segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Barão de Capanema

- Thiago! Thiago! Ei, Thiago!!!

Eu estava sozinho numa feira de rua, cheia de gente, tomando um caldo de cana, sob o calor de 35 graus de janeiro. Além disso, existem milhões de Thiago por aí. Não dei bola para o grito agudo que vinha não sei de onde.

- Thiagooooo! Thiaaaaagooooo!

Já incomodado com meu nome berrado por aí, virei para ver o que estava acontecendo. Uma moça linda vinha correndo esbaforida e sorridente. Nunca a tinha visto na vida. Pronto, não era eu o Thiago que ela queria. Dei-lhe as costas novamente.

- Thiago! Ei, Thiago! Você mesmo! – tocou de leve o meu ombro. Era comigo.

Virei e o mundo entrou numa câmera lenta de cinema. Ela tirou os óculos escuros, revelando os olhos verdes e balançando os cabelos bem pretos e lisos, sem deixar um instante de sorrir aquele sorriso que certamente deixava seu dentista orgulhoso. Boca bonita destacada pelo batom vermelho. Pele branquinha, branquinha, com pintinhas aqui e ali, descendo pelo pescoço. Não era alta, bem magrinha, cintura fina, seios desenhados com precisão e delicadeza sob uma blusa de alcinha branca, sutiã aparecendo, shorts jeans curto, os pés lindos e bem cuidados em sandálias de salto. Um perfume delicioso. Tudo isso a 30 centímetros do meu rosto, me abraçando demoradamente e com vontade. Um engano que se desfaria em alguns segundos, mas que poderia durar o dia todo.

- Nossa, Thiago! Que bom te ver! Quanto tempo! Quanto tempo!!! Nossa! Não tô nem acreditando! – a moça estava genuinamente emocionada. Colocava a mão no peito, sentindo o coração acelerado.

Eu não sabia exatamente o que fazer. Olhava para um lado e para o outro, tentando descobrir se alguém estava assistindo àquilo ou se, de repente, o verdadeiro Thiago estava por ali, pronto para surgir e desfazer aquela farsa.

- Eu... Eu... – eu não sabia por onde começar. – Eu acho que não sou quem você tá procurando... – Ela me cortou.

- É você, sim, Thiago! É exatamente você! – me abraçou de novo, se afastando em seguida, envergonhada.

Muito tempo antes, eu havia morado naquela praça durante quatro anos. Não seria a primeira vez que alguém daquela época me reconheceria. Tinha sido assim com o porteiro do meu ex-prédio, com o senhor da banca de jornais, com a moça que vende sabonetes aromáticos, com o dono do restaurante por quilo. Mas, de todos eles eu me lembrava. E esquecer uma garota como aquela que estava na minha frente era simplesmente impossível.

- Olha, moça, me desculpa...

- Não tem problema! Você não deve estar se lembrando de mim... Já faz tanto tempo! – ela sorria compreensiva, me embaraçando ainda mais.

- Muito tempo?

- Muuuuuito tempo! Hahahaha – que risada gostosa! – A gente estudou junto em Apucarana!

A coisa estava ficando séria. Ela havia estudado comigo em Apucarana, a 500 quilômetros e, pelo menos, 15 anos dali! Logo eu que sempre me orgulhei de ter uma excelente memória. Ela deve ter percebido meu estado de completa confusão.

- Relaxa! Foi no Glorinha, ainda na primeira série. Seria impossível você se lembrar de mim! Faz quase 25 anos! Eu mudei muito, é claro! – a bela me deu o braço e fomos andando lado a lado, por entre as pessoas. Glorinha era o apelido da Escola Nossa Senhora da Glória, onde estudei do pré até a oitava série, o que dava ainda mais credibilidade para aquele encontro surreal.

- Primeira série do Glorinha! Caramba! Mas, eu também mudei muito! – parei e a encarei por um instante. – É sério que você me reconheceu aqui, depois de tanto tempo?

- Claro! – ela disse da maneira mais jovial possível, me deu o braço de novo e continuou caminhando. – Eu nunca me esqueceria de você...

- Nossa! Eu tô completamente embasbacado! Olha... É horrível isso, mas... eu vou ter que perguntar seu nome! – eu estava tão aturdido que nem pensava no privilégio de estar caminhando numa das feiras mais frequentadas de São Paulo de braço dado com a garota mais bonita que por ali passaria naquele dia ou mês ou, talvez, ano.

- Hihihi... – ela riu, apertou meu braço e olhou pra mim. – Jaqueline!

