terça-feira, 28 de outubro de 2014

Palmeiras vence Corinthians no último Dérbi do Pacaembu

Quantas vezes, você, torcedor, não desejou que o jogo acabasse ali, logo depois que seu time largasse na frente do placar? Um a zero, e tá ótimo! Principalmente, nas fases complicadas, contra adversários duros. Eu mesmo tive esse pensamento duas vezes na última semana. Sem sucesso, é verdade. Mas, as coisas são como são, afinal.

Vinte e três minutos de jogo sábado, no Pacaembu. Palmeiras e Corinthians empatam por 0 a 0. O árbitro assinala uma falta sobre Valdivia no meio do campo e a transmissão da TV Globo recupera uma imagem em hiperslow de uma bela torcedora palmeirense, que não deve ter mais de 22 anos. A leitura labial não requer expertise: "caaaaraaaalhoooo, juuuuiiiizzz". Ela reclamava apaixonadamente de uma falta anterior não marcada em uma arrancada de Marcelo Oliveira. A imagem é bonita, poética até, e não dura mais que uns três segundos.

Na volta para o ao vivo, a bola rola e o Palmeiras busca o ataque. Depois de uns trinta segundos de posse de bola que faz o torcedor se empolgar e até estranhar o próprio time, Valdivia se vê cercado por oito corintianos. Ele domina a bola daquele jeito que parece que vai acabar dando em nada e acha um passe para Wesley na direita. Depois de demorar um pouquinho para ajeitar, o camisa onze erra o chute. Mas, predestinadamente, no meio do caminho aparece Henrique, o caneludo centroavante alviverde, que põe para dentro do gol de Cássio. A bola cruza a linha do gol exatamente às 16 horas, 45 minutos e 30 segundos - eu fui conferir - e o Pacaembu, em sua maioria alviverde, explode. Haja coração, amigo!

O camisa 19 sai comemorando, como sempre, com o gesto de cortar pescoços. Henrique, o ceifador! É a 15ª cabeça cortada neste campeonato. Mais uma morte nas costas do improvável artilheiro do campeonato. 

Um a zero! Pronto! O Palmeiras voltou a vencer um clássico depois de quase nove meses; superou o Corinthians, o que não acontecia desde 2011; bateu o rival no Pacaembu, encerrando uma seca de 19 anos, e ainda se afastou de vez da zona de rebaixamento. Uma alegria completa. As manchetes do dia seguinte já estavam prontas.

O jogo acabou ali, aos 25 minutos do primeiro tempo. 

O palmeirense João Correia Leal Filho, de 56 anos, estava na arquibancada verde do estádio, sofreu um infarto exatamente no momento do gol de Henrique e não resistiu. Palmeiras 1 x 0 Corinthians. E não se fala mais nisso.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Abaixo da Série B

Às cinco da tarde de uma quarta-feira de verão, Matheus deixa a Rua Javari, na Mooca, onde tinha acabado de acompanhar um jogo do Juventus, por uma dessas divisões menores do Campeonato Paulista. Correndo, vai até a Praça da Árvore para ver como está Ana, a namorada adoentada. Beijo na Ana, Matheus vai de bate-pronto para a Vila Madalena, de onde sai com os amigos rumo a Campinas. O programa? Guarani versus Horizonte, do Ceará, pela Copa do Brasil. Já passa da uma da manhã, quando ele apaga a luz do quarto para dormir. Matheus é louco por futebol.

Por futebol, sim. Mas, o que faz mesmo a cabeça do garoto barbudinho de 23 anos são as divisões de acessos, os jogos que ninguém vê, aqueles que não merecem nem uma nota de pé de página nos jornais do dia seguinte. Palmeirense, ele não nega um convite para assistir a um jogo da Portuguesa, do Juventus, do Nacional, do Guarani e por aí vai. Semanas atrás, esteve no Canindé para conferir Portuguesa 2 x 3 ABC. Mas, por quê, Matheus? "Bicho, é a melhor coisa que tem", diz ele, com uma piscadinha no olho esquerdo, a mesma que acompanha cada frase divertida ou curiosa que fala. "Quero chegar aos 50 jogos em 2011, Já tenho 22", orgulha-se. E pisca.

