Tão logo o garçom saiu com o pedido anotado, Erik foi às contas, aquelas cujas únicas utilidades eram exercitar o cérebro e ajudar a passar o tempo. Oito fileiras de mesas no comprimento, sete na largura. Estas, que ficavam à beira das janelas que davam para a rua, tinham apenas dois lugares. As outras, quatro. Duzentos e dez pessoas sentadas.
Era uma padaria grande, com um salão de pé direito alto, em um bairro chique de São Paulo. Dessas que servem almoço a R$ 55 o quilo, com sucos naturais a R$ 7,90. Àquela hora, cerca de oito da noite, nem um terço das mesas estava ocupado, a maioria com uma ou duas pessoas. Era véspera de feriadão, a cidade estava completamente parada e dar um tempo por ali parecia ser uma boa opção contra o estresse de um trânsito que não leva ninguém a lugar nenhum.
Erik gostava de fazer aquilo ultimamente: escrutinar lugares e pessoas, ficar bolando mentalmente diálogos, imaginando personalidades a partir de aparências, criando frases geniais para interagir com estranhos em situações que nunca deixavam seu mundo fictício para virar realidade, mas que lhe faziam companhia nas refeições solitárias das horas de almoço ou nos happy hours em que brindava consigo mesmo.
Olhou para a mesa ao lado e viu um casal. Reparou nas alianças na mão esquerda e, pela pouca idade, concluiu que deveriam ser recém-casados. Provavelmente, não sabiam cozinhar. Deveriam morar ali por perto. Os dois não conversavam. Estavam cada um mexendo no seu smartphone e, de tempo em tempo, se cutucavam para mostrar algo engraçado. E riam. Pareciam bem felizes e cúmplices. "Bonitinhos", pensou. Tirou o celular do bolso e digitou o nome de uma ex-namorada na busca do Facebook. O aparelho avisou que a bateria estava acabando e o garçom trouxe seu suco de abacaxi com hortelã.
Quando levantou a cabeça para receber o garçom à mesa, notou pela janela a chegada de uma moça loira. Ela era magra, alta, longilínea, rosto comprido e anguloso, cabelo preso num rabo de cavalo, cara de brava, fechada. Estava arrumada como quem havia saído do trabalho, sem frescuras. Considerou que era uma garota bonita. Apenas bonita.
Erik acompanhou a entrada dela com os olhos. Ela se sentou numa mesa encostada na janela, de dois lugares, de frente para ele, a umas quatro mesas adiante, sem ninguém a atrapalhar a visão entre eles. Não havia sinal algum de que ela o havia notado, porém.
"Deve ser chata", foi a primeira coisa que ele pensou, iniciando as adivinhações sobre a moça. Não viu alianças, só um anel num dedo que não dizia nada. Talvez fosse dentista, pelos dentes alinhados e pela calça branca. Só um chute. Entre 25 e 30 anos, não mais. Ela pediu uma água e ficou mexendo no celular largado sobre a mesa com um só dedo, desinteressadamente. Concluiu, e se achava certeiro, que a moça iria encontrar alguém em questão de minutos.
O pedido do rapaz chegou em seguida. Um beirute de filé mignon enorme que, agora, com trânsito e com uma moça loira e sozinha para escrutinar, ele não teria pressa alguma para saborear.
Uns 20 minutos depois que ela chegou, finalmente a viu sorrindo para o celular e reparou como isso era raro nela. Ela pegou o aparelho na mão e começou a digitar mais rápido, usando os polegares. Mais uns dois sorrisos e guardou o celular na bolsa, novamente séria. Erik já estava intrigado. Mastigava e ria, imaginando o que a garota poderia estar pensando, enquanto ela voltava sua cara de brava da rua para o relógio no pulso, do relógio para a rua.
O celular dela tocou. Ela mais escutou do que falou. Não sorriu. Um minuto, no máximo. Desligou e chamou o garçom. Ele voltou com uma Stella Artois. Para Erik, não restava dúvidas: ela havia levado um bolo. E, na sua lógica própria, julgou que estava vulnerável. Ele precisava pensar em alguma coisa. Mastigava devagar. E, mesmo que ela, em momento algum, tivesse dirigido a ele sequer um olhar, Erik estava decidido a agir.
