sábado, 2 de agosto de 2014

Caju: uma lenda, um amigo, um personagem

Em 2010, quando troquei o crachá de editor de texto do Sportv pelo de Analista de Comunicação da CESP (Companhia Energética de São Paulo), eu não sabia exatamente o que esperar ou o que me esperava. Confesso: foi algo impulsivo, sim.

Cheguei na semana de abertura da Copa do Mundo da África do Sul, organizei o bolão do departamento e escrevia crônicas diárias para pendurar no mural, junto com as parciais de apuração dos palpites. Mas, minha ligação com o esporte não se resumiu a isso. Poucos meses depois, fui convocado para uma reunião com o RH da empresa para organizarmos uma Semana Interna da Diversidade. Era preciso pensar numa grande atração para uma série de palestras nas usinas da companhia com algum tema relativo a preconceitos.

Em uma empresa formada por uma maioria de homens com mais de 45 anos, resolvi apostar em Paulo Cézar Caju, campeão do mundo em 1970, para falar sobre discriminação racial. Na verdade, a ideia era que ele contasse suas histórias com seu jeito irreverente e polêmico. E assim foi. Depois de uma breve negociação de valores, ficou decidido que o ex-jogador de futebol faria uma série de palestras em cinco cidades do estado de São Paulo. Uma espécie de talk show, onde eu seria o entrevistador.

Foi demais! Mesmo com uma personalidade forte, controversa, difícil de lidar, PC Caju confiou completamente em mim durante nosso tour pelo interior do estado. Ele só pegava o avião se eu estivesse junto, só entrava na van que eu indicasse, só ia aonde eu fosse... Durante quase duas semanas, eu fui o assessor direto de um cara que era campeão do mundo, e simplesmente com a melhor seleção de todos os tempos.
Almoço na Barra da Tijuca: amigo, não repórter

Pouco mais de um ano depois, quando já estava na pós-graduação em Jornalismo Literário, eu precisava escrever uma reportagem ou um perfil como trabalho semestral. Não tive dúvidas em procurar o Caju, de quem, àquela altura, eu já podia me considerar amigo. Ele não se negou a ser meu personagem. Conversamos várias vezes por telefone e, aos poucos, eu fui percebendo que era quase impossível marcar uma entrevista com ele, que vivia em uma improvável ponte aérea Rio/São Paulo/Florianópolis/França.

O máximo que consegui foi ser convidado para um almoço com ele e seus amigos na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Mas, com um detalhe: ali, eu era amigo. Não, repórter. Ensaiei umas perguntas aqui e ali, mas ele me driblava como estava acostumado a fazer com os adversários décadas antes: "a gente conversa em São Paulo".

O prazo chegou e, mesmo sem conseguir a entrevista que desejava, o resultado foi o perfil abaixo. Além de ter sido meu primeiro trabalho da pós, o texto foi publicado meses depois na revista Brasileiros, com poucas alterações. Uma lembrança muito boa, para inaugurar esse blog.

Paulo Cézar Caju: de maluco a beleza

agosto de 2011

Quando a funcionária da TAM aproximou-se do microfone para anunciar o embarque dos passageiros do voo JJ3743 rumo ao aeroporto de Congonhas, Paulo Cézar já estava há alguns minutos com o rosto praticamente colado no vidro que separa a sala da pista do aeroporto de São José do Rio Preto.

Negro, altivo em pouco mais de 1,70m, uma barriguinha – aceitável para a idade – destacada sob a camisa polo cinza por dentro da calça, também cinza, mas um tom mais claro. Tênis grandão, desses bem confortáveis com pinta de skatista. A cabeça cuidadosamente raspada, todinha. Óculos escuros estilo aviador. O cavanhaque longo e bem branco. Certamente não passava despercebido ali.

Horas antes, Paulo Cézar havia pedido que lhe fizessem o favor de acionar a companhia aérea por telefone para garantir seu lugar preferido: janela, penúltima fileira do avião, sem ninguém na poltrona do meio, se possível. E mesmo que o voo fosse apenas às 17h15, às 15h30 sua bagagem já tinha sido despachada e, alimentado, ele esperava com indisfarçada ansiedade na sala de embarque.