Matheus é tímido. E deixa isso claro no caminhar ligeiramente cabisbaixo, no aperto de mão rápido e pouco firme, e nos olhos que não se fixam por muito tempo nos de seu interlocutor. Mas, a timidez não impede o rapaz de jogar nas onze. Escreve para um blog de futebol. Escreve para um blog sobre cinema, principalmente a produção da Boca do Lixo, outra de suas paixões. Presta serviço para três empresas do pai, entre elas a Igreja Batista Memorial de Alphaville e uma produtora de CDs de música gospel. Apresenta todo domingo, religiosamente, um programa sobre futebol "alternativo" na All TV, canal de televisão pela internet. "O duro é ganhar dinheiro", lamenta-se, piscando.

Música para ele, só brasileira. De preferência, antiga. "De outras línguas, só Frank Sinatra e Gardel. Isso porque a Ana pega no meu pé." Matheus e Ana se encontram uma vez por semana. Para ele, isso é bom e ruim. Em dois anos de namoro, ela já deve estar acostumada a dividir seu amado com tantas atribuições e paixões. "É legal quando eu brigo com a Ana. Eu consigo ver muitos jogos", diverte-se Matheus e, por incrível que pareça, suas palavras não chegam a surpreender.

Em uma das brigas recentes, o garoto aproveitou para dar uma chegadinha em Americana. Desnecessário reforçar o motivo, mas vá lá. Rio Branco x Palmeiras B. Isso mesmo! Não era o time de Felipão e Valdivia, não. Era o Palmeiras B. "Esse jogo foi muito legal. Encontrei o Seu Zuza, irmão do Dicá, que jogou na Ponte, sabe? Então, dei as costas pro jogo e fiquei conversando com ele o tempo todo", conta e completa: "Ainda ganhei um banho de cerveja da torcida do Rio Branco, porque eu tava com uma camisa verde. Muito bom!"

No dia 28 de maio, a maioria dos homens do mundo tinha o mesmo desejo: assistir à final da Liga dos Campeões, entre Barcelona e Manchester United, em Wembley. Preso na pós-graduação, Matheus tinha preocupações menores. Ou maiores.

- E a Liga, hein, Matheus? - perguntou a colega Fernanda, esperando uma resposta de lamentação.

- Pois é... Não tô muito preocupado, não. Eu queria mesmo era ver Nacional x Guarujá... - respondeu, referindo-se a uma partida da Quarta Divisão do Campeonato Paulista, a ser disputada a alguns poucos quilômetros dali, na Barra Funda.

Vai entender o Matheus... Ele entende. "É paixão, bicho!", ele ri com o canto da boca e, é claro, dá uma piscadinha.


(Resultado de um exercício realizado durante uma aula sobre perfis, da pós-graduação em
Jornalismo Literário, na Academia Brasileira de Jornalismo Literário, no dia 18 de junho de 2011.)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Guilhermina Guinle, 18

- Vamos arrumar um lugar para você morar.

A frase saiu da boca da mãe de seu amigo desse jeito, sem interrogação ou exclamação. Era afirmativa. Não era um convite. Não era uma celebração. Era uma certeza, um fato, uma necessidade prestes a ser atendida. Maria Tereza usava os óculos de lentes grossas que deixavam enormes seus olhos, um traço marcante do rosto gordinho de uma pessoa feliz de pouco mais de 50 anos. À sua frente, em páginas abertas sob os raios de sol que entravam pela janela, estavam os classificados da edição de domingo do jornal O Globo. O tom da sua voz e a sua postura eram calculadamente o que o garoto de 21 anos precisava naquele momento. Do sofá, ele sentiu uma ponta de esperança. Talvez a única nas últimas semanas.