- Jaqueline da primeira série do Glorinha! – exclamei, olhando para o céu e agradecendo a minha sorte.

Continuamos andando a esmo pela feira. Jaqueline era encantadora e falante. Uma menina que, em cada gesto, cada palavra, cada sorriso, negava ter a mesma idade que eu. Ela contou que, depois da primeira série no Glorinha, havia se mudado para alguma cidadezinha do interior de Goiás. Agora, tinha recém-chegado a São Paulo e estava amando tudo, mas não conhecia ninguém. Passava o tempo todo sozinha e estava feliz da vida por me encontrar ali, por acaso. 

Tudo estava perfeito. Decidimos sentar para comer e beber alguma coisa. Era sábado e tínhamos todo o tempo do mundo para colocar em dia os últimos 25 anos de nossas vidas.

- Thiago, que lugar incrível! – Jaque – já tinha virado Jaque, claro – prendia os cabelos num daqueles irresistíveis coques meio bagunçados no alto da cabeça. Eu estava hipnotizado. – E que calor, hein!?

Eu tinha a levado a um dos meus lugares preferidos da cidade. Bem simples, com feijoada boa e barata, cerveja de garrafa, música ao vivo, decoração com cara de praia, pufs feitos de pneus para sentar.

- Como é possível que eu não me lembre de você? Me diz! – servi o copo dela de cerveja bem gelada.

- Da mesma forma que eu nunca te esqueci! – ela levantou o copo num brinde, sorrindo quase obscenamente. – Não tem explicação! – completou depois de tomar um longo gole e lamber a espuma dos lábios.

- Difícil de acreditar... – provoquei.

- Ah, é!? Então, vamos lá... Como eu sei que você morava ali perto da escola, na rua Noboru Fukushima, que você tem um irmão mais novo e seus pais são separados...? – ela dizia tudo isso, segurando forte a minha mão e olhando nos meus olhos, bem séria, para se acabar em risos. – Te assustei, né!?

Eu não sabia o que dizer, fiz que não com a cabeça e fiquei olhando para a mão dela que ainda segurava a minha. Uma mão pequena, de dedos finos, bem delicada e firme ao mesmo tempo. Não sei quanto tempo perdi ali, mas quando levantei a cabeça, ela me olhava com ternura. Sorri.

- Posso te dizer uma coisa? – ela perguntou, e eu abri os braços como quem diz “vá em frente”. – Eu era apaixonadíssima por você! – ela escondia o rosto com as mãos, de brincadeira.

- Na primeira série?

- Na primeira série!

- Como assim!? – ri e apontei para uma placa com o nome do lugar onde estávamos: “Como assim!?”.

- E se eu te falar que sempre fui apaixonada pra você e que meu sonho era te encontrar de novo um dia...? – ela provocou com os lábios tocando a borda do copo.

- Duvido! – chamei a garçonete e pedi outra cerveja.

Entre clássicos da música brasileira, muitas outras garrafas de cerveja, bolinhos de carne seca, risadas e charme, a tarde ia passando. A conversa era daquelas que você deseja que nunca acabe. Era impressionante como nossos gostos, experiências e desejos coincidiam. Jaqueline sabia falar e ouvir na medida certa. Era engraçada, inteligente, perspicaz, atenciosa, charmosa. E linda, de uma maneira absurda. E eu, completamente apaixonado.

- Sobremesa na minha casa? – ela perguntou, de repente, e eu não soube identificar ingenuidade ou sensualidade no convite. Gaguejei um pouco, eu acho.

- Por que não? Hahaha – ri, como se tudo não passasse de uma brincadeira.

- Tô falando sério! Tenho sorvete e bolo de chocolate! – pela enésima vez, ela segurava minhas mãos e arregalava os olhos. Era irrecusável.

Pagamos e saímos à praça, enquanto o sol estava se pondo. O céu, em tons de laranja e rosa, estava lindo. O clima, quente e agradável.

- Então, Dona Jaque, a senhorita mora onde?

Ela colocou os óculos e apontou.

- Ali.

- Ali?

- Ali! – ela disse e foi me puxando pela mão.

Senti um arrepio. Jaqueline morava no mesmo prédio onde eu havia vivido por tantos anos. Meu primeiro endereço em São Paulo. Ela não deu muita bola, mas brincou.

- Sério? Mais uma coincidência, mais um sinal! Vamos lá... O sorvete e o bolo nos esperam!