Inesperada, no entanto, foi a esperteza de um senhor de certa idade que, dando uma de joão-sem-braço, tomou-lhe a frente na fila e, apresentando o cartão de embarque à moça da TAM, tornou-se o primeiro passageiro a se dirigir ao avião. Paulo Cézar ficou pê da vida. Na condição de número dois, caminhou até a aeronave, esbravejando em voz alta e com um inconfundível sotaque carioca.

– Mermão, tá maluco? Tá se achando esperto? Vai passando na frente dos outros como quem não quer nada... Tu é folgado, hein!? – foram as palavras mais publicáveis ditas por ele, solenemente ignoradas pelo seu pseudorrival.

Vinte e cinco anos depois de abandonar o futebol, o campeão do mundo Paulo Cézar Lima, o Caju, simplesmente odeia ser o segundo.


– Leu minha coluna?

Se você telefonar para Paulo Cézar numa terça-feira, fatalmente ouvirá essa pergunta. Neste dia, ele é dono da última página do caderno de esportes do Jornal da Tarde. O texto é fiel à verve de Caju. Quase dá para ouvi-lo.

Pelo ofício e, principalmente, pelo amor ao esporte, PC assiste a todo tipo de futebol que passa na TV. Mas, por enquanto, trabalhar em televisão ainda é um desejo a ser realizado. Ele sabe que não é tão fácil assim. “Sou inteligente, joguei muita bola, entendo muito de futebol, sou contestador, não tenho papas na língua... Então isso incomoda muita gente.”

Enquanto a TV não se rende ao estilo autêntico de Caju, ele usa seu espaço no jornal para louvar a ousadia de jovens como Neymar, do Santos, e Lucas, do São Paulo. Não faltam também elogios ao Barcelona. “Eu gosto de arte.” De resto, críticas e mais críticas à burocracia do futebol atual, aos “comentaristas de ar condicionado” que nunca jogaram bola na vida, aos técnicos gaúchos e às limitações do seu Botafogo do coração. E uma implacável campanha contra o atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. “Não suporto esse cara.”

No domingo à noite ou na segunda-feira, sem a colaboração de ninguém, ele prepara e manda o texto para a redação via e-mail ou ditado ao telefone mesmo. Depois, é só ansiedade para ver como ficou.

Quando não está em São Paulo, onde mora há 11 anos, fica indócil. É extremamente difícil encontrar o Jornal da Tarde na maior parte do país. Porém, esse drama está bem perto de acabar. A diretoria do jornal já sinalizou com o interesse de levar a todo Brasil as opiniões incensuráveis do ex-jogador. “O sucesso é impressionante. Aonde vou, as pessoas me param para falar que amam a coluna, concordam com isso, gostaram daquilo.”

Nos últimos meses, como os limites geográficos ainda não foram vencidos, Caju deve ter sofrido para acompanhar a publicação de sua coluna. Convites de amigos, eventos de família, entrevistas e reportagens especiais o mantiveram longe de São Paulo, seu domicílio oficial.

A verdade é que Paulo Cézar não para. Está longe da típica imagem de aposentado jogando dominó na praça. Aeroportos fazem parte do seu dia a dia. São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis. Vez ou outra, Paris, Marselha.

Na primeira terça-feira após completar 62 anos, Caju está em Florianópolis, cidade pela qual se apaixonou. Pensa até em “se casar”, em breve, com um apartamento no Canto da Lagoa.
Animado, na companhia de Renato Sá, amigo e ex-companheiro dos tempos de Grêmio, PC é atencioso ao telefone. Um assunto vai puxando o outro.

– E aí, PC, como foi lá com o pessoal da Petros?

– Bom, bom... Eles estão lançando um fundo de previdência para ajudar os ex-atletas que precisam – explica, dando a entender que não se inclui na categoria “ex-atleta que precisa”. 

