida ao vivo pela tevê on-line. Pensa também em fazer piadinhas
para descontrair o ambiente. Ele conhece bem o cansaço que seus comandados
estão sentindo. É o primeiro a chegar e o último a ir embora no BSOP.
Disposição
para trabalhar não faltou quando Careca, a mulher e um filho de três anos de
idade desembarcaram no Japão, em 2001, depois que sua empresa de condicionadores
de ar, em São Paulo, quebrou. “Eu não sabia nem falar ‘obrigado’.”
O
objetivo era um só: fazer dinheiro. Trabalhava 19 horas por dia. Tinha quatro
folgas por mês. Soldava cascos de navios, fabricava pneus e carros. Em seis meses,
tinha casa própria e dois carros na garagem. Até que um acidente de trabalho
com uma empilhadeira lhe rendeu um joelho quebrado e a porta de entrada no
mundo do pôquer.
“No
Japão, se você não trabalha, você não recebe.” E Careca precisava receber. Alguns
amigos, então, lhe pediram para dar cartas em seus jogos de pôquer, em troca de
uns capilés. E gostaram do serviço.
Com
a esposa grávida do terceiro filho, Careca achou que já era hora de voltar.
Chegou ao Brasil sem emprego e, novamente, o pôquer cruzou sua vida. O irmão
mais novo já trabalhava como dealer e
deu a dica: “aprende direito esse negócio que trabalho não vai faltar”.
Ele,
que sempre foi de aprender rápido, se dedicou profundamente a seguir o conselho
do irmão. Hoje, é o responsável pelo treinamento, supervisão e coordenação dos dealers dos maiores torneios do Brasil.
Ganha mais do que se tivesse se formado engenheiro, como chegou a sonhar um
dia.
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| Careca no comando |
“Menos,
menos, menos...” Careca pede silêncio a seu exército. Ele quer começar a
reunião no horário combinado. O objetivo é divulgar a escala de trabalho do
último dia e relembrar algumas orientações. Em poucos minutos, irá começar o
6-Max, um dos torneios paralelos do BSOP que abraçam muitos dos eliminados no
evento principal. Com, no máximo, seis jogadores por mesa, o 6-Max tem
procedimentos ligeiramente diferentes para os dealers.
O
que tira Careca do sério – um pouquinho, pelo menos – é quando alguém fala
junto com ele. “Presta atenção no que eu falo. Quem eu não dei mesa, lá pra
baixo agora.” Em segundos, o bando se dispersa. O “lá pra baixo” é a sala dos dealers. Quando não estão em alguma
mesa, é lá que eles descansam, dormem, comem, assistem a tevê e... jogam.
Pôquer, caxeta, dominó. Um lugar só deles. Nem jogadores, nem parceiros, nem
grande parte do pessoal da organização têm acesso. O segurança, na porta, tem
ordens expressas para não deixar passar ninguém que não vista colete azul. Com
raras exceções.
Careca,
uma das exceções, tem, com seus comandados, reuniões de dar inveja a muitos
especialistas em recursos humanos. “Vocês foram escolhidos a dedo para este
último dia. São os 40 que menos me deram trabalho. São os 40 que mais me
ajudaram. Espero que vocês continuem me deixando orgulhoso, como me deixaram
até agora. Não tive uma reclamação de nenhum dealer neste torneio. Só elogios. É por isso que tenho certeza de
que a melhor equipe de dealers do
Brasil tá aqui, não tá em nenhum outro lugar.” Aplausos, gritos de euforia, alto
astral. O exército está pronto para o último dia de batalha.
Profissão: dealer
Muitos
dos 64 dealers que trabalham no BSOP
carregam na lapela um broche que diz “Dealer Pro”. O nome remete a um sobrado
de esquina, que lembra vagamente um castelinho, na Barra Funda, em São Paulo.
