- Thiago! Thiago! Ei, Thiago!!!
Eu estava sozinho numa feira de rua, cheia de gente, tomando
um caldo de cana, sob o calor de 35 graus de janeiro. Além disso, existem
milhões de Thiago por aí. Não dei bola para o grito agudo que vinha não sei de
onde.
- Thiagooooo! Thiaaaaagooooo!
Já incomodado com meu nome berrado por aí, virei para ver o
que estava acontecendo. Uma moça linda vinha correndo esbaforida e sorridente.
Nunca a tinha visto na vida. Pronto, não era eu o Thiago que ela queria.
Dei-lhe as costas novamente.
- Thiago! Ei, Thiago! Você mesmo! – tocou de leve o meu
ombro. Era comigo.
Virei e o mundo entrou numa câmera lenta de cinema. Ela
tirou os óculos escuros, revelando os olhos verdes e balançando os
cabelos bem pretos e lisos, sem deixar um instante de sorrir aquele sorriso que
certamente deixava seu dentista orgulhoso. Boca bonita destacada pelo batom
vermelho. Pele branquinha, branquinha, com pintinhas aqui e ali, descendo pelo pescoço. Não era alta,
bem magrinha, cintura fina, seios desenhados com precisão e delicadeza sob uma
blusa de alcinha branca, sutiã aparecendo, shorts jeans curto, os pés lindos e
bem cuidados em sandálias de salto. Um perfume delicioso. Tudo isso a 30 centímetros
do meu rosto, me abraçando demoradamente e com vontade. Um engano que se
desfaria em alguns segundos, mas que poderia durar o dia todo.
- Nossa, Thiago! Que bom te ver! Quanto tempo! Quanto
tempo!!! Nossa! Não tô nem acreditando! – a moça estava genuinamente
emocionada. Colocava a mão no peito, sentindo o coração acelerado.
Eu não sabia exatamente o que fazer. Olhava para um lado e
para o outro, tentando descobrir se alguém estava assistindo àquilo ou se, de
repente, o verdadeiro Thiago estava por ali, pronto para surgir e desfazer
aquela farsa.
- Eu... Eu... – eu não sabia por onde começar. – Eu acho que
não sou quem você tá procurando... – Ela me cortou.
- É você, sim, Thiago! É exatamente você! – me abraçou de
novo, se afastando em seguida, envergonhada.
Muito tempo antes, eu havia morado naquela praça durante
quatro anos. Não seria a primeira vez que alguém daquela época me reconheceria.
Tinha sido assim com o porteiro do meu ex-prédio, com o senhor da banca de
jornais, com a moça que vende sabonetes aromáticos, com o dono do restaurante
por quilo. Mas, de todos eles eu me lembrava. E esquecer uma garota como aquela
que estava na minha frente era simplesmente impossível.
- Olha, moça, me desculpa...
- Não tem problema! Você não deve estar se lembrando de
mim... Já faz tanto tempo! – ela sorria compreensiva, me embaraçando ainda
mais.
- Muito tempo?
- Muuuuuito tempo! Hahahaha – que risada gostosa! – A gente
estudou junto em Apucarana!
A coisa estava ficando séria. Ela havia estudado comigo em
Apucarana, a 500 quilômetros e, pelo menos, 15 anos dali! Logo eu que sempre me
orgulhei de ter uma excelente memória. Ela deve ter percebido meu estado de completa
confusão.
- Relaxa! Foi no Glorinha, ainda na primeira série. Seria
impossível você se lembrar de mim! Faz quase 25 anos! Eu mudei muito, é claro! –
a bela me deu o braço e fomos andando lado a lado, por entre as pessoas. Glorinha
era o apelido da Escola Nossa Senhora da Glória, onde estudei do pré até a
oitava série, o que dava ainda mais credibilidade para aquele encontro surreal.
- Primeira série do Glorinha! Caramba! Mas, eu também mudei
muito! – parei e a encarei por um instante. – É sério que você me reconheceu
aqui, depois de tanto tempo?
- Claro! – ela disse da maneira mais jovial possível, me deu
o braço de novo e continuou caminhando. – Eu nunca me esqueceria de você...