Na recepção, é certo que o porteiro me reconheceu, mas não respondeu ao meu cumprimento. Pelo contrário, fez uma cara de espanto quando me viu. Entramos no elevador e, assim que a porta se fechou atrás de mim, Jaque me beijou com um furor surpreendente. A garotinha havia ficado da porta da rua para fora. Correspondi. E, por dois minutos infinitos, nos agarramos como se não houvesse amanhã, alheios às câmeras de segurança. Só fomos interrompidos pelo baque do elevador chegando ao andar.

- Esse é o seu andar? – perguntei ofegante.

- É! Já sei, já sei... Você vai dizer que é exatamente o mesmo andar onde você morou... E blá, blá, blá... Ei, vai ficar aí? – De fora do elevador, Jaque segurava a porta, enquanto eu olhava para o botão com o número oito, incrédulo.

- Se você disser que o seu apartamento é o 82, eu juro que vou embora. – eu disse, sorrindo nervosamente.

- Jura que você vai abrir mão do sorvete e do bolo de chocolate por causa de uma bobagem dessa...? – ela parou no corredor, falando com jeitinho adolescente, levantando o pé e enrolando o cabelo no dedo.

Parecia impossível, mas era real. Jaqueline, a Jaqueline da primeira série do Glorinha, acabara de alugar exatamente o mesmo apartamento onde eu morei assim que me mudei para São Paulo. 

Entre o tesão e a sensação de que havia algo errado, optei pelo primeiro. A porta mal fechou e Jaqueline me empurrou para o sofá. Em um segundo, me dei conta de que todos os móveis estavam nas mesmas posições de quando eu vivi ali.

Ela sentou de pernas abertas no meu colo, me beijando e me enlouquecendo. Tirou minha camiseta e ficou em pé de frente para mim, segurando minha cabeça. Lentamente, tirou as sandálias e a blusa de alcinha, revelando uma barriga perfeita. Enquanto soltava o sutiã, caminhou para o quarto, o caminho que eu tão bem conhecia.

- Vem! – ela me chamou com voz baixa e sensual, para o quarto escuro.

Confesso que hesitei por um instante. Levantei do sofá devagar, olhando cada canto daquele cômodo. Era tudo muito confuso, tudo muito igual a anos atrás. E ainda mais assustador foi notar na parede da sala o quadro com a minha foto dos meninos jogando futebol no Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar ao fundo, que eu havia deixado no lixo quando me mudei dali.

- Você não vem, Thi? Vem!

Instintivamente, caminhei em direção ao quarto, sem entender exatamente o que estava acontecendo. Quando entrei, a luz se acendeu e a porta do armário se abriu. Maria, a ex-namorada com quem ali vivi por alguns meses e quem eu não via desde que ali havíamos terminado, muitos anos antes, saiu de dentro dele e me matou com oito facadas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tie-dye

Na esquina da alameda dos Pamaris com a rua dos Chanés, Funk Como Le Gusta vai tocar às 23 horas da quinta-feira. Uma hora antes, a casa já recebe um bom público, quando a moça entra. Não chama a atenção exatamente pela beleza, embora tenha um corpo em boa forma e carregue um certo charme em seu jeito perdido. Mas, está sozinha, algo um tanto inédito naquele lugar e naquela noite.

Ela parece procurar por alguém, olhando sem enxergar, como uma míope que renega os óculos. Senta-se de costas para o balcão logo ao lado da entrada, cruza as pernas de panturrilhas bem torneadas e fica ali como a esperar. Os cabelos bem pretos, cacheados e cortados na altura dos ombros estão molhados e um lápis preto delineia os olhos.

A moça usa um vestido rosa de frente única com estampa tie-dye, que vai até um pouco acima dos joelhos, e sandálias bege de salto alto, além de um bracelete metálico enrolado no bíceps esquerdo. As unhas dos dedos das mãos estão pintadas de preto. Nos pés, um vermelho intenso. Uma garota simples, por volta dos seus 30 anos, talvez menos, que passaria despercebida não fosse o fato de estar sozinha. E assim permanecer.

No balcão, não bebe. Nem sorri. Mostra-se até um pouco desconfortável. Míope ou alheia, não corresponde os olhares dos rapazes desacompanhados. Parece admirar a bonita decoração inspirada pelos ritmos de New Orleans. A casa é ampla, com uns postes baixinhos imitando os de rua e iluminando as mesas distribuídas entre o salão principal e o mezanino. 