Quem
atende à campainha? O Careca. À paisana, de camiseta polo listrada, calça
jeans, tênis esportivo e barba ligeiramente por fazer. Bem diferente do homem
de preto do BSOP.
Ali,
Careca também dá as cartas. Na Dealer Pro, a única escola de dealers do Brasil reconhecida pela CBTH,
ele é o mestre responsável por formar esses profissionais. Reúne baralhos e
apostilas, enquanto espera a chegada de mais uma turma para a primeira aula.
São, pelo menos, duas por mês. Jovens que pagam R$ 1.600, em troca de duas
semanas de aulas teóricas e práticas, sonhando com vencimentos que podem variar
entre dois e sete mil reais por mês, em uma vida sem horários regrados e com
muitas viagens. E muito trabalho também.
No
Brasil, falta mão de obra especializada em dar as cartas da maneira correta e
com conhecimento total das regras. Com alguma dedicação e empenho, quase a
totalidade dos dealers deixa a escola
diretamente para as mesas de clubes e torneios em todo o país.
Os
candidatos a crupiê vão chegando aos poucos. Em uma pequena turma de quatro
alunos, uma variedade de estilos. Luan trabalha numa metalúrgica e quer ser
jogador profissional. Vanessa não sabe o nome dos naipes do baralho. Bruno é
músico. E uma quarta aluna, que vai acabar largando o curso ainda na primeira
semana. Basicamente, dois tipos de gente: os apaixonados pelo esporte e os que
querem ganhar dinheiro.
No
bate-papo inicial, Careca já deixa aflorar seu lado paizão. “Ah, você mora em
Guaianazes? Então, você vai ganhar uma carona, que eu vou pra casa do meu pai
que mora lá perto.” E Luan, de 19 anos, não consegue esconder o sorriso.
O
lado exigente, porém, também está presente. Careca avisa que vai cobrar
dedicação, atenção e treinamento. E passa uma lista de itens indispensáveis
para um bom dealer: postura,
vestuário, comportamento, aparência, impessoalidade, boca fechada... “E outra
coisa: não tem coisa mais feia que dealer
que fica pedindo caixinha! Deixa que eu peço por vocês...”
Ele
sabe bem a importância de seguir essas orientações. Trabalhando direito e
passando despercebido, Careca é crupiê em cash
games na casa de uma lista de celebridades da tevê e do esporte, que, como
bom dealer, ele prefere não citar.
“Todos os dias, tem cash game em São
Paulo. Eu tenho trabalho todo dia. Não aceito porque não aguento.”
Em
2009, empresários ligados ao pôquer perceberam que o número de casas de jogos e
torneios crescia vertiginosamente e não havia gente para trabalhar neles. A
maioria dos carteadores nacionais carregava uma herança vinda dos vizinhos
argentinos, paraguaios e uruguaios, onde os cassinos não são proibidos. Um
aprendizado informal, no qual erros eram repassados de geração em geração.
Em
2010, fundada em sociedade por Devanir Campos, o DC, e André Schuartz, a Dealer
Pro buscou parâmetros internacionais para criar um método de formação de dealers no Brasil. Principalmente, nos
Estados Unidos, onde André conheceu a profissão.
Quando
cursava administração em Los Angeles, o jovem se deparou com um anúncio no
mural da universidade. Dizia algo como: “Torne-se um dealer e trabalhe em Las Vegas”.
André
sabia muito pouco sobre o jogo, mas tinha uma curiosidade imensa por Las Vegas,
cassinos, dinheiro, mulheres. Não via aquilo como profissão quando fez o curso,
mas achou legal. E, principalmente, achou rentável.
Trabalhou
como dealer nos Estados Unidos por
dois anos, concluiu a faculdade e voltou para o Brasil com uma certeza: queria
trabalhar com o jogo. “Jogo pouco e jogo mal”, confessa. “Eu queria era ganhar
dinheiro e o único lugar em que se ganha dinheiro no pôquer é atrás da mesa.”
