segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Temporariamente evitando uma conexão ruim

"...que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar..."

Acordou de sobressalto. Parecia ainda dentro de um sonho. Não estava esperando que o rádio-relógio tocasse num volume tão alto e, assim, Gilberto Gil chegando pelas ondas da FM lhe pareceu assustador. Tomou banho, ainda pensando divertidamente se lá na Praça Onze haveria mesmo um videopôquer para se jogar. Vestiu-se sem pressa e percebeu que, depois de muito tempo, não estava atrasado para o trabalho.

Sentou-se em frente à TV e, quando o noticiário foi para o intervalo, se deu conta de que era capaz de repetir cada palavra e cada música de todos os comerciais, mas parecia que os estava vendo pela primeira vez. Não se lembrava daqueles atores, daqueles efeitos, daquelas cenas. Sem dúvida, já os tinha ouvido, mas nunca os tinha visto.

- Bom dia, seu Mário! - escutou o cumprimento, virou-se para responder ao porteiro e ficou impressionado. "Nossa, como tá branco o cabelo do Chico..."

Deixou o prédio ainda pensando em como o porteiro tinha se tornado grisalho da noite para o dia. Na frente do condomínio, parou maravilhado. Três pequenos macaquinhos corriam pelos fios da rede elétrica. A voz do faxineiro o tirou do estado embasbacado.

- Eles estão com tudo hoje, né, doutor!?

- Eles? Eles estão sempre aqui!?!?

- Ôxi...

Percebeu que Luis, o faxineiro, o encarava como se ele estivesse falando uma coisa muito absurda e se sentiu envergonhado. Mudou de assunto.

- Cadê o Paulinho?

- Paulinho... Paulinho... Que Paulinho, doutor? - apoiado na vassoura, Luis coçava a cabeça.

- O Paulinho, pô! Paulinho manco, da limpeza...

- Vixe, doutor... O Paulinho foi mandado embora do condomínio faz mais de ano já... - respondeu, voltando a varrer.

- Mais de ano!?!? - Mário repetiu e foi descendo a rua, sentindo-se confuso.

Estava sendo mesmo um dia estranho. Até o muro da escolinha infantil da esquina tinha mudado de cor. De uma hora para outra, o azul tinha se tornado amarelo e ele não entendia como isso era possível.

O rapaz se deu conta de que tinha tempo sobrando e resolveu passar na padaria. Pediu um pão com manteiga na chapa e um café pequeno. O ritmo dos atendentes no balcão era alucinante e o mecanismo da máquina de café chamou sua atenção. Acompanhou cada detalhe com atenção: os grãos inteiros, a quantidade certa de pó, a água fervendo e, de repente, o líquido preto escorrendo devagar dentro da xícara. E de novo. E de novo. E de novo. Olhou para os lados, tentando perceber se alguém também estava vendo aquilo. Ninguém. Todos entravam e saíam muito rapidamente, de cabeça baixa, concentrados em alguma coisa muito importante.

Na estação de trem, se viu impaciente. Todos pareciam muito apressados, mas andavam devagar pelos corredores, digitando e lendo mensagens no celular. Por duas vezes, teve que desviar para não se chocar com gente que passava distraída, com seus fones de ouvido.


Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?
Mesmo com o vagão cheio, conseguiu se sentar. Estava de frente para um senhor de paletó, que o cumprimentou com a cabeça. Ele retribuiu o aceno, mesmo sem se lembrar de onde o conhecia. Reparou no garoto que fingia dormir, ocupando o assento de idosos, e na moça que balançava o corpo ao som de uma música que só ela ouvia, encostada ao lado da porta. Impressionou-se com o silêncio no vagão. A única conversa era entre duas mulheres a poucos metros de onde ele estava.

- Eu tô há uma semana sem internet na minha casa... - dizia a moça que estava em pé.

- Como assim!? Como você vive? - a outra, sentada com as bolsas no colo, até parou de mexer no celular, de tão indignada.

- Pois é... É como se faltasse o ar. - e riu, enquanto tirava o fone de ouvido do bolso.

Por mais que a conversa lhe soasse absurda, ele era capaz de entender as duas. E isso o entristeceu por um instante. Começou a olhar a paisagem pela janela e percebeu que a ponte já estava enfeitada com as luzes de Natal. Notou também novas árvores plantadas à margem do rio e uma ampliação já bem adiantada da ciclovia. 

Quando viu o que julgou ser uma família de capivaras passeando pela grama, pensou em cutucar alguém e dizer: "olha", mas notou que era o único que tinha testemunhado a cena e que já era tarde demais.

Passou o crachá para entrar na empresa e cumprimentou a recepcionista.

- Hum... Cortou o cabelo... Ficou bonito! - disse, sorrindo.

- Ah, já faz uma semana... Mas, muito obrigada! Você foi o único que reparou! - respondeu a jovem, genuinamente feliz com o elogio.

"Uma semana...", ele repetiu em pensamento, enquanto pegava o elevador, que naquele dia estava mais lento que o normal.

Na parada para tomar água, encontrou um grande amigo, aquele para quem estava mesmo pensando em contar a grande história de seu fim de semana. O momento era perfeito e, empolgado, ele começou o seu relato. 

O amigo o recebeu com simpatia. Mas, estava distante. Olhos no iPhone e "aham, aham" para tudo que ele falava. Resolveu encurtar a conversa com um "o que você acha?".

- Oi?... O que eu acho? Eu acho... Ah, o que eu acho... Eu acho que... Hum... Cara, desculpa, eu não tava prestando atenção! - o amigo confessou, no mesmo momento que recebeu uma nova mensagem.

Ele aproveitou que o amigo abaixou a cabeça para ler e foi entrando para o escritório. No corredor, cruzou com duas colegas e ouviu uma frase de relance.

- O que as pessoas com insônia faziam antes da internet?

Sentou à mesa e ficou tentando responder para si mesmo a dúvida da colega. Seu ramal tocou. A ligação foi bem rápida e, quando desligou, cumprimentou o chefe que estava chegando.

- Acabaram de ligar da assistência. Meu celular ficou pronto. - disse por dizer.

- Que bom! Não dá pra ficar sem, né... O conserto demorou? - perguntou o chefe, enquanto tirava o seu aparelho do bolso para checar alguma coisa.

- Não... Só fiquei sem durante o fim de semana... Deixei lá na sexta, vou pegar hoje...

- Caramba! O fim de semana inteiro desligado do mundo? Como você conseguiu? Outro dia, eu fiquei sem celular uma tarde e quase tive um treco... Imagina um fim de semana inteiro!

Ele ia tentar argumentar que havia se sentido bem com a sensação de não poder ser encontrado a qualquer momento ou como havia sido bom não se corroer de ansiedade por uma mensagem que não chega. Mas, àquela altura, o chefe já tinha lhe dado um tapinha nas costas e havia saído em direção a sua sala.

Deu uma risada meio confusa, ligou o computador e se surpreendeu ao olhar o relógio. Não eram nem nove horas da manhã.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lizards are strange

Naquele sábado de fevereiro, Charles acordou com a mesma ideia que o acompanhava durante toda sua estadia na Europa, que já entrava na segunda semana. Na verdade, era um sonho cultivado ao longo dos seus últimos 15 anos. Durante metade de sua vida, ele havia desejado que aquele momento chegasse. E chegou naquele sábado.

Era hora de conhecer o único ponto de Paris que Charles julgava imprescindível na sua primeira passagem pela cidade. Esqueça a torre Eiffel, o museu do Louvre, o Arco do Triunfo, a Catedral de Notre Dame. Charles só fazia questão de estar no cemitério de Père-Lachaise.

Mesmo que ir até lá fosse um sonho antigo, o planejamento do que fazer quando lá estivesse só veio na noite anterior. No quarto do hotel, a namorada já dormia e apenas a garrafa de vinho fazia companhia ao rapaz, embriagado de ansiedade e êxtase. Lembrou-se das folhas de sulfite e da caneta, que sempre levava na mochila para desenhar os mapas da viagem, e escreveu em letras garrafais a frase que resumia o sentimento que o levara até ali. Tomou todo o cuidado do mundo com a caligrafia e com a gramática da língua estrangeira, dobrou o papel e o guardou para ser aberto apenas na hora certa. Só então, Charles deu-se por satisfeito e pôde dormir.

Uma fina garoa caía sobre a Cidade Luz, às 9 da manhã, quando o casal deixou o hotel nas redondezas das Galeries Lafayette e pegou o trem em direção ao 20º arrondissement (como é chamada cada sub-região da capital francesa), no extremo leste de Paris. Mas, os pouco mais de 20 minutos de viagem foram capazes de levar Charles muito mais longe.

