segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Temporariamente evitando uma conexão ruim

"...que lá na Praça Onze tem um videopôquer para se jogar..."

Acordou de sobressalto. Parecia ainda dentro de um sonho. Não estava esperando que o rádio-relógio tocasse num volume tão alto e, assim, Gilberto Gil chegando pelas ondas da FM lhe pareceu assustador. Tomou banho, ainda pensando divertidamente se lá na Praça Onze haveria mesmo um videopôquer para se jogar. Vestiu-se sem pressa e percebeu que, depois de muito tempo, não estava atrasado para o trabalho.

Sentou-se em frente à TV e, quando o noticiário foi para o intervalo, se deu conta de que era capaz de repetir cada palavra e cada música de todos os comerciais, mas parecia que os estava vendo pela primeira vez. Não se lembrava daqueles atores, daqueles efeitos, daquelas cenas. Sem dúvida, já os tinha ouvido, mas nunca os tinha visto.

- Bom dia, seu Mário! - escutou o cumprimento, virou-se para responder ao porteiro e ficou impressionado. "Nossa, como tá branco o cabelo do Chico..."

Deixou o prédio ainda pensando em como o porteiro tinha se tornado grisalho da noite para o dia. Na frente do condomínio, parou maravilhado. Três pequenos macaquinhos corriam pelos fios da rede elétrica. A voz do faxineiro o tirou do estado embasbacado.

- Eles estão com tudo hoje, né, doutor!?

- Eles? Eles estão sempre aqui!?!?

- Ôxi...

Percebeu que Luis, o faxineiro, o encarava como se ele estivesse falando uma coisa muito absurda e se sentiu envergonhado. Mudou de assunto.

- Cadê o Paulinho?

- Paulinho... Paulinho... Que Paulinho, doutor? - apoiado na vassoura, Luis coçava a cabeça.

- O Paulinho, pô! Paulinho manco, da limpeza...

- Vixe, doutor... O Paulinho foi mandado embora do condomínio faz mais de ano já... - respondeu, voltando a varrer.

- Mais de ano!?!? - Mário repetiu e foi descendo a rua, sentindo-se confuso.

Estava sendo mesmo um dia estranho. Até o muro da escolinha infantil da esquina tinha mudado de cor. De uma hora para outra, o azul tinha se tornado amarelo e ele não entendia como isso era possível.

O rapaz se deu conta de que tinha tempo sobrando e resolveu passar na padaria. Pediu um pão com manteiga na chapa e um café pequeno. O ritmo dos atendentes no balcão era alucinante e o mecanismo da máquina de café chamou sua atenção. Acompanhou cada detalhe com atenção: os grãos inteiros, a quantidade certa de pó, a água fervendo e, de repente, o líquido preto escorrendo devagar dentro da xícara. E de novo. E de novo. E de novo. Olhou para os lados, tentando perceber se alguém também estava vendo aquilo. Ninguém. Todos entravam e saíam muito rapidamente, de cabeça baixa, concentrados em alguma coisa muito importante.

Na estação de trem, se viu impaciente. Todos pareciam muito apressados, mas andavam devagar pelos corredores, digitando e lendo mensagens no celular. Por duas vezes, teve que desviar para não se chocar com gente que passava distraída, com seus fones de ouvido.


Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje?
Mesmo com o vagão cheio, conseguiu se sentar. Estava de frente para um senhor de paletó, que o cumprimentou com a cabeça. Ele retribuiu o aceno, mesmo sem se lembrar de onde o conhecia. Reparou no garoto que fingia dormir, ocupando o assento de idosos, e na moça que balançava o corpo ao som de uma música que só ela ouvia, encostada ao lado da porta. Impressionou-se com o silêncio no vagão. A única conversa era entre duas mulheres a poucos metros de onde ele estava.

- Eu tô há uma semana sem internet na minha casa... - dizia a moça que estava em pé.

- Como assim!? Como você vive? - a outra, sentada com as bolsas no colo, até parou de mexer no celular, de tão indignada.

- Pois é... É como se faltasse o ar. - e riu, enquanto tirava o fone de ouvido do bolso.