***

Havia menos de três meses, Thiago experimentara pela primeira vez o gosto de voar. O transporte aéreo ainda estava num estágio inicial de popularização. E a sensação de entrar no avião para tentar desbravar um caminho profissional lhe causava um excitamento ainda maior. O voo rasante que quase tocava o Pão de Açúcar, a pista curtinha do aeroporto Santos Dumont, o apartamento da tia do amigo, as orientações para que o taxista não o enganasse no caminho até o Jardim Botânico, a infinita Lagoa Rodrigo de Freitas emoldurada pela janela do carro, o Cristo Redentor abençoando aquele momento, o estúdio do Fantástico, o encontro inesperado com uma simpática Fátima Bernardes num corredor sem graça de um prédio de labirintos. Tudo, absolutamente tudo, carregava em si a magia de um sonho. O mundo daquele jovem aspirante a jornalista expandia suas fronteiras de modo avassalador.

O que se seguiu foi muito rápido. Em menos de 15 dias, as poucas coisas que havia juntado em três anos e dois meses morando em Florianópolis estavam em uma caixa de papelão, três malas e uma mochila. O incentivo dos amigos numa festinha de despedida improvisada. O amor da namorada num aceno pela janela do ônibus que, mais de 15 horas depois, o entregaria à própria sorte na rodoviária do Rio de Janeiro. Thiago iria trabalhar na TV Globo.

A cidade que, no primeiro contato lhe parecera tão maravilhosa, mostrava então sua face hostil, malandra, como se dissesse o tempo todo o quanto é preciso ser esperto para sobreviver. Naquele paredão de cabeças aguardando o desembarque dos passageiros do ônibus, nenhuma era conhecida. A única pessoa que lhe estendeu a mão foi um carregador do terminal, que lhe cobrou R$ 12 para levar suas coisas 20 metros adiante. A partir dali, tinha que ser com ele. E seria. E foi.

O apartamento da mãe de um amigo em Copacabana era pequeno e a sensação de que estava incomodando não permitiu que ali ficasse por mais que três dias. Um colega de faculdade, que havia aportado no Rio de Janeiro e vivia de favor na sala de estar do apartamento de outros quatro rapazes no Leblon, lhe ofereceu abrigo, mas ainda estava longe de ser o ideal. Ansioso por resolver a questão da moradia na Cidade Maravilhosa, Thiago cometeu seu maior erro.

Não é pequena a oferta de quartos para alugar numa cidade como o Rio de Janeiro. Os bairros, principalmente os da zona sul, estão cheios de anúncios de hospedagem temporária para turistas e pessoas que vêm de outros estados para tentar a vida na capital fluminense. Os preços são variados. E a qualidade dos quartos e o caráter dos locatários nem sempre ficam evidente à primeira vista, como o garoto iria logo descobrir.

O apartamento na rua Ronald de Carvalho, região do Lido, em Copacabana, foi o início e o fim da procura de Thiago por um quarto para dormir. Moravam nele a mãe, a filha pequena, o padrasto, a avó e uma cadela um pouco grande demais para o ambiente e para o gosto do jovem. Foram simpáticos e pareciam hospitaleiros. O quarto, ao lado da área de serviço, estava adequado às suas necessidades. Tinha uma cama e uma TV. O banheiro, no corredor até a cozinha, seria de seu uso exclusivo. "Ok!", pensou e já pagou adiantado os R$ 280 do primeiro mês. Mudou-se em seguida.

A primeira noite foi o suficiente para perceber o quanto havia sido infantil na decisão de alugar o primeiro quarto visitado. O chuveiro não esquentava, o que, numa noite atípica de frio no Rio de Janeiro, o fez amanhecer com dor de garganta. A TV não funcionava e o colchão da cama era duro como uma tábua e acabou com sua coluna. 

