segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Não se olha os dentes

Tão logo o garçom saiu com o pedido anotado, Erik foi às contas, aquelas cujas únicas utilidades eram exercitar o cérebro e ajudar a passar o tempo. Oito fileiras de mesas no comprimento, sete na largura. Estas, que ficavam à beira das janelas que davam para a rua, tinham apenas dois lugares. As outras, quatro. Duzentos e dez pessoas sentadas. 

Era uma padaria grande, com um salão de pé direito alto, em um bairro chique de São Paulo. Dessas que servem almoço a R$ 55 o quilo, com sucos naturais a R$ 7,90. Àquela hora, cerca de oito da noite, nem um terço das mesas estava ocupado, a maioria com uma ou duas pessoas. Era véspera de feriadão, a cidade estava completamente parada e dar um tempo por ali parecia ser uma boa opção contra o estresse de um trânsito que não leva ninguém a lugar nenhum.

Erik gostava de fazer aquilo ultimamente: escrutinar lugares e pessoas, ficar bolando mentalmente diálogos, imaginando personalidades a partir de aparências, criando frases geniais para interagir com estranhos em situações que nunca deixavam seu mundo fictício para virar realidade, mas que lhe faziam companhia nas refeições solitárias das horas de almoço ou nos happy hours em que brindava consigo mesmo.

Olhou para a mesa ao lado e viu um casal. Reparou nas alianças na mão esquerda e, pela pouca idade, concluiu que deveriam ser recém-casados. Provavelmente, não sabiam cozinhar. Deveriam morar ali por perto. Os dois não conversavam. Estavam cada um mexendo no seu smartphone e, de tempo em tempo, se cutucavam para mostrar algo engraçado. E riam. Pareciam bem felizes e cúmplices. "Bonitinhos", pensou. Tirou o celular do bolso e digitou o nome de uma ex-namorada na busca do Facebook. O aparelho avisou que a bateria estava acabando e o garçom trouxe seu suco de abacaxi com hortelã.

Quando levantou a cabeça para receber o garçom à mesa, notou pela janela a chegada de uma moça loira. Ela era magra, alta, longilínea, rosto comprido e anguloso, cabelo preso num rabo de cavalo, cara de brava, fechada. Estava arrumada como quem havia saído do trabalho, sem frescuras. Considerou que era uma garota bonita. Apenas bonita. 

Erik acompanhou a entrada dela com os olhos. Ela se sentou numa mesa encostada na janela, de dois lugares, de frente para ele, a umas quatro mesas adiante, sem ninguém a atrapalhar a visão entre eles. Não havia sinal algum de que ela o havia notado, porém.

"Deve ser chata", foi a primeira coisa que ele pensou, iniciando as adivinhações sobre a moça. Não viu alianças, só um anel num dedo que não dizia nada. Talvez fosse dentista, pelos dentes alinhados e pela calça branca. Só um chute. Entre 25 e 30 anos, não mais. Ela pediu uma água e ficou mexendo no celular largado sobre a mesa com um só dedo, desinteressadamente. Concluiu, e se achava certeiro, que a moça iria encontrar alguém em questão de minutos. 

O pedido do rapaz chegou em seguida. Um beirute de filé mignon enorme que, agora, com trânsito e com uma moça loira e sozinha para escrutinar, ele não teria pressa alguma para saborear.

Uns 20 minutos depois que ela chegou, finalmente a viu sorrindo para o celular e reparou como isso era raro nela. Ela pegou o aparelho na mão e começou a digitar mais rápido, usando os polegares. Mais uns dois sorrisos e guardou o celular na bolsa, novamente séria. Erik já estava intrigado. Mastigava e ria, imaginando o que a garota poderia estar pensando, enquanto ela voltava sua cara de brava da rua para o relógio no pulso, do relógio para a rua.

O celular dela tocou. Ela mais escutou do que falou. Não sorriu. Um minuto, no máximo. Desligou e chamou o garçom. Ele voltou com uma Stella Artois. Para Erik, não restava dúvidas: ela havia levado um bolo. E, na sua lógica própria, julgou que estava vulnerável. Ele precisava pensar em alguma coisa. Mastigava devagar. E, mesmo que ela, em momento algum, tivesse dirigido a ele sequer um olhar, Erik estava decidido a agir.

Pegou a caneta que sempre levava no bolso e começou a escrever no guardanapo. A letra tremeu, borrou. Amassou e pôs de lado. Na segunda tentativa, uma dúvida ortográfica. Amassou novamente. Na terceira, o texto final: "Se ele não vier, posso te fazer companhia." Havia decidido que menos era mais.