Por mais que a conversa lhe soasse absurda, ele era capaz de entender as duas. E isso o entristeceu por um instante. Começou a olhar a paisagem pela janela e percebeu que a ponte já estava enfeitada com as luzes de Natal. Notou também novas árvores plantadas à margem do rio e uma ampliação já bem adiantada da ciclovia. 

Quando viu o que julgou ser uma família de capivaras passeando pela grama, pensou em cutucar alguém e dizer: "olha", mas notou que era o único que tinha testemunhado a cena e que já era tarde demais.

Passou o crachá para entrar na empresa e cumprimentou a recepcionista.

- Hum... Cortou o cabelo... Ficou bonito! - disse, sorrindo.

- Ah, já faz uma semana... Mas, muito obrigada! Você foi o único que reparou! - respondeu a jovem, genuinamente feliz com o elogio.

"Uma semana...", ele repetiu em pensamento, enquanto pegava o elevador, que naquele dia estava mais lento que o normal.

Na parada para tomar água, encontrou um grande amigo, aquele para quem estava mesmo pensando em contar a grande história de seu fim de semana. O momento era perfeito e, empolgado, ele começou o seu relato. 

O amigo o recebeu com simpatia. Mas, estava distante. Olhos no iPhone e "aham, aham" para tudo que ele falava. Resolveu encurtar a conversa com um "o que você acha?".

- Oi?... O que eu acho? Eu acho... Ah, o que eu acho... Eu acho que... Hum... Cara, desculpa, eu não tava prestando atenção! - o amigo confessou, no mesmo momento que recebeu uma nova mensagem.

Ele aproveitou que o amigo abaixou a cabeça para ler e foi entrando para o escritório. No corredor, cruzou com duas colegas e ouviu uma frase de relance.

- O que as pessoas com insônia faziam antes da internet?

Sentou à mesa e ficou tentando responder para si mesmo a dúvida da colega. Seu ramal tocou. A ligação foi bem rápida e, quando desligou, cumprimentou o chefe que estava chegando.

- Acabaram de ligar da assistência. Meu celular ficou pronto. - disse por dizer.

- Que bom! Não dá pra ficar sem, né... O conserto demorou? - perguntou o chefe, enquanto tirava o seu aparelho do bolso para checar alguma coisa.

- Não... Só fiquei sem durante o fim de semana... Deixei lá na sexta, vou pegar hoje...

- Caramba! O fim de semana inteiro desligado do mundo? Como você conseguiu? Outro dia, eu fiquei sem celular uma tarde e quase tive um treco... Imagina um fim de semana inteiro!

Ele ia tentar argumentar que havia se sentido bem com a sensação de não poder ser encontrado a qualquer momento ou como havia sido bom não se corroer de ansiedade por uma mensagem que não chega. Mas, àquela altura, o chefe já tinha lhe dado um tapinha nas costas e havia saído em direção a sua sala.

Deu uma risada meio confusa, ligou o computador e se surpreendeu ao olhar o relógio. Não eram nem nove horas da manhã.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Lizards are strange

Naquele sábado de fevereiro, Charles acordou com a mesma ideia que o acompanhava durante toda sua estadia na Europa, que já entrava na segunda semana. Na verdade, era um sonho cultivado ao longo dos seus últimos 15 anos. Durante metade de sua vida, ele havia desejado que aquele momento chegasse. E chegou naquele sábado.

Era hora de conhecer o único ponto de Paris que Charles julgava imprescindível na sua primeira passagem pela cidade. Esqueça a torre Eiffel, o museu do Louvre, o Arco do Triunfo, a Catedral de Notre Dame. Charles só fazia questão de estar no cemitério de Père-Lachaise.

Mesmo que ir até lá fosse um sonho antigo, o planejamento do que fazer quando lá estivesse só veio na noite anterior. No quarto do hotel, a namorada já dormia e apenas a garrafa de vinho fazia companhia ao rapaz, embriagado de ansiedade e êxtase. Lembrou-se das folhas de sulfite e da caneta, que sempre levava na mochila para desenhar os mapas da viagem, e escreveu em letras garrafais a frase que resumia o sentimento que o levara até ali. Tomou todo o cuidado do mundo com a caligrafia e com a gramática da língua estrangeira, dobrou o papel e o guardou para ser aberto apenas na hora certa. Só então, Charles deu-se por satisfeito e pôde dormir.

