segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Após se pôr, o sol renasce no Japão

- Você não tava falando sério quando disse que não tem café, tava?

A voz dela o surpreendeu na varanda. Ele não acreditava que a moça fosse acordar tão cedo. Ela vestia apenas uma camiseta azul-marinho comprida dele e, apesar do cabelo curtinho todo bagunçado, da cara amassada e dos olhos remelentos, exalava charme e sensualidade. Deu-lhe um beijo totalmente despreocupado dos bafos matinais e puxou seu cabelo, inquisitiva.

- É sério? Não tem café nesse apartamento?

Ele riu.

- É sério, pô. Eu te falei que não tomo café.

- Mas, e daí? E as visitas? - ela havia voltado ao quarto, enquanto falava.

- Eu não recebo muitas visitas... E, além do mais, eu nem sei fazer café... - disse, olhando o horizonte gramado, privilégio de poucos na metrópole de pedra e asfalto. Ela voltou, segurando um cigarro. 

- Como assim!? Quem não sabe fazer café? - disse indignada, se preparando para acender o cigarro.

Ele lançou-lhe um olhar de reprovação. Era um antitabagista ferrenho, daqueles que tem cartaz de proibido fumar no quarto. Ela entendeu o recado.

- Eu preciso fumar. Faz umas 15 horas que estamos juntos e eu não fumei nenhum cigarro... Não dá pra dizer que sou fumante, vai? 

A moça já estava sentada sobre o trilho da porta de correr da varanda, uma perna para dentro, outra para fora, deixando a calcinha aparecer de quando em quando. Os pequenos pés eram bonitos, com as unhas pintadas com esmalte escuro. Fumava com uma postura sexy, bem estudada. Não tinha mais que 23 anos, mas mostrava um quê de uma bem-resolvida mulher de 40. Não estava nem um pouco preocupada com a possibilidade - remota, é verdade - de ser flagrada por alguém que chegasse de repente.

Ele estava um pouco atordoado e não esboçou uma reação mais firme quanto ao fumo. Ele, sim, estava preocupado com a possibilidade de um de seus companheiros do apartamento chegar. Sua casa era cheia de regras e só era permitido fumar na varanda, com a porta fechada.

- Tem Coca-Cola pelo menos? Preciso tomar alguma coisa, enquanto eu fumo. Cafeína! - ela perguntou, entre divertida e irritadiça.

O rapaz a olhou sem entender como alguém poderia querer Coca-Cola àquela hora da manhã. Levantou e foi até a cozinha. Gritou de lá:

- Vodca, cerveja, Gatorade...

- Meu Deus! - ela murmurou baixinho, antes de gritar de volta. - E água? Não tem água? Me traz um copo d'água.

Ele encheu um copo com água e o levou, já se desculpando. Ela riu, senhora da situação, e disse que estava apenas brincando, que ele relaxasse. Nem parecia que era ele quem estava em casa. Sentou-se no cantinho da pequena varanda, apenas de bermuda, olhando o nada e tentando não pensar em nada.

- Eu tô tentando fumar menos... - ela parecia se explicar. - Mas, ficar sem café não dá... Ainda mais agora que estou sem meus remédios...

O rapaz se voltou para ela, de repente, sem esconder um pequeno susto. Ela não recuou.

- Eu tenho transtorno bipolar. Tomo uns remédios tarja-preta. Me ajuda... - fez-se alguns segundos de silêncio. - Mas, desde que eu cheguei na cidade, não encontrei um bom médico... Já se vão uns cinco meses sem remédio... Tá foda...

Ele não sabia bem o que dizer. Fez um gesto de lamento com as sobrancelhas e ficou quieto. Ela riu.

- Eu sou normal!

- Tô vendo... - ele brincou, sem jeito. E ela ficou subitamente séria.

- Aliás, eu acho que sou a mais normal da família... - deu uma tragada longa, olhando longe o dia que se levantava.