– Mas, esses eventos me deixam meio mal, quando eu vejo um monte de ex-jogador nessa situação, sem nenhum preparo... É uma classe que não tem a consciência do futuro. Nessas horas, dá vontade de chutar o balde, mandar o Ricardo Teixeira e a CBF pra ponte que partiu...

Paulo Cézar escolhe as palavras do desabafo. Procura sempre manter a elegância e a educação, embora os palavrões façam parte do seu vocabulário cotidiano.

A conversa vai ganhando leveza à medida que ele descobre que estaremos na mesma cidade durante o feriado de Corpus Christi.

– Você vai estar no Rio? Então, eu vou te levar para tomar um café no Leblon! – finaliza com entusiasmo.


Futebol e música na Barra

Cinco dias depois, o café no Leblon é substituído sem nenhum prejuízo por um almoço na Barra da Tijuca. Naquele dia, como de costume, Paulo Cézar acorda cedo. Às 7h30, já está caminhando na praia do Leblon, onde tem um apartamento. Conclui seu exercício aeróbico com 250 abdominais. Onde quer que esteja, disciplinadamente, Caju mantém sua rotina matinal.

O prazer de estar curtindo o domingo de sol e calor na sua cidade, depois de uma semana de chuva e frio em Florianópolis, só é interrompido pelo toque do celular. Do outro lado da linha, fala um produtor da Rádio Guaíba desesperado para encontrar alguém que tenha jogado no Botafogo e no Grêmio, que se enfrentariam mais tarde pelo Campeonato Brasileiro.

“Sem condições. Não dá para o cara te ligar do nada e falar: „a gente quer te colocar no ar agora. Você tem três minutos para falar de Botafogo e Grêmio‟. Por que não ligou no dia anterior? „Não vou falar. Não quero falar de Botafogo nem de Grêmio‟. Não dá. Tem gente muito mal preparada na imprensa”, arrematou Caju, horas mais tarde, sentado à sombra de uma amendoeira no píer da Barra.

Ali, mais do que em qualquer lugar, ele está à vontade. Celebra, com uma variedade de pratos à base de peixe e frutos do mar, os anos que completou na semana anterior e o aniversário de casamento de um casal de amigos. O cenário é paradisíaco: cantinho da praia, mar muito verde, céu muito azul, mansões subindo rochas ao fundo, crianças brincando na calçada. Chega a ser engraçado dizer que estamos no inverno. Ao meio dia, o termômetro da rua marca 27ºC. No sol, a sensação é de mais do que isso.

Não demora muito para o assunto cair no esperado: futebol. Paulo Cézar não tem meias palavras. “Outro dia, quase dei um soco na TV. O Mano Menezes dizendo que a Copa América não é prioridade. Na seleção, tudo tem que ser prioridade, porra!” E o título do Santos na Libertadores, Caju? “Caguei. Muricy Ramalho? Não gosto. Tira o Ganso e o Neymar e vê o que ele consegue.”

A conversa deriva para os programas de esportes. Para PC, está tudo muito ruim. “Como é que eu posso suportar o Paulo César Vasconcellos, o Renato Maurício Prado, o PVC... falando de futebol? Nunca calçaram uma chuteira na vida!” Mesmo ex-jogadores também não escapam. “Eu não posso nem ouvir a voz do Caio Ribeiro mais...”

Apesar disso, Caju é ex-jogador futebol clube. Teóricos do futebol, como Carlos Alberto Parreira e Paulo Autuori, não têm vez com ele. Falcão (semanas antes de cair no Inter)? “Torço pra dar certo!” Renato Gaúcho (com a cabeça na guilhotina no Grêmio)? “Torço por ele! Eu torço pelo ex-jogador de futebol”, afirma, revelando que recebe convites a toda hora para ser treinador de clubes do Brasil. “Eu não! Não sou louco.”

Paulo Cézar tem toda pinta de boleirão. Mas, vai muito além disso. Fala espanhol e francês fluentemente e se vira no inglês. Conversa com destreza sobre política e música.

