0h45
Sentado, era possível reparar com mais cuidado nas fitas do Senhor do Bonfim enfeitando todo o teto do bar, que já estivera lotado, mas àquela hora tinha um clima de fim de festa. Até o Sportvnews já tinha saído do ar.
- A vida não pode ser só trabalho. E o trabalho não pode ser a nossa vida - ele falava e fazia gestos pretensamente didáticos sobre a caixa com os restos do bolo. - A gente tem inúmeros talentos. E o trabalho não dá conta de aproveitar todos... Nunca vai dar! Tem que ter outros espaços para a gente se realizar...
Ficou um silêncio de alguns segundos. Pareceu mais.
- Gostei disso... - ela disse, olhando através dele, e apontando com o dedo.
- Gostou do cara empilhando os engradados de cerveja? - a pergunta era menos para fazer graça e mais porque ela realmente olhava o garçom rastafári empilhando engradados de Original a menos de três metros atrás dele.
- Não! Gostei dessa coisa de talentos... De termos um lugar para os talentos... - falava pra baixo, como se contasse um segredo, olhar perdido, já meio lenta pelo cansaço e pela bebida. Uma vez mais, o lembrou a Ivete Sangalo.
- É! Tem que ter! - assertivo, a sabedoria em pessoa.
- E o que você faz pra isso? - ela perguntou, com olhos de quem queria mesmo aprender.
- Ah... Eu penso que sou artista... - a velha mania de parecer humilde soava cada vez menos convincente.
- Tá! Mas, onde você joga seus talentos...?
- Eu criei um blog, por exemplo. Uma vez por semana eu tento escrever alguma coisa legal lá... - falando assim, lhe pareceu uma coisinha tão insignificante.
- Hum...
- A ideia é tentar contar as coisas da vida real como se fossem parte de um romance. - não era preciso explicar mais que isso...
- Gostei dessa coisa de contar como se fosse um romance. - parecia reflexiva. - Você vai escrever sobre isso?
Olhou meio sem entender, meio surpreso.
- É! Você vai escrever sobre essa conversa, sobre agora?
Não tinha pensado nisso. Ninguém tinha lhe perguntado isso. A pergunta ficou no ar. Próximo talento.
***
2h10
- Faz o seguinte: volta de ré e para aqui mesmo... - ele ouvia as palavras do amigo e se perguntava de onde o outro, virando a segunda noite seguida, com a mesma roupa há dois dias, tirava aquela empolgação que ele, àquela hora, não conseguia acompanhar.
- Pô, mas R$ 50?!?!? - ele já estava meio puto, comportamento padrão para coisas que não estavam no script.
- Não, não... Não tem mais vaga no de R$ 50... Para nesse aqui mesmo!
- R$ 70!!!! - puto e dando ré numa avenida larga e movimentada de São Paulo.
- É! Eu pago, porra... Para aí, para aí! Vai bater!
Não bateu.
- Eu vou lá dentro e volto pra te buscar. Me espera na porta. - saiu correndo antes de completar a frase.
Setenta reais à vista e em cash, deixando a chave. Um tumulto de gente tentando em vão ser vip. Uma garota de vestido muito curto, barrada na porta junto com sua amiga de vestido ainda mais curto, chantageava ao telefone alguém que certamente (não) esperava por ela lá dentro: "então, tá! A gente vai embora, então!". O segurança só abria os braços. O camarote, pelo qual as pessoas deviam ter pagado umas centenas de reais, já estava fechado. Não havia vagas. "Fechou à 1h30", explicavam.
Sentou-se na mureta, contrariado, prevendo o pior, na volta para casa setenta reais mais pobre, e pensando em maneiras de controlar a ira em nome da amizade. Foi quando o amigo voltou com uma pulseira amarela, que ali reluzia mais que ouro.
- Tive que falar com o dono da festa pra te colocar pra dentro. Não entra mais ninguém. - Parecia mesmo um grande feito. Falou e, ato contínuo, cumprimentou agradecido um sujeito nervoso, de óculos, com um fone pendurado em um dos ouvidos. Ele não parecia estar se divertindo na festa da qual era "dono".
