domingo, 28 de setembro de 2014

A parábola dos talentos... Da vodca cara e do miojo

0h45
Sentado, era possível reparar com mais cuidado nas fitas do Senhor do Bonfim enfeitando todo o teto do bar, que já estivera lotado, mas àquela hora tinha um clima de fim de festa. Até o Sportvnews já tinha saído do ar.

- A vida não pode ser só trabalho. E o trabalho não pode ser a nossa vida - ele falava e fazia gestos pretensamente didáticos sobre a caixa com os restos do bolo. - A gente tem inúmeros talentos. E o trabalho não dá conta de aproveitar todos... Nunca vai dar! Tem que ter outros espaços para a gente se realizar...

Ficou um silêncio de alguns segundos. Pareceu mais.

- Gostei disso... - ela disse, olhando através dele, e apontando com o dedo.

- Gostou do cara empilhando os engradados de cerveja? - a pergunta era menos para fazer graça e mais porque ela realmente olhava o garçom rastafári empilhando engradados de Original a menos de três metros atrás dele.

- Não! Gostei dessa coisa de talentos... De termos um lugar para os talentos... - falava pra baixo, como se contasse um segredo, olhar perdido, já meio lenta pelo cansaço e pela bebida. Uma vez mais, o lembrou a Ivete Sangalo.

- É! Tem que ter! - assertivo, a sabedoria em pessoa.

- E o que você faz pra isso? - ela perguntou, com olhos de quem queria mesmo aprender.

- Ah... Eu penso que sou artista... - a velha mania de parecer humilde soava cada vez menos convincente.

- Tá! Mas, onde você joga seus talentos...?

- Eu criei um blog, por exemplo. Uma vez por semana eu tento escrever alguma coisa legal lá... - falando assim, lhe pareceu uma coisinha tão insignificante.

- Hum...

- A ideia é tentar contar as coisas da vida real como se fossem parte de um romance. - não era preciso explicar mais que isso...

- Gostei dessa coisa de contar como se fosse um romance. - parecia reflexiva. - Você vai escrever sobre isso?

Olhou meio sem entender, meio surpreso.

- É! Você vai escrever sobre essa conversa, sobre agora?

Não tinha pensado nisso. Ninguém tinha lhe perguntado isso. A pergunta ficou no ar. Próximo talento.

***

2h10
- Faz o seguinte: volta de ré e para aqui mesmo... - ele ouvia as palavras do amigo e se perguntava de onde o outro, virando a segunda noite seguida, com a mesma roupa há dois dias, tirava aquela empolgação que ele, àquela hora, não conseguia acompanhar.

- Pô, mas R$ 50?!?!? - ele já estava meio puto, comportamento padrão para coisas que não estavam no script.

- Não, não... Não tem mais vaga no de R$ 50... Para nesse aqui mesmo!

- R$ 70!!!! - puto e dando ré numa avenida larga e movimentada de São Paulo.

- É! Eu pago, porra... Para aí, para aí! Vai bater!

Não bateu.

- Eu vou lá dentro e volto pra te buscar. Me espera na porta. - saiu correndo antes de completar a frase.

Setenta reais à vista e em cash, deixando a chave. Um tumulto de gente tentando em vão ser vip. Uma garota de vestido muito curto, barrada na porta junto com sua amiga de vestido ainda mais curto, chantageava ao telefone alguém que certamente (não) esperava por ela lá dentro: "então, tá! A gente vai embora, então!". O segurança só abria os braços. O camarote, pelo qual as pessoas deviam ter pagado umas centenas de reais, já estava fechado. Não havia vagas. "Fechou à 1h30", explicavam.

Sentou-se na mureta, contrariado, prevendo o pior, na volta para casa setenta reais mais pobre, e pensando em maneiras de controlar a ira em nome da amizade. Foi quando o amigo voltou com uma pulseira amarela, que ali reluzia mais que ouro.

- Tive que falar com o dono da festa pra te colocar pra dentro. Não entra mais ninguém. - Parecia mesmo um grande feito. Falou e, ato contínuo, cumprimentou agradecido um sujeito nervoso, de óculos, com um fone pendurado em um dos ouvidos. Ele não parecia estar se divertindo na festa da qual era "dono".

