Mas, hoje, eu vejo com mais clareza como é legal estar cercado por bons amigos. Por exemplo, cheguei agora do churrasco de aniversário do Flavinho, um irmão pra mim. Outro dia, passei uma tarde de sábado sem pressa, bebendo e conversando com o Breno, que está se mudando para São Paulo. Essa semana mesmo, me encontrei com o Leandro e o Rodrigo, amigos há mais de 20 anos. Ouvir as histórias malucas da Regina é sensacional. Eu não a julgo, ela não me julga e é assim mesmo.
Sei que posso sempre contar com o Júlio no trabalho e fora dele. Com o Ricardo, é legal fazer planos para dominar o mundo, escrever uma minissérie ou chamar a atenção daquela garota. Gosto de saber que o Luiz César espera minha visita em sua casa ou insiste para marcarmos mais uma vez aquele chopp com o Alberto e o Ângelo.
Sempre que o Rodolfo vem a São Paulo, aproveito para rever o querido casal João e Naiara. Aliás, morar nesta cidade é bom por isso também. Os amigos sempre passam por aqui. E é maravilhoso tirar um tempinho, por mais corrido que seja, por mais tarde que seja, por mais terça-feira que seja, para estar com a Ana Cristina. Ou com a Marina. Ou com o Felipe.
Faz um bem danado saber que, mesmo a distância, grande distância, e a falta de tempo não diminuem em nada grandes amizades. Com a Marisa, que está lá na Europa, meia dúzia de mensagens pela internet são suficientes para nos sabermos próximos. O filho do Túlio que está para nascer lá no Rio de Janeiro eu terei o prazer de chamar de sobrinho. E como falar em Rio de Janeiro, sem falar na Dona Alzira? Uma amiga tão improvável e tão disponível, tão sábia, tão capaz de me jogar pra cima. Tanta saudade.
Todos os nomes citados até agora são fictícios. Não tinha a pretensão de citar todos os grandes amigos que cruzaram e cruzam meus caminhos. Eu tinha certeza que esqueceria alguém, cometeria injustiças... Enfim... Quem é sabe que é.
Mas, de um amigo, eu devo falar o nome. Porque o André Luiz Vieira Barboza é o personagem do texto que publico logo abaixo.
Gosto da minha profissão, entre outras coisas, porque ela me permite conhecer pessoas e suas histórias. E foi indo atrás de uma dessas histórias que, num ambiente mais que inesperado, o Cemitério da Colônia, num lugar distante e pouco conhecido da cidade de São Paulo, fiz um grande amigo. A vida do André me deu um TCC para a pós-graduação. Daria um livro. Um filme. O que se propusesse a fazer. Mas, não é isso que importa. O que importa é que ali, no cemitério, com este amigo, eu renasci nos momentos mais difíceis dos últimos dois anos. Naquelas despretensiosas tardes de sábado, jogando conversa fora, no silêncio e na paz daquele lugar místico, eu aprendi muita coisa importante para a minha vida.
Ando em dívida com o André. Há um bom tempo não lhe faço uma visita. Mas, a "culpa" é dele mesmo. Ando sem tempo porque alguém me ajudou a ver que "a vida é linda, dura, sofrida, carente em qualquer continente, mas boa de se viver em qualquer lugar".
Eis o perfil do André - artista, administrador, agitador cultural, guerreiro -, publicado pela primeira vez.
As reinações de um saci de carne e osso
maio de 2012
“O saci é um diabinho de uma perna só
que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta
criatura existe.” Monteiro Lobato
A
primeira vez que vi uma foto do André em uma rede social na internet acabei com
qualquer resquício de dúvida que ainda havia sobre a história de ele ter sido
um dos primeiros sacis da TV Globo. Era incrível! Seus olhos eram exatamente o
que eu imaginava que um saci teria. Meio debochados, meio misteriosos, daqueles
que te dão a impressão de que ele está aprontando alguma e a certeza de que
você nunca saberá o que é. São esses olhos, acompanhados de um sorriso malandro
sob o bigode, que me recebem e, rapidamente, me fazem sentir como um amigo
próximo, ao final da corrida de quase 30 quilômetros da minha casa em direção ao
mais sul da zona sul de São Paulo, no bairro da Colônia.