Aos dez anos de idade, contou com a compreensão da mãe ao ser adotado por uma família com mais possibilidade de lhe proporcionar uma vida melhor. Ficou com duas famílias e ainda com a chance, quase única, de conviver na sala de casa com astros da música latino-americana, como o chileno Lucho Gatica e o brasileiro Silvio Caldas, amigos pessoais de seu pai adotivo.

Adulto, tornou-se fãzaço de Michael Jackson, a ponto de se emocionar ao ver o tributo exibido pelo Multishow nos dois anos de morte do rei do pop. “Liguei pra Ana e pros meus amigos, recomendando. Fiquei com os olhos cheios d‟água.”

Michael sempre se inspirou em James Brown. Caju também. Fã de soul, Marvin Gaye, Stevie Wonder, coisa e tal, ele se surpreendeu em 1980, quando Bob Marley desembarcou pela primeira vez no Brasil e, logo no aeroporto, em entrevista à repórter Glória Maria, disse: “Quero conhecer Paulo Cézar Lima, meu ídolo da seleção de 1970.”

Descolado que só, PC ciceroneou o astro jamaicano. Leblon, Pão de Açúcar, futebolzinho com Chico Buarque – “Demos uma porrada no Politheama”. Apresentou o Rio para Marley e foi apresentado a suas músicas. Ficou fã e amigo.

Pouco tempo depois, passando por uma loja de discos na Via Veneto, em Roma, durante uma excursão futebolística, Paulo Cézar vibrou ao ver encartada no novo álbum de Bob uma foto sua com o cantor. “Seis meses depois, ele morreu. Já estava com câncer e eu não sabia. Foi uma pancada”, lamenta-se Caju.

Sempre antenado com a vanguarda da cultura e do comportamento, Paulo Cézar Lima ganhou o apelido que entrou para a história depois de dar de cara com o negro americano, em 1970. Em um torneio disputado pelo Botafogo em Los Angeles, ele, Jairzinho e companhia foram os convidados especiais de uma feijoada promovida pelo cantor Sérgio Mendes, que já fazia sucesso com os gringos na época.

Caju estava ansioso para aproveitar a chance de conhecer o estilo de vida dos negros americanos, do qual já havia ouvido falar várias vezes. Uma bela negra do grupo de Sérgio Mendes então se encarregou de apresentar-lhe a famosa Sunset Boulevard.

“Aí, meu irmão, eu fiquei louco. Aqueles negros de patins, patinete, tape deck na orelha, calça boca de sino, cabelo colorido de vermelho, amarelo... No mesmo dia, entrei num salão e falei: pode pintar.” Na chegada ao Brasil, o tom acaju do black power fez com que a imprensa paulista trocasse o Lima por Caju no nome artístico de Paulo Cézar.

Além do cabelo avermelhado e do apelido, o movimento dos Panteras Negras americanos rendeu muito mais ao jovem craque. Ajudou a formar a consciência daquele que nunca foi um negro “sim, senhor”, como ele mesmo define. “O exemplo de união e força dos negros americanos eu nunca vi no Brasil”, lamenta PC, antes de lançar provocações. “Quantos jornalistas negros tem a ESPN? E o Sportv? E a Globo?” Ele mesmo responde, contando nos dedos: “Abel Neto, PC Vasconcellos, Heraldo Pereira, Zileide Silva, Dulcinéia Novaes... Para um país de mais da metade de negros?”

PC não alivia na luta contra o preconceito e, principalmente, pela afirmação do negro na sociedade. Até o ex-colega, ídolo e amigo Pelé é cobrado. Para Caju, a personalidade mais reconhecida no mundo peca ao não usar esse status pela causa. “Imagina do que seria capaz uma só palavrinha dele?”


Os caminhos tortuosos da aposentadoria

No dia 14 de junho, a Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, deu início ao EsportePrev, um plano de previdência complementar para atletas. No evento de lançamento, no Museu do Futebol, em São Paulo, sua figura chamou a atenção de Mariana Segala, repórter do Brasil Econômico. Desfilando para cima e para baixo com as mãos no bolso do comprido sobretudo preto à europeia, sem dúvida era a maior estrela da ocasião. E sabia disso.

