segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Sete anos de Palestra

Onze de março de 2007. Neste dia, o Palmeiras ganhou do Juventus por 4 a 1 pelo Campeonato Paulista. Valdivia, que ainda não era Valdivia, e Edmundo, que ainda tinha lampejos de Edmundo, comandaram a festa.

Fazia 15 dias que eu havia me mudado para São Paulo e era minha primeira vez no Palestra Itália. Uma estreia tardia, sem dúvida. Aos 22 anos, eu era um torcedor fanático, mas não era um torcedor de arquibancada. Sempre tinha acompanhado o time de longe, pela TV, pelo rádio, nos bares com pay-per-view e em estádios das cidades onde havia morado anteriormente, Florianópolis e Rio de Janeiro.

Eu me lembro que, ao passar as catracas da rua Turiassu, foi incrível confirmar a existência dos tais "jardins suspensos", o gramado elevado com um vão entre as arquibancadas, as piscinas atrás do gol à direita. Lembro também que foi um tantinho decepcionante perceber que não era assim um grande estádio. Mas, acima de tudo, me lembro que havia uma atmosfera ali que todo palmeirense podia sentir de imediato. Era inegavelmente uma casa italiana, uma casa verde, um chiqueiro, uma academia de futebol, um lugar cheio de amendoim e mística.

É óbvio que eu não pensei em nada disso naquele dia. Só queria comemorar os gols que caíam do céu como a chuva que castigava Perdizes. Tirei a camisa verde, que nem era do Palmeiras, e a girava sobre a cabeça como se o Juventus adversário fosse o de Turim e não o da Mooca. Foi maravilhoso.

Perfeito, a não ser por um único detalhe. Numa disputa no alto com o zagueiro Gian, nosso santo ídolo Marcos teve mais uma de suas inúmeras lesões, talvez uma das mais graves: fraturou o braço esquerdo e ficou boa parte da temporada afastado dos gramados.

Nos anos que se seguiram, voltei algumas vezes àquele parque. Tive ali mais alegrias do que tristezas. Anotei tudo num caderninho que guardo e atualizo até hoje: 22 jogos, 15 vitórias, dois empates e cinco derrotas.

Até que ele foi fechado, em 2010, com a promessa de que em breve voltaria melhor, maior, mais bonito e mais moderno. Foram tempos difíceis para quem ama o verde.

Para Marcos, inclusive. O camisa 12 mais amado do mundo se quebrou mais uma dezena de vezes, teve derrotas amargas em campo e se cansou disso. Parou. Foi para casa assistir da varanda à reforma de sua segunda casa.

Sete anos, sete meses e 25 dias depois daquela chuvosa tarde no velho Palestra Itália, estivemos mais uma vez naquele lugar. Marcos, eu e mais um monte de gente da TV, das assessorias dele e do estádio e operários da obra.

Entrar no novíssimo Allianz Parque foi maravilhoso. Não é o maior estádio do Brasil, claro, mas não deve nada a nenhum outro. Claro que ainda há toda uma história a ser escrita ali. O corpo precisa de uma alma. As confortáveis cadeiras precisam ser ocupadas por gente, gritos, xingamentos e cantos. Cá entre nós, nem lembra o antigo Palestra. Mas, o enlevo, o orgulho que vai tomar conta do torcedor ao ver uma casa tão bonita, tão bem arrumada será enorme. Fica a impressão de que uma nova era deve começar para o Palmeiras a partir da inauguração.

Timidez mais uma noção exagerada demais de profissionalismo me impediram de qualquer atitude de tietagem explícita no encontro com o ídolo. Mas, leve-se em conta que a gravação da reportagem na nova casa palmeirense foi longa e que Marcos, como pessoa, é tudo aquilo que você já ouviu falar por aí.


Então, quatro horas depois, eu já era um feliz ouvinte dos "causos" que ele gosta de contar, olhando nos seus olhos como se você fosse um velho amigo dele de Oriente. Piadas, histórias do dia a dia de um homem aposentado que rega as plantas da mulher em casa, bastidores do futebol. Ele mostrava fotos do filho no celular, cornetava a falta de um cafezinho, posava para fotos com todos os operários que o abordavam, tirava sarro de seus assessores e até da própria barriga de ex-atleta. Eu tinha fome e precisava ir embora, mas se ele não tinha pressa de deixar a nossa companhia, eu é que o faria?

Por fim, já era noite quando me despedi, agradeci, falei um "prazer em conhecê-lo" e ouvi algo como "valeu, boa sorte, a gente se vê por aí". E ganhei um abraço, de verdade, daqueles que a gente nem está mais acostumado a receber. Curiosamente com o mesmo braço esquerdo, quebrado lá em 2007.

O novo estádio, o velho goleiro e eu. Sete anos depois, nem a chuva que caía poderia ser a mesma.

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