Era impossível não se lembrar da Popozuda. "Do camarote, quase não dá pra te ver." Nem dava para ver nada com nitidez. Um mar de cabeças, um grupo desconhecido cantando músicas conhecidas, garotas lindas com vestidos apertados e curtos, caras de bonés sorrindo até para as paredes, um famoso mexendo no celular incessantemente. Ele era provavelmente o motivo para a maioria das pessoas que estavam naquele curralzinho gradeado com um sofá. A ele, devia todo agradecimento por ter aquela pulseira amarela no braço.

Quando chegou a vodca (ponha aqui o nome de uma vodca cara), foi como um gol no estádio. Veio junto um suco ruim, que não se identificava ao certo do que era, e energético de guaraná. Copos de plástico metidos à besta. O que lhe chamou a atenção era como a garrafa brilhava, era bonita. Descobriu mais tarde que ela custava R$ 600 e que uma garota estava discretamente reclamando aqui e ali que ninguém a ajudaria a pagar.
A garçonete que trouxe a garrafa brilhante também lhe chamou a atenção. De roupa preta, maquiagem sóbria e rosto bonito, ela não estava ali para chamar a atenção, embora parecesse mais interessante que as outras moças do curralzinho. Com aquele tipo de evento, contou-lhe, tirava de quatro a seis mil por mês. E ainda se divertia, atendendo um único curralzinho de nove metros quadrados. Ele brincou que trocaria de emprego com ela, que ganhava mais que ele. Uma menina se apoiou na grade do camarote, interrompeu a conversa, deu dinheiro à moça e pediu quatro cervejas. Ele se deu conta de que não, não trocaria de emprego com ela.
Sentia-se poderoso e ponto. Era inevitável. Ainda que a maioria o olhasse como se fosse invisível e as trombadas lavassem sua mão constantemente com vodca de 600 reais, sentia-se poderoso. Tinha a pulseira amarela e dava tapinhas nas costas do cara famoso. Mas, os boatos de que a garota da vodca continuava falando da vaquinha que não aconteceu foram a deixa para que os dois se pusessem em seu lugar. Ou seja, foram dar uma volta na pista.
Enquanto descia a escada, os seguranças barravam quem tentava subir sem a pulseira amarela: "eu conheço fulano", "eu só quero falar com sicrano"... A sensação de poder o deixou um tanto sádico e aí não havia problema em dar até um tapinha nas costas do segurança, como se dissesse: "bom trabalho, James".
Quando deu por si, estava na beira do palco e, pela primeira vez, via mais gente conhecida no palco do que fora dele. O Buchecha (lembra dele?) estava cantando com dois carinhas rebolativos dançando ao seu lado. No calor literal do povo, entre encoxadas e pequenos banhos de bebida mais barata que a tal vodca, as raízes falaram mais alto. "Pô, é o Buchecha. Aquele da adolescência. Aquele cujas músicas você sabe cantar e até dar alguns passinhos. Muitos passinhos. Ok, você se joga." Buchecha cantava "vou fazer você suar a camiseta" e ele percebia que estava suando mesmo. E ria! E beleza! Àquela hora, estava valendo.
A coisa estava ficando divertida. Mas, já tinha sido o suficiente. Deu, né!? Mais uma voltinha pela terra prometida dos camarotes e ok, valeu, beijo, tchau.
Os taxistas na porta ignoravam o taxímetro e extorquiam livremente os bêbados felizes. Aparentemente ninguém roubou nada do carro no estacionamento, o que era uma dor de cabeça a menos. Era só escolher uma música agitada em inglês, baixar os vidros e passar devagarzinho ao lado dos taxistas chantagistas, fazendo uma última pose.
- A hora mais legal da festa foi quando a gente foi pra pista, né!? - o amigo concluiu, percebendo a situação risível.
Do camarote, quase não dá para ver. Mas, a pulseira amarela ainda está na sala da sua casa, esperando para ser emoldurada ou jogada fora.
***
5h50
A luz do dia começava a bater na janela da área de serviço. Levou um susto, olhou o relógio. Havia anos que não sabia o que era isso.
Miojo, garrafa de vinho aberta, queijos já meio duros. Vitórias e derrotas, entre planos de conquistar o mundo.

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