sábado, 20 de setembro de 2014

Vai, Guilherme, ser craque na vida!

Faz pouco mais de um ano e meio que eu corrigi minha rota profissional e voltei a trabalhar com televisão e futebol. Desde então, fiz algumas viagens pelo Brasil para produzir reportagens para o FootBrazil, programa em que trabalho. Ainda estou na fase (e não sei se isso passa) de ficar ansioso e preocupado a cada viagem. Dias antes, já começo a dormir mal, enquanto estou fora meu estômago queima. Tudo para garantir que nada me tenha escapado, que tudo vai sair perfeito em termos logísticos, de conteúdo e tudo mais... É claro que tem todos os lados bons que compensam esse, digamos, desconforto. E muitas vezes o acaso se encarrega de fazer valer a pena pelo resto da vida.

Em maio, depois de muita negociação com assessores de imprensa, eu embarquei para Porto Alegre, acompanhado do repórter cinematográfico e do assistente, para duas pautas: uma no Grêmio e uma no Inter, claro. Pousamos na capital gaúcha no fim da manhã, com tempo suficiente para fazer o check in no hotel e almoçar (e como é bom almoçar em Porto Alegre). Durante o almoço, o susto veio do céu. Uma chuva implacável, com cara de que não iria embora tão cedo, começou a cair. E o medo foi de que, junto com ela, a pauta caísse, a viagem perdesse grande parte do seu sentido e todo o sono perdido e toda a gastrite ganharem enfim um motivo real para existir. Mas, enquanto não houvesse uma mensagem do assessor de "já era", havia esperança. 


A apreensão foi diminuindo à medida que a chuva cessava e o céu ameaçava se abrir, no caminho até Eldorado do Sul, cidade da região metropolitana de Porto Alegre. Nossa primeira pauta no Rio Grande do Sul foi nas categorias de base do Grêmio. Havia um ano que estava sendo realizado ali um projeto inovador de treinamentos dos garotos, visando lapidar as novas joias do time que revelou, entre outros, Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. No Projeto Lapidar, cada garoto é preparado quase individualmente para aprimorar suas qualidades e diminuir suas deficiências em treinos que são gravados em vídeo e analisados pelos técnicos. Tudo isso numa excelente estrutura, de fazer inveja aos elencos profissionais da grande maioria dos clubes do país. Os frutos já estão começando a aparecer, inclusive entre os titulares do time do Felipão.


Sabe quando tudo, de repente, começa a dar certo? Você encontra pela frente um assessor acessível e gente boa, a história vai ganhando corpo, você tem a certeza de que o cinegrafista está fazendo as melhores imagens, os professores e técnicos estão dispostos a ajudar e passar o máximo de informações necessárias... A liberdade para produzir uma matéria bem feita era muito grande. Até colocar um microfone de lapela enquanto dava o treino, o técnico aceitou. O céu já não tinha rastro de nuvem e a tarde caía em tons de vermelho para compor aquele belo cenário.


Dados, ok. Entrevistas, ok. Imagens, ok. Para completar a primeira parte do trabalho, faltava apenas uma coisa que toda boa história precisa ter: personagens. O treinador me falou de um garoto que já andava pelas seleções brasileiras de base, um menino forte, com uma tatuagem no pescoço, no qual só o aparelho nos dentes tortos e o bigodinho bem adolescente nos davam a certeza de se tratar de um garoto de 15 anos. Ah, a timidez e a dificuldade com as palavras também. E, para televisão, isso é fatal. Ele ainda não era o meu personagem.


"Esse aí vai ser um craque." Separada assim, a frase ganha um peso que ela não teve quando saiu naturalmente da boca do coordenador do Projeto Lapidar. Os maiores saíam do campo, os menores entravam, e só de ver caminhar aquele menino magrinho, número 20 no calção, meião arriado, chuteira invocada e que brincava fácil com a bola no pé esquerdo, já dava pra imaginar que devia fazer algum sentido o que o professor dizia. Deixei o treino rolar, pedi para o cinegrafista acompanhar o garoto e fui planejando a melhor maneira de entrevistar o menino de 12 anos.