Pegou a caneta que sempre levava no bolso e começou a escrever no guardanapo. A letra tremeu, borrou. Amassou e pôs de lado. Na segunda tentativa, uma dúvida ortográfica. Amassou novamente. Na terceira, o texto final: "Se ele não vier, posso te fazer companhia." Havia decidido que menos era mais.
Ela tinha voltado ao celular com a mesma postura desinteressada do início. A garrafa quase vazia. Erik passou por ela com o pretexto de ir ao banheiro e, na volta, deixou o bilhete sobre a mesa, quase como quem joga algo fora, voltando ao seu lugar sem a certeza de que ela tinha notado que ele tinha passado por ali. Mas, ela notou. E, quando ele voltou para sua mesa e olhou para a dela, a moça estava com o guardanapo aberto sob seus olhos.
Ele se sentiu envergonhado. Ela não sorriu. Olhou pela janela e assim ficou por quase um minuto. Erik debruçou-se sobre a comida, já arrependido, pensando em terminar o prato e ir embora, quase rindo nervosamente da sua atitude e sentindo-se com 15 anos. Quando levantou a cabeça, olhou para o outro lado, para as mesas, coisa que não fazia há quase uma hora. Percebeu que a padaria já estava bem mais cheia e movimentada. Sentiu-se meio ridículo.
Decidiu olhar para a garota. Encará-la como homem, afinal. Ela estava se levantando. "Fiz a menina ir embora", ele pensou. Mas, ela não caminhava para a porta e, sim, em direção ao fundo, onde estava a mesa de Erik. Ele percebeu e abaixou a cabeça. A loira ajeitou a alça da sua bolsa nas costas da cadeira em frente a do rapaz, pôs seu celular sobre a mesa e sentou-se diante dele, chamando o garçom. "Me traz mais uma cerveja, por favor?"
Erik não disse nada. Levantou os olhos, tomou o último gole do suco. E riu, quase engasgando. Ela não riu. Mas, já não lhe parecia tão brava assim. Ficaram se olhando. Ele rindo, já com os olhos cheios de lágrimas. Ela séria.
- Por que ele? - ela iniciou o papo. Tinha uma voz firme, condizente com a aparência, mas bem feminina.
- Ahn...? - ele perguntou, se ajeitando na cadeira, tentando ficar sério.
- Você escreveu aqui: "se ele não vier, posso te fazer companhia". Por que tem que ser "ele"? Não pode ser "ela"? - não tinha agressividade na fala dela, que inclinou o corpo para trás, relaxando na cadeira e dando um gole na cerveja que acabara de chegar.
Erik levantou as sobrancelhas. Ele não sabia exatamente o que falar. Ela percebeu.
- Eu tenho que estar esperando meu namorado? Eu não posso estar esperando minha namorada? Ou uma amiga? Aliás, eu preciso estar esperando alguém? Eu não posso apenas estar... sozinha? - ela ia falando e jogando com os ombros e as mãos. A garota tinha uma eloquência envolvente que o fazia se sentir bobo.
- É... Você tem razão. Eu joguei com o lugar-comum. - ele olhava para baixo e ajeitava os talheres no prato, sinalizando que terminou a refeição.
- Ei! Não precisa se sentir mal... - ela sorriu pela primeira vez à mesa. - Só acho engraçado você tentar chamar a minha atenção, jogando com o lugar-comum. Sério que você achou que eu ia gostar disso? - ela levantou o guardanapo que havia virado bilhete.
Erik riu meio triste. Ele olhou para o lado, tentando perceber se alguém acompanhava a cena e se voltou para a loira.
- Olha, eu já entendi que não mandei bem, ok? Eu só achei que você estava sozinha, provavelmente tinha levado um bolo de alguém... E achei que talvez eu pudesse te fazer companhia... É véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria...
- E? - ela interrompeu o monólogo.
- E o quê? - ele estava meio confuso.
- E daí se é véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria? Não entendi... - ela sorria. Raro.
- Daí que todo mundo espera algo mais, não?
- Não. Eu não espero nada. Eu espero estar viva amanhã. Eu espero ter meu emprego na segunda-feira. Sei lá.