Uma fina garoa caía sobre a Cidade Luz, às 9 da manhã, quando o casal deixou o hotel nas redondezas das Galeries Lafayette e pegou o trem em direção ao 20º arrondissement (como é chamada cada sub-região da capital francesa), no extremo leste de Paris. Mas, os pouco mais de 20 minutos de viagem foram capazes de levar Charles muito mais longe.

Alheio à paisagem que passava pela janela do trem, naquele momento, ele estava de volta ao quintal da casa onde viveu na adolescência, em São Paulo. Foi ali que o filho da amiga de uma tia de Charles, que foi morar na casa dos fundos, lhe abriu as portas para uma banda chamada The Doors. Um CD de greatest hits com capa vermelha foi o suficiente para o garoto entrar por um caminho sem volta.

Não demorou muito para ele se tornar, entre seus amigos e colegas, referência de tudo que dizia respeito à turma de Jim Morrison. Muitos tocavam violão, mas só Charles, o canhoto que não se importava com as cordas invertidas, estava habilitado a reproduzir o som dos Doors. Para ele, era um orgulho sem tamanho ser visto como especialista em sua banda favorita.

O cemitério de Père-Lachaise é o maior de Paris e um dos mais conhecidos do mundo. Estão sepultadas lá figuras marcantes da história da humanidade, como os escritores Honoré de Balzac e Marcel Proust, as cantoras Maria Callas e Édith Piaf, e o "pai do espiritismo", Allan Kardec, entre outras. Uma verdadeira cidade de almas célebres e celebradas por visitantes de todos os lugares do planeta.

Charles havia pesquisado no site do cemitério como chegar exatamente ao ponto que o interessava. A alguns metros de distância, por caminhos de pedras, já pôde identificar que estava no lugar certo graças às grades de metal de mais de 1,30m de altura que cercavam a sepultura. No frio de 5ºC que fazia na capital francesa, o tempo parou, a garganta secou, o ar sumiu, os olhos se encheram de água, a vista ficou desfocada para tudo que não fosse aquele túmulo cinzento com uma placa de metal desgastada pelo tempo, onde se lia JAMES DOUGLAS MORRISON 1946-1971.

Estava enterrado ali o maior ídolo de Charles. Onde muitos veriam apenas a morte, o rapaz sentia o que para ele era o maior legado do líder dos Doors: a mensagem de viver intensamente, pedra fundamental na formação de um adolescente apaixonado por rock and roll.

Chegar o mais próximo permitido não lhe bastava. Isso era para as pessoas comuns. Não para um fã como ele. Charles já tinha tudo planejado. Apenas esperava o momento certo. Um funcionário do cemitério havia acabado de trocar as flores do túmulo de Morrison, quando outro casal de turistas se aproximou com suas câmeras e lentes de longo alcance. 

Aquilo só atrasava os planos de Charles, que tentava disfarçar sua ansiedade, caminhando entre outras sepulturas. A tensão naquele momento era muito maior que a felicidade de estar ali. Mas, havia um motivo para tudo aquilo. E o rapaz repetia a si mesmo que não sairia dali sem conseguir o que queria.

O casal de visitantes pareceu entender o que se passava e, por um instante, deixou Charles e sua namorada a sós em frente ao túmulo do astro. Até então, ela acompanhava o parceiro sem reclamar, sem estranhar, sem fazer nenhuma pergunta. Embora não partilhasse do mesmo fanatismo, respeitava a idolatria do namorado. Mesmo assim, definitivamente, ela não esperava pelo que viria a seguir.

- É agora! Prepara a câmera. Eu vou pular! - Charles, de preto dos pés a cabeça, das botas à boina, passando pelo sobretudo e pelo cachecol, já estava subindo a grade, cheia de cadeados deixados por casais apaixonados.

- Como assim!? Vai pular?

- Vou pular!

- Então, vai... Pula logo! - ela sabia que não era hora de discutir. Se havia algo a ser feito, que fosse feito logo.

E Charles pulou. No meio de tanta adrenalina, o rapaz, que não é religioso mas crê em forças superiores, sentiu uma enorme calma. Uma enorme e eufórica calma, que vinha junto de uma energia que ele não saberia explicar. Por instantes, a vida parecia passar em câmera lenta.