"Há duas possibilidades: ou ela está esperando alguém ou está esperando você", comenta um observador, tentando ser engraçado. "Há três possibilidades: ou ela está esperando alguém ou está esperando você ou está esperando alguém, mas pode mudar ideia se você chegar primeiro", retruca outro especulador. Mas, ninguém se aproxima da moça de gestos contidos e olhar sem foco.

A banda começa a tocar e, em minutos, o espaço destinado à pista de dança está tomado pelas pessoas que se balançam ao ritmo swingado da música. A atenção está toda no palco, nas performances, no som dos metais. A moça do vestido rosa deixa o balcão no fundo do salão para se posicionar ao pé da escada ao lado direito do palco. Dança timidamente, ainda desacompanhada. Os olhos na banda.

"Cara, ela continua sozinha!", alguém comenta e realimenta outra inócua rodada de adivinhações. "Deve conhecer um músico da banda." "Louca." "Puta?" A leviana dúvida atiça o imaginário, abre novas possibilidades e faz pensar em quanta curiosidade uma mulher sozinha na noite pode gerar. Talvez ela esteja ali simplesmente porque gosta da música e não arrumou companhia para ir ao show, mas essa hipótese não foi cogitada por quem observa.

No bis da banda, ela, que não foi vista com bebidas, já dança mais solta e até filma os músicos com o celular. Finalmente alguém se aproxima - um sujeito careca de barba rala cuidadosamente desenhada, vestindo uma camisa pólo azul bebê com listras rosa finas que marca um pouco a barriga saliente. Ele toma uma Stella Artois e parece dizer coisas engraçadas. Ela é receptiva, embora se mantenha um pouco distante. Mais escuta do que fala, mas a conversa flui. Devem falar da banda, do lugar e da vida. 

O show termina, o ambiente se torna mais iluminado e o DJ assume, colocando Jor Ben Jor para cantar W/Brasil. Rapidamente a pista começa a esvaziar, mas os dois permanecem no mesmo lugar, numa conversa ao pé do ouvido. Ela sorri, se torna mais falante e gesticula mais. Com o pretexto de não conseguir ouvi-la direito, ele se aproxima e põe a mão nas costas dela. Encostada na escada, a moça faz charme, enrola seus cachos com o dedo. Como em tantas outras vezes durante a conversa, o rapaz aponta com a boca da long neck o outro lado da casa, onde, provavelmente, estão seus amigos. E assim, lentamente, o jogo se desenvolve por uma hora ou mais.

Neste momento, a fila do caixa é a área mais povoada do lugar. No balcão, uma curiosa dupla formada por uma garota muita alta descalça e outra muita baixa de óculos, ambas bonitas, dança de olhos fechados, com movimentos largos, ora sensuais, ora alcoolicamente cambaleantes. São a atração final de uma noite que encaminha seu desfecho.

A pista tem meia-dúzia de amigos empolgados, quando a moça de vestido rosa de estampa tie-dye enfia a mão em sua bolsa, procurando alguma coisa. De lá, ela tira um CD. Um objeto quase em desuso, que, na saideira de uma noite "como le gusta", serve para responder as especulações de quem ainda a observa e desfazer grande parte do seu encanto misterioso.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Woody e Gambit no Cemitério de Congonhas

Romário ou Gambit, dos X-Men. Se alguém me perguntasse quem eu queria ser quando tinha dez anos de idade, essa poderia ser a resposta. Romário ganhou a Copa e não tem ligação direta com o assunto que me fez voltar a escrever depois dos recreios de fim de ano. Gambit, sim.

No fim daquele ano, não lembro se 1994 ou 1995, fiz minha mãe saber o que eu queria de Natal: o boneco ("hominho", dizíamos) do Gambit, um herói meio anti-herói dos X-Men, o meu desenho animado preferido então. Ela foi atrás, mas voltou da loja com a triste notícia de que não tinham o Gambit. Mas, tinham o Forge, personagem descendente de índios Cheyenne, bem coadjuvante, que ela comprou e embrulhou para me dar na noite do dia 24. 

Fiquei frustrado, é claro. Mas, tive alguns dias para lidar com isso e, no Natal, já estava até contente em ganhar o Forge. Abri o presente e... ali estava o Gambit, numa troca de última hora! Uma surpresa maior do que o anúncio da contratação do Dudu pelo Palmeiras, para não perder a chance de tocar no tema mais quente do mundo do futebol neste fim de semana.