Alheio à paisagem que passava pela janela do trem, naquele momento, ele estava de volta ao quintal da casa onde viveu na adolescência, em São Paulo. Foi ali que o filho da amiga de uma tia de Charles, que foi morar na casa dos fundos, lhe abriu as portas para uma banda chamada The Doors. Um CD de greatest hits com capa vermelha foi o suficiente para o garoto entrar por um caminho sem volta.

Não demorou muito para ele se tornar, entre seus amigos e colegas, referência de tudo que dizia respeito à turma de Jim Morrison. Muitos tocavam violão, mas só Charles, o canhoto que não se importava com as cordas invertidas, estava habilitado a reproduzir o som dos Doors. Para ele, era um orgulho sem tamanho ser visto como especialista em sua banda favorita.

O cemitério de Père-Lachaise é o maior de Paris e um dos mais conhecidos do mundo. Estão sepultadas lá figuras marcantes da história da humanidade, como os escritores Honoré de Balzac e Marcel Proust, as cantoras Maria Callas e Édith Piaf, e o "pai do espiritismo", Allan Kardec, entre outras. Uma verdadeira cidade de almas célebres e celebradas por visitantes de todos os lugares do planeta.

Charles havia pesquisado no site do cemitério como chegar exatamente ao ponto que o interessava. A alguns metros de distância, por caminhos de pedras, já pôde identificar que estava no lugar certo graças às grades de metal de mais de 1,30m de altura que cercavam a sepultura. No frio de 5ºC que fazia na capital francesa, o tempo parou, a garganta secou, o ar sumiu, os olhos se encheram de água, a vista ficou desfocada para tudo que não fosse aquele túmulo cinzento com uma placa de metal desgastada pelo tempo, onde se lia JAMES DOUGLAS MORRISON 1946-1971.

Estava enterrado ali o maior ídolo de Charles. Onde muitos veriam apenas a morte, o rapaz sentia o que para ele era o maior legado do líder dos Doors: a mensagem de viver intensamente, pedra fundamental na formação de um adolescente apaixonado por rock and roll.

Chegar o mais próximo permitido não lhe bastava. Isso era para as pessoas comuns. Não para um fã como ele. Charles já tinha tudo planejado. Apenas esperava o momento certo. Um funcionário do cemitério havia acabado de trocar as flores do túmulo de Morrison, quando outro casal de turistas se aproximou com suas câmeras e lentes de longo alcance. 

Aquilo só atrasava os planos de Charles, que tentava disfarçar sua ansiedade, caminhando entre outras sepulturas. A tensão naquele momento era muito maior que a felicidade de estar ali. Mas, havia um motivo para tudo aquilo. E o rapaz repetia a si mesmo que não sairia dali sem conseguir o que queria.

O casal de visitantes pareceu entender o que se passava e, por um instante, deixou Charles e sua namorada a sós em frente ao túmulo do astro. Até então, ela acompanhava o parceiro sem reclamar, sem estranhar, sem fazer nenhuma pergunta. Embora não partilhasse do mesmo fanatismo, respeitava a idolatria do namorado. Mesmo assim, definitivamente, ela não esperava pelo que viria a seguir.

- É agora! Prepara a câmera. Eu vou pular! - Charles, de preto dos pés a cabeça, das botas à boina, passando pelo sobretudo e pelo cachecol, já estava subindo a grade, cheia de cadeados deixados por casais apaixonados.

- Como assim!? Vai pular?

- Vou pular!

- Então, vai... Pula logo! - ela sabia que não era hora de discutir. Se havia algo a ser feito, que fosse feito logo.

E Charles pulou. No meio de tanta adrenalina, o rapaz, que não é religioso mas crê em forças superiores, sentiu uma enorme calma. Uma enorme e eufórica calma, que vinha junto de uma energia que ele não saberia explicar. Por instantes, a vida parecia passar em câmera lenta.

Sacou do bolso do casaco o papel dobrado, abriu e pediu que a namorada tirasse o maior número de fotos possível. "I'AM THE LIZARD KING. I CAN DO ANYTHING. (Eu sou o rei lagarto. Eu posso fazer o que eu quiser.)" Naquele momento, Charles não tinha domínio sobre seu corpo ou sua mente, mas se sentia capaz de fazer qualquer coisa.

- Rock is dead! - gritou, enquanto pulava de volta. Foi a única coisa que lhe veio à mente. O grito chamou a atenção do outro casal de turistas, os únicos a testemunharem o pequeno delito.

A cena toda não havia durado mais que um minuto. Estava feito.
Charles estava em êxtase. Preocupado com a possibilidade de ser denunciado e preso, só queria ir embora rapidamente. Também estava louco para ver as fotos. Foram tantas, que não era possível que ao menos uma não tivesse ficado boa. 

Foi a conta exata. Apenas uma foto se salvou. Sua expressão não
saiu das melhores. Mais do que a postura do gesto característico do rock and roll feito com a mão esquerda, o nervosismo do sorriso
estampou o retrato. No entanto, a missão estava cumprida. Charles finalmente havia realizado seu sonho adolescente: estar lado a lado com seu ídolo. Da única maneira possível. 

This is the end.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Com ou sem colarinho?

- E o pior é que não vai cair...

- Não vai...

- Sei não...

- Não cai... Não é possível que não ganhe do Atlé... Puta que o pariu! Não olha agora! Não olha! Disfarça, disfarça...

E ficaram ali, cinco homens em mangas de camisa, paralisados com seus copos de chope em mãos, olhando dois meninos de não mais de 20 anos passarem abraçados pelo corredor do shopping. O mais baixinho deles, alargador nas orelhas, camiseta curta, calça colorida agarrada às pernas finas, tascou um beijo no pescoço do namorado. Eles dobraram a esquina e a cena continuou na mesa.

- Acabou! Acabou! Acabou! - gordo e vermelho, Antunes já sua às bicas por natureza. Naquele momento, parecia que ia explodir. - É o fim do mundo! - e virou a tulipa de uma vez.

- Não existe mais respeito... - balançou a cabeça o Jairo, 58 anos, aposentadoria prevista para dali dois meses. E todos balançaram a cabeça juntos, levando os copos às bocas, sincronizadamente.

- Hoje em dia, você tem que tomar cuidado com o que fala em qualquer lugar. Tem sempre alguém querendo te pegar na curva... Acabou o bom humor, acabou negócio de piadinha... Cê pode ser até preso! Tudo é bullying, tudo é racismo, preconceito... - o tom do Amauri, um negro de 40 anos, era bem sério, de alerta.

- O mundo tá muito chato!

- Tá!

- E a viadagem tomou conta!

- É culpa da TV! Você liga a TV pra relaxar depois do trabalho e só tem coisa errada... Só bandido, só gente enganando o outro e viado pra cacete... Não dá mais pra ver novela com a família! Tá foda! - sem dúvida, o Antunes era o mais exaltado. Naquele momento, o tradicional happy hour de quinta-feira não tinha nada de happy.

- Vocês não sabem o que me aconteceu semana passada... - começou o Marcelo, o caçula da mesa, aos 30 e poucos anos. Tomou um gole, segurou a atenção por um instante. - Levei a Cláudia ao cinema, de boa... Estamos lá, esperando o filme começar e chegam dois caras desse tamanho, tipo esses bombadões de academia, sabe? Casal de viado!

- Puta que o pariu! Como tem, né!?

- Sério! Pediram licença pra passar... E vocês não sabem... Sentaram bem do meu lado... - falava e abria os braços do tipo "como pode?".

- Hahahaha... Que merda!

- Cara... Eu fiquei sem saber o que fazer... Falei pra Cláudia que ia pegar pipoca... Arrumei um lugar pra sentar lá no fundo do cinema e mandei mensagem pra ela ir me encontrar... - Marcelo tinha o celular na mão e simulava a situação. Os outros riam.

- Boa!

- Não que eu seja preconceituoso... Mas, cara... É foda!

- É foda! Não é preconceito! Mas, tem lugar pra essas coisas, né!? Não precisa esfregar na cara do povo também... Às vezes, tem criança por perto... A gente que é pai vai falar o quê? Tem que pensar na família. - o Amauri encostou na cadeira, como quem está cansado de tudo isso que está aí. Tomou um gole longo e olhou hipnotizadamente o traseiro de uma loira que passava.

- É por isso que eu acho que gay tem que ser igual ao Carlinhos. - disse calmamente o Jairo.

- Carlinhos? Que Carlinhos? - perguntou o Roberto, um cinquentão que até então só ria e acompanhava a discussão.

- O Carlinhos, do marketing. Não é esse, seu Jairo? - ajudou o Marcelo.

- É! O do marketing. - o senhor careca de óculos fez sinal de positivo, pegou uma batata frita e prosseguiu. - É disso que eu tô falando. O cara é um gay tão discreto que você nem sabe que ele é.