Sacou do bolso do casaco o papel dobrado, abriu e pediu que a namorada tirasse o maior número de fotos possível. "I'AM THE LIZARD KING. I CAN DO ANYTHING. (Eu sou o rei lagarto. Eu posso fazer o que eu quiser.)" Naquele momento, Charles não tinha domínio sobre seu corpo ou sua mente, mas se sentia capaz de fazer qualquer coisa.

- Rock is dead! - gritou, enquanto pulava de volta. Foi a única coisa que lhe veio à mente. O grito chamou a atenção do outro casal de turistas, os únicos a testemunharem o pequeno delito.

A cena toda não havia durado mais que um minuto. Estava feito.
Charles estava em êxtase. Preocupado com a possibilidade de ser denunciado e preso, só queria ir embora rapidamente. Também estava louco para ver as fotos. Foram tantas, que não era possível que ao menos uma não tivesse ficado boa. 

Foi a conta exata. Apenas uma foto se salvou. Sua expressão não
saiu das melhores. Mais do que a postura do gesto característico do rock and roll feito com a mão esquerda, o nervosismo do sorriso
estampou o retrato. No entanto, a missão estava cumprida. Charles finalmente havia realizado seu sonho adolescente: estar lado a lado com seu ídolo. Da única maneira possível. 

This is the end.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Com ou sem colarinho?

- E o pior é que não vai cair...

- Não vai...

- Sei não...

- Não cai... Não é possível que não ganhe do Atlé... Puta que o pariu! Não olha agora! Não olha! Disfarça, disfarça...

E ficaram ali, cinco homens em mangas de camisa, paralisados com seus copos de chope em mãos, olhando dois meninos de não mais de 20 anos passarem abraçados pelo corredor do shopping. O mais baixinho deles, alargador nas orelhas, camiseta curta, calça colorida agarrada às pernas finas, tascou um beijo no pescoço do namorado. Eles dobraram a esquina e a cena continuou na mesa.

- Acabou! Acabou! Acabou! - gordo e vermelho, Antunes já sua às bicas por natureza. Naquele momento, parecia que ia explodir. - É o fim do mundo! - e virou a tulipa de uma vez.

- Não existe mais respeito... - balançou a cabeça o Jairo, 58 anos, aposentadoria prevista para dali dois meses. E todos balançaram a cabeça juntos, levando os copos às bocas, sincronizadamente.

- Hoje em dia, você tem que tomar cuidado com o que fala em qualquer lugar. Tem sempre alguém querendo te pegar na curva... Acabou o bom humor, acabou negócio de piadinha... Cê pode ser até preso! Tudo é bullying, tudo é racismo, preconceito... - o tom do Amauri, um negro de 40 anos, era bem sério, de alerta.

- O mundo tá muito chato!

- Tá!

- E a viadagem tomou conta!

- É culpa da TV! Você liga a TV pra relaxar depois do trabalho e só tem coisa errada... Só bandido, só gente enganando o outro e viado pra cacete... Não dá mais pra ver novela com a família! Tá foda! - sem dúvida, o Antunes era o mais exaltado. Naquele momento, o tradicional happy hour de quinta-feira não tinha nada de happy.

- Vocês não sabem o que me aconteceu semana passada... - começou o Marcelo, o caçula da mesa, aos 30 e poucos anos. Tomou um gole, segurou a atenção por um instante. - Levei a Cláudia ao cinema, de boa... Estamos lá, esperando o filme começar e chegam dois caras desse tamanho, tipo esses bombadões de academia, sabe? Casal de viado!

- Puta que o pariu! Como tem, né!?

- Sério! Pediram licença pra passar... E vocês não sabem... Sentaram bem do meu lado... - falava e abria os braços do tipo "como pode?".

- Hahahaha... Que merda!

- Cara... Eu fiquei sem saber o que fazer... Falei pra Cláudia que ia pegar pipoca... Arrumei um lugar pra sentar lá no fundo do cinema e mandei mensagem pra ela ir me encontrar... - Marcelo tinha o celular na mão e simulava a situação. Os outros riam.

- Boa!