Ela tinha voltado ao celular com a mesma postura desinteressada do início. A garrafa quase vazia. Erik passou por ela com o pretexto de ir ao banheiro e, na volta, deixou o bilhete sobre a mesa, quase como quem joga algo fora, voltando ao seu lugar sem a certeza de que ela tinha notado que ele tinha passado por ali. Mas, ela notou. E, quando ele voltou para sua mesa e olhou para a dela, a moça estava com o guardanapo aberto sob seus olhos.

Ele se sentiu envergonhado. Ela não sorriu. Olhou pela janela e assim ficou por quase um minuto. Erik debruçou-se sobre a comida, já arrependido, pensando em terminar o prato e ir embora, quase rindo nervosamente da sua atitude e sentindo-se com 15 anos. Quando levantou a cabeça, olhou para o outro lado, para as mesas, coisa que não fazia há quase uma hora. Percebeu que a padaria já estava bem mais cheia e movimentada. Sentiu-se meio ridículo.

Decidiu olhar para a garota. Encará-la como homem, afinal. Ela estava se levantando. "Fiz a menina ir embora", ele pensou. Mas, ela não caminhava para a porta e, sim, em direção ao fundo, onde estava a mesa de Erik. Ele percebeu e abaixou a cabeça. A loira ajeitou a alça da sua bolsa nas costas da cadeira em frente a do rapaz, pôs seu celular sobre a mesa e sentou-se diante dele, chamando o garçom. "Me traz mais uma cerveja, por favor?"

Erik não disse nada. Levantou os olhos, tomou o último gole do suco. E riu, quase engasgando. Ela não riu. Mas, já não lhe parecia tão brava assim. Ficaram se olhando. Ele rindo, já com os olhos cheios de lágrimas. Ela séria.

- Por que ele? - ela iniciou o papo. Tinha uma voz firme, condizente com a aparência, mas bem feminina.

- Ahn...? - ele perguntou, se ajeitando na cadeira, tentando ficar sério.

- Você escreveu aqui: "se ele não vier, posso te fazer companhia". Por que tem que ser "ele"? Não pode ser "ela"? - não tinha agressividade na fala dela, que inclinou o corpo para trás, relaxando na cadeira e dando um gole na cerveja que acabara de chegar.

Erik levantou as sobrancelhas. Ele não sabia exatamente o que falar. Ela percebeu.

- Eu tenho que estar esperando meu namorado? Eu não posso estar esperando minha namorada? Ou uma amiga? Aliás, eu preciso estar esperando alguém? Eu não posso apenas estar... sozinha? - ela ia falando e jogando com os ombros e as mãos. A garota tinha uma eloquência envolvente que o fazia se sentir bobo.

- É... Você tem razão. Eu joguei com o lugar-comum. - ele olhava para baixo e ajeitava os talheres no prato, sinalizando que terminou a refeição.

- Ei! Não precisa se sentir mal... - ela sorriu pela primeira vez à mesa. - Só acho engraçado você tentar chamar a minha atenção, jogando com o lugar-comum. Sério que você achou que eu ia gostar disso? - ela levantou o guardanapo que havia virado bilhete.

Erik riu meio triste. Ele olhou para o lado, tentando perceber se alguém acompanhava a cena e se voltou para a loira.

- Olha, eu já entendi que não mandei bem, ok? Eu só achei que você estava sozinha, provavelmente tinha levado um bolo de alguém... E achei que talvez eu pudesse te fazer companhia... É véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria...

- E? - ela interrompeu o monólogo. 

- E o quê? - ele estava meio confuso.

- E daí se é véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria? Não entendi... - ela sorria. Raro.

- Daí que todo mundo espera algo mais, não?

- Não. Eu não espero nada. Eu espero estar viva amanhã. Eu espero ter meu emprego na segunda-feira. Sei lá. 

Ela falava e soltava os cabelos, olhando para a rua. Começava a cair uma garoa fina sobre os carros parados no trânsito intenso que não se desfazia. Erik acompanhava tudo com certo desconforto e, ao mesmo tempo, um interesse crescente. Conforme os fios loiros iam ganhando a liberdade, a aura de moça séria era pintada de outros tons.

- Qual é o seu nome? - ele perguntou.

- Hahahahahaha... - ela gargalhou, embora parecesse que ela não seria capaz disso.