Hoje,
tem 35 empregados em duas empresas: a Dealer Pro e a Cassinera, que promete
levar à sua festa toda a estrutura de um cassino, totalmente legalizado por não
envolver dinheiro.
Malandro é malandro, mané é mané
Envolver
dinheiro é tudo que querem os nove sobreviventes do BSOP Million. Melhor
dizendo, todos que estão na mesa final já envolveram bastante dinheiro. O nono
colocado, primeiro a ser eliminado na noite, já garantiu quase 29 mil reais. E isso
é impressionantemente natural para todos eles.
A
composição da mesa final mostra a penetração do pôquer no Brasil. Estão
representadas sete cidades de quatro regiões do país: Apucarana (PR), Jundiaí
(SP), São Paulo, Belo Horizonte, João Pessoa, São Luiz e Manaus.
 |
| Entrevista ao vivo com os integrantes da mesa final |
Eles
são tratados como celebridades. Dão entrevistas ao vivo pela tevê on-line, contam com torcida na
arquibancada de três degraus montada especialmente para a final e têm direito a
uma entrada triunfal com a música que escolherem.
Entre
Nirvana e Black Eyed Peas, o paraibano Flávio Reis, de 23 anos, surge por entre
a fumaça, de blusa de moletom branca e boné, ao som de Malandro é malandro, mané é mané, de Bezerra da Silva. É sua
primeira vez no BSOP.
Malandro
ou não, Flávio chega à mesa final como chip
leader, com mais de oito milhões de fichas. Ele hesita em se definir como
jogador profissional. No twitter, que
ele não para de checar e atualizar durante as mãos, se define: “Estudante de
Gestão Financeira-Uniuol, Poker Player e Apaixonado por Raquel Lima”.
O
menino tímido está confiante. Na noite anterior, teve dificuldade de dormir.
Mais pela ansiedade do que pela gripe que ameaçava chegar em hora imprópria. O
relógio já marcava 5 horas e ele conversava consigo mesmo. “Esse é o meu
momento. Cheguei aonde eu queria.” Acordado, sonhava: “quero me divertir”.
Nos
últimos instantes antes da decisão, usa um netbook para falar com os amigos em
João Pessoa. Naquela noite, pelo menos uma pequena parte da cidade parou à
frente do computador para acompanhar seu filho ilustre.
A
poucos metros de onde está Flávio, Nilton Shibuya olha fixamente para a mesa.
Parece estar fazendo um check list
mental. Ele é o dealer escolhido por
Careca para abrir a mesa final. “Adoro isso! Mesa final sempre dá uma
ansiedade!” diz, genuinamente empolgado, o descendente de japoneses do interior
paulista.
Careca
se aproxima para desejar-lhe sorte e Shibuya dá um tapinha nas costas do chefe.
“Tenho muito a agradecer a este peão aqui.” O coordenador retribui com um abraço
e um beijo no rosto: “boa sorte!”. Neste momento, Shibuya só pensa em fazer o
seu melhor.
A
mesa final é tensa. Mais fold
(desistência) do que jogo. Ninguém se arrisca muito. A torcida acompanha os
lances por dois grandes monitores LCD colocados acima da mesa. Em pé, ao redor
dela, com microfone na mão, Bill, “pau pra toda obra” que é, narra as jogadas.
Para aqueles que entendem a linguagem do pôquer, é bom que se diga.
 |
| Mesa final do BSOP Millions, com narração do Bill |
“Marco
é o small blind. Thiago é o big blind. Juvaldir fold. Guilis com a ação... Guilis fold. Renato com a ação... Renato dá um raise para 160 mil fichas. Leo fold.
Wagner anuncia o all in. Flávio,
Fábio, Marco, Thiago, Juvaldir e Guilis, todos fold. Renato anuncia call.