- Pois é, rapaz... Não sabia...

- Eu também não sabia, não... - o Antunes já estava bem mais relaxado. A camisa para fora da calça, a cara menos vermelha.

- Pois, então. O cara sabe se comportar, fala como homem, se veste como homem... Não dá pra ser assim? - Seu Jairo, às vezes, tinha um ar de guru da turma.

O Amauri se inclinou em direção à mesa e falou baixinho, com malícia no olhar:

- E a Karen, hein!?

- Ah, a Karen... - repetiram alguns.

- Que Karen? - perguntou o Roberto. Ele era o mais disperso da mesa. Parecia não estar num bom dia.

- A Karen, porra! Estagiária, ruivinha... Lesbiquinha... - o Antunes falava e gesticulava, deixando claro que já vinha observando a moça há tempos.

- Ah...

- Delícia! - completou o Amauri, esfregando as mãos. - Já imaginaram?

Houve um breve instante de silêncio - ao que parece para que todos pudessem imaginar - e Marcelo não deixou a conversar parar ali.

- E isso que vocês não viram a namorada dela...

- Tá de sacanagem... - o Antunes não se continha, já na ponta da cadeira.

- Eu não vi pessoalmente. Mas, sou amigo dela no Facebook e vi as fotos... Rapaz! Que dupla! - Marcelo suspirou, virou a tulipa, encostou na cadeira e começou a mexer no celular.

- Desperdício, né!? - lamentou Seu Jairo.

- Desperdício nada! Chama elas aí... - brincou o Amauri, pegando o celular das mãos do Marcelo.

O quinteto pediu mais uma rodada e Roberto se levantou para ir ao banheiro. Pelo corredor do shopping, ele não levava o clima de chacota e brincadeira que tomou conta da mesa. Estava apreensivo, passava a mão na cabeça e caminhava rápido, sem olhar para os lados. Entrou no sanitário masculino, jogou muita água no rosto, olhou no espelho por alguns segundos. Conferiu todas as cabines, certificou-se de que estava sozinho e pegou o celular.

- Sandra! Sou eu... É, tô no shopping ainda... Não, não vou demorar... Como assim quem tá? Os de sempre, porra... Caramba, Sandra... O Jairo, o Antunes, o Amauri e o Marcelo... É... Sandra, escuta... Me diz uma coisa... Que dia a Mariana vai levar a tal da menina em casa pra gente conhecer?... Tá, eu sei... Namorada... Humpf... Tá, tá.... Que dia, Sandra?... Tá! Eu sei que já perguntei mil vezes. Responde mil e uma, caramba... Hum... Ai, meu cacete... Não, por nada... Tá... Tá... Já sei... Fala pra elas se comportarem também!... Tá... Tchau... Tá... Leite e pão... Tá bom, eu levo leite e pão... Tá! Beijo!

Jogou mais água no rosto, olhou no espelho, balançou a cabeça. Era preciso voltar para a mesa.

- Porra, Roberto, foi cagar? - todos riram.

- Sabe qual é a merda? A merda é que o Palmeiras depende só dele... Essa é que é a merda! - comentou, dedo em riste, e virou a tulipa ainda em pé.

- Não cai, porra! Já falei: não cai!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Não se olha os dentes

Tão logo o garçom saiu com o pedido anotado, Erik foi às contas, aquelas cujas únicas utilidades eram exercitar o cérebro e ajudar a passar o tempo. Oito fileiras de mesas no comprimento, sete na largura. Estas, que ficavam à beira das janelas que davam para a rua, tinham apenas dois lugares. As outras, quatro. Duzentos e dez pessoas sentadas. 

Era uma padaria grande, com um salão de pé direito alto, em um bairro chique de São Paulo. Dessas que servem almoço a R$ 55 o quilo, com sucos naturais a R$ 7,90. Àquela hora, cerca de oito da noite, nem um terço das mesas estava ocupado, a maioria com uma ou duas pessoas. Era véspera de feriadão, a cidade estava completamente parada e dar um tempo por ali parecia ser uma boa opção contra o estresse de um trânsito que não leva ninguém a lugar nenhum.

Erik gostava de fazer aquilo ultimamente: escrutinar lugares e pessoas, ficar bolando mentalmente diálogos, imaginando personalidades a partir de aparências, criando frases geniais para interagir com estranhos em situações que nunca deixavam seu mundo fictício para virar realidade, mas que lhe faziam companhia nas refeições solitárias das horas de almoço ou nos happy hours em que brindava consigo mesmo.

Olhou para a mesa ao lado e viu um casal. Reparou nas alianças na mão esquerda e, pela pouca idade, concluiu que deveriam ser recém-casados. Provavelmente, não sabiam cozinhar. Deveriam morar ali por perto. Os dois não conversavam. Estavam cada um mexendo no seu smartphone e, de tempo em tempo, se cutucavam para mostrar algo engraçado. E riam. Pareciam bem felizes e cúmplices. "Bonitinhos", pensou. Tirou o celular do bolso e digitou o nome de uma ex-namorada na busca do Facebook. O aparelho avisou que a bateria estava acabando e o garçom trouxe seu suco de abacaxi com hortelã.

Quando levantou a cabeça para receber o garçom à mesa, notou pela janela a chegada de uma moça loira. Ela era magra, alta, longilínea, rosto comprido e anguloso, cabelo preso num rabo de cavalo, cara de brava, fechada. Estava arrumada como quem havia saído do trabalho, sem frescuras. Considerou que era uma garota bonita. Apenas bonita. 

Erik acompanhou a entrada dela com os olhos. Ela se sentou numa mesa encostada na janela, de dois lugares, de frente para ele, a umas quatro mesas adiante, sem ninguém a atrapalhar a visão entre eles. Não havia sinal algum de que ela o havia notado, porém.

"Deve ser chata", foi a primeira coisa que ele pensou, iniciando as adivinhações sobre a moça. Não viu alianças, só um anel num dedo que não dizia nada. Talvez fosse dentista, pelos dentes alinhados e pela calça branca. Só um chute. Entre 25 e 30 anos, não mais. Ela pediu uma água e ficou mexendo no celular largado sobre a mesa com um só dedo, desinteressadamente. Concluiu, e se achava certeiro, que a moça iria encontrar alguém em questão de minutos. 

O pedido do rapaz chegou em seguida. Um beirute de filé mignon enorme que, agora, com trânsito e com uma moça loira e sozinha para escrutinar, ele não teria pressa alguma para saborear.

Uns 20 minutos depois que ela chegou, finalmente a viu sorrindo para o celular e reparou como isso era raro nela. Ela pegou o aparelho na mão e começou a digitar mais rápido, usando os polegares. Mais uns dois sorrisos e guardou o celular na bolsa, novamente séria. Erik já estava intrigado. Mastigava e ria, imaginando o que a garota poderia estar pensando, enquanto ela voltava sua cara de brava da rua para o relógio no pulso, do relógio para a rua.

O celular dela tocou. Ela mais escutou do que falou. Não sorriu. Um minuto, no máximo. Desligou e chamou o garçom. Ele voltou com uma Stella Artois. Para Erik, não restava dúvidas: ela havia levado um bolo. E, na sua lógica própria, julgou que estava vulnerável. Ele precisava pensar em alguma coisa. Mastigava devagar. E, mesmo que ela, em momento algum, tivesse dirigido a ele sequer um olhar, Erik estava decidido a agir.

Pegou a caneta que sempre levava no bolso e começou a escrever no guardanapo. A letra tremeu, borrou. Amassou e pôs de lado. Na segunda tentativa, uma dúvida ortográfica. Amassou novamente. Na terceira, o texto final: "Se ele não vier, posso te fazer companhia." Havia decidido que menos era mais.

Ela tinha voltado ao celular com a mesma postura desinteressada do início. A garrafa quase vazia. Erik passou por ela com o pretexto de ir ao banheiro e, na volta, deixou o bilhete sobre a mesa, quase como quem joga algo fora, voltando ao seu lugar sem a certeza de que ela tinha notado que ele tinha passado por ali. Mas, ela notou. E, quando ele voltou para sua mesa e olhou para a dela, a moça estava com o guardanapo aberto sob seus olhos.

Ele se sentiu envergonhado. Ela não sorriu. Olhou pela janela e assim ficou por quase um minuto. Erik debruçou-se sobre a comida, já arrependido, pensando em terminar o prato e ir embora, quase rindo nervosamente da sua atitude e sentindo-se com 15 anos. Quando levantou a cabeça, olhou para o outro lado, para as mesas, coisa que não fazia há quase uma hora. Percebeu que a padaria já estava bem mais cheia e movimentada. Sentiu-se meio ridículo.

