No fim daquele ano, não lembro se 1994 ou 1995, fiz minha mãe saber o que eu queria de Natal: o boneco ("hominho", dizíamos) do Gambit, um herói meio anti-herói dos X-Men, o meu desenho animado preferido então. Ela foi atrás, mas voltou da loja com a triste notícia de que não tinham o Gambit. Mas, tinham o Forge, personagem descendente de índios Cheyenne, bem coadjuvante, que ela comprou e embrulhou para me dar na noite do dia 24. Fiquei frustrado, é claro. Mas, tive alguns dias para lidar com isso e, no Natal, já estava até contente em ganhar o Forge. Abri o presente e... ali estava o Gambit, numa troca de última hora! Uma surpresa maior do que o anúncio da contratação do Dudu pelo Palmeiras, para não perder a chance de tocar no tema mais quente do mundo do futebol neste fim de semana.
Eu já tinha um sem-número de hominhos do Comandos em Ação e de outros poderosos heróis e bravos soldados, alguns sem perna, outros com o braço mastigado pelo cachorro de algum vizinho. Além disso, estava quase na hora de deixar de brincar com eles, iria começar a ficar meio feio para um moleque daquele tamanho. Mas, mesmo assim, ganhar o Gambit foi especial. Tanto que até hoje, vinte anos depois, ele ainda está no meu armário, como esteve em tantas casas onde morei. Um sobrevivente daquela época. Um discreto elo de ligação com o que passou.
Lembrei-me disso tudo vendo a cena final do filme Toy Story 3, semana passada. Andy, a caminho da faculdade, doa seus brinquedos mais queridos para uma garotinha que, sem dúvida, vai cuidar bem deles. E só ele sabe - ou só nós sabemos - o quanto foi difícil para ele quando a menina levantou o braço do caubói Woody para lhe dar adeus.
Graças a Deus, na vida real, eu nunca perdi ninguém muito próximo de mim. Não conheço essa dor de perto. No entanto, desde cedo, me acostumei a lidar com despedidas. Talvez mais cedo do que eu tenha me dado conta, já que nasci numa cidade onde nunca morei. Mas, o fato de estar acostumado aos "adeuses" não os torna mais fáceis na prática.
O fim do filme foi como digitar a palavra "despedida" no HD da minha memória e clicar em pesquisar. De pronto, vieram tantas coisas. Soltas, sem uma ligação lógica entre si, remotas num passado distante.
O pai calça o sapatinho no irmão e diz: "quando vocês voltarem de viagem, o papai não vai estar mais aqui". Novelas, filmes e livros acabam e os personagens que faziam companhia já deixam um vazio impossível de ser preenchido. A escola onde estudou por quase dez anos não tem Ensino Médio, para onde vão os colegas?
Da janela do banco de trás de uma perua Escort abarrotada de roupas, acessórios para casa e sonhos, vê a mãe e a avó chorarem no portão de casa, uma cena talvez inédita. De dentro do ônibus onde vai passar as próximas 17 horas, vê a namorada dando tchau, sem saber o que pode ou não ser prometido num futuro incerto. O abraço na amiga idosa no aeroporto: "obrigado e até um dia?".
O texto dramático e metido a mártir para - tentar - manter a cabeça erguida ao mudar de emprego. A namorada cruza o portão de embarque, com uma data - não muito próxima - marcada para voltar e um continente inteiro de saudades. A dificuldade em voltar para a sua casa a cada vez que vai para a casa da mãe. A incapacidade um tanto ridícula de se desfazer do que já não serve mais: tralhas, roupas velhas, sonhos antigos.
E, de repente, estou ali, na pequena varanda - talvez 0,60m por 2,10m? -, como tantas outras vezes, olhando privilegiadamente o horizonte de uma cidade sempre acusada de não ter horizonte e experimentando uma nova sensação de despedida. Não imaginava que seria tão difícil deixar para trás uma vista.
Durante três anos e cinco meses, tudo era desculpa para estar ali, diante daquele belo panorama. Era ali que eu via um novo dia começar, observava as cores e ouvia os sons da noite, fazia orações em momentos críticos, agradecia os dias felizes, pedia proteção aos meus, tomava cerveja escutando música num sábado de manhã, tomava vinho pensando na vida numa segunda à noite, fugia das pessoas para falar ao telefone, ouvia histórias de vida, tinha conversas filosóficas com outras pessoas ou comigo mesmo e fotografava. Perdi a conta do número de vezes que fotografei aquela vista. Fotografei pela beleza da paisagem, fotografei para exibir meu privilégio, fotografei porque era dia e fotografei porque era noite.
Nos últimos 12 anos e meio, me mudei umas oito vezes mais ou menos. Algumas mudanças foram ligeiras e felizes. Outras foram pesadas e deram vontade de desistir. Houve medo. Houve expectativa. Sonhos abriam as portas de novos apartamentos. E, às vezes, eram deixados ali mesmo na saída, porque já não cabiam mais nas caixas e malas que partiam para um novo endereço.Ok, diante de tantas outras mudanças, a atual é bem mais simples em teoria. Tudo bem, a nova casa está a apenas nove quilômetros da antiga. Eu sei que as coisas podem ser bem mais práticas e divertidas no novo CEP. A vida sempre segue, é claro. E, felizmente, para um caminho melhor, quase sempre. Mas, me parece que algumas coisas a gente leva na bagagem, mesmo sem perceber, entre roupas, sapatos, xícaras e cartões antigos.
Tenho a impressão que a vista do Cemitério de Congonhas vai fazer companhia ao Gambit em alguma caixa de papelão.
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