Não é difícil imaginar André Luiz Vieira
Barboza de carapuça vermelha, cachimbo no canto da boca e pulando numa perna só.
Mas, ali, no ambiente de trabalho, ele ostenta um figurino muito diferente.
Calça social cinza, camisa branca de manga longa, gravata prateada com listras
em diagonal, cinto e sapatos pretos vestem o corpo magro, atlético, de cerca de
1,80m, que nega veemente os 46 anos que o RG indica. No bolso da camisa, uma
caneta e pequenas aparas de papel com os afazeres do dia. “Palmtop tabajara”,
ele brinca. Na lapela, um bordado: Cemitério de Colônia.
Para
entender a aura que envolve André e o Cemitério de Colônia, pegue uma quase
desconhecida colonização alemã localizada num bairro com cara de cidadezinha do
interior, tão afastado geográfica e culturalmente do restante da cidade, que
você só acredita que está na cidade de São Paulo porque o mapa lhe diz isso. Adicione
um negro carioca com alma de artista, fôlego de criança, vocação para liderar e
nenhuma disposição para acreditar na palavra “impossível”. Misture tudo isso no
cemitério particular mais antigo do Brasil e acrescente uma trilha sonora
oriental vinda do vizinho, um clube de imigrantes japoneses, que só aumenta o
clima transcendental do campo-santo. Depois de tudo isso, você estará pronto
para acreditar quando André disser: “Tudo aqui acontece no cemitério”.
Para abrir a porta
Conta-se
que, logo depois da Independência do Brasil, para agradar a esposa austríaca
Maria Leopoldina, o imperador Dom Pedro I mandou trazer de Innsbruck, na
Áustria, colonos para habitar a região entre Itapecerica da Serra, Santo Amaro
e Parelheiros, constituindo uma colônia agrícola na zona sul de São Paulo. A
história oficial aponta a chegada de um grupo de 226 alemães, austríacos e
suíços ao porto de Santos em dezembro de 1827. Dois anos depois, o Império lhes
ofereceu as terras na zona sul da cidade de São Paulo, onde se estabeleceram 94
famílias, formando o bairro da Colônia Alemã – que, com a Segunda Guerra
Mundial, passou a ser chamado de Colônia Paulista, até ficar apenas Colônia. E
foi no mesmo ano, 1829, que os colonos alemães construíram ali o Cemitério de
Colônia, o primeiro cemitério particular do Brasil.
Em 2001, o Cemitério de Colônia estava
pronto para reabrir. Depois de enfrentar inúmeros problemas desde a Segunda
Guerra Mundial, devido à origem alemã, o cemitério estava fechado havia mais de 40
anos. Na época da reativação, André orgulhava-se de ser o maior vendedor de
material de construção da Colônia e região. Com uma estratégia ousada, quase
suicida, de acreditar no cliente, vendendo fiado até para quem ele não
conhecia, Barboza, como é chamado pelo pessoal do bairro, construiu um nome na
praça, um círculo de amizades e uma vasta carteira de clientes cativos para o
negócio de Mário Reimberg Christe, o Marinho, um homem simples de nome pomposo,
representante da quarta geração dos alemães fundadores do bairro e presidente
da ACCA (Associação Cívica Colônia Alemã).