Eu já tinha um sem-número de hominhos do Comandos em Ação e de outros poderosos heróis e bravos soldados, alguns sem perna, outros com o braço mastigado pelo cachorro de algum vizinho. Além disso, estava quase na hora de deixar de brincar com eles, iria começar a ficar meio feio para um moleque daquele tamanho. Mas, mesmo assim, ganhar o Gambit foi especial. Tanto que até hoje, vinte anos depois, ele ainda está no meu armário, como esteve em tantas casas onde morei. Um sobrevivente daquela época. Um discreto elo de ligação com o que passou.

Lembrei-me disso tudo vendo a cena final do filme Toy Story 3, semana passada. Andy, a caminho da faculdade, doa seus brinquedos mais queridos para uma garotinha que, sem dúvida, vai cuidar bem deles. E só ele sabe - ou só nós sabemos - o quanto foi difícil para ele quando a menina levantou o braço do caubói Woody para lhe dar adeus.

Graças a Deus, na vida real, eu nunca perdi ninguém muito próximo de mim. Não conheço essa dor de perto. No entanto, desde cedo, me acostumei a lidar com despedidas. Talvez mais cedo do que eu tenha me dado conta, já que nasci numa cidade onde nunca morei. Mas, o fato de estar acostumado aos "adeuses" não os torna mais fáceis na prática.

O fim do filme foi como digitar a palavra "despedida" no HD da minha memória e clicar em pesquisar. De pronto, vieram tantas coisas. Soltas, sem uma ligação lógica entre si, remotas num passado distante.

O pai calça o sapatinho no irmão e diz: "quando vocês voltarem de viagem, o papai não vai estar mais aqui". Novelas, filmes e livros acabam e os personagens que faziam companhia já deixam um vazio impossível de ser preenchido. A escola onde estudou por quase dez anos não tem Ensino Médio, para onde vão os colegas?

Da janela do banco de trás de uma perua Escort abarrotada de roupas, acessórios para casa e sonhos, vê a mãe e a avó chorarem no portão de casa, uma cena talvez inédita. De dentro do ônibus onde vai passar as próximas 17 horas, vê a namorada dando tchau, sem saber o que pode ou não ser prometido num futuro incerto. O abraço na amiga idosa no aeroporto: "obrigado e até um dia?". 

O texto dramático e metido a mártir para - tentar - manter a cabeça erguida ao mudar de emprego. A namorada cruza o portão de embarque, com uma data - não muito próxima - marcada para voltar e um continente inteiro de saudades. A dificuldade em voltar para a sua casa a cada vez que vai para a casa da mãe. A incapacidade um tanto ridícula de se desfazer do que já não serve mais: tralhas, roupas velhas, sonhos antigos.

E, de repente, estou ali, na pequena varanda - talvez 0,60m por 2,10m? -, como tantas outras vezes, olhando privilegiadamente o horizonte de uma cidade sempre acusada de não ter horizonte e experimentando uma nova sensação de despedida. Não imaginava que seria tão difícil deixar para trás uma vista.

Durante três anos e cinco meses, tudo era desculpa para estar ali, diante daquele belo panorama. Era ali que eu via um novo dia começar, observava as cores e ouvia os sons da noite, fazia orações em momentos críticos, agradecia os dias felizes, pedia proteção aos meus, tomava cerveja escutando música num sábado de manhã, tomava vinho pensando na vida numa segunda à noite, fugia das pessoas para falar ao telefone, ouvia histórias de vida, tinha conversas filosóficas com outras pessoas ou comigo mesmo e fotografava. Perdi a conta do número de vezes que fotografei aquela vista. Fotografei pela beleza da paisagem, fotografei para exibir meu privilégio, fotografei porque era dia e fotografei porque era noite.

Nos últimos 12 anos e meio, me mudei umas oito vezes mais ou menos. Algumas mudanças foram ligeiras e felizes. Outras foram pesadas e deram vontade de desistir. Houve medo. Houve expectativa. Sonhos abriam as portas de novos apartamentos. E, às vezes, eram deixados ali mesmo na saída, porque já não cabiam mais nas caixas e malas que partiam para um novo endereço.

Ok, diante de tantas outras mudanças, a atual é bem mais simples em teoria. Tudo bem, a nova casa está a apenas nove quilômetros da antiga. Eu sei que as coisas podem ser bem mais práticas e divertidas no novo CEP. A vida sempre segue, é claro. E, felizmente, para um caminho melhor, quase sempre. Mas, me parece que algumas coisas a gente leva na bagagem, mesmo sem perceber, entre roupas, sapatos, xícaras e cartões antigos. 

Tenho a impressão que a vista do Cemitério de Congonhas vai fazer companhia ao Gambit em alguma caixa de papelão.