Ela falava e soltava os cabelos, olhando para a rua. Começava a cair uma garoa fina sobre os carros parados no trânsito intenso que não se desfazia. Erik acompanhava tudo com certo desconforto e, ao mesmo tempo, um interesse crescente. Conforme os fios loiros iam ganhando a liberdade, a aura de moça séria era pintada de outros tons.
- Qual é o seu nome? - ele perguntou.
- Hahahahahaha... - ela gargalhou, embora parecesse que ela não seria capaz disso.
- Que foi? - Erik transparecia seu incômodo.
- Só agora me dei conta que você não sabe meu nome e eu não sei o seu... - levantou a garrafa long neck para um brinde - Natália.
- Erik... - e ele se deu conta de que não tinha nada para brindar, porque, desde que o suco de abacaxi com hortelã havia acabado, estava ali conversando a seco.
- Não. Vamos fazer isso direito. Garçom!
A cada atitude que Natália tomava, Erik se diminuía, murchava na cadeira e pensava no quanto não estava preparado para uma mulher como aquela. O garçom chegou e parou ao seu lado.
- Vai... Pede aí alguma coisa para brindar comigo... - ela tinha um risinho no canto da boca que ele notava e que o deixava meio puto, meio constrangido.
- Assim... Ahn... É... - ele não tinha pensado em nada. Pedir o cardápio seria ridículo. Ele não estava a fim de tomar cerveja. Precisava pensar rápido - Me vê outro suco desse...
- Suco do quê? - o garçom perguntou.
- Abacaxi com hortelã. - Erik e Natália responderam juntos e o rapaz teve a certeza de que ela o fez só para provocá-lo.
- Mas, então, Erik... O que você esperava? - ela perguntou assim que o garçom saiu, olhando firme nos olhos dele.
- O que eu esperava em relação a quê exatamente?
- Você disse que todo mundo espera algo mais na véspera de um feriado... O que você esperava para a sua noite? - ela se inclinou de cabelos soltos, chegando com o rosto bem perto do dele. E ele a achou incrivelmente linda naquele momento.
- Ah... Pra falar a verdade, eu não tava esperando muita coisa... Quer dizer, eu tava... Queria fazer um monte de coisas, ter uma festa legal pra ir, amigos pra sair... Aí, saí do trabalho sem nada combinado com ninguém... O trânsito tá essa merda... Desanimei! Parei aqui para comer, antes de ir embora para casa... - a cada frase, ele chicoteava as próprias costas por parecer o cara mais reclamão da face da Terra.
- Aí, você me viu. E achou que tudo poderia mudar! - a cerveja estava triplicando o número de sorrisos no rosto anguloso de Natália.
- Aí, eu te vi e achei que tudo poderia mudar! - ele repetiu, olhando para ela com a cara mais charmosa que achava que tinha. Quando chegou seu suco.
- Pronto! Agora, podemos brindar! Prazer em conhecê-lo, Erik!
- Prazer em conhecê-la, Natália!
Ela, com sua Stella Artois. Ele, com seu suco de abacaxi com hortelã. Brindaram, sorriram e deram longos goles naquela noite quente, onde a chuva já começava a apertar um pouco mais. Erik tomou o suco e um pouquinho de coragem.
- Então, Natália... Eu estava aqui pensando... - inclinou o tronco à frente.
- Hum... - ela fechou os lábios e virou os olhos para cima, como quem já imagina o que vem por aí.
- E se a gente... - o toque do celular dela o interrompeu.
Ela fez sinal com a mão para ele aguardar um instante. "Oiê!... Hum... Já tá saindo?... Tá!... Tá!... Por mim, pode ser!... Legal... Não, não comi nada... Beleza!... Tá bom! Te encontro na estação, então?... Até... Beijo, amor!... Beijão!"
Encerrou a ligação e voltou-se para Erik, que estava olhando para baixo e chupando o canudinho.
- Eu vou ter que ir, querido...
- Tudo bem. - ele sorria, amarelo, fazendo força para agir naturalmente.
- Mas, foi bem legal conversar contigo, viu!? - ela colocou a mão em cima da dele e já foi se levantando.
- Telefone...? Não, né!? - Erik tentava falar de um jeito que poderia ser interpretado como uma coisa séria ou uma piada, ao gosto da freguesa.
- Tchau, tchau! Se cuida.
- Peraí, peraí... - ela em pé, ele sentado. - Você é dentista?