Era impossível não se lembrar da Popozuda. "Do camarote, quase não dá pra te ver." Nem dava para ver nada com nitidez. Um mar de cabeças, um grupo desconhecido cantando músicas conhecidas, garotas lindas com vestidos apertados e curtos, caras de bonés sorrindo até para as paredes, um famoso mexendo no celular incessantemente. Ele era provavelmente o motivo para a maioria das pessoas que estavam naquele curralzinho gradeado com um sofá. A ele, devia todo agradecimento por ter aquela pulseira amarela no braço.

Quando chegou a vodca (ponha aqui o nome de uma vodca cara), foi como um gol no estádio. Veio junto um suco ruim, que não se identificava ao certo do que era, e energético de guaraná. Copos de plástico metidos à besta. O que lhe chamou a atenção era como a garrafa brilhava, era bonita. Descobriu mais tarde que ela custava R$ 600 e que uma garota estava discretamente reclamando aqui e ali que ninguém a ajudaria a pagar.

A garçonete que trouxe a garrafa brilhante também lhe chamou a atenção. De roupa preta, maquiagem sóbria e rosto bonito, ela não estava ali para chamar a atenção, embora parecesse mais interessante que as outras moças do curralzinho. Com aquele tipo de evento, contou-lhe, tirava de quatro a seis mil por mês. E ainda se divertia, atendendo um único curralzinho de nove metros quadrados. Ele brincou que trocaria de emprego com ela, que ganhava mais que ele. Uma menina se apoiou na grade do camarote, interrompeu a conversa, deu dinheiro à moça e pediu quatro cervejas. Ele se deu conta de que não, não trocaria de emprego com ela.

Sentia-se poderoso e ponto. Era inevitável. Ainda que a maioria o olhasse como se fosse invisível e as trombadas lavassem sua mão constantemente com vodca de 600 reais, sentia-se poderoso. Tinha a pulseira amarela e dava tapinhas nas costas do cara famoso. Mas, os boatos de que a garota da vodca continuava falando da vaquinha que não aconteceu foram a deixa para que os dois se pusessem em seu lugar. Ou seja, foram dar uma volta na pista.

Enquanto descia a escada, os seguranças barravam quem tentava subir sem a pulseira amarela: "eu conheço fulano", "eu só quero falar com sicrano"... A sensação de poder o deixou um tanto sádico e aí não havia problema em dar até um tapinha nas costas do segurança, como se dissesse: "bom trabalho, James".

Quando deu por si, estava na beira do palco e, pela primeira vez, via mais gente conhecida no palco do que fora dele. O Buchecha (lembra dele?) estava cantando com dois carinhas rebolativos dançando ao seu lado. No calor literal do povo, entre encoxadas e pequenos banhos de bebida mais barata que a tal vodca, as raízes falaram mais alto. "Pô, é o Buchecha. Aquele da adolescência. Aquele cujas músicas você sabe cantar e até dar alguns passinhos. Muitos passinhos. Ok, você se joga." Buchecha cantava "vou fazer você suar a camiseta" e ele percebia que estava suando mesmo. E ria! E beleza! Àquela hora, estava valendo.


Ele continuava invisível. Olhava para o lado, via alguns caras tentando segurar pelo braço ou pelos cabelos as garotas que passavam e se sentia bem. Afinal, além de ter a pulseirinha amarela, ele não puxava o braço nem os cabelos de ninguém.
A coisa estava ficando divertida. Mas, já tinha sido o suficiente. Deu, né!? Mais uma voltinha pela terra prometida dos camarotes e ok, valeu, beijo, tchau.

Os taxistas na porta ignoravam o taxímetro e extorquiam livremente os bêbados felizes. Aparentemente ninguém roubou nada do carro no estacionamento, o que era uma dor de cabeça a menos. Era só escolher uma música agitada em inglês, baixar os vidros e passar devagarzinho ao lado dos taxistas chantagistas, fazendo uma última pose.

- A hora mais legal da festa foi quando a gente foi pra pista, né!? - o amigo concluiu, percebendo a situação risível.