Temos all in e call!!! Wagner, com menos fichas, apresenta ás de ouro e 10 de
paus. Renato tem ás de copas e dama de ouros. Renato lidera. Flop: 4 de copas, dama de espadas, rei
de ouros. Renato lidera. Turn é um 6
de espada. Renato à frente. River é
um 5 de paus... Wagner é eliminado na nona posição. Uma salva de palmas para
Wagner!”
É
claro que não se pode comparar pôquer e futebol. Mas, quando um jogador aposta
tudo que tem, o adversário paga e todos se levantam ansiosos à espera das
cartas que o dealer vai revelar, a
emoção toma conta.
Leonardo
“Todasso” Martins, de São Paulo, é quem tem a maior torcida na arquibancada. As
cartas, porém, não estão lhe sorrindo. E quanto mais short ele fica, mais a galera se agita.
Ele
anuncia all in. Guilis paga e Leo vai
para a arquibancada esperar seu destino, enquanto pula e grita abraçado com os
amigos. “Valete! Valete! Valete!” O valete vem e a massa, de sete ou oito
parceiros, entra em êxtase. Leo ganha uma sobrevida no jogo.
Mas,
a tática obrigatoriamente suicida do paulista não o leva muito longe. Uma hora
depois, ele dá all in com ás e rei
contra um par de reis do manauara Marco Antônio. Leo corre para a arquibancada
e pede junto aos seus: “ás, ás, ás, ás, ás”. O dealer apresenta mais um rei, Marco faz a trinca, elimina Leo e
tira onda com dois amigos de Manaus: “ás, ás, ás, ás, ás...”
Flávio
quase não joga. Como tem muito mais fichas que os outros, não entra em bola
dividida. Vai deixando os adversários se matarem. Pelo aparelho celular, tuíta:
“Foco, foco, foco”.
No
intervalo, porém, é cobrado ao telefone. “Você tá muito devagar”, diz a
namorada, que acompanha tudo lá de João Pessoa. Ele sabe que o “devagar” é
parte da estratégia que adotou e não se incomoda. O maior adversário de Flávio,
no momento, parece ser o forte ar condicionado da sala. Tosse, toma remédio,
não quer comer nem beber nada.
Se
a família de Flávio está a 2.800 quilômetros dali, a de Guilherme Garcia, o
Guilis, chega de uma viagem mais curta, às 23 horas. No meio da tarde, a
esposa, a cunhada grávida, o cunhado e a sogra tomaram a decisão de sair de
Apucarana, a cerca de 600 quilômetros de São Paulo, para acompanhar a final.
A
família chega na hora certa. As cartas não estão ajudando Guilis. Ele, então,
arrisca o all in com um par de 7. O
par vira trinca e ele dobra suas fichas, mantendo-se no jogo. A sogra, uma
senhora de seus 60 anos, pula como criança na arquibancada. Ela não entende nada
do que está se passando à mesa, mas é tida como o pé de coelho de Guilis.
Parece
que a sorte trazida do Paraná pela sogra dá resultado. Horas depois, só restam
Guilis e Flávio no heads up, mano a
mano. Duas horas de batalha entre os dois coroam mais de 45 horas de pôquer,
jogadas por ambos ao longo de quase uma semana.
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| Flávio Reis: malandro é malandro, mané é mané |
Com
um par de 8, Flávio, que curiosamente nasceu em 1988, vê se materializar o
resultado das oito horas diárias de jogo on-line
que pratica há três anos. Paga o all
in de Guilis, que tem par de 7. As cartas lhe trazem um full house – uma trinca e um par – e consagram
Flávio Reis como o campeão brasileiro de 2011.
Além
do substancial prêmio em dinheiro, o estudante de Gestão Financeira ganha
também um pacote para jogar o WSOP (Série Mundial de Pôquer) em Las Vegas, em
2012. Lá, só o buy in é de 10 mil
dólares. Lá, o sonho rompe limites.