Os dias que se seguiram trouxeram ainda mais surpresas desagradáveis. Os outros moradores do apartamento não tinham hábitos de limpeza. A cozinha era nojenta. E, por várias vezes, ele via cair no chão uma folha de alface ou um ovo cru e ali permanecer por dias seguidos, com a cachorra passeando por cima deles tranquilamente. Apesar de ser a casa de uma família, não havia geladeira. Apenas um freezer. Então, por exemplo, o leite passava o dia sendo congelado e, à noite, ficava descongelando à temperatura ambiente para ser consumido no dia seguinte. Para Thiago, não poderia haver nada mais absurdo.

Consultou a dona do apartamento sobre a possibilidade de ficar hospedado ali apenas metade do mês, pegando, assim, metade do dinheiro de volta. Ela, claro, negou, dizendo que já havia gastado a quantia toda. E assim, ele ficou. Procurando um lugar melhor para seu segundo mês no Rio de Janeiro, enquanto enchia seu quarto com sacolas de frutas, água e Toddynho e ouvia os jogos de futebol pelo rádio. Sentia-se só e escrevia desabafos quase adolescentes em um caderno de brochura.

Em seus primeiros dias na TV, Thiago trabalhava predominantemente à noite. Os dias se tornavam lentos e longos, em caminhadas sem fim pelas ruas de Copacabana para tentar passar o maior tempo possível longe daquele apartamento. Até que um dia, ele descobriu que, se os dias por ali eram ruins, as noites poderiam ser ainda pior.

Chegou em casa já perto da meia-noite e bateu à porta. Nada. Insistiu. Silêncio. Mais uma vez. Luzes apagadas. Todos haviam saído. 

Thiago tinha medo da cachorra que vivia no apartamento, assim como de quase qualquer outro cachorro. Por isso, fizera um acordo com a dona: ele ficava fechado entre a cozinha, a área de serviço e seu quarto, enquanto a cadela ficava trancada no restante do apartamento. No entanto, a parte que lhe cabia na casa não tinha, até então, uma segunda chave. Sempre que ele chegava da rua, alguém aparecia para lhe abrir a porta. Sempre, menos naquele dia.

Trancado para fora, o jovem jornalista desceu à rua para esperar alguém da família chegar. E então, descobriu que boa parte das mocinhas que se anunciavam nos adesivos colados nos orelhões da Telemar - da "baianinha morenaça que acaba de chegar ao Rio com seios furando à blusa" à "Babinha, que lambe até a última gotinha" - vivia por ali, em meio a toda sorte de vagabundos, pilantras, bêbados, agiotas e tipos assim.

Não dava mais para viver ali. Essa era uma certeza que o rapaz tinha. Por outro lado, o mês estava acabando e ele não tinha conseguido nada melhor.

- Hum, Thiago! O mês vence hoje... Vai ficar mais um mês com a gente? - ela o abordou na cozinha, enquanto bebia água.

- O mês vence amanhã. E não, não vou ficar mais um mês com vocês. - foi mais ríspido do que ele mesmo se julgava capaz.

- Mas, você já achou um outro lugar pra ficar? - a pergunta dela tinha o cinismo de quem sabia a resposta.

- Não, ainda não... Tô procurando. - ele engolia a água com raiva.

- Se precisar ficar uns dias a mais, a gente acerta...

- Acerta coisa nenhuma - ele cortou nervoso. Acerta coisa nenhuma! Você me alugou um quarto com uma TV que não funciona, um chuveiro que não esquenta, aqui não tem geladeira... E você quer me cobrar um dia que eu fique a mais?

- Mas, eu não posso ficar no prejuízo... - o sorrisinho que escapava naquele rosto gordo e moreno o deixou ainda mais irado.

- Tá bom! Eu vou embora amanhã. Não sei pra onde, mas vou embora amanhã.