- Não! Sou secretária de um... - ela pôs a mão na cintura e sorriu pela última vez. - Como você adivinhou?
- Eu sou bom nisso. - e, finalmente, Erik voltou a se sentir bem.
Ela lhe lançou um tchauzinho charmoso, se virou e saiu, jogando os cabelos. Entrou uma garota, saiu outra. Correndo da chuva e entrando na estação do metrô. E ele ali, acompanhando tudo com os olhos. E tentando fazer suas adivinhações.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
A noiva
A um sinal da orquestra, o burburinho se organiza, as pessoas se levantam e se voltam todas para o fundo da igreja, olhando para a porta principal. Bem grande, imponente, antiga, duas folhas pesadas, madeira boa, toda trabalhada em reentrâncias e fechaduras, mais pela estética que pela praticidade.
Normalmente, a porta principal é ladeada por duas entradas laterais por onde, a essa altura, estão correndo as crianças mais impacientes, fugindo das suas mães desejosas de manter o penteado e evitar alguma gafe. Elas prometem safanões para mais tarde e desviam da equipe de organização da cerimônia, que conversa baixinho entre si pela comunicação de seus fones e microfones de lapela, tentando ser invisível.
Primeiro, entram os casais de padrinhos, que, dependendo da ocasião, são muitos. Vez ou outra, os vestidos das madrinhas são variações do mesmo tom. Facilita a identificação e claramente prejudica algumas e favorece outras. A música para a entrada deles pode ser uma "releitura" de algum hit pop, o que dá um caráter de descontração ao momento. E, por mais padrinhos que tenham sido convocados, esta é uma passagem rápida, leve e não muito relevante no contexto geral da cerimônia.
A mudança de música é a senha para que todos se voltem novamente para o fundo da igreja. Uma nova expectativa é criada. A melodia é mais clássica e normalmente remete à infância, algo mais família. A porta, que novamente havia sido fechada, não demora a se abrir. E ele entra com a mãe. É um momento bonito.
Visivelmente emocionado, ele consegue se mostrar descontraído. Vê conhecidos pelo caminho, brinca com colegas de trabalho, é provocado por velhos amigos, percebe lágrimas nos olhos das tias, sorri para os cinegrafistas, retarda os passos para os fotógrafos. Está muito bem vestido, claro. Terno sob medida, com colete, abotoaduras e outras coisas que nem sabia que existiam e não saíram barato. Gravata e sapatos escolhidos com cuidado. Cabelo cortado, barba feita. Por mais que ninguém vá dizer, de modo geral, ele não difere muito dos outros homens ao redor. Eventos como estes não são feitos para eles se destacarem.
A orquestra inicia uma canção qualquer que todos sabem que não tem outro sentido a não ser preencher aquele espaço onde nada vai acontecer. Haverá uma quebra. Uma preparação. Ele se posiciona no altar, na diagonal oposta à porta, novamente fechada, e ali vai esperar alguns minutos que podem parecer infinitos.
Os convidados sabem que ainda não é hora. O momento é de sorrir para os conhecidos, olhar as paredes da igreja, os afrescos, os profetas que ali estão retratados, Elias, Miqueias, Daniel, santos, anjos, símbolos místicos, alfa, ômega, vestidos curtos demais, despojamento em excesso, elegância de onde não se espera, ousadia de alguns, as garotas bonitas ou nem tanto que mais tarde vão brigar pelo buquê, a semelhança do rapaz que toca o violoncelo com certo jogador de futebol. Checar redes sociais na igreja, pode?
Do altar, ele olha para a porta. Do lado de fora, ela olha para a porta.
Por mais que o ano seja 2014, as relações tenham se transformado, a vida esteja diferente, os significados dos ritos e dos símbolos já não sejam mais os mesmos, tudo o que eles querem é que aquela porta se abra pela última vez naquela noite.
Os primeiros acordes tocam - a música dela é inconfundível, não há o que inventar - e a porta se abre. É um momento especial.
Ela é vista pela primeira vez pela maioria daquelas pessoas. Acaba ali uma série de curiosidades: como é o vestido, o véu, a maquiagem, o cabelo e tantas outras coisas que as pessoas projetam e sonham e realizam na vida da protagonista que entra de branco, dos pés à cabeça. Páginas em branco prestes a serem escritas.