- Foi.

Do camarote, quase não dá para ver. Mas, a pulseira amarela ainda está na sala da sua casa, esperando para ser emoldurada ou jogada fora.





***

5h50

A luz do dia começava a bater na janela da área de serviço. Levou um susto, olhou o relógio. Havia anos que não sabia o que era isso.

Miojo, garrafa de vinho aberta, queijos já meio duros. Vitórias e derrotas, entre planos de conquistar o mundo.

sábado, 20 de setembro de 2014

Vai, Guilherme, ser craque na vida!

Faz pouco mais de um ano e meio que eu corrigi minha rota profissional e voltei a trabalhar com televisão e futebol. Desde então, fiz algumas viagens pelo Brasil para produzir reportagens para o FootBrazil, programa em que trabalho. Ainda estou na fase (e não sei se isso passa) de ficar ansioso e preocupado a cada viagem. Dias antes, já começo a dormir mal, enquanto estou fora meu estômago queima. Tudo para garantir que nada me tenha escapado, que tudo vai sair perfeito em termos logísticos, de conteúdo e tudo mais... É claro que tem todos os lados bons que compensam esse, digamos, desconforto. E muitas vezes o acaso se encarrega de fazer valer a pena pelo resto da vida.

Em maio, depois de muita negociação com assessores de imprensa, eu embarquei para Porto Alegre, acompanhado do repórter cinematográfico e do assistente, para duas pautas: uma no Grêmio e uma no Inter, claro. Pousamos na capital gaúcha no fim da manhã, com tempo suficiente para fazer o check in no hotel e almoçar (e como é bom almoçar em Porto Alegre). Durante o almoço, o susto veio do céu. Uma chuva implacável, com cara de que não iria embora tão cedo, começou a cair. E o medo foi de que, junto com ela, a pauta caísse, a viagem perdesse grande parte do seu sentido e todo o sono perdido e toda a gastrite ganharem enfim um motivo real para existir. Mas, enquanto não houvesse uma mensagem do assessor de "já era", havia esperança. 


A apreensão foi diminuindo à medida que a chuva cessava e o céu ameaçava se abrir, no caminho até Eldorado do Sul, cidade da região metropolitana de Porto Alegre. Nossa primeira pauta no Rio Grande do Sul foi nas categorias de base do Grêmio. Havia um ano que estava sendo realizado ali um projeto inovador de treinamentos dos garotos, visando lapidar as novas joias do time que revelou, entre outros, Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. No Projeto Lapidar, cada garoto é preparado quase individualmente para aprimorar suas qualidades e diminuir suas deficiências em treinos que são gravados em vídeo e analisados pelos técnicos. Tudo isso numa excelente estrutura, de fazer inveja aos elencos profissionais da grande maioria dos clubes do país. Os frutos já estão começando a aparecer, inclusive entre os titulares do time do Felipão.


Sabe quando tudo, de repente, começa a dar certo? Você encontra pela frente um assessor acessível e gente boa, a história vai ganhando corpo, você tem a certeza de que o cinegrafista está fazendo as melhores imagens, os professores e técnicos estão dispostos a ajudar e passar o máximo de informações necessárias... A liberdade para produzir uma matéria bem feita era muito grande. Até colocar um microfone de lapela enquanto dava o treino, o técnico aceitou. O céu já não tinha rastro de nuvem e a tarde caía em tons de vermelho para compor aquele belo cenário.


Dados, ok. Entrevistas, ok. Imagens, ok. Para completar a primeira parte do trabalho, faltava apenas uma coisa que toda boa história precisa ter: personagens. O treinador me falou de um garoto que já andava pelas seleções brasileiras de base, um menino forte, com uma tatuagem no pescoço, no qual só o aparelho nos dentes tortos e o bigodinho bem adolescente nos davam a certeza de se tratar de um garoto de 15 anos. Ah, a timidez e a dificuldade com as palavras também. E, para televisão, isso é fatal. Ele ainda não era o meu personagem.