Decidiu olhar para a garota. Encará-la como homem, afinal. Ela estava se levantando. "Fiz a menina ir embora", ele pensou. Mas, ela não caminhava para a porta e, sim, em direção ao fundo, onde estava a mesa de Erik. Ele percebeu e abaixou a cabeça. A loira ajeitou a alça da sua bolsa nas costas da cadeira em frente a do rapaz, pôs seu celular sobre a mesa e sentou-se diante dele, chamando o garçom. "Me traz mais uma cerveja, por favor?"

Erik não disse nada. Levantou os olhos, tomou o último gole do suco. E riu, quase engasgando. Ela não riu. Mas, já não lhe parecia tão brava assim. Ficaram se olhando. Ele rindo, já com os olhos cheios de lágrimas. Ela séria.

- Por que ele? - ela iniciou o papo. Tinha uma voz firme, condizente com a aparência, mas bem feminina.

- Ahn...? - ele perguntou, se ajeitando na cadeira, tentando ficar sério.

- Você escreveu aqui: "se ele não vier, posso te fazer companhia". Por que tem que ser "ele"? Não pode ser "ela"? - não tinha agressividade na fala dela, que inclinou o corpo para trás, relaxando na cadeira e dando um gole na cerveja que acabara de chegar.

Erik levantou as sobrancelhas. Ele não sabia exatamente o que falar. Ela percebeu.

- Eu tenho que estar esperando meu namorado? Eu não posso estar esperando minha namorada? Ou uma amiga? Aliás, eu preciso estar esperando alguém? Eu não posso apenas estar... sozinha? - ela ia falando e jogando com os ombros e as mãos. A garota tinha uma eloquência envolvente que o fazia se sentir bobo.

- É... Você tem razão. Eu joguei com o lugar-comum. - ele olhava para baixo e ajeitava os talheres no prato, sinalizando que terminou a refeição.

- Ei! Não precisa se sentir mal... - ela sorriu pela primeira vez à mesa. - Só acho engraçado você tentar chamar a minha atenção, jogando com o lugar-comum. Sério que você achou que eu ia gostar disso? - ela levantou o guardanapo que havia virado bilhete.

Erik riu meio triste. Ele olhou para o lado, tentando perceber se alguém acompanhava a cena e se voltou para a loira.

- Olha, eu já entendi que não mandei bem, ok? Eu só achei que você estava sozinha, provavelmente tinha levado um bolo de alguém... E achei que talvez eu pudesse te fazer companhia... É véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria...

- E? - ela interrompeu o monólogo. 

- E o quê? - ele estava meio confuso.

- E daí se é véspera de feriado, são quase dez horas da noite e nós estamos aqui nessa padaria? Não entendi... - ela sorria. Raro.

- Daí que todo mundo espera algo mais, não?

- Não. Eu não espero nada. Eu espero estar viva amanhã. Eu espero ter meu emprego na segunda-feira. Sei lá. 

Ela falava e soltava os cabelos, olhando para a rua. Começava a cair uma garoa fina sobre os carros parados no trânsito intenso que não se desfazia. Erik acompanhava tudo com certo desconforto e, ao mesmo tempo, um interesse crescente. Conforme os fios loiros iam ganhando a liberdade, a aura de moça séria era pintada de outros tons.

- Qual é o seu nome? - ele perguntou.

- Hahahahahaha... - ela gargalhou, embora parecesse que ela não seria capaz disso.

- Que foi? - Erik transparecia seu incômodo.

- Só agora me dei conta que você não sabe meu nome e eu não sei o seu... - levantou a garrafa long neck para um brinde - Natália.

- Erik... - e ele se deu conta de que não tinha nada para brindar, porque, desde que o suco de abacaxi com hortelã havia acabado, estava ali conversando a seco.

- Não. Vamos fazer isso direito. Garçom!

A cada atitude que Natália tomava, Erik se diminuía, murchava na cadeira e pensava no quanto não estava preparado para uma mulher como aquela. O garçom chegou e parou ao seu lado.

- Vai... Pede aí alguma coisa para brindar comigo... - ela tinha um risinho no canto da boca que ele notava e que o deixava meio puto, meio constrangido.

- Assim... Ahn... É... - ele não tinha pensado em nada. Pedir o cardápio seria ridículo. Ele não estava a fim de tomar cerveja. Precisava pensar rápido - Me vê outro suco desse...

- Suco do quê? - o garçom perguntou.

- Abacaxi com hortelã. - Erik e Natália responderam juntos e o rapaz teve a certeza de que ela o fez só para provocá-lo.

- Mas, então, Erik... O que você esperava? - ela perguntou assim que o garçom saiu, olhando firme nos olhos dele.

- O que eu esperava em relação a quê exatamente?

- Você disse que todo mundo espera algo mais na véspera de um feriado... O que você esperava para a sua noite? - ela se inclinou de cabelos soltos, chegando com o rosto bem perto do dele. E ele a achou incrivelmente linda naquele momento.

- Ah... Pra falar a verdade, eu não tava esperando muita coisa... Quer dizer, eu tava... Queria fazer um monte de coisas, ter uma festa legal pra ir, amigos pra sair... Aí, saí do trabalho sem nada combinado com ninguém... O trânsito tá essa merda... Desanimei! Parei aqui para comer, antes de ir embora para casa... - a cada frase, ele chicoteava as próprias costas por parecer o cara mais reclamão da face da Terra.

- Aí, você me viu. E achou que tudo poderia mudar! - a cerveja estava triplicando o número de sorrisos no rosto anguloso de Natália.

- Aí, eu te vi e achei que tudo poderia mudar! - ele repetiu, olhando para ela com a cara mais charmosa que achava que tinha. Quando chegou seu suco.

- Pronto! Agora, podemos brindar! Prazer em conhecê-lo, Erik!

- Prazer em conhecê-la, Natália!

Ela, com sua Stella Artois. Ele, com seu suco de abacaxi com hortelã. Brindaram, sorriram e deram longos goles naquela noite quente, onde a chuva já começava a apertar um pouco mais. Erik tomou o suco e um pouquinho de coragem.

- Então, Natália... Eu estava aqui pensando... - inclinou o tronco à frente.

- Hum... - ela fechou os lábios e virou os olhos para cima, como quem já imagina o que vem por aí.

- E se a gente... - o toque do celular dela o interrompeu.

Ela fez sinal com a mão para ele aguardar um instante. "Oiê!... Hum... Já tá saindo?... Tá!... Tá!... Por mim, pode ser!... Legal... Não, não comi nada... Beleza!... Tá bom! Te encontro na estação, então?... Até... Beijo, amor!... Beijão!" 

Encerrou a ligação e voltou-se para Erik, que estava olhando para baixo e chupando o canudinho.

- Eu vou ter que ir, querido...

- Tudo bem. - ele sorria, amarelo, fazendo força para agir naturalmente.

- Mas, foi bem legal conversar contigo, viu!? - ela colocou a mão em cima da dele e já foi se levantando.

- Telefone...? Não, né!? - Erik tentava falar de um jeito que poderia ser interpretado como uma coisa séria ou uma piada, ao gosto da freguesa.

- Tchau, tchau! Se cuida.

- Peraí, peraí... - ela em pé, ele sentado. - Você é dentista?

- Não! Sou secretária de um... - ela pôs a mão na cintura e sorriu pela última vez. - Como você adivinhou? 

- Eu sou bom nisso. - e, finalmente, Erik voltou a se sentir bem.

Ela lhe lançou um tchauzinho charmoso, se virou e saiu, jogando os cabelos. Entrou uma garota, saiu outra. Correndo da chuva e entrando na estação do metrô. E ele ali, acompanhando tudo com os olhos. E tentando fazer suas adivinhações.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A noiva

A um sinal da orquestra, o burburinho se organiza, as pessoas se levantam e se voltam todas para o fundo da igreja, olhando para a porta principal. Bem grande, imponente, antiga, duas folhas pesadas, madeira boa, toda trabalhada em reentrâncias e fechaduras, mais pela estética que pela praticidade. 

Normalmente, a porta principal é ladeada por duas entradas laterais por onde, a essa altura, estão correndo as crianças mais impacientes, fugindo das suas mães desejosas de manter o penteado e evitar alguma gafe. Elas prometem safanões para mais tarde e desviam da equipe de organização da cerimônia, que conversa baixinho entre si pela comunicação de seus fones e microfones de lapela, tentando ser invisível.


Primeiro, entram os casais de padrinhos, que, dependendo da ocasião, são muitos. Vez ou outra, os vestidos das madrinhas são variações do mesmo tom. Facilita a identificação e claramente prejudica algumas e favorece outras. A música para a entrada deles pode ser uma "releitura" de algum hit pop, o que dá um caráter de descontração ao momento. E, por mais padrinhos que tenham sido convocados, esta é uma passagem rápida, leve e não muito relevante no contexto geral da cerimônia.