Com André, a loja de Marinho forneceu
todo o material utilizado na construção do novo escritório da administração do
cemitério. Prestes a ser inaugurado, o predinho recebeu a visita de Barboza. Na
sala vazia, apenas um telefone no chão. Empolgado e orgulhoso com a construção
que também era um pouco sua, ele pediu ao rapaz que tomava conta do lugar para
usar o telefone. Queria ligar para a mãe no Rio de Janeiro. “Um dia eu ainda
vou ter uma salinha com telefone aqui”, profetizou agradecido após a ligação
autorizada.
A chance de realizar seu sonho estava
mais perto do que André imaginava. Seu patrão, Marinho, havia prometido aos
representantes da ACP (Associação de Cemitérios Protestantes) que indicaria
alguém para o cargo de administrador do Cemitério de Colônia. A ideia de
Marinho era se desfazer de um empregado que não vinha atendendo suas
expectativas. E que, obviamente, não se chamava André Barboza. Acontece que, sem
querer, querendo, Barboza soube dessa missa apenas a metade.
Teatral,
ele conta que um dia, quando caminhava da loja de material de construção até a
sua casa na hora do almoço, passou na frente do cemitério e sentiu uma mão
invisível o puxando pela ladeira que leva à administração. “Minha religião era
mulher, samba, futebol e umas coisinhas erradas de vez em quando”, revela
garantindo que não era de acreditar em coisas sobrenaturais. Apostou no
instinto e subiu a rua para mudar sua vida.
Em uma sala da administração, 15
pessoas, em sua maioria alemães e descendentes, estavam reunidas, tratando dos
detalhes da reabertura do cemitério. André venceu o autopreconceito que ele
confessa ter sentido por ser um negro “invadindo” o território dos brancos e
ficou parado na porta. A reunião, por sua vez, também parou. Alguém
rispidamente perguntou:
- O que você quer aqui?
- Tô sabendo que estão precisando de
gente para trabalhar aqui. – respondeu com firmeza André.
Flávio Magalhães, o senhor que parecia
ser o chefe do grupo, não lhe deu confiança e pediu que ele se retirasse para poder
prosseguir a reunião. Contrariado, Barboza foi saindo, quando Reinaldo Dantas,
um bom amigo que ele conheceu naquele momento, deixou a reunião e pediu que ele
voltasse no dia seguinte para participar da seleção. Com as esperanças
renovadas, André retornou à sala, apertou fortemente a mão do homem que havia
pedido para ele sair e disse olhando nos seus olhos.
- Meu nome é André Luiz Barboza e eu
peço desculpas por ter atrapalhado a reunião de vocês. Eu garanto que, se os
senhores me contratarem para trabalhar aqui, vou fazer o meu melhor por esse
cemitério.
Disse isso e saiu. Tempos depois, soube
que, pelo menos por alguns minutos, ele foi a pauta da reunião após sua saída.
O mesmo senhor que foi praticamente confrontado por André ficou impressionado
por sua ambição e sua atitude. Há onze anos, Flávio Magalhães é um dos patrões
de Barboza na ACP.
“O que você faz para abrir aquela
porta?”, André me pergunta e eu percebo que ele está me testando. “Uso a
chave”, respondo sem maior elaboração. “Não”, ele me olha professoral, com o
dedo em riste apontado para a porta. “Para se abrir uma porta, é preciso ir até
ela primeiro.” Ele ouviu essa frase em uma palestra do Sebrae (Serviço
Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) para nunca mais esquecer.
“Aquilo mudou minha vida”, continua, encenando a vibração que teve quando soube
que seria contratado para o cemitério. Às lágrimas, repete: “minha vida mudou,
minha vida mudou”. Só ele sabe o que passou desde que foi obrigado a guardar,
talvez para sempre, o sonho de ser uma estrela de tevê.
O sol nascente é tão belo
Quando André tinha 12 anos, seu pai,
Altamiro, ouviu no rádio que a TV Globo estava abrindo testes para saci do
Sítio do Picapau Amarelo e percebeu ali a possibilidade de ver o filho realizar
seu sonho antigo de ser ator. “Me lembro bem da seleção. Devia ter uns 400
meninos. Ele não queria, não. Mas, eu insisti. Eu sempre disse para ele: ‘você
é meu Silvio Santos’”, lembra seu Altamiro, uma figura única, que explica muito
do que André é. “Meu sonho sempre foi ser ator. Eu faço figuração na Globo.