Quando teve a oportunidade, o treinador chamou o garoto de lado.


- E aí? Beleza? O professor aqui falou que você vai ser um craque... Então, é contigo que eu preciso conversar! Qual é o seu nome? - eu tentei ganhar a simpatia do guri, que praticamente se escondia atrás de si mesmo, pela timidez.


- Guilherme. - foi o que, com muito esforço, eu consegui entender.


- E você é daqui mesmo, Guilherme? - eu precisava que ele se soltasse um pouco mais, enquanto o cinegrafista e o assistente preparavam o set para a gente gravar. Eu tinha sugerido de pedir para o menino sentar sobre a bola, estava com um monte de coisas na cabeça, conversando quase automaticamente.


A segunda resposta dele foi ainda mais incompreensível. Conversar com pré-adolescentes é difícil. Conversar com jogadores de futebol é difícil. Conversar com pré-adolescentes aspirantes a jogadores de futebol, então...


- De onde você é? Não entendi.


- Paraná.


- Ah, que lugar do Paraná?


- Apucarana.


Ouvir o nome da cidade onde eu vivi dos três aos 18 anos, a minha cidade, ali, a mil e trocentos quilômetros de distância, me fez parar de pensar no cinegrafista, no cenário, nas perguntas, no Grêmio, no tempo que já se esvaía. 


A minha vontade foi dar um abraço no Guilherme, o Guilherme de Apucarana, porra. O futuro craque Guilherme, de Apucarana. Houve uma identificação imediata. Aquele garoto tinha saído de Apucarana com oito anos para tentar ser alguém na vida. O mesmo que eu fiz com 18. Ele foi para o Rio Grande do Sul. Eu, para Florianópolis. E, de repente, estávamos ali, em Eldorado do Sul, um lugar que, até horas antes, eu nem sabia que existia.


Busquei em vão saber dele. Onde morava? Quem era seu pai, sua mãe? Onde tinha estudado? Perguntava e perguntava, como se fosse possível ter alguma ligação com aquele menino que nasceu exatamente no ano em que eu saí da cidade do interior do Paraná. O momento foi breve, mas foi o suficiente para o trabalho, a viagem, a apreensão para tudo dar certo, a execução, tudo aquilo valer a pena. Para quem procura significados, tudo tem significado.

A entrevista não foi tudo aquilo. A timidez do menino era grande demais. A habilidade com a bola era inversamente proporcional à com as palavras. O máximo que consegui que Guilherme dissesse foi que ele tinha que fazer o que os professores mandassem, para chegar e "arregaçar" no jogo. Seria, sim, mais um personagem da matéria. Mas, não era O personagem que todo jornalista procura.


Mas, o que importa? Para mim, ele já era o Guilherme, futuro craque, de Apucarana. Quero mais é que ele arregace no campo, com certeza, fazendo tudo que os professores pedirem, respeitando o adversário e ganhando sempre os três pontos, graças a Deus. Vai, Guilherme, ser craque na vida!


Lembrei do Guilherme essa semana. Pensei no quanto é longo e tortuoso o caminho que ele vai percorrer até chegar onde quer. Pensei também no mundo que ele vai encontrar daqui uns seis ou sete anos quando pisar na Arena do Grêmio ou em qualquer outro estádio pela primeira vez como profissional. Não devia fazer diferença e tomara que não faça mesmo, mas o Guilherme, o futuro craque de Apucarana, do Grêmio e da seleção brasileira, é negro. Assim como Aranha, goleiro do Santos, ou como o camisa 10 do tricolor gaúcho, Zé Roberto, ou como Ronaldinho Gaúcho, que por ali surgiu um dia, ou como milhares de jogadores de futebol de milhares de times pelo mundo.

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