Ela caminha com o olhar fixo na direção do altar. Sabe que qualquer desvio é a lágrima certa. O olho já brilha, molhado. O sorriso é verdadeiro, embora nervoso. Certamente, está surda neste momento. Blindada. Não pensa sequer no quanto esperou por aquele momento. Muito menos, nas inúmeras vezes, que temeu que aquela hora chegasse. Apenas caminha. Sabe que está chegando.
Ele, por sua vez, esquecido pelo mundo na função de coadjuvante, a mesma que vai ocupar de bom grado até o fim da cerimônia, aproveita para olhá-la sem ser olhado. Livremente. Como se fosse a primeira. Como se fosse a primeira vez. Naquele instante, ele tem certeza de tudo.
Um anel, um sim, pobreza, riqueza, saúde, doença, alegria, tristeza, até que a morte os separe. Pode ser que não seja bem assim. Pode ser que dali três anos ou três meses, tudo mude, tudo acabe. Mas, naquele instante, naqueles segundos em câmera lenta, a mulher de branco que está ali, com a mão estendida em sua direção, lhe basta.
Normalmente, a porta principal é ladeada por duas entradas laterais por onde, a essa altura, estão correndo as crianças mais impacientes, fugindo das suas mães desejosas de manter o penteado e evitar alguma gafe. Elas prometem safanões para mais tarde e desviam da equipe de organização da cerimônia, que conversa baixinho entre si pela comunicação de seus fones e microfones de lapela, tentando ser invisível.
Primeiro, entram os casais de padrinhos, que, dependendo da ocasião, são muitos. Vez ou outra, os vestidos das madrinhas são variações do mesmo tom. Facilita a identificação e claramente prejudica algumas e favorece outras. A música para a entrada deles pode ser uma "releitura" de algum hit pop, o que dá um caráter de descontração ao momento. E, por mais padrinhos que tenham sido convocados, esta é uma passagem rápida, leve e não muito relevante no contexto geral da cerimônia.
A mudança de música é a senha para que todos se voltem novamente para o fundo da igreja. Uma nova expectativa é criada. A melodia é mais clássica e normalmente remete à infância, algo mais família. A porta, que novamente havia sido fechada, não demora a se abrir. E ele entra com a mãe. É um momento bonito.
Visivelmente emocionado, ele consegue se mostrar descontraído. Vê conhecidos pelo caminho, brinca com colegas de trabalho, é provocado por velhos amigos, percebe lágrimas nos olhos das tias, sorri para os cinegrafistas, retarda os passos para os fotógrafos. Está muito bem vestido, claro. Terno sob medida, com colete, abotoaduras e outras coisas que nem sabia que existiam e não saíram barato. Gravata e sapatos escolhidos com cuidado. Cabelo cortado, barba feita. Por mais que ninguém vá dizer, de modo geral, ele não difere muito dos outros homens ao redor. Eventos como estes não são feitos para eles se destacarem.
A orquestra inicia uma canção qualquer que todos sabem que não tem outro sentido a não ser preencher aquele espaço onde nada vai acontecer. Haverá uma quebra. Uma preparação. Ele se posiciona no altar, na diagonal oposta à porta, novamente fechada, e ali vai esperar alguns minutos que podem parecer infinitos.
Os convidados sabem que ainda não é hora. O momento é de sorrir para os conhecidos, olhar as paredes da igreja, os afrescos, os profetas que ali estão retratados, Elias, Miqueias, Daniel, santos, anjos, símbolos místicos, alfa, ômega, vestidos curtos demais, despojamento em excesso, elegância de onde não se espera, ousadia de alguns, as garotas bonitas ou nem tanto que mais tarde vão brigar pelo buquê, a semelhança do rapaz que toca o violoncelo com certo jogador de futebol. Checar redes sociais na igreja, pode?
Do altar, ele olha para a porta. Do lado de fora, ela olha para a porta.
Por mais que o ano seja 2014, as relações tenham se transformado, a vida esteja diferente, os significados dos ritos e dos símbolos já não sejam mais os mesmos, tudo o que eles querem é que aquela porta se abra pela última vez naquela noite.
Os primeiros acordes tocam - a música dela é inconfundível, não há o que inventar - e a porta se abre. É um momento especial.