O rapaz a olhava interessado. Era obviamente apenas uma menina. Tinha olhos espertos e amendoados e, na boca de lábios grossos, um sorriso provocador pronto para escapar a qualquer momento. Sua figura, ao mesmo tempo transgressora e desprotegida, misteriosa e surpreendentemente à vontade, o deixava curioso. Ele tentava enxergar além do que via, desenhando em sua cabeça uma personagem fascinante.

- Meu irmão me espancava... Praticamente me expulsou de casa. - o clima ficou meio tenso e ela completou, sem olhar para o companheiro de sacada. - Viciado em crack e pó.

- Foda. - ele disse baixinho. Não perguntou nada, mas ela continuou.

- Minha irmã não queria saber de nada. Nunca estudou. Saiu de casa aos 19 anos, grávida, sem namorado, e nunca mais voltou. Já sabe, né!?

Ela olhou para ele, esperando que ele tivesse entendido. Ele olhou para ela, esperando que ela explicasse.

- Uma menina que sai de casa aos 19 anos, grávida, sem namorado, e não volta mais... vira o quê? - ela disfarçava um nó na garganta com grandes goles de água.

Ele se manteve quieto. Mas, ela precisava falar, contar quem era, de onde tinha vindo, ter sua vida resumida na varanda, para um cara que ela havia conhecido há poucos dias.

- Meu pai morreu quando eu era criança... Minha mãe nunca se importou muito com nada... que não fosse dinheiro... Se casou de novo logo... Meu padrasto abusou muito de mim. E ela nunca fez nada... - apertou a bituca do cigarro no chão e virou-se de frente para a sacada, encolhida junto ao batente da porta.

Ele percebeu o copo dela vazio e se ofereceu para pegar mais água. Ela assentiu. Ficaram em silêncio por um tempo. Enquanto enchia o copo, ele tentava entender o que estava acontecendo.

- O que ela sempre quis era um visto estrangeiro para dar o fora daqui... - a moça disse, como completando um pensamento, quando ele voltou com a água.

- Ela?

- Ela, minha mãe.

- Ah... E foi aí que você foi morar no Japão?

- Hahahaha... - a gargalhada dela ecoou varanda a fora. Ela passava a mão pelo rosto dele como quem faz carinho numa criança, sem conseguir parar de rir. Beijou-lhe os lábios levemente e tentou se recompor, secando os olhos e ajeitando os cabelos.

- Eu no Japão?

- É! Japão! Você não disse que morou lá? - ele estava nervoso, se sentindo enganado.

- Você acreditou? - ela perguntou, escondendo o rosto entre os joelhos, malandramente. Ele não respondeu, contrariado.

- Mas, eu vi fotos no Facebook...

- Tá! Eu vou te contar uma história sobre o Japão... Mas, posso fumar outro cigarro? - ela pedia, fazendo charminho com o cigarro pendurado no beiço. Ele apenas abriu os braços, como quem diz: "o que eu posso fazer?".

- Aquelas fotos são de uns três anos atrás... Eu fui pro Japão, sim. Mas, eu não morei lá, não... Te falei isso só pra parecer mais interessante... Sabe como é, né!? Mais experiente... Mais vivida... Com uma outra cultura... Funcionou? - ela ria.

Ele estava contrariado, a fim de acabar com aquele papo ali mesmo.

- Bom, na verdade, eu só fui pra lá roubar o namorado da minha amiga. É o que dizem por aí! - ela tinha amargura na voz. Deu uma tragada, enquanto fazia sinal para que ele esperasse para ouvir suas explicações.

- Minha amiga, sim, morou lá. Morou em Tóquio por muitos anos, com a família. Família rica de diplomata. Uma moça linda, inteligente, delicada... Sabe aquelas que todo mundo ama? Lá, ela teve um namorado. Um brasileiro. Foi um namorinho adolescente e apaixonado... Até que chegou a hora de ela voltar pro Brasil e eles decidiram que seria muito difícil continuar um namoro com a distância. Terminaram.