A mudança de música é a senha para que todos se voltem novamente para o fundo da igreja. Uma nova expectativa é criada. A melodia é mais clássica e normalmente remete à infância, algo mais família. A porta, que novamente havia sido fechada, não demora a se abrir. E ele entra com a mãe. É um momento bonito. 


Visivelmente emocionado, ele consegue se mostrar descontraído. Vê conhecidos pelo caminho, brinca com colegas de trabalho, é provocado por velhos amigos, percebe lágrimas nos olhos das tias, sorri para os cinegrafistas, retarda os passos para os fotógrafos. Está muito bem vestido, claro. Terno sob medida, com colete, abotoaduras e outras coisas que nem sabia que existiam e não saíram barato. Gravata e sapatos escolhidos com cuidado. Cabelo cortado, barba feita. Por mais que ninguém vá dizer, de modo geral, ele não difere muito dos outros homens ao redor. Eventos como estes não são feitos para eles se destacarem.


A orquestra inicia uma canção qualquer que todos sabem que não tem outro sentido a não ser preencher aquele espaço onde nada vai acontecer. Haverá uma quebra. Uma preparação. Ele se posiciona no altar, na diagonal oposta à porta, novamente fechada, e ali vai esperar alguns minutos que podem parecer infinitos. 


Os convidados sabem que ainda não é hora. O momento é de sorrir para os conhecidos, olhar as paredes da igreja, os afrescos, os profetas que ali estão retratados, Elias, Miqueias, Daniel, santos, anjos, símbolos místicos, alfa, ômega, vestidos curtos demais, despojamento em excesso, elegância de onde não se espera, ousadia de alguns, as garotas bonitas ou nem tanto que mais tarde vão brigar pelo buquê, a semelhança do rapaz que toca o violoncelo com certo jogador de futebol. Checar redes sociais na igreja, pode? 


Do altar, ele olha para a porta. Do lado de fora, ela olha para a porta. 


Por mais que o ano seja 2014, as relações tenham se transformado, a vida esteja diferente, os significados dos ritos e dos símbolos já não sejam mais os mesmos, tudo o que eles querem é que aquela porta se abra pela última vez naquela noite. 


Os primeiros acordes tocam - a música dela é inconfundível, não há o que inventar - e a porta se abre. É um momento especial.


Ela é vista pela primeira vez pela maioria daquelas pessoas. Acaba ali uma série de curiosidades: como é o vestido, o véu, a maquiagem, o cabelo e tantas outras coisas que as pessoas projetam e sonham e realizam na vida da protagonista que entra de branco, dos pés à cabeça. Páginas em branco prestes a serem escritas.


Ela caminha com o olhar fixo na direção do altar. Sabe que qualquer desvio é a lágrima certa. O olho já brilha, molhado. O sorriso é verdadeiro, embora nervoso. Certamente, está surda neste momento. Blindada. Não pensa sequer no quanto esperou por aquele momento. Muito menos, nas inúmeras vezes, que temeu que aquela hora chegasse. Apenas caminha. Sabe que está chegando.


Ele, por sua vez, esquecido pelo mundo na função de coadjuvante, a mesma que vai ocupar de bom grado até o fim da cerimônia, aproveita para olhá-la sem ser olhado. Livremente. Como se fosse a primeira. Como se fosse a primeira vez. Naquele instante, ele tem certeza de tudo. 


Um anel, um sim, pobreza, riqueza, saúde, doença, alegria, tristeza, até que a morte os separe. Pode ser que não seja bem assim. Pode ser que dali três anos ou três meses, tudo mude, tudo acabe. Mas, naquele instante, naqueles segundos em câmera lenta, a mulher de branco que está ali, com a mão estendida em sua direção, lhe basta.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sete anos de Palestra

Onze de março de 2007. Neste dia, o Palmeiras ganhou do Juventus por 4 a 1 pelo Campeonato Paulista. Valdivia, que ainda não era Valdivia, e Edmundo, que ainda tinha lampejos de Edmundo, comandaram a festa.

Fazia 15 dias que eu havia me mudado para São Paulo e era minha primeira vez no Palestra Itália. Uma estreia tardia, sem dúvida. Aos 22 anos, eu era um torcedor fanático, mas não era um torcedor de arquibancada. Sempre tinha acompanhado o time de longe, pela TV, pelo rádio, nos bares com pay-per-view e em estádios das cidades onde havia morado anteriormente, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Eu me lembro que, ao passar as catracas da rua Turiassu, foi incrível confirmar a existência dos tais "jardins suspensos", o gramado elevado com um vão entre as arquibancadas, as piscinas atrás do gol à direita. Lembro também que foi um tantinho decepcionante perceber que não era assim um grande estádio. Mas, acima de tudo, me lembro que havia uma atmosfera ali que todo palmeirense podia sentir de imediato. Era inegavelmente uma casa italiana, uma casa verde, um chiqueiro, uma academia de futebol, um lugar cheio de amendoim e mística.

É óbvio que eu não pensei em nada disso naquele dia. Só queria comemorar os gols que caíam do céu como a chuva que castigava Perdizes. Tirei a camisa verde, que nem era do Palmeiras, e a girava sobre a cabeça como se o Juventus adversário fosse o de Turim e não o da Mooca. Foi maravilhoso.

Perfeito, a não ser por um único detalhe. Numa disputa no alto com o zagueiro Gian, nosso santo ídolo Marcos teve mais uma de suas inúmeras lesões, talvez uma das mais graves: fraturou o braço esquerdo e ficou boa parte da temporada afastado dos gramados.

Nos anos que se seguiram, voltei algumas vezes àquele parque. Tive ali mais alegrias do que tristezas. Anotei tudo num caderninho que guardo e atualizo até hoje: 22 jogos, 15 vitórias, dois empates e cinco derrotas.

Até que ele foi fechado, em 2010, com a promessa de que em breve voltaria melhor, maior, mais bonito e mais moderno. Foram tempos difíceis para quem ama o verde.

Para Marcos, inclusive. O camisa 12 mais amado do mundo se quebrou mais uma dezena de vezes, teve derrotas amargas em campo e se cansou disso. Parou. Foi para casa assistir da varanda à reforma de sua segunda casa.

Sete anos, sete meses e 25 dias depois daquela chuvosa tarde no velho Palestra Itália, estivemos mais uma vez naquele lugar. Marcos, eu e mais um monte de gente da TV, das assessorias dele e do estádio e operários da obra.

Entrar no novíssimo Allianz Parque foi maravilhoso. Não é o maior estádio do Brasil, claro, mas não deve nada a nenhum outro. Claro que ainda há toda uma história a ser escrita ali. O corpo precisa de uma alma. As confortáveis cadeiras precisam ser ocupadas por gente, gritos, xingamentos e cantos. Cá entre nós, nem lembra o antigo Palestra. Mas, o enlevo, o orgulho que vai tomar conta do torcedor ao ver uma casa tão bonita, tão bem arrumada será enorme. Fica a impressão de que uma nova era deve começar para o Palmeiras a partir da inauguração.

Timidez mais uma noção exagerada demais de profissionalismo me impediram de qualquer atitude de tietagem explícita no encontro com o ídolo. Mas, leve-se em conta que a gravação da reportagem na nova casa palmeirense foi longa e que Marcos, como pessoa, é tudo aquilo que você já ouviu falar por aí.


Então, quatro horas depois, eu já era um feliz ouvinte dos "causos" que ele gosta de contar, olhando nos seus olhos como se você fosse um velho amigo dele de Oriente. Piadas, histórias do dia a dia de um homem aposentado que rega as plantas da mulher em casa, bastidores do futebol. Ele mostrava fotos do filho no celular, cornetava a falta de um cafezinho, posava para fotos com todos os operários que o abordavam, tirava sarro de seus assessores e até da própria barriga de ex-atleta. Eu tinha fome e precisava ir embora, mas se ele não tinha pressa de deixar a nossa companhia, eu é que o faria?

Por fim, já era noite quando me despedi, agradeci, falei um "prazer em conhecê-lo" e ouvi algo como "valeu, boa sorte, a gente se vê por aí". E ganhei um abraço, de verdade, daqueles que a gente nem está mais acostumado a receber. Curiosamente com o mesmo braço esquerdo, quebrado lá em 2007.

O novo estádio, o velho goleiro e eu. Sete anos depois, nem a chuva que caía poderia ser a mesma.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O amor nos tempos do Insta

Aperta o botão para publicar a foto e se dá conta de que o alívio da prestação de contas à sociedade já está perdendo o jogo para a mentira deslavada que a imagem carrega para si mesma. Duas curtidas. Da sogra e da prima.