Ela é vista pela primeira vez pela maioria daquelas pessoas. Acaba ali uma série de curiosidades: como é o vestido, o véu, a maquiagem, o cabelo e tantas outras coisas que as pessoas projetam e sonham e realizam na vida da protagonista que entra de branco, dos pés à cabeça. Páginas em branco prestes a serem escritas.
Ela caminha com o olhar fixo na direção do altar. Sabe que qualquer desvio é a lágrima certa. O olho já brilha, molhado. O sorriso é verdadeiro, embora nervoso. Certamente, está surda neste momento. Blindada. Não pensa sequer no quanto esperou por aquele momento. Muito menos, nas inúmeras vezes, que temeu que aquela hora chegasse. Apenas caminha. Sabe que está chegando.
Ele, por sua vez, esquecido pelo mundo na função de coadjuvante, a mesma que vai ocupar de bom grado até o fim da cerimônia, aproveita para olhá-la sem ser olhado. Livremente. Como se fosse a primeira. Como se fosse a primeira vez. Naquele instante, ele tem certeza de tudo.
Um anel, um sim, pobreza, riqueza, saúde, doença, alegria, tristeza, até que a morte os separe. Pode ser que não seja bem assim. Pode ser que dali três anos ou três meses, tudo mude, tudo acabe. Mas, naquele instante, naqueles segundos em câmera lenta, a mulher de branco que está ali, com a mão estendida em sua direção, lhe basta.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Sete anos de Palestra
Fazia 15 dias que eu havia me mudado para São Paulo e era minha primeira vez no Palestra Itália. Uma estreia tardia, sem dúvida. Aos 22 anos, eu era um torcedor fanático, mas não era um torcedor de arquibancada. Sempre tinha acompanhado o time de longe, pela TV, pelo rádio, nos bares com pay-per-view e em estádios das cidades onde havia morado anteriormente, Florianópolis e Rio de Janeiro.
Eu me lembro que, ao passar as catracas da rua Turiassu, foi incrível confirmar a existência dos tais "jardins suspensos", o gramado elevado com um vão entre as arquibancadas, as piscinas atrás do gol à direita. Lembro também que foi um tantinho decepcionante perceber que não era assim um grande estádio. Mas, acima de tudo, me lembro que havia uma atmosfera ali que todo palmeirense podia sentir de imediato. Era inegavelmente uma casa italiana, uma casa verde, um chiqueiro, uma academia de futebol, um lugar cheio de amendoim e mística.
É óbvio que eu não pensei em nada disso naquele dia. Só queria comemorar os gols que caíam do céu como a chuva que castigava Perdizes. Tirei a camisa verde, que nem era do Palmeiras, e a girava sobre a cabeça como se o Juventus adversário fosse o de Turim e não o da Mooca. Foi maravilhoso.
Perfeito, a não ser por um único detalhe. Numa disputa no alto com o zagueiro Gian, nosso santo ídolo Marcos teve mais uma de suas inúmeras lesões, talvez uma das mais graves: fraturou o braço esquerdo e ficou boa parte da temporada afastado dos gramados.
Nos anos que se seguiram, voltei algumas vezes àquele parque. Tive ali mais alegrias do que tristezas. Anotei tudo num caderninho que guardo e atualizo até hoje: 22 jogos, 15 vitórias, dois empates e cinco derrotas.
Até que ele foi fechado, em 2010, com a promessa de que em breve voltaria melhor, maior, mais bonito e mais moderno. Foram tempos difíceis para quem ama o verde.
Para Marcos, inclusive. O camisa 12 mais amado do mundo se quebrou mais uma dezena de vezes, teve derrotas amargas em campo e se cansou disso. Parou. Foi para casa assistir da varanda à reforma de sua segunda casa.
Sete anos, sete meses e 25 dias depois daquela chuvosa tarde no velho Palestra Itália, estivemos mais uma vez naquele lugar. Marcos, eu e mais um monte de gente da TV, das assessorias dele e do estádio e operários da obra.