Bom, fazia... Faz tempo que não faço. Mas, se ainda tiver chance, eu vou lá. Eu
canto, eu sou compositor. Se souber de alguma coisa, me dá um toque”, seu
Altamiro me pediu, articulado e com uma bonita voz, quando André surpreendentemente
estendeu-me o telefone: “Fala aí com meus pais no Rio”.
Após o teste, André foi escolhido para
ser um dos sacis do episódio “A Sacizada” do Sítio. Eram cinco: o Saci Pererê, vivido
por Romeu Evaristo, até hoje no casting
da Globo; o Saci Trique-Trique; o Saci Matinta-Pereira; o Saci Lambão, e o Saci
Tê-Pereré, o juiz da sacizada, papel de André. Os episódios gravados ficaram no
ar por cinco anos. Neste período, o menino humilde do Vidigal se sentiu
importante. Viveu o sonho de ser conhecido, divertindo-se, enquanto trabalhava.
Ousou até cultivar um amor platônico por Rosana Garcia, a eterna Narizinho.
Pode-se dizer, sem dúvidas, que era um dos adolescentes mais felizes de todo o
Rio de Janeiro.
Além
do Sítio, participou do programa de Chico Anysio – onde, segundo ele, inventou
até fala onde não tinha – e de especiais da TV Globo. Um dos únicos registros
que André tem desse tempo é do musical Pirlimpimpim, exibido pela emissora em
homenagem aos 100 anos de Monteiro Lobato, em 1982. O clipe da música Saci
Pererê, com Jorge Ben vestido de Saci; Baby Consuelo, de Emília, e Moraes
Moreira, como o Visconde de Sabugosa, está no Youtube, que ele faz questão de
acessar no computador um tanto ultrapassado de seu escritório no cemitério.
A
dois minutos e 49 segundos de vídeo, ele para a exibição. O rosto malandro em
close na tela é o mesmo de 30 anos depois, com exceção do bigode, de uma ou
outra ruga e do brilho marejado dos olhos, que passa despercebido para as
outras três pessoas que assistem ao vídeo do seu lado, conhecendo pela primeira
vez o passado famoso do homem com quem convivem diariamente na comunidade.
André
não esconde a emoção. Parece um menino que entra pela primeira vez em um
estúdio de tevê. Comento que, no clipe da música de Jorge Ben, ele é um dos que
mais se diverte e se destaca entre os meninos vestidos de saci. Envaidecido,
ele repete o gingado no ritmo da música. “Sempre tive essa postura de
liderança”, ele fala sem tirar os olhos da tela. E vai lembrando os amigos.
“Esse aqui era o único que tinha uma perna só. Era piradão! A gente zoava
muito.” “Outro dia, encontrei o Romeu Evaristo. Ele disse que eu deveria ter
continuado, que eu tinha talento”, e o rosto dele vai mudando o tom.
-
Queria que tivesse sido diferente! – olhando para a tela com sua imagem parada,
ele diz para mim como se dissesse para si mesmo. Estamos só nós dois na sala.
-
Mesmo com tudo que você conquistou? – insisto, me referindo à liderança na
comunidade, ao emprego no cemitério, aos amigos que fez pelo caminho.
-
Mesmo com tudo que tenho! – ele não hesita em responder, quase mordendo os
lábios para não chorar.
-
Se te chamarem hoje para você fazer algo na tevê, você larga tudo e vai? –
provoco.
-
Vou e arrebento! Vou e arrebento! – ele repete com um sorriso de quem diz:
“você não me conhece, rapaz”.