No topo do mundo
“Ser
parabenizado pelo André Akkari, que é o meu maior ídolo de todos os esportes, e
ainda poder estar junto dele e de outros brasileiros, lutando pelo título no
maior torneio de pôquer do mundo, em Las Vegas, é algo surreal demais. Só uma
palavra pra resumir tudo isso: SONHO! Boa noite, galera.” Foi o que Flávio
escreveu em sua conta no Twitter três dias depois da vitória em São Paulo. Todos
querem ser André Akkari.
Em
27 de junho de 2011, Akkari deixou o cassino em Las Vegas, com a mulher Paula,
as filhas Maria Eduarda e Giovanna, e a certeza de que tinha uma grande chance
nas mãos. Estava onde todo jogador de pôquer do mundo sonha, durante a vida
toda, estar. No heads up da mesa
final de um evento do WSOP, contra o americano Nachman Berlin.
A
família estava tensa, pois Akkari tinha 3,4 milhões de fichas contra 9,4
milhões de Berlin, quando o evento parou para ser retomado no dia seguinte. No apartamento
em que estavam hospedados, ele se prolongou no banho mais que o normal.
Entre
as tantas coisas que passavam em sua cabeça, estava a morte do pai, quase três
meses antes. André, que sempre fora cobrado por ter ótimos resultados on-line e não vencer no live, recebeu a notícia quando estava
indo muito bem em um grande torneio latino-americano no Peru. Precisou abrir
mão da chance de conquistar um bom resultado para voltar ao Brasil.
Naquela
hora, no banho, André, que não é dado a acreditar em coisas sobrenaturais,
começou a sentir algo bom. Ria de gargalhar. Uma alegria over. Uma certeza da vitória tomou conta de seu corpo na forma de
um arrepio estranho, mas gostoso. “Ganhei! Acabou! Não tem pra ninguém.” E ria.
Ria muito. O pai, que tão ausente tinha sido em vida, estava ali com ele. “Acho
que ele pensou: ‘tirei o título do moleque no Peru, agora vou dar uma
ajudinha’.”
Saiu
do banheiro e falou para Paula: “Por que essa cara? Relaxa! Já ganhei! Já é
nosso!”, escutando, em seguida, uma sonora bronca pelo excesso de
autoconfiança. Na sua certeza de vitória, Akkari pouco dormiu naquela noite.
Ficou repassando mentalmente cada mão jogada e fazendo um raio-x completo do
adversário.
“Jogador
de pôquer não acredita em coincidência.” No entanto, não há palavra melhor para
contar que 28 de junho, o dia da grande decisão, seria justamente aniversário
do pai de Akkari. Ele estava focado. Sabia que não podia errar. E não errou.
André
Akkari superou o último dos 2.857 jogadores e, diante de 80 brasileiros na arquibancada,
trouxe para o Brasil 675 mil dólares e o segundo bracelete do WSOP do país (o
primeiro tinha sido ganho por Alexandre Gomes, em 2008). “Não sei o que falar.
Não paro de chorar. Obrigado, Jesus. Obrigado, Brasil. Obrigado, minha família.
Brasil, eu te amo! Vou ter um ataque do coração, não paro de chorar!”, tuitou,
após a vitória.
Em
uma sala ampla e pouco mobiliada de um sobrado no Tatuapé, em São Paulo, cinco
homens esperam para uma reunião com André, sentados em volta de uma bonita mesa
profissional de pôquer ou em um grande sofá branco de três lugares, meio
desgastado. São jogadores do time profissional mantido por Akkari e pessoas que
trabalham com ele na TV Poker Pro, a tevê on-line
da qual é sócio de Gabriel Goffi e do ex-piloto de Stock Car, Gualter Salles.
Nela, são exibidas, pelo menos, quatro horas de programação ao vivo todos os
dias.