Entrar no novíssimo Allianz Parque foi maravilhoso. Não é o maior estádio do Brasil, claro, mas não deve nada a nenhum outro. Claro que ainda há toda uma história a ser escrita ali. O corpo precisa de uma alma. As confortáveis cadeiras precisam ser ocupadas por gente, gritos, xingamentos e cantos. Cá entre nós, nem lembra o antigo Palestra. Mas, o enlevo, o orgulho que vai tomar conta do torcedor ao ver uma casa tão bonita, tão bem arrumada será enorme. Fica a impressão de que uma nova era deve começar para o Palmeiras a partir da inauguração.
Timidez mais uma noção exagerada demais de profissionalismo me impediram de qualquer atitude de tietagem explícita no encontro com o ídolo. Mas, leve-se em conta que a gravação da reportagem na nova casa palmeirense foi longa e que Marcos, como pessoa, é tudo aquilo que você já ouviu falar por aí.
Então, quatro horas depois, eu já era um feliz ouvinte dos "causos" que ele gosta de contar, olhando nos seus olhos como se você fosse um velho amigo dele de Oriente. Piadas, histórias do dia a dia de um homem aposentado que rega as plantas da mulher em casa, bastidores do futebol. Ele mostrava fotos do filho no celular, cornetava a falta de um cafezinho, posava para fotos com todos os operários que o abordavam, tirava sarro de seus assessores e até da própria barriga de ex-atleta. Eu tinha fome e precisava ir embora, mas se ele não tinha pressa de deixar a nossa companhia, eu é que o faria?Por fim, já era noite quando me despedi, agradeci, falei um "prazer em conhecê-lo" e ouvi algo como "valeu, boa sorte, a gente se vê por aí". E ganhei um abraço, de verdade, daqueles que a gente nem está mais acostumado a receber. Curiosamente com o mesmo braço esquerdo, quebrado lá em 2007.
O novo estádio, o velho goleiro e eu. Sete anos depois, nem a chuva que caía poderia ser a mesma.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
O amor nos tempos do Insta
Aperta o botão para publicar a foto e se dá conta de que o alívio da prestação de contas à sociedade já está perdendo o jogo para a mentira deslavada que a imagem carrega para si mesma. Duas curtidas. Da sogra e da prima.
Abre de novo a foto e a observa com mais cuidado. O abraço dele envolve seu pescoço, dedos entrelaçados, seu sorriso está perfeito. "Puta que o pariu, como não acreditar na felicidade desse sorriso?" O primeiro comentário. Da colega de trabalho: "Que lindos! Que Deus abençoe!" Curte de imediato e responde: "Para sempre, amiga!!!!" Exclamações e três coraçõezinhos.
Sete, oito, nove curtidas. Comentário da cunhada: "Hummm... Que amor!" Ela sorri, triste. E volta a olhar a foto. "Meu Deus, com que sorriso lindo eu saí nessa foto!" Deitada no sofá, fica olhando a foto distraída. Tratada com filtros, em preto e branco, bem contrastada. Ele é bem mais velho que ela, mas tenta disfarçar, roupas de menino, dessas que se compram em viagens para os Estados Unidos ou idas à Vinte e Cinco de Março, cabelos com gel, relógio grande, braços fortes, a barriga quase passa despercebida. Ela não vê amor no rosto dele. Nunca viu, na verdade. Sempre achou que ele gosta mesmo é de desfilar com uma garotinha bonita por aí, a exibindo como um troféu para os amigos. No pulso direito dos dois, pulseirinhas do camarote. Balada cara. Status.
Dezessete, dezoito, dezenove curtidas. O gostosinho atrevido da academia comenta: "A noite foi boa em huahauhuahauhua (sic)". "Antes fosse", ela retruca mentalmente, virando de bruços no sofá e tentando se lembrar da última vez que o namorado a havia deixado satisfeita, em vez de cair de bêbado, roncando em moteis baratos.
"Bom te ver feliz! =D", diz o comentário da ex-professora. Ela pensa em curtir o comentário, mas hesita, deixa para depois. "Se eu cair, que seja em seu abraço. <3", lê novamente a legenda que deu à foto e fica pensando na glória e na desgraça de ter alguém como ele ao seu lado numa cidade tão pequena como a deles.
Já são 26 curtidas. Mais um comentário. "Paaaara tudo! Ahazou, miga (sic)!" "Vaca invejosa", pensa triunfante, respondendo àquela que sempre deu em cima de seu namorado. Abre a foto de novo. "Esse vestido me emagrece...", amplia a imagem nas coxas e sobe, observando cada detalhe da renda, do bordado, da estampa, sem pensar nada em especial. Está enfadada.