André
conta que, há poucos anos, soube de uma campanha da TV Cultura em busca de
atores para um programa sobre a raça negra. Pois, ele descolou um espacinho na
agenda cheia de administrador do cemitério (ao contrário do que pode parecer, a
agenda de um administrador de cemitério é bem cheia, sim) para ir até a porta,
que dessa vez não se abriu.
“Eu
tenho capacidade de ser o ator principal da minha vida. Minha tela da Globo é a
minha comunidade.” Frasista de mão cheia, Barboza tenta mostrar de várias
maneiras que o passado de artista é algo superado. Mas, em voz baixa e tom
grave, ele confessa, desnecessariamente, que sente até hoje a saída da TV
Globo. Se no Rio de Janeiro, os amigos de antigamente o chamam de Saci até
hoje, ali na Colônia, poucos sabem do passado de André. No dia a dia, ele evita
tocar no assunto. Evita tocar numa ferida que há 30 anos carrega sem
cicatrizar.
Depois
das temporadas como saci, programas especiais e participações no programa de
Chico Anysio, André cresceu, deixou de ser o adolescente magrelo perfeito para
representar um saci. Ganhou corpo, tornou-se homem e os papeis foram rareando.
Até que recebeu um convite para um trabalho ao qual nunca se sujeitaria. Um
diretor de novelas queria que o garoto lhe fizesse companhia nas festas da tevê
e, principalmente, depois delas. André recusou firmemente as investidas do tal
diretor e foi desligado da emissora assim que o contrato acabou.
A dura reconstrução de si mesmo
“Meu
pai sempre me dizia para eu ser humilde. ‘Hoje você tá na Globo, amanhã você
não sabe onde vai estar’, ele dizia”, lembra-se. O “amanhã” de André foi na
fila para tentar um emprego como ajudante de pedreiro. Ele se recorda da
molecada cochichando: “aquele não é o saci da Globo?”. “Eu trabalhei na construção
do Hotel Sheraton por um dia. No dia seguinte fui parar no Hospital Miguel
Couto”, diverte-se ao lembrar que o porte físico não era o mais adequado à
construção civil.
Era
necessário correr atrás do pão de cada dia. Aos 19 anos, ele já havia sido
fiscal de caixa de supermercado e começava uma carreira na Bolsa de Valores do
Rio de Janeiro, passando de office boy
a operador. Tinha casa própria e cursava Administração de Empresas, quando teve
seu único filho, Bruno, com o primeiro amor de sua vida, Kátia. Mas, a vida que
parecia encaminhada lhe passou uma rasteira. A mulher foi embora com o filho e
deixou para André uma frustração ainda maior que a de ter saído da tevê: a de
não ter participado de perto da criação de Bruno. “Ele é meu amigo de todas as
horas. Todo dia a gente se fala. A distância acabou nos unindo ainda mais”,
exalta o filho. (Sim, o eterno saci também telefonou para o garoto no Rio e me
passou a ligação de surpresa.)
Sem
rumo, André largou o emprego, a faculdade e passou a percorrer caminhos
sombrios na noite carioca. “Se eu ainda estivesse no Rio, estaria morto”,
sentencia com o olhar perdido, como se estivesse a lembrar da vida de exageros
que ele tinha consciência que não lhe fazia bem, mas com a qual não soube
lidar.
O
emprego na firma que imprimia códigos de barras em embalagens de produtos foi o
responsável pela ponte aérea que trouxe André para São Paulo, deixando tudo e
todos na Cidade Maravilhosa. A oportunidade de trabalhar na filial paulista foi
vista por ele como a chance de uma nova vida, num lugar conhecido como uma
terra de oportunidades e longe de tudo que lhe fazia mal.
André
ri ao lembrar que, sem imaginar o que o futuro lhe reservava, naquela época,
brincava com os colegas de trabalho de falar alemão, língua que, hoje, numa
posição de destaque entre descendentes germânicos e como criador e principal
organizador da Colônia Fest, festa tradicional dos imigrantes realizada no
bairro, domina com certa habilidade.
