segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Com ou sem colarinho?

- E o pior é que não vai cair...

- Não vai...

- Sei não...

- Não cai... Não é possível que não ganhe do Atlé... Puta que o pariu! Não olha agora! Não olha! Disfarça, disfarça...

E ficaram ali, cinco homens em mangas de camisa, paralisados com seus copos de chope em mãos, olhando dois meninos de não mais de 20 anos passarem abraçados pelo corredor do shopping. O mais baixinho deles, alargador nas orelhas, camiseta curta, calça colorida agarrada às pernas finas, tascou um beijo no pescoço do namorado. Eles dobraram a esquina e a cena continuou na mesa.

- Acabou! Acabou! Acabou! - gordo e vermelho, Antunes já sua às bicas por natureza. Naquele momento, parecia que ia explodir. - É o fim do mundo! - e virou a tulipa de uma vez.

- Não existe mais respeito... - balançou a cabeça o Jairo, 58 anos, aposentadoria prevista para dali dois meses. E todos balançaram a cabeça juntos, levando os copos às bocas, sincronizadamente.

- Hoje em dia, você tem que tomar cuidado com o que fala em qualquer lugar. Tem sempre alguém querendo te pegar na curva... Acabou o bom humor, acabou negócio de piadinha... Cê pode ser até preso! Tudo é bullying, tudo é racismo, preconceito... - o tom do Amauri, um negro de 40 anos, era bem sério, de alerta.

- O mundo tá muito chato!

- Tá!

- E a viadagem tomou conta!

- É culpa da TV! Você liga a TV pra relaxar depois do trabalho e só tem coisa errada... Só bandido, só gente enganando o outro e viado pra cacete... Não dá mais pra ver novela com a família! Tá foda! - sem dúvida, o Antunes era o mais exaltado. Naquele momento, o tradicional happy hour de quinta-feira não tinha nada de happy.

- Vocês não sabem o que me aconteceu semana passada... - começou o Marcelo, o caçula da mesa, aos 30 e poucos anos. Tomou um gole, segurou a atenção por um instante. - Levei a Cláudia ao cinema, de boa... Estamos lá, esperando o filme começar e chegam dois caras desse tamanho, tipo esses bombadões de academia, sabe? Casal de viado!

- Puta que o pariu! Como tem, né!?

- Sério! Pediram licença pra passar... E vocês não sabem... Sentaram bem do meu lado... - falava e abria os braços do tipo "como pode?".

- Hahahaha... Que merda!

- Cara... Eu fiquei sem saber o que fazer... Falei pra Cláudia que ia pegar pipoca... Arrumei um lugar pra sentar lá no fundo do cinema e mandei mensagem pra ela ir me encontrar... - Marcelo tinha o celular na mão e simulava a situação. Os outros riam.

- Boa!

- Não que eu seja preconceituoso... Mas, cara... É foda!

- É foda! Não é preconceito! Mas, tem lugar pra essas coisas, né!? Não precisa esfregar na cara do povo também... Às vezes, tem criança por perto... A gente que é pai vai falar o quê? Tem que pensar na família. - o Amauri encostou na cadeira, como quem está cansado de tudo isso que está aí. Tomou um gole longo e olhou hipnotizadamente o traseiro de uma loira que passava.

- É por isso que eu acho que gay tem que ser igual ao Carlinhos. - disse calmamente o Jairo.

- Carlinhos? Que Carlinhos? - perguntou o Roberto, um cinquentão que até então só ria e acompanhava a discussão.

- O Carlinhos, do marketing. Não é esse, seu Jairo? - ajudou o Marcelo.

- É! O do marketing. - o senhor careca de óculos fez sinal de positivo, pegou uma batata frita e prosseguiu. - É disso que eu tô falando. O cara é um gay tão discreto que você nem sabe que ele é.

- Pois é, rapaz... Não sabia...

- Eu também não sabia, não... - o Antunes já estava bem mais relaxado. A camisa para fora da calça, a cara menos vermelha.

- Pois, então. O cara sabe se comportar, fala como homem, se veste como homem... Não dá pra ser assim? - Seu Jairo, às vezes, tinha um ar de guru da turma.

O Amauri se inclinou em direção à mesa e falou baixinho, com malícia no olhar:

- E a Karen, hein!?

- Ah, a Karen... - repetiram alguns.

- Que Karen? - perguntou o Roberto. Ele era o mais disperso da mesa. Parecia não estar num bom dia.

- A Karen, porra! Estagiária, ruivinha... Lesbiquinha... - o Antunes falava e gesticulava, deixando claro que já vinha observando a moça há tempos.

- Ah...

- Delícia! - completou o Amauri, esfregando as mãos. - Já imaginaram?

Houve um breve instante de silêncio - ao que parece para que todos pudessem imaginar - e Marcelo não deixou a conversar parar ali.

- E isso que vocês não viram a namorada dela...

- Tá de sacanagem... - o Antunes não se continha, já na ponta da cadeira.

- Eu não vi pessoalmente. Mas, sou amigo dela no Facebook e vi as fotos... Rapaz! Que dupla! - Marcelo suspirou, virou a tulipa, encostou na cadeira e começou a mexer no celular.

- Desperdício, né!? - lamentou Seu Jairo.

- Desperdício nada! Chama elas aí... - brincou o Amauri, pegando o celular das mãos do Marcelo.

O quinteto pediu mais uma rodada e Roberto se levantou para ir ao banheiro. Pelo corredor do shopping, ele não levava o clima de chacota e brincadeira que tomou conta da mesa. Estava apreensivo, passava a mão na cabeça e caminhava rápido, sem olhar para os lados. Entrou no sanitário masculino, jogou muita água no rosto, olhou no espelho por alguns segundos. Conferiu todas as cabines, certificou-se de que estava sozinho e pegou o celular.

- Sandra! Sou eu... É, tô no shopping ainda... Não, não vou demorar... Como assim quem tá? Os de sempre, porra... Caramba, Sandra... O Jairo, o Antunes, o Amauri e o Marcelo... É... Sandra, escuta... Me diz uma coisa... Que dia a Mariana vai levar a tal da menina em casa pra gente conhecer?... Tá, eu sei... Namorada... Humpf... Tá, tá.... Que dia, Sandra?... Tá! Eu sei que já perguntei mil vezes. Responde mil e uma, caramba... Hum... Ai, meu cacete... Não, por nada... Tá... Tá... Já sei... Fala pra elas se comportarem também!... Tá... Tchau... Tá... Leite e pão... Tá bom, eu levo leite e pão... Tá! Beijo!

Jogou mais água no rosto, olhou no espelho, balançou a cabeça. Era preciso voltar para a mesa.

- Porra, Roberto, foi cagar? - todos riram.

- Sabe qual é a merda? A merda é que o Palmeiras depende só dele... Essa é que é a merda! - comentou, dedo em riste, e virou a tulipa ainda em pé.

- Não cai, porra! Já falei: não cai!

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