Trinta e duas, trinta e três curtidas. Mais um comentário. Do namorado: "Você é a luz que ilumina meus dias! Te amo muitão, minha princesa!" Ela sorri sem empolgação. Senta-se no sofá, ajeita o cabelo, curte o comentário e responde: "Amo mais, seu lindo! <3 <3 <3".
Ela se levanta, passa em frente ao espelho, se acha bonita. Faz uma pose sexy e tira três fotos, fazendo biquinho. Não parece muito satisfeita com o resultado. Escolhe a melhor, seleciona um filtro e envia pelo whatsapp: "pra você!".
A resposta não demora nem um minuto. "Delícia! Meu sócio não tá aí com você?"

"Rs rs rs... Não, não! Hoje, ele me deu uma folga! ;-)", ela digita com rapidez impressionante.
As curtidas não param.
Abre de novo a foto e a observa com mais cuidado. O abraço dele envolve seu pescoço, dedos entrelaçados, seu sorriso está perfeito. "Puta que o pariu, como não acreditar na felicidade desse sorriso?" O primeiro comentário. Da colega de trabalho: "Que lindos! Que Deus abençoe!" Curte de imediato e responde: "Para sempre, amiga!!!!" Exclamações e três coraçõezinhos.
Sete, oito, nove curtidas. Comentário da cunhada: "Hummm... Que amor!" Ela sorri, triste. E volta a olhar a foto. "Meu Deus, com que sorriso lindo eu saí nessa foto!" Deitada no sofá, fica olhando a foto distraída. Tratada com filtros, em preto e branco, bem contrastada. Ele é bem mais velho que ela, mas tenta disfarçar, roupas de menino, dessas que se compram em viagens para os Estados Unidos ou idas à Vinte e Cinco de Março, cabelos com gel, relógio grande, braços fortes, a barriga quase passa despercebida. Ela não vê amor no rosto dele. Nunca viu, na verdade. Sempre achou que ele gosta mesmo é de desfilar com uma garotinha bonita por aí, a exibindo como um troféu para os amigos. No pulso direito dos dois, pulseirinhas do camarote. Balada cara. Status.
Dezessete, dezoito, dezenove curtidas. O gostosinho atrevido da academia comenta: "A noite foi boa em huahauhuahauhua (sic)". "Antes fosse", ela retruca mentalmente, virando de bruços no sofá e tentando se lembrar da última vez que o namorado a havia deixado satisfeita, em vez de cair de bêbado, roncando em moteis baratos.
"Bom te ver feliz! =D", diz o comentário da ex-professora. Ela pensa em curtir o comentário, mas hesita, deixa para depois. "Se eu cair, que seja em seu abraço. <3", lê novamente a legenda que deu à foto e fica pensando na glória e na desgraça de ter alguém como ele ao seu lado numa cidade tão pequena como a deles.
Já são 26 curtidas. Mais um comentário. "Paaaara tudo! Ahazou, miga (sic)!" "Vaca invejosa", pensa triunfante, respondendo àquela que sempre deu em cima de seu namorado. Abre a foto de novo. "Esse vestido me emagrece...", amplia a imagem nas coxas e sobe, observando cada detalhe da renda, do bordado, da estampa, sem pensar nada em especial. Está enfadada.
Trinta e duas, trinta e três curtidas. Mais um comentário. Do namorado: "Você é a luz que ilumina meus dias! Te amo muitão, minha princesa!" Ela sorri sem empolgação. Senta-se no sofá, ajeita o cabelo, curte o comentário e responde: "Amo mais, seu lindo! <3 <3 <3".
Ela se levanta, passa em frente ao espelho, se acha bonita. Faz uma pose sexy e tira três fotos, fazendo biquinho. Não parece muito satisfeita com o resultado. Escolhe a melhor, seleciona um filtro e envia pelo whatsapp: "pra você!".
A resposta não demora nem um minuto. "Delícia! Meu sócio não tá aí com você?"

"Rs rs rs... Não, não! Hoje, ele me deu uma folga! ;-)", ela digita com rapidez impressionante.
As curtidas não param.
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