"Esse aí vai ser um craque." Separada assim, a frase ganha um peso que ela não teve quando saiu naturalmente da boca do coordenador do Projeto Lapidar. Os maiores saíam do campo, os menores entravam, e só de ver caminhar aquele menino magrinho, número 20 no calção, meião arriado, chuteira invocada e que brincava fácil com a bola no pé esquerdo, já dava pra imaginar que devia fazer algum sentido o que o professor dizia. Deixei o treino rolar, pedi para o cinegrafista acompanhar o garoto e fui planejando a melhor maneira de entrevistar o menino de 12 anos.


Quando teve a oportunidade, o treinador chamou o garoto de lado.


- E aí? Beleza? O professor aqui falou que você vai ser um craque... Então, é contigo que eu preciso conversar! Qual é o seu nome? - eu tentei ganhar a simpatia do guri, que praticamente se escondia atrás de si mesmo, pela timidez.


- Guilherme. - foi o que, com muito esforço, eu consegui entender.


- E você é daqui mesmo, Guilherme? - eu precisava que ele se soltasse um pouco mais, enquanto o cinegrafista e o assistente preparavam o set para a gente gravar. Eu tinha sugerido de pedir para o menino sentar sobre a bola, estava com um monte de coisas na cabeça, conversando quase automaticamente.


A segunda resposta dele foi ainda mais incompreensível. Conversar com pré-adolescentes é difícil. Conversar com jogadores de futebol é difícil. Conversar com pré-adolescentes aspirantes a jogadores de futebol, então...


- De onde você é? Não entendi.


- Paraná.


- Ah, que lugar do Paraná?


- Apucarana.


Ouvir o nome da cidade onde eu vivi dos três aos 18 anos, a minha cidade, ali, a mil e trocentos quilômetros de distância, me fez parar de pensar no cinegrafista, no cenário, nas perguntas, no Grêmio, no tempo que já se esvaía. 


A minha vontade foi dar um abraço no Guilherme, o Guilherme de Apucarana, porra. O futuro craque Guilherme, de Apucarana. Houve uma identificação imediata. Aquele garoto tinha saído de Apucarana com oito anos para tentar ser alguém na vida. O mesmo que eu fiz com 18. Ele foi para o Rio Grande do Sul. Eu, para Florianópolis. E, de repente, estávamos ali, em Eldorado do Sul, um lugar que, até horas antes, eu nem sabia que existia.


Busquei em vão saber dele. Onde morava? Quem era seu pai, sua mãe? Onde tinha estudado? Perguntava e perguntava, como se fosse possível ter alguma ligação com aquele menino que nasceu exatamente no ano em que eu saí da cidade do interior do Paraná. O momento foi breve, mas foi o suficiente para o trabalho, a viagem, a apreensão para tudo dar certo, a execução, tudo aquilo valer a pena. Para quem procura significados, tudo tem significado.

A entrevista não foi tudo aquilo. A timidez do menino era grande demais. A habilidade com a bola era inversamente proporcional à com as palavras. O máximo que consegui que Guilherme dissesse foi que ele tinha que fazer o que os professores mandassem, para chegar e "arregaçar" no jogo. Seria, sim, mais um personagem da matéria. Mas, não era O personagem que todo jornalista procura.


Mas, o que importa? Para mim, ele já era o Guilherme, futuro craque, de Apucarana. Quero mais é que ele arregace no campo, com certeza, fazendo tudo que os professores pedirem, respeitando o adversário e ganhando sempre os três pontos, graças a Deus. Vai, Guilherme, ser craque na vida!


Lembrei do Guilherme essa semana. Pensei no quanto é longo e tortuoso o caminho que ele vai percorrer até chegar onde quer. Pensei também no mundo que ele vai encontrar daqui uns seis ou sete anos quando pisar na Arena do Grêmio ou em qualquer outro estádio pela primeira vez como profissional. Não devia fazer diferença e tomara que não faça mesmo, mas o Guilherme, o futuro craque de Apucarana, do Grêmio e da seleção brasileira, é negro. Assim como Aranha, goleiro do Santos, ou como o camisa 10 do tricolor gaúcho, Zé Roberto, ou como Ronaldinho Gaúcho, que por ali surgiu um dia, ou como milhares de jogadores de futebol de milhares de times pelo mundo.