Na esquina da alameda dos Pamaris com a rua dos Chanés, Funk Como Le Gusta vai tocar às 23 horas da quinta-feira. Uma hora antes, a casa já recebe um bom público, quando a moça entra. Não chama a atenção exatamente pela beleza, embora tenha um corpo em boa forma e carregue um certo charme em seu jeito perdido. Mas, está sozinha, algo um tanto inédito naquele lugar e naquela noite.
Ela parece procurar por alguém, olhando sem enxergar, como uma míope que renega os óculos. Senta-se de costas para o balcão logo ao lado da entrada, cruza as pernas de panturrilhas bem torneadas e fica ali como a esperar. Os cabelos bem pretos, cacheados e cortados na altura dos ombros estão molhados e um lápis preto delineia os olhos.
A moça usa um vestido rosa de frente única com estampa tie-dye, que vai até um pouco acima dos joelhos, e sandálias bege de salto alto, além de um bracelete metálico enrolado no bíceps esquerdo. As unhas dos dedos das mãos estão pintadas de preto. Nos pés, um vermelho intenso. Uma garota simples, por volta dos seus 30 anos, talvez menos, que passaria despercebida não fosse o fato de estar sozinha. E assim permanecer.
No balcão, não bebe. Nem sorri. Mostra-se até um pouco desconfortável. Míope ou alheia, não corresponde os olhares dos rapazes desacompanhados. Parece admirar a bonita decoração inspirada pelos ritmos de New Orleans. A casa é ampla, com uns postes baixinhos imitando os de rua e iluminando as mesas distribuídas entre o salão principal e o mezanino.
"Há duas possibilidades: ou ela está esperando alguém ou está esperando você", comenta um observador, tentando ser engraçado. "Há três possibilidades: ou ela está esperando alguém ou está esperando você ou está esperando alguém, mas pode mudar ideia se você chegar primeiro", retruca outro especulador. Mas, ninguém se aproxima da moça de gestos contidos e olhar sem foco.
A banda começa a tocar e, em minutos, o espaço destinado à pista de dança está tomado pelas pessoas que se balançam ao ritmo swingado da música. A atenção está toda no palco, nas performances, no som dos metais. A moça do vestido rosa deixa o balcão no fundo do salão para se posicionar ao pé da escada ao lado direito do palco. Dança timidamente, ainda desacompanhada. Os olhos na banda.
"Cara, ela continua sozinha!", alguém comenta e realimenta outra inócua rodada de adivinhações. "Deve conhecer um músico da banda." "Louca." "Puta?" A leviana dúvida atiça o imaginário, abre novas possibilidades e faz pensar em quanta curiosidade uma mulher sozinha na noite pode gerar. Talvez ela esteja ali simplesmente porque gosta da música e não arrumou companhia para ir ao show, mas essa hipótese não foi cogitada por quem observa.
No bis da banda, ela, que não foi vista com bebidas, já dança mais solta e até filma os músicos com o celular. Finalmente alguém se aproxima - um sujeito careca de barba rala cuidadosamente desenhada, vestindo uma camisa pólo azul bebê com listras rosa finas que marca um pouco a barriga saliente. Ele toma uma Stella Artois e parece dizer coisas engraçadas. Ela é receptiva, embora se mantenha um pouco distante. Mais escuta do que fala, mas a conversa flui. Devem falar da banda, do lugar e da vida.
O show termina, o ambiente se torna mais iluminado e o DJ assume, colocando Jor Ben Jor para cantar W/Brasil. Rapidamente a pista começa a esvaziar, mas os dois permanecem no mesmo lugar, numa conversa ao pé do ouvido. Ela sorri, se torna mais falante e gesticula mais. Com o pretexto de não conseguir ouvi-la direito, ele se aproxima e põe a mão nas costas dela. Encostada na escada, a moça faz charme, enrola seus cachos com o dedo. Como em tantas outras vezes durante a conversa, o rapaz aponta com a boca da long neck o outro lado da casa, onde, provavelmente, estão seus amigos. E assim, lentamente, o jogo se desenvolve por uma hora ou mais.
Neste momento, a fila do caixa é a área mais povoada do lugar. No balcão, uma curiosa dupla formada por uma garota muita alta descalça e outra muita baixa de óculos, ambas bonitas, dança de olhos fechados, com movimentos largos, ora sensuais, ora alcoolicamente cambaleantes. São a atração final de uma noite que encaminha seu desfecho.
A pista tem meia-dúzia de amigos empolgados, quando a moça de vestido rosa de estampa tie-dye enfia a mão em sua bolsa, procurando alguma coisa. De lá, ela tira um CD. Um objeto quase em desuso, que, na saideira de uma noite "como le gusta", serve para responder as especulações de quem ainda a observa e desfazer grande parte do seu encanto misterioso.
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