“Se você quer aspas de alguém, vai nele. Ele fala pra caramba”, alguém deu o toque à repórter. Pouco afeita às coisas do futebol, ela perguntou: “Quem é?” “Paulo Cézar Caju.”
PC se antecipava às perguntas dos jornalistas que se aproximavam. “Campeonato Brasileiro? Fraco, sem graça”, sentenciava. Focada em economia, Mariana foi direto ao assunto.

– Caju, como você se virou financeiramente após a aposentadoria?

– Eu nunca me aposentei! – cortou depressa. – Eu estou na ativa. Trabalho até hoje! Dou palestras, escrevo no jornal...

Paulo Cézar continuava a falar, alheio às tentativas da repórter de retomar o assunto. Contou que, desde cedo, teve os conselhos do pai adotivo, o ex-jogador e técnico Marinho Rodrigues de Oliveira, sobre a necessidade de estar preparado para a curta e perigosa carreira de futebolista.

De fato, PC sempre teve consciência do dinheiro. Tanto que, aos 18 anos, já era proprietário de dois apartamentos na zona sul do Rio de Janeiro. Um deles, no Leblon, é seu até hoje.
Preocupada com a pauta, a repórter insistia no assunto aposentadoria. Até que, com a peculiar sinceridade, Caju encerrou:

– Olha, quer saber? Eu não me preocupo muito com isso, não. Eu tenho um nome e amigos. Isso já me garante o futuro.

Sem dúvida, hoje, Paulo Cézar encontra-se em plena atividade. Entre palestras e comentários, não pensa mesmo em aposentadoria. Mas, um dia já se viu cara a cara com ela.

Depois de uma saída conturbada do Grêmio, no fim de 1983 – “Eu durmo bem todos os dias. Tem gente lá que não dorme” –, PC resolveu voltar à França, onde já era ídolo pelos feitos da década anterior no Olympique de Marselha. Jogou mais dois anos por lá e chegou à conclusão de que era hora de parar.

Aos 36 anos, PC não se sentia velho. Pelo contrário. Depois de alcançar tudo que um jogador de futebol pode almejar, era hora de viver a vida.

Entre artistas e estilistas, Caju se jogou nos balneários franceses. E entre iates e festas cinematográficas, aquele que até então não tomava nenhuma bebida alcoólica conheceu os prazeres do champanhe.

Dias e mais dias virados em festas. Não dormia. Tombava num sono sem descanso. Abria os olhos, mergulho na piscina, champanhe e mais festa.

De repente, ela estava ali. Farta. Oferecendo-se branquinha em bandejas de prata. Foi apresentado à cocaína. “Foi uma coisa que eu quis, ninguém me forçou a nada. Curti minha vida com meu dinheiro.”

Foram 17 anos de uso incontrolável de drogas. Gordo, inchado, disforme, Caju ouvia dos médicos os vereditos mais assustadores. Infarto, derrame, paralisia, morte. O fim estava próximo.

Com ajuda dos amigos – e talvez por isso, PC saiba que pode sempre contar com eles –, lutou pela vida. O ex-companheiro dos gramados Cláudio Adão e sua esposa, Paula Barreto, com dois filhos adolescentes, abriram as portas de sua casa para Caju. Ele bem que tentou honrar a confiança da família que o acolhia, mas não estava livre das recaídas.

Foi por intermédio de outro amigo que Paulo Cézar começou a se ver livre das drogas de vez. Em 2000, Afonso Celso Garcia Reis – o Afonsinho de Botafogo, Santos, Flamengo, entre outros – convidou PC para passar o réveillon com sua família.

Aquela virada de ano foi a virada definitiva na vida de Paulo Cézar Caju.


Adeus ano velho, feliz vida nova

Caju não troca mais o dia pela noite. Dorme cedo. Muitas vezes, chega a ser difícil tirá-lo da toca quando o sol vai embora.