Akkari
chega e, em clima de descontração, já escuta uma notícia ruim: é impossível
fazer os caracteres da transmissão da tevê entrarem com a cor e a forma que ele
gostaria. Ele se mantém tranquilo, embora discorde nitidamente do colega.
Sorridente, ele propõe:
–
Vamos fazer um bet (aposta) que é
possível fazer como eu tô falando? – André estende a mão.
–
Quanto? – concorda o amigo, um oriental de pele morena e cabelo arrepiado, visivelmente
acima do peso.
–
Não sei... Não quero te machucar muito.
Todos
riem. Sabem que não é bom negócio entrar em uma aposta alta com alguém que já
ganhou 675 mil dólares em apenas um torneio. André insiste:
–
Vai, eu não quero te machucar. Uma pizza!
Nos
dez minutos seguintes, André Akkari iria apostar mais duas pizzas com seus
empregados/amigos.
–
Pô, essa aposta é freeroll [tipo de torneio gratuito com prêmio em
dinheiro]! Eu ia pagar a pizza de qualquer jeito! Eu sempre pago! –
diverte-se o chefe.
Akkari
tem consciência de que, atualmente, é a grande referência do pôquer no Brasil, mas
nem por isso deixa de ir ao samba ou ao jogo do Corinthians com sua turma.
Mesmo sendo reconhecido em shoppings e aeroportos depois de aparecer em jornais
e programas de tevê, continua ligando para os amigos só para perguntar “tá tudo
bem com você?”. “Tenho 13 amigos trabalhando comigo na TV Poker Pro. Eu procuro
ajudar a todos. Se o cara está precisando e eu sinto que tem a mínima chance de
dar certo, eu trago para trabalhar comigo”, conta.
Vestindo
uma camiseta com a estampa de divertidas caveiras mexicanas e tênis com
detalhes em neon, Akkari parece mais
jovem que seus 37 anos. Vive correndo. Tem um blog. Passa sete meses por ano em
viagens pelo mundo. Comenta para a ESPN. Escreve colunas em revistas
especializadas. Tem um time de pôquer, com cinco jogadores que o ajudam nas
transmissões da TV Poker Pro. E, para janeiro de 2012, promete o lançamento de
uma empresa especializada na organização de eventos de pôquer.
Pelé e Garrincha
Até
os 16 anos, André rodou o Brasil tentando ser jogador de futebol. Viu que
aquele não seria o caminho de seu sucesso e formou-se publicitário. Em 2005,
recebeu a tarefa que mudaria seu destino: desenvolver um site para uma empresa
americana de jogos on-line. Nunca
tinha jogado baralho na vida.
Começou
a brincar com dinheiro fictício e tomou gosto. Achou que valia a pena estudar
um pouco o assunto. Mesmo com a grana curta, comprou um livro sobre o jogo na Amazon. Entrou em torneios que pagavam
quatro centavos de dólar ao vencedor. Jogou tanto que juntou 100 dólares. Achou
que era hora de partir para voos maiores. Perdeu tudo. E voltou aos torneios de
quatro centavos.
Em
agosto de 2005, ganhou seu primeiro torneio polpudo: 2.500 dólares. “Foi uma
emoção violenta. Nenhum outro torneio foi importante como aquele. Fiquei
jogando até as 6 horas da manhã, com vários amigos conectados, torcendo por
mim. E tinha que ir trabalhar às 8 horas!”, lembra André.
Naquele
dia, Akkari foi trabalhar. Mas, logo não iria mais. Em janeiro do ano seguinte,
já estava ganhando mais que o dobro de seu salário no pôquer. Virou jogador
profissional. A mãe entrou em pânico. Conversava com o filho. Pedia ajuda à
nora. “Vocês têm duas meninas pra criar...”