Abre de novo a foto e a observa com mais cuidado. O abraço dele envolve seu pescoço, dedos entrelaçados, seu sorriso está perfeito. "Puta que o pariu, como não acreditar na felicidade desse sorriso?" O primeiro comentário. Da colega de trabalho: "Que lindos! Que Deus abençoe!" Curte de imediato e responde: "Para sempre, amiga!!!!" Exclamações e três coraçõezinhos.

Sete, oito, nove curtidas. Comentário da cunhada: "Hummm... Que amor!" Ela sorri, triste. E volta a olhar a foto. "Meu Deus, com que sorriso lindo eu saí nessa foto!" Deitada no sofá, fica olhando a foto distraída. Tratada com filtros, em preto e branco, bem contrastada. Ele é bem mais velho que ela, mas tenta disfarçar, roupas de menino, dessas que se compram em viagens para os Estados Unidos ou idas à Vinte e Cinco de Março, cabelos com gel, relógio grande, braços fortes, a barriga quase passa despercebida. Ela não vê amor no rosto dele. Nunca viu, na verdade. Sempre achou que ele gosta mesmo é de desfilar com uma garotinha bonita por aí, a exibindo como um troféu para os amigos. No pulso direito dos dois, pulseirinhas do camarote. Balada cara. Status. 

Dezessete, dezoito, dezenove curtidas. O gostosinho atrevido da academia comenta: "A noite foi boa em huahauhuahauhua (sic)". "Antes fosse", ela retruca mentalmente, virando de bruços no sofá e tentando se lembrar da última vez que o namorado a havia deixado satisfeita, em vez de cair de bêbado, roncando em moteis baratos. 

"Bom te ver feliz! =D", diz o comentário da ex-professora. Ela pensa em curtir o comentário, mas hesita, deixa para depois. "Se eu cair, que seja em seu abraço. <3", lê novamente a legenda que deu à foto e fica pensando na glória e na desgraça de ter alguém como ele ao seu lado numa cidade tão pequena como a deles. 

Já são 26 curtidas. Mais um comentário. "Paaaara tudo! Ahazou, miga (sic)!" "Vaca invejosa", pensa triunfante, respondendo àquela que sempre deu em cima de seu namorado. Abre a foto de novo. "Esse vestido me emagrece...", amplia a imagem nas coxas e sobe, observando cada detalhe da renda, do bordado, da estampa, sem pensar nada em especial. Está enfadada.

Trinta e duas, trinta e três curtidas. Mais um comentário. Do namorado: "Você é a luz que ilumina meus dias! Te amo muitão, minha princesa!" Ela sorri sem empolgação. Senta-se no sofá, ajeita o cabelo, curte o comentário e responde: "Amo mais, seu lindo! <3 <3 <3". 

Ela se levanta, passa em frente ao espelho, se acha bonita. Faz uma pose sexy e tira três fotos, fazendo biquinho. Não parece muito satisfeita com o resultado. Escolhe a melhor, seleciona um filtro e envia pelo whatsapp: "pra você!".

A resposta não demora nem um minuto. "Delícia! Meu sócio não tá aí com você?"

"Rs rs rs... Não, não! Hoje, ele me deu uma folga! ;-)", ela digita com rapidez impressionante.

As curtidas não param.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Palmeiras vence Corinthians no último Dérbi do Pacaembu

Quantas vezes, você, torcedor, não desejou que o jogo acabasse ali, logo depois que seu time largasse na frente do placar? Um a zero, e tá ótimo! Principalmente, nas fases complicadas, contra adversários duros. Eu mesmo tive esse pensamento duas vezes na última semana. Sem sucesso, é verdade. Mas, as coisas são como são, afinal.

Vinte e três minutos de jogo sábado, no Pacaembu. Palmeiras e Corinthians empatam por 0 a 0. O árbitro assinala uma falta sobre Valdivia no meio do campo e a transmissão da TV Globo recupera uma imagem em hiperslow de uma bela torcedora palmeirense, que não deve ter mais de 22 anos. A leitura labial não requer expertise: "caaaaraaaalhoooo, juuuuiiiizzz". Ela reclamava apaixonadamente de uma falta anterior não marcada em uma arrancada de Marcelo Oliveira. A imagem é bonita, poética até, e não dura mais que uns três segundos.

Na volta para o ao vivo, a bola rola e o Palmeiras busca o ataque. Depois de uns trinta segundos de posse de bola que faz o torcedor se empolgar e até estranhar o próprio time, Valdivia se vê cercado por oito corintianos. Ele domina a bola daquele jeito que parece que vai acabar dando em nada e acha um passe para Wesley na direita. Depois de demorar um pouquinho para ajeitar, o camisa onze erra o chute. Mas, predestinadamente, no meio do caminho aparece Henrique, o caneludo centroavante alviverde, que põe para dentro do gol de Cássio. A bola cruza a linha do gol exatamente às 16 horas, 45 minutos e 30 segundos - eu fui conferir - e o Pacaembu, em sua maioria alviverde, explode. Haja coração, amigo!

O camisa 19 sai comemorando, como sempre, com o gesto de cortar pescoços. Henrique, o ceifador! É a 15ª cabeça cortada neste campeonato. Mais uma morte nas costas do improvável artilheiro do campeonato. 

Um a zero! Pronto! O Palmeiras voltou a vencer um clássico depois de quase nove meses; superou o Corinthians, o que não acontecia desde 2011; bateu o rival no Pacaembu, encerrando uma seca de 19 anos, e ainda se afastou de vez da zona de rebaixamento. Uma alegria completa. As manchetes do dia seguinte já estavam prontas.

O jogo acabou ali, aos 25 minutos do primeiro tempo. 

O palmeirense João Correia Leal Filho, de 56 anos, estava na arquibancada verde do estádio, sofreu um infarto exatamente no momento do gol de Henrique e não resistiu. Palmeiras 1 x 0 Corinthians. E não se fala mais nisso.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Abaixo da Série B

Às cinco da tarde de uma quarta-feira de verão, Matheus deixa a Rua Javari, na Mooca, onde tinha acabado de acompanhar um jogo do Juventus, por uma dessas divisões menores do Campeonato Paulista. Correndo, vai até a Praça da Árvore para ver como está Ana, a namorada adoentada. Beijo na Ana, Matheus vai de bate-pronto para a Vila Madalena, de onde sai com os amigos rumo a Campinas. O programa? Guarani versus Horizonte, do Ceará, pela Copa do Brasil. Já passa da uma da manhã, quando ele apaga a luz do quarto para dormir. Matheus é louco por futebol.

Por futebol, sim. Mas, o que faz mesmo a cabeça do garoto barbudinho de 23 anos são as divisões de acessos, os jogos que ninguém vê, aqueles que não merecem nem uma nota de pé de página nos jornais do dia seguinte. Palmeirense, ele não nega um convite para assistir a um jogo da Portuguesa, do Juventus, do Nacional, do Guarani e por aí vai. Semanas atrás, esteve no Canindé para conferir Portuguesa 2 x 3 ABC. Mas, por quê, Matheus? "Bicho, é a melhor coisa que tem", diz ele, com uma piscadinha no olho esquerdo, a mesma que acompanha cada frase divertida ou curiosa que fala. "Quero chegar aos 50 jogos em 2011, Já tenho 22", orgulha-se. E pisca.

Matheus é tímido. E deixa isso claro no caminhar ligeiramente cabisbaixo, no aperto de mão rápido e pouco firme, e nos olhos que não se fixam por muito tempo nos de seu interlocutor. Mas, a timidez não impede o rapaz de jogar nas onze. Escreve para um blog de futebol. Escreve para um blog sobre cinema, principalmente a produção da Boca do Lixo, outra de suas paixões. Presta serviço para três empresas do pai, entre elas a Igreja Batista Memorial de Alphaville e uma produtora de CDs de música gospel. Apresenta todo domingo, religiosamente, um programa sobre futebol "alternativo" na All TV, canal de televisão pela internet. "O duro é ganhar dinheiro", lamenta-se, piscando.

Música para ele, só brasileira. De preferência, antiga. "De outras línguas, só Frank Sinatra e Gardel. Isso porque a Ana pega no meu pé." Matheus e Ana se encontram uma vez por semana. Para ele, isso é bom e ruim. Em dois anos de namoro, ela já deve estar acostumada a dividir seu amado com tantas atribuições e paixões. "É legal quando eu brigo com a Ana. Eu consigo ver muitos jogos", diverte-se Matheus e, por incrível que pareça, suas palavras não chegam a surpreender.