Depois do café da manhã, antes de mais uma palestra
Na sul-mato-grossense Três Lagoas, o dono do hotel onde estava hospedado, um botafoguense fanático, tentou procurá-lo lá pelas nove e tanto para jantar. Teve que se contentar com um café da manhã, quase acompanhado pelo nascer do sol.

Mais tarde, confortavelmente sentado em uma poltrona e vestindo uma indefectível camiseta polo cor de rosa com a gola levantada a la Neymar, Paulo Cézar Caju fazia uma palestra sobre preconceito para os empregados de uma usina hidrelétrica na divisa entre os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Quando o apresentador recebeu discretamente a orientação de encerrar a palestra, uma moça na plateia pediu a palavra. Negra, os cabelos bem presos num rabo de cavalo no alto da cabeça, bonita em um vestido azul com uma echarpe rosa, Lucimeiry Francisca Santos aparentava 20 e poucos anos, embora devesse ter mais do que isso. Enquanto ela se levantava para fazer sua pergunta, Caju comentou baixinho com o apresentador: “bonita ela!”.

A garota se apresentou e, cheia de sorrisos, elogiou.

– Muito bonita a sua história...

Ao que Paulo Cézar interrompeu com gentileza.

– Você também é muito bonita!

Os murmurinhos insinuantes tomaram conta do auditório. Para a risada geral, Caju entrou na brincadeira, mostrando a aliança.

– Eu sou casado! E muito bem casado!!!

– Ah, que pena... Eu sou divorciada! – disparou Lucimeiry.

Uma bela salva de palmas coroou o momento de descontração.

Não é apenas modo de dizer. Paulo Cézar é realmente BEM casado. E, embora ele prefira manter a esposa longe dos holofotes e entrevistas, a quantidade de vezes que fala o nome de Ana em um bate-papo informal explica por que a palavra BEM merece caixa alta.

Não fosse por Ana, PC talvez não estivesse se divertindo e divertindo a plateia do auditório da usina naquela terça-feira de setembro. Ela, irmã do também ex-jogador Afonsinho, é a maior responsável pela transformação do campeão do mundo.

Conta ele que, ao espocar dos fogos do réveillon de 2000, agarrou-a com vontade na praia e tascou-lhe um beijaço daqueles. “E acho que ela gostou...”, diverte-se malicioso. Gostou, mas deixou uma coisa bem clara desde o início.

– Não quero nenhum viciado convivendo com meus filhos...

PC entendeu o recado. Vendeu um imóvel em Búzios, se empenhou no tratamento e, há 11 anos, divide com Ana um apart hotel na zona sul de São Paulo. Nunca mais bebeu uma gota de álcool ou aspirou um grama de pó.


Carioca da gema em São Paulo


Hoje, Paulo Cézar vive tranquilamente do que foi. Além da coluna semanal, faz palestras pelo Brasil adentro, contando sua emocionante história.

Competitivo, inteligente, ansioso, esperto, polêmico, vaidoso, firme em suas opiniões. Daqueles que não fogem de uma boa discussão. Engraçado mesmo quando não tem a intenção de sê-lo. Rigoroso e pontual em seus compromissos. E espera que os outros também sejam. Paulo Cézar é, aos 62 anos, um produto fiel de tudo que viveu.

Em meados dos anos 50, a Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, era apenas um bairro pobre do Rio de Janeiro. Para fugir do eufemismo, uma favela. Não havia violência. Nem o tráfico de drogas, registrado quase 60 anos depois pela célebre senhora que filmava tudo da janela do seu quarto.

Dali de perto, da rua Aníbal Reis, saía logo cedo o menino Paulo Cézar. Com os amigos, arriscava-se a pegar o bonde em movimento para ir à escola. Sem dinheiro e com malandragem de sobra, sentavam-se lá no fundo. O tempo que o trocador demorava cobrando os passageiros, começando pelos da frente, era o tempo certinho para PC e sua turma saltarem – obviamente, sem pagar – na rua da Passagem, em Botafogo.

