terça-feira, 21 de outubro de 2014

Abaixo da Série B

Às cinco da tarde de uma quarta-feira de verão, Matheus deixa a Rua Javari, na Mooca, onde tinha acabado de acompanhar um jogo do Juventus, por uma dessas divisões menores do Campeonato Paulista. Correndo, vai até a Praça da Árvore para ver como está Ana, a namorada adoentada. Beijo na Ana, Matheus vai de bate-pronto para a Vila Madalena, de onde sai com os amigos rumo a Campinas. O programa? Guarani versus Horizonte, do Ceará, pela Copa do Brasil. Já passa da uma da manhã, quando ele apaga a luz do quarto para dormir. Matheus é louco por futebol.

Por futebol, sim. Mas, o que faz mesmo a cabeça do garoto barbudinho de 23 anos são as divisões de acessos, os jogos que ninguém vê, aqueles que não merecem nem uma nota de pé de página nos jornais do dia seguinte. Palmeirense, ele não nega um convite para assistir a um jogo da Portuguesa, do Juventus, do Nacional, do Guarani e por aí vai. Semanas atrás, esteve no Canindé para conferir Portuguesa 2 x 3 ABC. Mas, por quê, Matheus? "Bicho, é a melhor coisa que tem", diz ele, com uma piscadinha no olho esquerdo, a mesma que acompanha cada frase divertida ou curiosa que fala. "Quero chegar aos 50 jogos em 2011, Já tenho 22", orgulha-se. E pisca.

Matheus é tímido. E deixa isso claro no caminhar ligeiramente cabisbaixo, no aperto de mão rápido e pouco firme, e nos olhos que não se fixam por muito tempo nos de seu interlocutor. Mas, a timidez não impede o rapaz de jogar nas onze. Escreve para um blog de futebol. Escreve para um blog sobre cinema, principalmente a produção da Boca do Lixo, outra de suas paixões. Presta serviço para três empresas do pai, entre elas a Igreja Batista Memorial de Alphaville e uma produtora de CDs de música gospel. Apresenta todo domingo, religiosamente, um programa sobre futebol "alternativo" na All TV, canal de televisão pela internet. "O duro é ganhar dinheiro", lamenta-se, piscando.

Música para ele, só brasileira. De preferência, antiga. "De outras línguas, só Frank Sinatra e Gardel. Isso porque a Ana pega no meu pé." Matheus e Ana se encontram uma vez por semana. Para ele, isso é bom e ruim. Em dois anos de namoro, ela já deve estar acostumada a dividir seu amado com tantas atribuições e paixões. "É legal quando eu brigo com a Ana. Eu consigo ver muitos jogos", diverte-se Matheus e, por incrível que pareça, suas palavras não chegam a surpreender.

Em uma das brigas recentes, o garoto aproveitou para dar uma chegadinha em Americana. Desnecessário reforçar o motivo, mas vá lá. Rio Branco x Palmeiras B. Isso mesmo! Não era o time de Felipão e Valdivia, não. Era o Palmeiras B. "Esse jogo foi muito legal. Encontrei o Seu Zuza, irmão do Dicá, que jogou na Ponte, sabe? Então, dei as costas pro jogo e fiquei conversando com ele o tempo todo", conta e completa: "Ainda ganhei um banho de cerveja da torcida do Rio Branco, porque eu tava com uma camisa verde. Muito bom!"

No dia 28 de maio, a maioria dos homens do mundo tinha o mesmo desejo: assistir à final da Liga dos Campeões, entre Barcelona e Manchester United, em Wembley. Preso na pós-graduação, Matheus tinha preocupações menores. Ou maiores.

- E a Liga, hein, Matheus? - perguntou a colega Fernanda, esperando uma resposta de lamentação.

- Pois é... Não tô muito preocupado, não. Eu queria mesmo era ver Nacional x Guarujá... - respondeu, referindo-se a uma partida da Quarta Divisão do Campeonato Paulista, a ser disputada a alguns poucos quilômetros dali, na Barra Funda.

Vai entender o Matheus... Ele entende. "É paixão, bicho!", ele ri com o canto da boca e, é claro, dá uma piscadinha.


(Resultado de um exercício realizado durante uma aula sobre perfis, da pós-graduação em
Jornalismo Literário, na Academia Brasileira de Jornalismo Literário, no dia 18 de junho de 2011.)

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