A frase, dita de forma tão visceral, e o clima pesado que acompanhou a caminhada dele até o quarto davam a certeza de que não poderia haver blefe. Fosse para onde fosse, ele precisava deixar aquele apartamento no dia seguinte. Lembrou-se na hora de um colega de estágio que havia conhecido um mês antes e que lhe dissera algo como "se precisar de alguma, pode contar comigo, vai lá pra casa". Apesar da vergonha pela situação, aquela lhe parecia a única opção no momento.

Igor tinha uma família estruturada, daquelas com pai, mãe, irmã e avó por perto, num apartamento bem confortável em Botafogo. A ideia de Thiago era não causar muitos problemas. Seriam apenas dois ou três dias, o suficiente para encontrar um novo quarto para jogar sua caixa de papelão, suas três malas e sua mochila.

Foram dias de caminhadas intensas sob um calor infernal em pleno final de agosto carioca. Quase como uma súplica, ele perguntava a cada porteiro: "Você sabe de quarto para alugar nesse prédio?". Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, Catete. O garoto não se lembrava de já ter andado tanto. Queria muito resolver aquela situação. Não porque se sentia pressionado a deixar o apartamento de Igor. Pelo contrário, a família do novo amigo o recebia muito bem, como dificilmente se faz com um desconhecido. Mas, Thiago precisava encontrar onde morar logo para receber sua namorada, que já tinha as passagens compradas para visitá-lo e, de Santa Catarina, começava a reclamar pela falta de notícias, pela ausência das ligações e, principalmente, das longas conversas que costumavam ter pela internet.

Uma semana se passou e, por mais que ele se esforçasse, nada aconteceu. É certo que sua imaturidade, sua pouca prática na cidade grande, seu desconhecimento da mecânica da vida para certas situações do dia a dia atrapalhavam no desfecho. Afinal, não poderia ser assim tão difícil alugar um quarto para morar no Rio de Janeiro.

Em meio a tanta pressão, encontrou espaço para relaxar no convite dos novos amigos para participar de uma pelada no outro lado da cidade. Fazia anos que não tinha uma turma para jogar futebol e, naquele momento, mais do que nunca, sentia a necessidade de estabelecer novas relações, conhecer pessoas.

Em uma disputa imprudente com o goleiro adversário, percebeu que seu tornozelo não estava legal. No calor da partida e do corpo, continuou jogando. Só foi se dar conta da dor e do estrago horas depois, na casa da família de Igor. Seu pé direito ficou roxo e assustadoramente inchado. Não falou para ninguém. Não tinha plano de saúde, não queria ficar sem trabalhar e não queria dar ainda mais dor de cabeça para as pessoas que o hospedavam. Mas, a dor não passava. O inchaço não desaparecia. O roxo só fazia ficar mais escuro.

Até que um dia, um colega do trabalho notou o estado do pé de Thiago. E indignou-se com a falta de cuidados. "Você quer perder seu pé?" As pessoas ao redor encorparam o discurso e Igor se ofereceu a levar o amigo ao pronto socorro de um hospital público perto de sua casa. O atendimento foi demorado e a tala de gesso e atadura que lhe fizeram era nitidamente precária e inadequada. Pelo menos, conseguiu um atestado de duas semanas para o trabalho.

O problema é que, além de não trabalhar, Thiago não poderia mais bater perna em busca de uma morada. Passava os dias sozinho, deitado no sofá com o pé para cima ou tentando se arrastar de muletas pelo apartamento da família de Igor. A única pessoa que via era a avó do amigo, que morava no mesmo prédio e lhe levava o almoço atenciosamente. 

Com menos de um mês no estágio dos sonhos de tanta gente, ele estava pronto para desistir. Não queria mais.