- Que foi? - Erik transparecia seu incômodo.

- Só agora me dei conta que você não sabe meu nome e eu não sei o seu... - levantou a garrafa long neck para um brinde - Natália.

- Erik... - e ele se deu conta de que não tinha nada para brindar, porque, desde que o suco de abacaxi com hortelã havia acabado, estava ali conversando a seco.

- Não. Vamos fazer isso direito. Garçom!

A cada atitude que Natália tomava, Erik se diminuía, murchava na cadeira e pensava no quanto não estava preparado para uma mulher como aquela. O garçom chegou e parou ao seu lado.

- Vai... Pede aí alguma coisa para brindar comigo... - ela tinha um risinho no canto da boca que ele notava e que o deixava meio puto, meio constrangido.

- Assim... Ahn... É... - ele não tinha pensado em nada. Pedir o cardápio seria ridículo. Ele não estava a fim de tomar cerveja. Precisava pensar rápido - Me vê outro suco desse...

- Suco do quê? - o garçom perguntou.

- Abacaxi com hortelã. - Erik e Natália responderam juntos e o rapaz teve a certeza de que ela o fez só para provocá-lo.

- Mas, então, Erik... O que você esperava? - ela perguntou assim que o garçom saiu, olhando firme nos olhos dele.

- O que eu esperava em relação a quê exatamente?

- Você disse que todo mundo espera algo mais na véspera de um feriado... O que você esperava para a sua noite? - ela se inclinou de cabelos soltos, chegando com o rosto bem perto do dele. E ele a achou incrivelmente linda naquele momento.

- Ah... Pra falar a verdade, eu não tava esperando muita coisa... Quer dizer, eu tava... Queria fazer um monte de coisas, ter uma festa legal pra ir, amigos pra sair... Aí, saí do trabalho sem nada combinado com ninguém... O trânsito tá essa merda... Desanimei! Parei aqui para comer, antes de ir embora para casa... - a cada frase, ele chicoteava as próprias costas por parecer o cara mais reclamão da face da Terra.

- Aí, você me viu. E achou que tudo poderia mudar! - a cerveja estava triplicando o número de sorrisos no rosto anguloso de Natália.

- Aí, eu te vi e achei que tudo poderia mudar! - ele repetiu, olhando para ela com a cara mais charmosa que achava que tinha. Quando chegou seu suco.

- Pronto! Agora, podemos brindar! Prazer em conhecê-lo, Erik!

- Prazer em conhecê-la, Natália!

Ela, com sua Stella Artois. Ele, com seu suco de abacaxi com hortelã. Brindaram, sorriram e deram longos goles naquela noite quente, onde a chuva já começava a apertar um pouco mais. Erik tomou o suco e um pouquinho de coragem.

- Então, Natália... Eu estava aqui pensando... - inclinou o tronco à frente.

- Hum... - ela fechou os lábios e virou os olhos para cima, como quem já imagina o que vem por aí.

- E se a gente... - o toque do celular dela o interrompeu.

Ela fez sinal com a mão para ele aguardar um instante. "Oiê!... Hum... Já tá saindo?... Tá!... Tá!... Por mim, pode ser!... Legal... Não, não comi nada... Beleza!... Tá bom! Te encontro na estação, então?... Até... Beijo, amor!... Beijão!" 

Encerrou a ligação e voltou-se para Erik, que estava olhando para baixo e chupando o canudinho.

- Eu vou ter que ir, querido...

- Tudo bem. - ele sorria, amarelo, fazendo força para agir naturalmente.

- Mas, foi bem legal conversar contigo, viu!? - ela colocou a mão em cima da dele e já foi se levantando.

- Telefone...? Não, né!? - Erik tentava falar de um jeito que poderia ser interpretado como uma coisa séria ou uma piada, ao gosto da freguesa.

- Tchau, tchau! Se cuida.

- Peraí, peraí... - ela em pé, ele sentado. - Você é dentista?

- Não! Sou secretária de um... - ela pôs a mão na cintura e sorriu pela última vez. - Como você adivinhou? 

- Eu sou bom nisso. - e, finalmente, Erik voltou a se sentir bem.

Ela lhe lançou um tchauzinho charmoso, se virou e saiu, jogando os cabelos. Entrou uma garota, saiu outra. Correndo da chuva e entrando na estação do metrô. E ele ali, acompanhando tudo com os olhos. E tentando fazer suas adivinhações.

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