Em uma das brigas recentes, o garoto aproveitou para dar uma chegadinha em Americana. Desnecessário reforçar o motivo, mas vá lá. Rio Branco x Palmeiras B. Isso mesmo! Não era o time de Felipão e Valdivia, não. Era o Palmeiras B. "Esse jogo foi muito legal. Encontrei o Seu Zuza, irmão do Dicá, que jogou na Ponte, sabe? Então, dei as costas pro jogo e fiquei conversando com ele o tempo todo", conta e completa: "Ainda ganhei um banho de cerveja da torcida do Rio Branco, porque eu tava com uma camisa verde. Muito bom!"

No dia 28 de maio, a maioria dos homens do mundo tinha o mesmo desejo: assistir à final da Liga dos Campeões, entre Barcelona e Manchester United, em Wembley. Preso na pós-graduação, Matheus tinha preocupações menores. Ou maiores.

- E a Liga, hein, Matheus? - perguntou a colega Fernanda, esperando uma resposta de lamentação.

- Pois é... Não tô muito preocupado, não. Eu queria mesmo era ver Nacional x Guarujá... - respondeu, referindo-se a uma partida da Quarta Divisão do Campeonato Paulista, a ser disputada a alguns poucos quilômetros dali, na Barra Funda.

Vai entender o Matheus... Ele entende. "É paixão, bicho!", ele ri com o canto da boca e, é claro, dá uma piscadinha.


(Resultado de um exercício realizado durante uma aula sobre perfis, da pós-graduação em
Jornalismo Literário, na Academia Brasileira de Jornalismo Literário, no dia 18 de junho de 2011.)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Guilhermina Guinle, 18

- Vamos arrumar um lugar para você morar.

A frase saiu da boca da mãe de seu amigo desse jeito, sem interrogação ou exclamação. Era afirmativa. Não era um convite. Não era uma celebração. Era uma certeza, um fato, uma necessidade prestes a ser atendida. Maria Tereza usava os óculos de lentes grossas que deixavam enormes seus olhos, um traço marcante do rosto gordinho de uma pessoa feliz de pouco mais de 50 anos. À sua frente, em páginas abertas sob os raios de sol que entravam pela janela, estavam os classificados da edição de domingo do jornal O Globo. O tom da sua voz e a sua postura eram calculadamente o que o garoto de 21 anos precisava naquele momento. Do sofá, ele sentiu uma ponta de esperança. Talvez a única nas últimas semanas.


***

Havia menos de três meses, Thiago experimentara pela primeira vez o gosto de voar. O transporte aéreo ainda estava num estágio inicial de popularização. E a sensação de entrar no avião para tentar desbravar um caminho profissional lhe causava um excitamento ainda maior. O voo rasante que quase tocava o Pão de Açúcar, a pista curtinha do aeroporto Santos Dumont, o apartamento da tia do amigo, as orientações para que o taxista não o enganasse no caminho até o Jardim Botânico, a infinita Lagoa Rodrigo de Freitas emoldurada pela janela do carro, o Cristo Redentor abençoando aquele momento, o estúdio do Fantástico, o encontro inesperado com uma simpática Fátima Bernardes num corredor sem graça de um prédio de labirintos. Tudo, absolutamente tudo, carregava em si a magia de um sonho. O mundo daquele jovem aspirante a jornalista expandia suas fronteiras de modo avassalador.

O que se seguiu foi muito rápido. Em menos de 15 dias, as poucas coisas que havia juntado em três anos e dois meses morando em Florianópolis estavam em uma caixa de papelão, três malas e uma mochila. O incentivo dos amigos numa festinha de despedida improvisada. O amor da namorada num aceno pela janela do ônibus que, mais de 15 horas depois, o entregaria à própria sorte na rodoviária do Rio de Janeiro. Thiago iria trabalhar na TV Globo.

A cidade que, no primeiro contato lhe parecera tão maravilhosa, mostrava então sua face hostil, malandra, como se dissesse o tempo todo o quanto é preciso ser esperto para sobreviver. Naquele paredão de cabeças aguardando o desembarque dos passageiros do ônibus, nenhuma era conhecida. A única pessoa que lhe estendeu a mão foi um carregador do terminal, que lhe cobrou R$ 12 para levar suas coisas 20 metros adiante. A partir dali, tinha que ser com ele. E seria. E foi.

O apartamento da mãe de um amigo em Copacabana era pequeno e a sensação de que estava incomodando não permitiu que ali ficasse por mais que três dias. Um colega de faculdade, que havia aportado no Rio de Janeiro e vivia de favor na sala de estar do apartamento de outros quatro rapazes no Leblon, lhe ofereceu abrigo, mas ainda estava longe de ser o ideal. Ansioso por resolver a questão da moradia na Cidade Maravilhosa, Thiago cometeu seu maior erro.

Não é pequena a oferta de quartos para alugar numa cidade como o Rio de Janeiro. Os bairros, principalmente os da zona sul, estão cheios de anúncios de hospedagem temporária para turistas e pessoas que vêm de outros estados para tentar a vida na capital fluminense. Os preços são variados. E a qualidade dos quartos e o caráter dos locatários nem sempre ficam evidente à primeira vista, como o garoto iria logo descobrir.

O apartamento na rua Ronald de Carvalho, região do Lido, em Copacabana, foi o início e o fim da procura de Thiago por um quarto para dormir. Moravam nele a mãe, a filha pequena, o padrasto, a avó e uma cadela um pouco grande demais para o ambiente e para o gosto do jovem. Foram simpáticos e pareciam hospitaleiros. O quarto, ao lado da área de serviço, estava adequado às suas necessidades. Tinha uma cama e uma TV. O banheiro, no corredor até a cozinha, seria de seu uso exclusivo. "Ok!", pensou e já pagou adiantado os R$ 280 do primeiro mês. Mudou-se em seguida.

A primeira noite foi o suficiente para perceber o quanto havia sido infantil na decisão de alugar o primeiro quarto visitado. O chuveiro não esquentava, o que, numa noite atípica de frio no Rio de Janeiro, o fez amanhecer com dor de garganta. A TV não funcionava e o colchão da cama era duro como uma tábua e acabou com sua coluna. 

Os dias que se seguiram trouxeram ainda mais surpresas desagradáveis. Os outros moradores do apartamento não tinham hábitos de limpeza. A cozinha era nojenta. E, por várias vezes, ele via cair no chão uma folha de alface ou um ovo cru e ali permanecer por dias seguidos, com a cachorra passeando por cima deles tranquilamente. Apesar de ser a casa de uma família, não havia geladeira. Apenas um freezer. Então, por exemplo, o leite passava o dia sendo congelado e, à noite, ficava descongelando à temperatura ambiente para ser consumido no dia seguinte. Para Thiago, não poderia haver nada mais absurdo.

Consultou a dona do apartamento sobre a possibilidade de ficar hospedado ali apenas metade do mês, pegando, assim, metade do dinheiro de volta. Ela, claro, negou, dizendo que já havia gastado a quantia toda. E assim, ele ficou. Procurando um lugar melhor para seu segundo mês no Rio de Janeiro, enquanto enchia seu quarto com sacolas de frutas, água e Toddynho e ouvia os jogos de futebol pelo rádio. Sentia-se só e escrevia desabafos quase adolescentes em um caderno de brochura.

Em seus primeiros dias na TV, Thiago trabalhava predominantemente à noite. Os dias se tornavam lentos e longos, em caminhadas sem fim pelas ruas de Copacabana para tentar passar o maior tempo possível longe daquele apartamento. Até que um dia, ele descobriu que, se os dias por ali eram ruins, as noites poderiam ser ainda pior.

Chegou em casa já perto da meia-noite e bateu à porta. Nada. Insistiu. Silêncio. Mais uma vez. Luzes apagadas. Todos haviam saído. 

Thiago tinha medo da cachorra que vivia no apartamento, assim como de quase qualquer outro cachorro. Por isso, fizera um acordo com a dona: ele ficava fechado entre a cozinha, a área de serviço e seu quarto, enquanto a cadela ficava trancada no restante do apartamento. No entanto, a parte que lhe cabia na casa não tinha, até então, uma segunda chave. Sempre que ele chegava da rua, alguém aparecia para lhe abrir a porta. Sempre, menos naquele dia.

Trancado para fora, o jovem jornalista desceu à rua para esperar alguém da família chegar. E então, descobriu que boa parte das mocinhas que se anunciavam nos adesivos colados nos orelhões da Telemar - da "baianinha morenaça que acaba de chegar ao Rio com seios furando à blusa" à "Babinha, que lambe até a última gotinha" - vivia por ali, em meio a toda sorte de vagabundos, pilantras, bêbados, agiotas e tipos assim.

Não dava mais para viver ali. Essa era uma certeza que o rapaz tinha. Por outro lado, o mês estava acabando e ele não tinha conseguido nada melhor.