Uma
das pessoas que ajudaram André a convencer a todos que pôquer não é coisa de
bandido foi Fátima Bernardes. No fim de março de 2010, ela entrou no ar com o
Globo Notícia e anunciou que o pôquer passaria a ser reconhecido como esporte
da mente. Akkari, que estava em casa, assistindo a tevê sem saber de nada, hoje
tira onda. “Quer saber se pôquer é esporte? Pergunta pra Fátima Bernardes!”
Brincadeiras
à parte, Akkari vê na organização da Copa do Mundo de Londres, em novembro, a
concretização de um discurso que encampa há pelo menos seis anos. “A intenção
de fazer o melhor pelo país mostra o envolvimento mundial que o evento teve.
Ninguém estava ali pensando em dinheiro.”
Uma
das principais estrelas da seleção brasileira, André partiu para Londres, sentindo-se
como Pelé e Garrincha, em 1958, no primeiro título do país do futebol. O garoto
que sempre quis ser um astro da bola estava pronto para fazer história em
outros campos. “É como se você estivesse vendo de perto uma Fifa nascer. Não
sabemos o que pode ser do pôquer daqui a 20 ou 30 anos.” Para ele, o segundo
lugar foi um excelente resultado para o Brasil. “Sabemos que temos que plantar
o melhor agora, pois novas gerações irão colher tudo isso no futuro”, escreveu
em sua coluna da revista Flop.
Mais
que um bem-sucedido jogador de pôquer, Akkari se tornou uma bandeira do
esporte. Milita com responsabilidade e conhecimento de causa. Sabe que, o seu
bracelete, abriu espaço na mídia para que seja passada uma mensagem, que aos
poucos pode mudar a mentalidade da sociedade sobre o jogo. E, principalmente,
usa seu nome para boas causas.
“Sempre
tentei fazer o bem.” A frase que, na boca de muitos, poderia soar totalmente
pedante, na de Akkari soa natural. É fácil acreditar na cara de bom moço de
olhos claros. Assim como é fácil perceber que aquilo ali é a essência do
campeão. “Um grande ídolo que eu tenho é o Sócrates. Uma vez, eu o ouvi dizer
que não concordava em ser tratado de modo diferente do porteiro do seu prédio.
Eu também não consigo entender isso. Não me sinto melhor do que ninguém porque
tenho um bracelete em casa.”
Akkari
conta com o twitter para mandar seu recado. Mandar e receber. Depois de sua
vitória em Las Vegas, uma pessoa que não o conhecia pessoalmente lhe escreveu
para dizer que estava chorando de emoção. “Você dizer que está chorando pela
vitória de alguém é muito forte! Eu não consigo dizer isso para alguém. É
forte!”
Sem
se colocar como dono da verdade ou dar lição de moral, André usa o espaço
virtual para comentar assuntos do dia a dia e divulga pequenas e grandes ações
sociais, que organiza ou das quais participa.
No
Natal de 2009, ele e mais 11 jogadores profissionais fizeram uma vaquinha,
compraram brinquedos e se vestiram de Papai Noel para entregá-los a crianças
carentes na quadra da escola de samba Rosas de Ouro, em São Paulo. No ano
seguinte, promoveu pela internet um “criança esperança do pôquer”, que juntou
mais de 60 mil reais para o instituto dos pilotos Rubens Barrichello e Tony
Kanaan. Neste Natal, não haverá ação social. Akkari está preparando algo maior.
Em
fevereiro, ele pretende lançar um instituto de investimento para levantar verba
no mundo do pôquer e direcioná-la a outras entidades beneficentes. A ideia é
que, em 2013, o instituto passe a ter um espaço próprio, no Tatuapé, para
trabalhar atividades relacionadas a esporte e artes com crianças carentes.
Talvez
por força do hábito de esconder sentimentos à mesa do pôquer, a alegria de
André ao contar seus projetos não é exagerada. Está genuinamente presente no
sorriso e no olhar. Sem afetação.