- Nossa! Eu tô completamente embasbacado! Olha... É horrível
isso, mas... eu vou ter que perguntar seu nome! – eu estava tão aturdido que nem
pensava no privilégio de estar caminhando numa das feiras mais frequentadas
de São Paulo de braço dado com a garota mais bonita que por ali passaria
naquele dia ou mês ou, talvez, ano.
- Hihihi... – ela riu, apertou meu braço e olhou pra mim. –
Jaqueline!
- Jaqueline da primeira série do Glorinha! – exclamei,
olhando para o céu e agradecendo a minha sorte.
Continuamos andando a esmo pela feira. Jaqueline era
encantadora e falante. Uma menina que, em cada gesto, cada palavra, cada
sorriso, negava ter a mesma idade que eu. Ela contou que, depois da primeira
série no Glorinha, havia se mudado para alguma cidadezinha do interior de Goiás.
Agora, tinha recém-chegado a São Paulo e estava amando tudo, mas não conhecia
ninguém. Passava o tempo todo sozinha e estava feliz da vida por me encontrar
ali, por acaso.
Tudo estava perfeito. Decidimos sentar para comer e beber alguma coisa. Era sábado e tínhamos todo o tempo do mundo para colocar em dia os últimos 25 anos de nossas vidas.
Tudo estava perfeito. Decidimos sentar para comer e beber alguma coisa. Era sábado e tínhamos todo o tempo do mundo para colocar em dia os últimos 25 anos de nossas vidas.
- Thiago, que lugar incrível! – Jaque – já tinha virado
Jaque, claro – prendia os cabelos num daqueles irresistíveis coques meio
bagunçados no alto da cabeça. Eu estava hipnotizado. – E que calor, hein!?
Eu tinha a levado a um dos meus lugares preferidos da
cidade. Bem simples, com feijoada boa e barata, cerveja de garrafa, música ao
vivo, decoração com cara de praia, pufs feitos de pneus para sentar.
- Como é possível que eu não me lembre de você? Me diz! –
servi o copo dela de cerveja bem gelada.
- Da mesma forma que eu nunca te esqueci! – ela levantou o
copo num brinde, sorrindo quase obscenamente. – Não tem explicação! – completou
depois de tomar um longo gole e lamber a espuma dos lábios.
- Difícil de acreditar... – provoquei.
- Ah, é!? Então, vamos lá... Como eu sei que você morava ali
perto da escola, na rua Noboru Fukushima, que você tem um irmão mais novo e
seus pais são separados...? – ela dizia tudo isso, segurando forte a minha mão e
olhando nos meus olhos, bem séria, para se acabar em risos. – Te assustei, né!?
Eu não sabia o que dizer, fiz que não com a cabeça e fiquei
olhando para a mão dela que ainda segurava a minha. Uma mão pequena, de dedos
finos, bem delicada e firme ao mesmo tempo. Não sei quanto tempo perdi ali, mas
quando levantei a cabeça, ela me olhava com ternura. Sorri.
- Posso te dizer uma coisa? – ela perguntou, e eu abri os
braços como quem diz “vá em frente”. – Eu era apaixonadíssima por você! – ela escondia
o rosto com as mãos, de brincadeira.
- Na primeira série?
- Na primeira série!
- Como assim!? – ri e apontei para uma placa com o nome do
lugar onde estávamos: “Como assim!?”.
- E se eu te falar que sempre fui apaixonada pra você e que
meu sonho era te encontrar de novo um dia...? – ela provocou com os lábios
tocando a borda do copo.
- Duvido! – chamei a garçonete e pedi outra cerveja.
Entre clássicos da música brasileira, muitas outras garrafas
de cerveja, bolinhos de carne seca, risadas e charme, a tarde ia passando. A
conversa era daquelas que você deseja que nunca acabe. Era impressionante como
nossos gostos, experiências e desejos coincidiam. Jaqueline sabia falar e ouvir
na medida certa. Era engraçada, inteligente, perspicaz, atenciosa, charmosa. E
linda, de uma maneira absurda. E eu, completamente apaixonado.