- Hum, Thiago! O mês vence hoje... Vai ficar mais um mês com a gente? - ela o abordou na cozinha, enquanto bebia água.

- O mês vence amanhã. E não, não vou ficar mais um mês com vocês. - foi mais ríspido do que ele mesmo se julgava capaz.

- Mas, você já achou um outro lugar pra ficar? - a pergunta dela tinha o cinismo de quem sabia a resposta.

- Não, ainda não... Tô procurando. - ele engolia a água com raiva.

- Se precisar ficar uns dias a mais, a gente acerta...

- Acerta coisa nenhuma - ele cortou nervoso. Acerta coisa nenhuma! Você me alugou um quarto com uma TV que não funciona, um chuveiro que não esquenta, aqui não tem geladeira... E você quer me cobrar um dia que eu fique a mais?

- Mas, eu não posso ficar no prejuízo... - o sorrisinho que escapava naquele rosto gordo e moreno o deixou ainda mais irado.

- Tá bom! Eu vou embora amanhã. Não sei pra onde, mas vou embora amanhã.

A frase, dita de forma tão visceral, e o clima pesado que acompanhou a caminhada dele até o quarto davam a certeza de que não poderia haver blefe. Fosse para onde fosse, ele precisava deixar aquele apartamento no dia seguinte. Lembrou-se na hora de um colega de estágio que havia conhecido um mês antes e que lhe dissera algo como "se precisar de alguma, pode contar comigo, vai lá pra casa". Apesar da vergonha pela situação, aquela lhe parecia a única opção no momento.

Igor tinha uma família estruturada, daquelas com pai, mãe, irmã e avó por perto, num apartamento bem confortável em Botafogo. A ideia de Thiago era não causar muitos problemas. Seriam apenas dois ou três dias, o suficiente para encontrar um novo quarto para jogar sua caixa de papelão, suas três malas e sua mochila.

Foram dias de caminhadas intensas sob um calor infernal em pleno final de agosto carioca. Quase como uma súplica, ele perguntava a cada porteiro: "Você sabe de quarto para alugar nesse prédio?". Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, Catete. O garoto não se lembrava de já ter andado tanto. Queria muito resolver aquela situação. Não porque se sentia pressionado a deixar o apartamento de Igor. Pelo contrário, a família do novo amigo o recebia muito bem, como dificilmente se faz com um desconhecido. Mas, Thiago precisava encontrar onde morar logo para receber sua namorada, que já tinha as passagens compradas para visitá-lo e, de Santa Catarina, começava a reclamar pela falta de notícias, pela ausência das ligações e, principalmente, das longas conversas que costumavam ter pela internet.

Uma semana se passou e, por mais que ele se esforçasse, nada aconteceu. É certo que sua imaturidade, sua pouca prática na cidade grande, seu desconhecimento da mecânica da vida para certas situações do dia a dia atrapalhavam no desfecho. Afinal, não poderia ser assim tão difícil alugar um quarto para morar no Rio de Janeiro.

Em meio a tanta pressão, encontrou espaço para relaxar no convite dos novos amigos para participar de uma pelada no outro lado da cidade. Fazia anos que não tinha uma turma para jogar futebol e, naquele momento, mais do que nunca, sentia a necessidade de estabelecer novas relações, conhecer pessoas.

Em uma disputa imprudente com o goleiro adversário, percebeu que seu tornozelo não estava legal. No calor da partida e do corpo, continuou jogando. Só foi se dar conta da dor e do estrago horas depois, na casa da família de Igor. Seu pé direito ficou roxo e assustadoramente inchado. Não falou para ninguém. Não tinha plano de saúde, não queria ficar sem trabalhar e não queria dar ainda mais dor de cabeça para as pessoas que o hospedavam. Mas, a dor não passava. O inchaço não desaparecia. O roxo só fazia ficar mais escuro.

Até que um dia, um colega do trabalho notou o estado do pé de Thiago. E indignou-se com a falta de cuidados. "Você quer perder seu pé?" As pessoas ao redor encorparam o discurso e Igor se ofereceu a levar o amigo ao pronto socorro de um hospital público perto de sua casa. O atendimento foi demorado e a tala de gesso e atadura que lhe fizeram era nitidamente precária e inadequada. Pelo menos, conseguiu um atestado de duas semanas para o trabalho.

O problema é que, além de não trabalhar, Thiago não poderia mais bater perna em busca de uma morada. Passava os dias sozinho, deitado no sofá com o pé para cima ou tentando se arrastar de muletas pelo apartamento da família de Igor. A única pessoa que via era a avó do amigo, que morava no mesmo prédio e lhe levava o almoço atenciosamente. 

Com menos de um mês no estágio dos sonhos de tanta gente, ele estava pronto para desistir. Não queria mais.

Telefonou para a mãe, que acompanhava tudo de mãos atadas em sua cidade perdida no interior do Paraná. Não queria preocupá-la, mas não aguentou. Chorava tanto que mal conseguia falar. Abrir mão daquela oportunidade, voltar para casa derrotado e ter que encarar todos seus amigos e colegas como "o cara que não deu certo na Globo" doía muito mais que o pé retorcido. Sua mãe quis falar com a mãe do amigo que o hospedava e pediu ajuda. De mãe para mãe.

No dia seguinte, um domingo, Maria Tereza abriu o jornal e disse sem meias palavras:

- Vamos arrumar um lugar para você morar.

A mulher correu os olhos espertos pelas páginas dos classificados.

- Nossa! Esse é aqui do lado. "Alugo quarto para moça."

- Mas, é pra moça... - Thiago sublinhou timidamente.

- Ah, vamos ligar lá! - Tereza estava decidida. E não haveria argumentos que a segurassem.

Do outro lado da linha, a senhora que oferecia o quarto tentou mais uma vez destacar que o mesmo era para uma moça.

- Mas, eu tenho aqui um menino ótimo! A senhora vai adorar ele! Olha só: estamos indo aí agora! - completou a mãe do Igor, praticamente batendo o telefone na cara da outra, já juntando as coisas para sair.

O prédio ficava mesmo à meia quadra dali, na esquina seguinte. Tereza ia à frente, com Igor e Thiago, de muletas, a segui-la. Tocaram o número 702 no interfone. Uma mulata bonita de 1,80m - que, depois, se soube ser dançarina da companhia de Jaime Arôxa - veio recepcioná-los na porta. Ela se chamava Luana e morava com a Dona Altina, a anunciante do quarto.

A porta pantográfica e o cheiro marcante do elevador indicavam a idade da construção. Do corredor do sétimo andar, dava para ver por entre as plantas na janela a área de serviço do apartamento de Dona Altina. Ela esperava na porta, com um sorriso que não passava despercebido. Os cabelos eram curtos, pintados de loiro, os olhos, bem claros, entre o azul e o verde. Tinha 75 anos, mas passava facilmente por bem menos. As primeiras impressões entre ela e o garoto não poderiam ser melhores. Ele via a hospitalidade em pessoa. Ela, um menino com cara de bonzinho. Mesmo assim, ela se preocupou: "meu Deus! Ele é deficiente! Será que ele vai conseguir se virar num quartinho tão minúsculo?".

O quartinho minúsculo dos pensamentos de Dona Altina se materializava diante dos olhos de Thiago. Assim que olhou para aquele espaço de 1,90m de comprimento por 1,70m de largura, o garoto já descartou a hospedagem e desanimou. A simpatia da senhora era imensa, mas, como colocar todas as suas coisas ali? O quarto tinha apenas uma pequena cama, um guarda-roupa de duas portas e uma sapateira pendurada atrás da porta. Não tinha janelas. Ficava ao lado do tanque e da máquina de lavar roupas, com um banheiro anexo, sem pia e com o chuveiro sobre a privada. O aluguel custaria mais caro que o de Copacabana: R$ 400 por mês, um pouco menos da metade de seu salário de estagiário.

Para ele, estava decidido que, infelizmente, não era possível ficar ali. Sentaram-se para conversar na sala, toda enfeitada com quadros e uma série de madonas de barro, feitas pela própria senhora, que era artista plástica. O apartamento todo era bem pequeno. Havia somente mais um quarto, onde Luana dormia aos pés da Dona Altina.

Mas, algo naquela conversa, naquele momento, fez Thiago se dar conta de que a vida não é matemática. Estavam ali, diante dele, uma mulher que havia prometido à sua mãe que o ajudaria a todo custo e uma senhora disposta a ignorar a restrição de gênero do anúncio em nome de uma empatia imediata inexplicável. O negócio estava fechado.


***

Nove anos depois, nos encontros esparsos e apaixonados que celebram a improvável amizade incondicional entre o menino e a idosa, ninguém se atreve a dizer que não valeu a pena.