Telefonou para a mãe, que acompanhava tudo de mãos atadas em sua cidade perdida no interior do Paraná. Não queria preocupá-la, mas não aguentou. Chorava tanto que mal conseguia falar. Abrir mão daquela oportunidade, voltar para casa derrotado e ter que encarar todos seus amigos e colegas como "o cara que não deu certo na Globo" doía muito mais que o pé retorcido. Sua mãe quis falar com a mãe do amigo que o hospedava e pediu ajuda. De mãe para mãe.

No dia seguinte, um domingo, Maria Tereza abriu o jornal e disse sem meias palavras:

- Vamos arrumar um lugar para você morar.

A mulher correu os olhos espertos pelas páginas dos classificados.

- Nossa! Esse é aqui do lado. "Alugo quarto para moça."

- Mas, é pra moça... - Thiago sublinhou timidamente.

- Ah, vamos ligar lá! - Tereza estava decidida. E não haveria argumentos que a segurassem.

Do outro lado da linha, a senhora que oferecia o quarto tentou mais uma vez destacar que o mesmo era para uma moça.

- Mas, eu tenho aqui um menino ótimo! A senhora vai adorar ele! Olha só: estamos indo aí agora! - completou a mãe do Igor, praticamente batendo o telefone na cara da outra, já juntando as coisas para sair.

O prédio ficava mesmo à meia quadra dali, na esquina seguinte. Tereza ia à frente, com Igor e Thiago, de muletas, a segui-la. Tocaram o número 702 no interfone. Uma mulata bonita de 1,80m - que, depois, se soube ser dançarina da companhia de Jaime Arôxa - veio recepcioná-los na porta. Ela se chamava Luana e morava com a Dona Altina, a anunciante do quarto.

A porta pantográfica e o cheiro marcante do elevador indicavam a idade da construção. Do corredor do sétimo andar, dava para ver por entre as plantas na janela a área de serviço do apartamento de Dona Altina. Ela esperava na porta, com um sorriso que não passava despercebido. Os cabelos eram curtos, pintados de loiro, os olhos, bem claros, entre o azul e o verde. Tinha 75 anos, mas passava facilmente por bem menos. As primeiras impressões entre ela e o garoto não poderiam ser melhores. Ele via a hospitalidade em pessoa. Ela, um menino com cara de bonzinho. Mesmo assim, ela se preocupou: "meu Deus! Ele é deficiente! Será que ele vai conseguir se virar num quartinho tão minúsculo?".

O quartinho minúsculo dos pensamentos de Dona Altina se materializava diante dos olhos de Thiago. Assim que olhou para aquele espaço de 1,90m de comprimento por 1,70m de largura, o garoto já descartou a hospedagem e desanimou. A simpatia da senhora era imensa, mas, como colocar todas as suas coisas ali? O quarto tinha apenas uma pequena cama, um guarda-roupa de duas portas e uma sapateira pendurada atrás da porta. Não tinha janelas. Ficava ao lado do tanque e da máquina de lavar roupas, com um banheiro anexo, sem pia e com o chuveiro sobre a privada. O aluguel custaria mais caro que o de Copacabana: R$ 400 por mês, um pouco menos da metade de seu salário de estagiário.

Para ele, estava decidido que, infelizmente, não era possível ficar ali. Sentaram-se para conversar na sala, toda enfeitada com quadros e uma série de madonas de barro, feitas pela própria senhora, que era artista plástica. O apartamento todo era bem pequeno. Havia somente mais um quarto, onde Luana dormia aos pés da Dona Altina.

Mas, algo naquela conversa, naquele momento, fez Thiago se dar conta de que a vida não é matemática. Estavam ali, diante dele, uma mulher que havia prometido à sua mãe que o ajudaria a todo custo e uma senhora disposta a ignorar a restrição de gênero do anúncio em nome de uma empatia imediata inexplicável. O negócio estava fechado.


