O trajeto até o estádio é conhecido e, com a ajuda dos batedores, não costuma levar mais que quinze minutos. Hoje, no entanto, parece durar os vinte anos da vitoriosa carreira. Ele sabe bem que fará aquele caminho apenas mais seis vezes depois daquela. E sabe também que, provavelmente, nenhuma delas será tão marcante quanto. Talvez apenas a última, dali dois meses, no dia sete de dezembro.
O pagode toca alto no interior do ônibus, mas quase todos os cerca de 30 passageiros têm seus próprios fones de ouvido, com suas próprias músicas e seus próprios iPhones, em seus próprios mundos. O mundo dele é certamente angustiante. Está na cara, nos dedos que brincam de se apertar nervosamente. Aos 37 anos, ele tem a consciência de que não dá mais para fazer o que sempre fez. O fim da linha está perto. As pessoas fizeram questão de lembrá-lo disso a semana inteira. Jornalistas o procuraram para falar sobre isso. Uma câmera está apontada para o seu rosto, nesse momento, por causa disso.
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| Reprodução de vídeo do Departamento de Comunicação do Coritiba Football Club |
Adivinhar seus pensamentos não é um exercício difícil. Neles deve estar o menino de nove anos que jogava futsal nos anos 80, sonhando em vestir aquela camisa com o número dez às costas. Ou o torcedor adolescente que, da arquibancada, viu seu time perder um título com um gol contra de um jogador a quem admirava, nos últimos minutos de um jogo contra o maior rival, mesmo adversário que ele encontraria em menos de duas horas. Seu pensamento pode estar também no jovem atleta que um dia ajudou seu clube do coração a voltar à elite do futebol brasileiro, e ainda entrou para a história do grande clássico da cidade onde nasceu como o mais novo a fazer um gol no confronto. Tão importante quanto o veterano consagrado que quinze anos depois voltou para, finalmente, ser campeão no quintal da sua casa.
Da rua, as pessoas sorriem para dentro do ônibus. Gritam incentivos. Levantam desenhos de caixões pintados em vermelho e preto. Tiram fotografias. Seus colegas parecem realmente impressionados. Filmam tudo com seus celulares. Acenam. Ele apenas olha para fora, quase se desculpando por não conseguir sorrir de volta. Olha sério, focando o nada, contido e contendo-se, enquanto morde os dedos já sem unhas.
A janela do ônibus lhe traz um mar verde e branco que se forma para apoiar o time que está na última posição do campeonato. O cruzamento da rua Mauá com a Barão de Guaraúna naquele momento é maior que qualquer avenida do mundo. Por longos segundos, ele aperta forte os olhos fechados. Levanta a cabeça, volta a encarar a multidão e morde os lábios, adiando o choro iminente. Ali está sua última oportunidade de dar àquela gente o sabor de vencer o vizinho, o rival, o irmão torto que optou por outras cores e outros caminhos.
Em pouco mais de três horas, tudo estará acabado. E Alex voltará a ser apenas mais um torcedor no Atletiba, o clássico que tantas vezes disputou em seus sonhos de criança.

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