O dia já ia esquentando. O rapaz foi à cozinha e voltou com cerveja e um pacote de Ruffles.

- É sério isso? - a moça riu do café da manhã do companheiro.

- Você foi para o Japão roubar o namorado da sua amiga. Não pode falar nada de mim. Continua. - ele estava começando a querer tomar um pouco mais as rédeas da situação.

- Bom... Eles terminaram. Ela voltou pro Brasil. E viveu sua vida feliz e contente por aqui. A gente morou juntas no tempo da faculdade... Foi aí que nos conhecemos... E foi nessa época que o menino do Japão começou a mandar cartas para ela... Tão romântico!

- Não sei se quero ouvir o resto dessa história... - ele a cortou, mas não estava falando sério.

- Claro que quer! - ela disse tomando a cerveja da mão dele. - Minha amiga lia as cartas pra mim, me mostrava as fotos dele... E ele tinha se tornado um rapaz muito muito bonito! Enfim... A minha amiga tava toda cheia de dúvidas... Havia se passado muito tempo que eles não se viam. E eles ficaram se correspondendo por carta durante um ano, mais ou menos. Ela me mostrava tudo! Tudinho mesmo! As coisas mais românticas e até as coisas mais picantes que ele escrevia para ela... Eu acompanhava tudo de muito perto! Praticamente participava do namorinho deles...

- Sei...

- Pois é... Eu não tive culpa, mas comecei a achar o cara incrível... - a moça ficou em pé, se apoiando nas grades da varanda e exibindo todo o contorno das belas coxas sob a camiseta. Ela demonstrava uma empolgação extra ao relembrar a história. 

- Aí... Ele convidou minha amiga a ir pra lá nas férias... Eu juro que a incentivei a ir! Juro! Mas, ela não foi. Os pais foram contra. Ela não quis contrariar... Era muito certinha, medrosa, insegura...

- Ela não foi. Você foi. - o rapaz também se levantou na sacada.

- Você é tão inteligente, meu bem! - ela enlaçou seu pescoço e o encheu de beijos na bochecha.

- E você é bem filha da puta, né!? - ele disse, apertando-lhe o traseiro. Ela fechou a cara e se afastou.

- Não é bem assim! Eu não sabia o que iria acontecer... E aconteceu que a gente se conheceu e se apaixonou... O cara era realmente tudo aquilo que eu imaginava! E muito mais... Muito mais! Passamos quase um mês juntos por lá... 

A garota largou o cigarro pela metade e virou o restante da cerveja num gole só.

- Eu não queria que ela soubesse... Mas, quem esconde alguma coisa hoje em dia, não é mesmo? Ela viu fotos minhas em Tóquio na internet e ligou os pontos... - disse, saindo da varanda.

Foi para o quarto e não voltou. Ele gritou para dentro do apartamento:

- Como terminou essa história? Eu quero saber como terminou!

Não houve resposta. Ela deixou o quarto vestida, pronta para sair.

- Você não vai me contar como terminou a história? - com seus braços, ele a prendia contra a parede, de brincadeira.

- Pra quê? - ela disse, insolente. Testa com testa. Nariz com nariz.

- Qual é o problema? Fiquei curioso, ué!

- E vai continuar curioso. - num movimento, ela se desvencilhou dos braços dele e foi em direção à porta.

- Peraí, aonde você vai? - ele segurou a maçaneta.

- Eu vou embora pra minha casa. Já tá na hora, né!? - ela estava impaciente, com as mãos na cintura.

- Deixa eu pôr uma roupa. Eu te levo. Você mora longe pra caramba.

O rapaz foi para o quarto se trocar. Quando voltou, ela já havia saído. Os acontecimentos das últimas horas tinham sido muito cansativos para ele. Deixou o assunto para depois e foi dormir.

Acordou um tanto desorientado, com o sol já se pondo. Pegou o celular para ver que horas eram e notou que havia uma mensagem. "Ela se matou, ok?". Eram 17h45. Ficou ali deitado na cama, de barriga para cima, olhando para o teto.

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