***

Nove anos depois, nos encontros esparsos e apaixonados que celebram a improvável amizade incondicional entre o menino e a idosa, ninguém se atreve a dizer que não valeu a pena.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Toda chuteira será pendurada

Passa um pouco das duas e meia da tarde do sábado véspera das eleições presidenciais, na fria Curitiba, quando ele deixa o hotel e entra no ônibus com seus colegas. Umas poucas dezenas de garotas gritam na sua passagem, mas, na verdade, elas esperam por Luan Santana, o astro sertanejo que ali também está hospedado. Começa a garoar.

O trajeto até o estádio é conhecido e, com a ajuda dos batedores, não costuma levar mais que quinze minutos. Hoje, no entanto, parece durar os vinte anos da vitoriosa carreira. Ele sabe bem que fará aquele caminho apenas mais seis vezes depois daquela. E sabe também que, provavelmente, nenhuma delas será tão marcante quanto. Talvez apenas a última, dali dois meses, no dia sete de dezembro.


O pagode toca alto no interior do ônibus, mas quase todos os cerca de 30 passageiros têm seus próprios fones de ouvido, com suas próprias músicas e seus próprios iPhones, em seus próprios mundos. O mundo dele é certamente angustiante. Está na cara, nos dedos que brincam de se apertar nervosamente. Aos 37 anos, ele tem a consciência de que não dá mais para fazer o que sempre fez. O fim da linha está perto. As pessoas fizeram questão de lembrá-lo disso a semana inteira. Jornalistas o procuraram para falar sobre isso. Uma câmera está apontada para o seu rosto, nesse momento, por causa disso. 



Reprodução de vídeo do Departamento de Comunicação
do Coritiba Football Club
O espírito profissional lhe diz que ele não pode pensar nisso agora, pode atrapalhar seu desempenho, pode destruir as pretensões de todo um grupo, estragar o fim de semana de todas aquelas dezenas de milhares de pessoas que deixaram as suas casas num dia de frio e garoa para estar ali. Ele dá pequenos socos na cabeça como a isolar todo aquele pensamento, enquanto vê pela janela a fumaça verde que anuncia que eles o esperam logo ali, na esquina seguinte.

Adivinhar seus pensamentos não é um exercício difícil. Neles deve estar o menino de nove anos que jogava futsal nos anos 80, sonhando em vestir aquela camisa com o número dez às costas. Ou o torcedor adolescente que, da arquibancada, viu seu time perder um título com um gol contra de um jogador a quem admirava, nos últimos minutos de um jogo contra o maior rival, mesmo adversário que ele encontraria em menos de duas horas. Seu pensamento pode estar também no jovem atleta que um dia ajudou seu clube do coração a voltar à elite do futebol brasileiro, e ainda entrou para a história do grande clássico da cidade onde nasceu como o mais novo a fazer um gol no confronto. Tão importante quanto o veterano consagrado que quinze anos depois voltou para, finalmente, ser campeão no quintal da sua casa.


Da rua, as pessoas sorriem para dentro do ônibus. Gritam incentivos. Levantam desenhos de caixões pintados em vermelho e preto. Tiram fotografias. Seus colegas parecem realmente impressionados. Filmam tudo com seus celulares. Acenam. Ele apenas olha para fora, quase se desculpando por não conseguir sorrir de volta. Olha sério, focando o nada, contido e contendo-se, enquanto morde os dedos já sem unhas.


A janela do ônibus lhe traz um mar verde e branco que se forma para apoiar o time que está na última posição do campeonato. O cruzamento da rua Mauá com a Barão de Guaraúna naquele momento é maior que qualquer avenida do mundo. Por longos segundos, ele aperta forte os olhos fechados. Levanta a cabeça, volta a encarar a multidão e morde os lábios, adiando o choro iminente. Ali está sua última oportunidade de dar àquela gente o sabor de vencer o vizinho, o rival, o irmão torto que optou por outras cores e outros caminhos. 


Em pouco mais de três horas, tudo estará acabado. E Alex voltará a ser apenas mais um torcedor no Atletiba, o clássico que tantas vezes disputou em seus sonhos de criança.