- Não que eu seja preconceituoso... Mas, cara... É foda!

- É foda! Não é preconceito! Mas, tem lugar pra essas coisas, né!? Não precisa esfregar na cara do povo também... Às vezes, tem criança por perto... A gente que é pai vai falar o quê? Tem que pensar na família. - o Amauri encostou na cadeira, como quem está cansado de tudo isso que está aí. Tomou um gole longo e olhou hipnotizadamente o traseiro de uma loira que passava.

- É por isso que eu acho que gay tem que ser igual ao Carlinhos. - disse calmamente o Jairo.

- Carlinhos? Que Carlinhos? - perguntou o Roberto, um cinquentão que até então só ria e acompanhava a discussão.

- O Carlinhos, do marketing. Não é esse, seu Jairo? - ajudou o Marcelo.

- É! O do marketing. - o senhor careca de óculos fez sinal de positivo, pegou uma batata frita e prosseguiu. - É disso que eu tô falando. O cara é um gay tão discreto que você nem sabe que ele é.

- Pois é, rapaz... Não sabia...

- Eu também não sabia, não... - o Antunes já estava bem mais relaxado. A camisa para fora da calça, a cara menos vermelha.

- Pois, então. O cara sabe se comportar, fala como homem, se veste como homem... Não dá pra ser assim? - Seu Jairo, às vezes, tinha um ar de guru da turma.

O Amauri se inclinou em direção à mesa e falou baixinho, com malícia no olhar:

- E a Karen, hein!?

- Ah, a Karen... - repetiram alguns.

- Que Karen? - perguntou o Roberto. Ele era o mais disperso da mesa. Parecia não estar num bom dia.

- A Karen, porra! Estagiária, ruivinha... Lesbiquinha... - o Antunes falava e gesticulava, deixando claro que já vinha observando a moça há tempos.

- Ah...

- Delícia! - completou o Amauri, esfregando as mãos. - Já imaginaram?

Houve um breve instante de silêncio - ao que parece para que todos pudessem imaginar - e Marcelo não deixou a conversar parar ali.

- E isso que vocês não viram a namorada dela...

- Tá de sacanagem... - o Antunes não se continha, já na ponta da cadeira.

- Eu não vi pessoalmente. Mas, sou amigo dela no Facebook e vi as fotos... Rapaz! Que dupla! - Marcelo suspirou, virou a tulipa, encostou na cadeira e começou a mexer no celular.

- Desperdício, né!? - lamentou Seu Jairo.

- Desperdício nada! Chama elas aí... - brincou o Amauri, pegando o celular das mãos do Marcelo.

O quinteto pediu mais uma rodada e Roberto se levantou para ir ao banheiro. Pelo corredor do shopping, ele não levava o clima de chacota e brincadeira que tomou conta da mesa. Estava apreensivo, passava a mão na cabeça e caminhava rápido, sem olhar para os lados. Entrou no sanitário masculino, jogou muita água no rosto, olhou no espelho por alguns segundos. Conferiu todas as cabines, certificou-se de que estava sozinho e pegou o celular.

- Sandra! Sou eu... É, tô no shopping ainda... Não, não vou demorar... Como assim quem tá? Os de sempre, porra... Caramba, Sandra... O Jairo, o Antunes, o Amauri e o Marcelo... É... Sandra, escuta... Me diz uma coisa... Que dia a Mariana vai levar a tal da menina em casa pra gente conhecer?... Tá, eu sei... Namorada... Humpf... Tá, tá.... Que dia, Sandra?... Tá! Eu sei que já perguntei mil vezes. Responde mil e uma, caramba... Hum... Ai, meu cacete... Não, por nada... Tá... Tá... Já sei... Fala pra elas se comportarem também!... Tá... Tchau... Tá... Leite e pão... Tá bom, eu levo leite e pão... Tá! Beijo!

Jogou mais água no rosto, olhou no espelho, balançou a cabeça. Era preciso voltar para a mesa.

- Porra, Roberto, foi cagar? - todos riram.

- Sabe qual é a merda? A merda é que o Palmeiras depende só dele... Essa é que é a merda! - comentou, dedo em riste, e virou a tulipa ainda em pé.

- Não cai, porra! Já falei: não cai!