Conversando
com André, percebe-se quantas facetas ele pode ter. Num instante, ele deixa o
tom sério, compenetrado e cerimonioso que usa para contar algumas passagens de
sua vida, para assumir o tom escrachado, expansivo e de gestos largos próprio
de um carioca da gema. E, se hoje em dia ele já está mais “apaulistanado”, sua
chegada a São Paulo, em 1991, foi uma extensão desse jeito mais carioca de se levar
a vida. Hospedado em um famoso hotel do centro da cidade, tudo era uma festa
sem fim. Certa vez, o ex-saci conta às gargalhadas, foi almoçar tranquilamente
no Shopping Paulista, ali onde começa a Avenida Paulista, com uma amiga, também
do Rio. Ele de sunga e ela de biquíni, chocando os nativos e divertindo-se sem
pudor.
Na
mesma medida que Barboza chocou a cidade de São Paulo, ele ficou chocado com
ela. Se profissionalmente a cidade representava tudo que ele queria, o tom mais
frio do paulistano o assustava. Quando a solidão batia, André tomava um ônibus
qualquer, ia até o ponto final e entrava num bar para beber e tentar alguma
amizade. Até o dia em que tomou uma “dura” da Rota às duas da manhã numa dessas
incursões pela periferia de São Paulo e percebeu que precisaria se adaptar ao
novo hábitat.
Disposto
a vencer na capital paulista, Barboza resolveu apostar, junto com Adriane, a
esposa com quem vive há 20 anos, na dica de um amigo: um terreno para construir
sua casa no remoto bairro de Vargem Grande. “Na primeira vez que vim aqui, a
gente andava, andava, andava e nada de chegar. Só mato, mato, mato, barro”,
lembra André. Naquele pedaço de chão, que parecia absolutamente perdido no
mapa, o saci se encontrou.
O carioca do Vidigal soube transformar
o lugar onde vive – com a esposa, a sogra e o enteado de 25 anos – no seu
próprio Rio de Janeiro. “Logo que eu cheguei aqui, bati na porta de um vizinho
e pedi uma xícara de açúcar. Ele me olhou feio e disse: ‘não tem dinheiro pra
comprar açúcar, não?’.” Uma volta ao lado de André mostra como as coisas
mudaram por lá. A cada minuto, um cumprimento, uma brincadeira, uma pergunta
pela família. Ele conhece todos pelo nome. Todos o conhecem pelo que ele faz
pela região. Um vereador sem mandato e sem a intenção de ter um. “Eu sempre
falei pra ele: ‘não se meta com política’. Ele faz política, sim. Mas, uma
política sadia”, destaca Seu Altamiro.
Negro em uma comunidade de descendentes
alemães, Barboza só se lembra da palavra preconceito quando perguntado por
alguém. E todo mundo acaba perguntando. Mas, mesmo que tenha percebido um olhar
de discriminação uma vez ou outra nos seus quase 20 anos de Colônia, ele tira
de letra o assunto. Desde pequeno, quando a mãe era empregada na casa da
família americana do gerente do Citibank no Rio de Janeiro, André está
acostumado a conviver com as diferenças.
A vida nasce e renasce no cemitério
O mais novo empreendimento de André está
revolucionando a vida esportiva em Vargem Grande. No começo do ano, um sujeito
anunciou que abriria uma academia no bairro, recolheu a matrícula de uma
centena de interessados e, no dia da grande inauguração, sumiu no mundo,
levando o dinheiro de todos e negando a eles o direito da malhação. Barboza viu
ali uma oportunidade. Propôs sociedade a um amigo, professor de Educação
Física, e abriu a sua própria academia. Em menos de dois meses, já contava com cerca
de 250 alunos matriculados se amontoando no pequeno salão.
