Acordou de sobressalto. Parecia ainda dentro de um sonho. Não estava esperando que o rádio-relógio tocasse num volume tão alto e, assim, Gilberto Gil chegando pelas ondas da FM lhe pareceu assustador. Tomou banho, ainda pensando divertidamente se lá na Praça Onze haveria mesmo um videopôquer para se jogar. Vestiu-se sem pressa e percebeu que, depois de muito tempo, não estava atrasado para o trabalho.
Sentou-se em frente à TV e, quando o noticiário foi para o intervalo, se deu conta de que era capaz de repetir cada palavra e cada música de todos os comerciais, mas parecia que os estava vendo pela primeira vez. Não se lembrava daqueles atores, daqueles efeitos, daquelas cenas. Sem dúvida, já os tinha ouvido, mas nunca os tinha visto.
- Bom dia, seu Mário! - escutou o cumprimento, virou-se para responder ao porteiro e ficou impressionado. "Nossa, como tá branco o cabelo do Chico..."
Deixou o prédio ainda pensando em como o porteiro tinha se tornado grisalho da noite para o dia. Na frente do condomínio, parou maravilhado. Três pequenos macaquinhos corriam pelos fios da rede elétrica. A voz do faxineiro o tirou do estado embasbacado.
- Eles estão com tudo hoje, né, doutor!?
- Eles? Eles estão sempre aqui!?!?
- Ôxi...
Percebeu que Luis, o faxineiro, o encarava como se ele estivesse falando uma coisa muito absurda e se sentiu envergonhado. Mudou de assunto.
- Cadê o Paulinho?
- Paulinho... Paulinho... Que Paulinho, doutor? - apoiado na vassoura, Luis coçava a cabeça.
- O Paulinho, pô! Paulinho manco, da limpeza...
- Vixe, doutor... O Paulinho foi mandado embora do condomínio faz mais de ano já... - respondeu, voltando a varrer.
- Mais de ano!?!? - Mário repetiu e foi descendo a rua, sentindo-se confuso.
Estava sendo mesmo um dia estranho. Até o muro da escolinha infantil da esquina tinha mudado de cor. De uma hora para outra, o azul tinha se tornado amarelo e ele não entendia como isso era possível.
O rapaz se deu conta de que tinha tempo sobrando e resolveu passar na padaria. Pediu um pão com manteiga na chapa e um café pequeno. O ritmo dos atendentes no balcão era alucinante e o mecanismo da máquina de café chamou sua atenção. Acompanhou cada detalhe com atenção: os grãos inteiros, a quantidade certa de pó, a água fervendo e, de repente, o líquido preto escorrendo devagar dentro da xícara. E de novo. E de novo. E de novo. Olhou para os lados, tentando perceber se alguém também estava vendo aquilo. Ninguém. Todos entravam e saíam muito rapidamente, de cabeça baixa, concentrados em alguma coisa muito importante.
Na estação de trem, se viu impaciente. Todos pareciam muito apressados, mas andavam devagar pelos corredores, digitando e lendo mensagens no celular. Por duas vezes, teve que desviar para não se chocar com gente que passava distraída, com seus fones de ouvido.
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| Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje? |
- Eu tô há uma semana sem internet na minha casa... - dizia a moça que estava em pé.
- Como assim!? Como você vive? - a outra, sentada com as bolsas no colo, até parou de mexer no celular, de tão indignada.
- Pois é... É como se faltasse o ar. - e riu, enquanto tirava o fone de ouvido do bolso.
Por mais que a conversa lhe soasse absurda, ele era capaz de entender as duas. E isso o entristeceu por um instante. Começou a olhar a paisagem pela janela e percebeu que a ponte já estava enfeitada com as luzes de Natal. Notou também novas árvores plantadas à margem do rio e uma ampliação já bem adiantada da ciclovia.
Quando viu o que julgou ser uma família de capivaras passeando pela grama, pensou em cutucar alguém e dizer: "olha", mas notou que era o único que tinha testemunhado a cena e que já era tarde demais.
Passou o crachá para entrar na empresa e cumprimentou a recepcionista.
- Hum... Cortou o cabelo... Ficou bonito! - disse, sorrindo.
- Ah, já faz uma semana... Mas, muito obrigada! Você foi o único que reparou! - respondeu a jovem, genuinamente feliz com o elogio.
"Uma semana...", ele repetiu em pensamento, enquanto pegava o elevador, que naquele dia estava mais lento que o normal.
Na parada para tomar água, encontrou um grande amigo, aquele para quem estava mesmo pensando em contar a grande história de seu fim de semana. O momento era perfeito e, empolgado, ele começou o seu relato.
O amigo o recebeu com simpatia. Mas, estava distante. Olhos no iPhone e "aham, aham" para tudo que ele falava. Resolveu encurtar a conversa com um "o que você acha?".
- Oi?... O que eu acho? Eu acho... Ah, o que eu acho... Eu acho que... Hum... Cara, desculpa, eu não tava prestando atenção! - o amigo confessou, no mesmo momento que recebeu uma nova mensagem.
Ele aproveitou que o amigo abaixou a cabeça para ler e foi entrando para o escritório. No corredor, cruzou com duas colegas e ouviu uma frase de relance.
- O que as pessoas com insônia faziam antes da internet?
Sentou à mesa e ficou tentando responder para si mesmo a dúvida da colega. Seu ramal tocou. A ligação foi bem rápida e, quando desligou, cumprimentou o chefe que estava chegando.
- Acabaram de ligar da assistência. Meu celular ficou pronto. - disse por dizer.
- Que bom! Não dá pra ficar sem, né... O conserto demorou? - perguntou o chefe, enquanto tirava o seu aparelho do bolso para checar alguma coisa.
- Não... Só fiquei sem durante o fim de semana... Deixei lá na sexta, vou pegar hoje...
- Caramba! O fim de semana inteiro desligado do mundo? Como você conseguiu? Outro dia, eu fiquei sem celular uma tarde e quase tive um treco... Imagina um fim de semana inteiro!
Ele ia tentar argumentar que havia se sentido bem com a sensação de não poder ser encontrado a qualquer momento ou como havia sido bom não se corroer de ansiedade por uma mensagem que não chega. Mas, àquela altura, o chefe já tinha lhe dado um tapinha nas costas e havia saído em direção a sua sala.
Deu uma risada meio confusa, ligou o computador e se surpreendeu ao olhar o relógio. Não eram nem nove horas da manhã.