- Sobremesa na minha casa? – ela perguntou, de repente, e eu
não soube identificar ingenuidade ou sensualidade no convite. Gaguejei um
pouco, eu acho.
- Por que não? Hahaha – ri, como se tudo não passasse de uma
brincadeira.
Pagamos e saímos à praça, enquanto o sol estava se pondo. O
céu, em tons de laranja e rosa, estava lindo. O clima, quente e agradável.
- Então, Dona Jaque, a senhorita mora onde?
Ela colocou os óculos e apontou.
- Ali.
- Ali?
- Ali! – ela disse e foi me puxando pela mão.
Senti um arrepio. Jaqueline morava no mesmo prédio onde eu
havia vivido por tantos anos. Meu primeiro endereço em São Paulo. Ela não deu
muita bola, mas brincou.
- Sério? Mais uma coincidência, mais um sinal! Vamos lá... O
sorvete e o bolo nos esperam!
Na recepção, é certo que o porteiro me reconheceu, mas não
respondeu ao meu cumprimento. Pelo contrário, fez uma cara de espanto quando me
viu. Entramos no elevador e, assim que a porta se fechou atrás de mim, Jaque me
beijou com um furor surpreendente. A garotinha havia ficado da porta da rua
para fora. Correspondi. E, por dois minutos infinitos, nos agarramos como se não houvesse
amanhã, alheios às câmeras de segurança. Só fomos interrompidos pelo baque do
elevador chegando ao andar.
- Esse é o seu andar? – perguntei ofegante.
- É! Já sei, já sei... Você vai dizer que é exatamente o
mesmo andar onde você morou... E blá, blá, blá... Ei, vai ficar aí? – De fora do elevador, Jaque
segurava a porta, enquanto eu olhava para o botão com o número oito, incrédulo.
- Se você disser que o seu apartamento é o 82, eu juro que
vou embora. – eu disse, sorrindo nervosamente.
- Jura que você vai abrir mão do sorvete e do bolo de
chocolate por causa de uma bobagem dessa...? – ela parou no corredor, falando
com jeitinho adolescente, levantando o pé e enrolando o cabelo no dedo.
Parecia impossível, mas era real. Jaqueline, a Jaqueline da
primeira série do Glorinha, acabara de alugar exatamente o mesmo apartamento
onde eu morei assim que me mudei para São Paulo.
Entre o tesão e a sensação de que havia algo errado, optei pelo primeiro. A porta mal fechou e Jaqueline me empurrou para o sofá. Em um segundo, me dei conta de que todos os móveis estavam nas mesmas posições de quando eu vivi ali.
Entre o tesão e a sensação de que havia algo errado, optei pelo primeiro. A porta mal fechou e Jaqueline me empurrou para o sofá. Em um segundo, me dei conta de que todos os móveis estavam nas mesmas posições de quando eu vivi ali.
Ela sentou de pernas abertas no meu colo, me beijando e me
enlouquecendo. Tirou minha camiseta e ficou em pé de frente para mim, segurando
minha cabeça. Lentamente, tirou as sandálias e a blusa de alcinha, revelando
uma barriga perfeita. Enquanto soltava o sutiã, caminhou para o quarto, o
caminho que eu tão bem conhecia.
- Vem! – ela me chamou com voz baixa e sensual, para o
quarto escuro.
Confesso que hesitei por um instante. Levantei do sofá
devagar, olhando cada canto daquele cômodo. Era tudo muito confuso, tudo muito
igual a anos atrás. E ainda mais assustador foi notar na parede da sala o
quadro com a minha foto dos meninos jogando futebol no Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar ao
fundo, que eu havia deixado no lixo quando me mudei dali.
- Você não vem, Thi? Vem!
Instintivamente, caminhei em direção ao quarto, sem entender
exatamente o que estava acontecendo. Quando entrei, a luz se acendeu e a porta
do armário se abriu. Maria, a ex-namorada com quem ali vivi por alguns meses
e quem eu não via desde que ali havíamos terminado, muitos anos antes, saiu de dentro dele e me matou com oito facadas.