Recorde mundial, satisfação pessoal
Depois de ver tantos flops, turns e rivers, o que
mais se quer é ver mais flops, turns e rivers. Desta vez, os seus próprios flops, turns e rivers. Clicar naquele iconezinho
vermelho, há tempos esquecido no desktop
do computador, portanto, não é opção. É quase uma necessidade.
Comemorando dez anos de existência, o
Pokerstars quer quebrar o próprio recorde mundial de torneio com o maior número
de participantes da história. Serão 200 mil vagas a um buy in de apenas um dólar.
Nos dias que antecedem o recorde, são
abertos pequenos torneios-satélite que darão vagas na competição principal.
Mesas de dez jogadores com buy in de
dez centavos de dólar. O vencedor de cada mesa estará no maior torneio da história.
É claro que não há sacrifício nenhum em
se pagar um dólar para entrar diretamente no torneio principal. Mas, o que me instiga
a jogar o satélite é a curiosidade em conhecer o sabor de eliminar, um a um,
nove adversários e conquistar uma vaga. Tento uma, duas, três vezes. Na
terceira, começo a imaginar como jogariam os campeões do BSOP. Busco imitá-los.
Com meus parcos conhecimentos, escolho
a dedo as mãos que vou jogar. Fold, fold, puxo um pote. Fold, fold, fold, puxo outro pote. As coisas vão dando
certo. Estamos mano a mano. Um português e eu.
A sensação de tomar as fichas do último
adversário e se ver sozinho na mesa é quase indescritível. Não se trata apenas
de um dólar ganho. Nas frações de segundo que sucedem a vitória, você se sente
capaz de realizar qualquer coisa que se proponha a fazer.
No domingo, quatro de dezembro, às
15h30, me junto a 199.999 jogadores de todo o mundo para construir o recorde
mundial, registrado pelo Guinness. São 50.804 jogadores a mais do que a marca
anterior, que já durava dois anos.
A velocidade do torneio é turbo, ou
seja, os valores dos blinds sobem em
curtos intervalos de tempo, o que faz com que os competidores sejam eliminados
com uma rapidez espantosa. No primeiro intervalo, com apenas 28 minutos de jogo,
39.507 jogadores já estão fora da disputa pelos prêmios, que somam 250 mil
dólares.
Em uma mesa com cara de reunião da ONU,
com jogadores de Ucrânia, Eslovênia, Reino Unido, Filipinas, Rússia, Bielorrússia
e Nova Zelândia, tento resistir como posso. Com pouco mais de uma hora de jogo,
vejo minhas fichas diminuírem radicalmente depois de uma bad beat (literalmente, falta de sorte): tinha uma sequência,
encontrei um flush (mão na qual se
combinam cinco cartas do mesmo naipe).
Fico, então, só esperando a oportunidade
certa para o all in. Aposto em um par
de valetes. Um adversário da Bielorrússia paga. Ele está à frente, com par de
reis.
No entanto, o flop me traz um valete. Prendo a respiração por alguns instantes.
Nem o turn nem o river atrapalham minha trinca. Mais que dobrei minhas fichas em uma das mãos mais emocionantes da
minha curta vida no pôquer.
O bom momento, no entanto, não durou
muito. Uns dez minutos depois, fui obrigado a anunciar all in novamente e perdi, terminando na 46.658ª posição.
Fiquei longe do meu objetivo inicial,
que era estar entre os 12.150 primeiros e ganhar, pelo menos, quatro dólares.
Fiquei ainda mais longe do melhor brasileiro, de apelido “mrgardem”, que ficou
em 23º e levou 600 dólares. E fiquei infinitamente distante da mesa final, que,
com cerca de sete horas de torneio, premiou um jogador russo com mais de 40 mil
dólares (não custa lembrar que ele investiu, no máximo, um dólar).
E mesmo ficando aquém de tudo isso, ao
fim, não há frustração. Há, sim, uma vontade inquietante de puxar uma cadeira,
sentar-se à mesa e ver mais flops, turns e rivers.