Era hora de conhecer o único ponto de Paris que Charles julgava imprescindível na sua primeira passagem pela cidade. Esqueça a torre Eiffel, o museu do Louvre, o Arco do Triunfo, a Catedral de Notre Dame. Charles só fazia questão de estar no cemitério de Père-Lachaise.
Mesmo que ir até lá fosse um sonho antigo, o planejamento do que fazer quando lá estivesse só veio na noite anterior. No quarto do hotel, a namorada já dormia e apenas a garrafa de vinho fazia companhia ao rapaz, embriagado de ansiedade e êxtase. Lembrou-se das folhas de sulfite e da caneta, que sempre levava na mochila para desenhar os mapas da viagem, e escreveu em letras garrafais a frase que resumia o sentimento que o levara até ali. Tomou todo o cuidado do mundo com a caligrafia e com a gramática da língua estrangeira, dobrou o papel e o guardou para ser aberto apenas na hora certa. Só então, Charles deu-se por satisfeito e pôde dormir.
Uma fina garoa caía sobre a Cidade Luz, às 9 da manhã, quando o casal deixou o hotel nas redondezas das Galeries Lafayette e pegou o trem em direção ao 20º arrondissement (como é chamada cada sub-região da capital francesa), no extremo leste de Paris. Mas, os pouco mais de 20 minutos de viagem foram capazes de levar Charles muito mais longe.
Alheio à paisagem que passava pela janela do trem, naquele momento, ele estava de volta ao quintal da casa onde viveu na adolescência, em São Paulo. Foi ali que o filho da amiga de uma tia de Charles, que foi morar na casa dos fundos, lhe abriu as portas para uma banda chamada The Doors. Um CD de greatest hits com capa vermelha foi o suficiente para o garoto entrar por um caminho sem volta.
Não demorou muito para ele se tornar, entre seus amigos e colegas, referência de tudo que dizia respeito à turma de Jim Morrison. Muitos tocavam violão, mas só Charles, o canhoto que não se importava com as cordas invertidas, estava habilitado a reproduzir o som dos Doors. Para ele, era um orgulho sem tamanho ser visto como especialista em sua banda favorita.
O cemitério de Père-Lachaise é o maior de Paris e um dos mais conhecidos do mundo. Estão sepultadas lá figuras marcantes da história da humanidade, como os escritores Honoré de Balzac e Marcel Proust, as cantoras Maria Callas e Édith Piaf, e o "pai do espiritismo", Allan Kardec, entre outras. Uma verdadeira cidade de almas célebres e celebradas por visitantes de todos os lugares do planeta.
Charles havia pesquisado no site do cemitério como chegar exatamente ao ponto que o interessava. A alguns metros de distância, por caminhos de pedras, já pôde identificar que estava no lugar certo graças às grades de metal de mais de 1,30m de altura que cercavam a sepultura. No frio de 5ºC que fazia na capital francesa, o tempo parou, a garganta secou, o ar sumiu, os olhos se encheram de água, a vista ficou desfocada para tudo que não fosse aquele túmulo cinzento com uma placa de metal desgastada pelo tempo, onde se lia JAMES DOUGLAS MORRISON 1946-1971.
Estava enterrado ali o maior ídolo de Charles. Onde muitos veriam apenas a morte, o rapaz sentia o que para ele era o maior legado do líder dos Doors: a mensagem de viver intensamente, pedra fundamental na formação de um adolescente apaixonado por rock and roll.
Chegar o mais próximo permitido não lhe bastava. Isso era para as pessoas comuns. Não para um fã como ele. Charles já tinha tudo planejado. Apenas esperava o momento certo. Um funcionário do cemitério havia acabado de trocar as flores do túmulo de Morrison, quando outro casal de turistas se aproximou com suas câmeras e lentes de longo alcance.
Aquilo só atrasava os planos de Charles, que tentava disfarçar sua ansiedade, caminhando entre outras sepulturas. A tensão naquele momento era muito maior que a felicidade de estar ali. Mas, havia um motivo para tudo aquilo. E o rapaz repetia a si mesmo que não sairia dali sem conseguir o que queria.
O casal de visitantes pareceu entender o que se passava e, por um instante, deixou Charles e sua namorada a sós em frente ao túmulo do astro. Até então, ela acompanhava o parceiro sem reclamar, sem estranhar, sem fazer nenhuma pergunta. Embora não partilhasse do mesmo fanatismo, respeitava a idolatria do namorado. Mesmo assim, definitivamente, ela não esperava pelo que viria a seguir.
- É agora! Prepara a câmera. Eu vou pular! - Charles, de preto dos pés a cabeça, das botas à boina, passando pelo sobretudo e pelo cachecol, já estava subindo a grade, cheia de cadeados deixados por casais apaixonados.
- Como assim!? Vai pular?
- Vou pular!
- Então, vai... Pula logo! - ela sabia que não era hora de discutir. Se havia algo a ser feito, que fosse feito logo.
E Charles pulou. No meio de tanta adrenalina, o rapaz, que não é religioso mas crê em forças superiores, sentiu uma enorme calma. Uma enorme e eufórica calma, que vinha junto de uma energia que ele não saberia explicar. Por instantes, a vida parecia passar em câmera lenta.
Sacou do bolso do casaco o papel dobrado, abriu e pediu que a namorada tirasse o maior número de fotos possível. "I'AM THE LIZARD KING. I CAN DO ANYTHING. (Eu sou o rei lagarto. Eu posso fazer o que eu quiser.)" Naquele momento, Charles não tinha domínio sobre seu corpo ou sua mente, mas se sentia capaz de fazer qualquer coisa.
- Rock is dead! - gritou, enquanto pulava de volta. Foi a única coisa que lhe veio à mente. O grito chamou a atenção do outro casal de turistas, os únicos a testemunharem o pequeno delito.
A cena toda não havia durado mais que um minuto. Estava feito.
Charles estava em êxtase. Preocupado com a possibilidade de ser denunciado e preso, só queria ir embora rapidamente. Também estava louco para ver as fotos. Foram tantas, que não era possível que ao menos uma não tivesse ficado boa.
Foi a conta exata. Apenas uma foto se salvou. Sua expressão não
This is the end.

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