Ali, como resistir aos maravilhosos sonhos e pães doces da padaria do Seu Vítor? Paulo Cézar, invariavelmente, passava a mão num deles e corria. Até que um dia o português o pegou com a boca na botija e, enquanto torcia sua orelha, deu-lhe uma lição e um emprego: a partir daquele dia, o menino faria as entregas da padaria de bicicleta. E comeria o sonho e o pão doce que quisesse. “Ele sabia que eu pegava porque não tinha dinheiro. E me mostrou: „o caminho é esse‟. Para mim, foi um aprendizado e um divertimento”, lembra com saudade.

Saboreando os pães doces e salgados do coffee break de uma de suas palestras, PC foi surpreendido por um grupo de senhores engraçadinhos na faixa dos 50 anos.

– Caju, diz aí: em 70, o Zagallo não mandava nada, né? Só jogava as camisas pra cima...

– O Zagallo já era bicampeão do mundo, sabia tudo de futebol. Não fode, porra! – cortou Paulo Cézar, já dando o assunto por encerrado, a despeito dos comentários posteriores do grupinho. “Ele tá brabo, hein?”

PC é amigo dos amigos. A defesa ao mestre Zagallo não foi à toa. O Velho Lobo proporcionou ao jovem de quase 21 anos a oportunidade de disputar sua primeira Copa do Mundo. E não foi qualquer Copa, não. Em 1970, Caju fez parte simplesmente da melhor seleção de todos os tempos.

Hoje em dia, é difícil achar alguém que tenha algo a reparar na seleção de 70. Mas, às vésperas do mundial do México, o time de Zagallo era muitíssimo contestado. Em São Paulo, principalmente, um jogador em especial era o alvo preferido da imprensa e da torcida: Paulo Cézar Lima. “São Paulo me odiava e eu odiava São Paulo.”

Quando o avião pousava no aeroporto de Congonhas, o roteiro era sempre o mesmo. Caju era xingado da porta do avião até a porta do quarto do hotel, de onde não saía nem para comer. Só para jogar e ir embora. Nas entrevistas, ele não deixava por menos. Reclamava da cidade, do clima, da falta de teto para o avião decolar e o levar para longe dali...

Um Brasil x Bulgária, em 26 de abril de 1970, no Morumbi, foi o símbolo-maior da relação Caju-São Paulo. Jogo amarrado. Sobrou para quem?

PC, que nunca foi de fugir do pau, como dizem os boleiros, via a bola viajando em sua direção acompanhada de um estádio inteiro de vaias. Depois de um tempo, ele já nem queria mais que Gérson o lançasse. “Não aguentei. No intervalo, tirei a camisa e falei: „quero pegar o Electra e ir embora daqui!‟ Não tinha condições.” Caju acabou ficando em campo até o fim daquele inesquecível, pelo menos para ele, 0 a 0.

Palestra terminando, eis que um dos diretores da maior companhia de geração de energia elétrica de São Paulo pede a palavra.

– Eu estava lá no Morumbi, te vaiando. – Quarenta anos depois, a confissão vem envolta em risadas. O diretor prossegue.

– Eu era mais um dos paulistas que odiavam você. E, hoje, eu lhe peço desculpas. Ao conhecer sua história de vida, mudei completamente de opinião.

Não foi a primeira vez que Paulo Cézar Caju ouviu algo do tipo. Certamente, tampouco foi a última. Morador da metrópole desde 2000, PC já se reconciliou com a terra que odiava mutuamente.

Gosta de São Paulo. Com restrições, é claro. Reclama do trânsito, apesar de não dirigir. Acha bairrista a imprensa local. E também não morre de amores pelo clima. Mas, gosta.

Mesmo assim, Paulo Cézar Lima é carioca demais. E sabe bem como curtir esse fato. Tanto que, passando alguns dias no Rio durante o maluco inverno brasileiro, faz inveja para quem está em São Paulo. Ao desligar o telefone:

– Tá tudo bem com a menina? – pergunta, curioso sobre a vida amorosa do repórter.

– Tudo ótimo, PC!

– Então, valeu! Vou dar um mergulho. Abraço!

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