Movido
pela nova paixão, André, que já é formado em Administração de Empresas e
pós-graduado em Gestão Ambiental, iniciou uma graduação à distância em Educação
Física e buscou um espaço maior para acolher toda a demanda da região. “Minha
cabeça tá voltada para 2016”, afirma, sonhando acordado com as Olimpíadas do
Rio de Janeiro. Abusado, ele ataca até de instrutor, quando é preciso.
Não é à toa que o dia de André começa
às 5h30 e só termina depois que ele fecha a academia às 23 horas. Além da
academia e da administração do Cemitério de Colônia, ele também acompanha de
perto uma biblioteca comunitária que funciona em uma casa nos fundos do
cemitério, onde quatro jovens se revezam no trabalho; cria projetos sociais e
ambientais, que esperam por patrocinadores e os quais ele tem orgulho de ter batizado
– “Com o óleo usado, transforme o saber”, “Corrente dos valores”, “Acorde das
águas”, “Pequeno guerreiro”, e centraliza a organização da Colônia Fest.
Em 2012, a festa da comunidade alemã vai
realizar sua sétima edição entre 29 de junho e 1º de julho. Desde março, a
organização está a todo vapor, a cargo da Associação Comunitária Habitacional
Vargem Grande. No comando das ações, Barboza tem planos ambiciosos para a
festa. Seu horizonte é a famosa Oktoberfest, de Blumenau, Santa Catarina. Pela
primeira vez, ele conta com a ajuda de Marco Aurélio, um profissional de fora
da comunidade com a experiência de buscar patrocínio de grandes empresas para
projetos culturais. Mas, André faz questão de não deixar de lado a ideia
principal contida na Colônia Fest desde o começo: valorizar os comerciantes
locais.
Em
sua luta para fazer a melhor festa da história da Colônia, Barboza tem
alcançado importantes vitórias. Em insistentes peregrinações até
subprefeituras, prefeitura municipal e Assembleia Legislativa, conseguiu o
apoio de um conhecido deputado estadual e a inclusão de mais três linhas de
ônibus extraordinárias nos dias do evento para levar o público à Colônia Fest,
saindo dos terminais Jabaquara, Santo Amaro e Varginha.
Já passa das três da tarde de um sábado
quente. Vestido com seu uniforme de trabalho, a calça social e a camisa de
manga longa, André está na sala onde são realizados os velórios, sentado em uma
cadeira, de frente para um grupo de aproximadamente 12 pessoas. Homens e
mulheres simples, de bermudas e chinelos, que resolveram deixar suas casas por
algumas horas para ouvir o que Barboza tem a dizer sobre a festa que é de todos
eles. São representantes do comércio local, Marco Aurélio e Sebá, um senhor
magro e baixo, de vastos cabelos brancos e óculos, que, além de cantor e
compositor, é também o apresentador da Colônia Fest.
Didático e cauteloso, mas firme, André coloca
para os expositores os tópicos mais importantes a serem conversados na reunião.
A festa está crescendo ano a ano e, com isso, os custos para manter uma
barraquinha não têm como serem tão baixos como já foram. Nem todos entendem
essa matemática.
- Detesto fofoquinha, disse-me-disse aí
na rua. O que tiver que falar, vamos falar aqui. Passou daqui pra fora, acabou.
Somos todos amigos. Se a festa sair bem, mais vamos vender, melhor pra todo
mundo. Quem ganha não é o Barboza, não é o fulano. É a festa, somos todos nós.
A
liderança de André é calma. Ele não se altera ou muda o tom de voz mesmo nas divergências.
E é difícil discordar dele. As ideias contrárias são colocadas com cuidado e
respeito.
-
Não sou eu que quero. Somos nós. – corrige, embora não seja difícil perceber
que André gosta de estar no centro das ações. Mesmo assim, ele pede ajuda na
divisão das tarefas. São muitos os desafios em se conseguir apoio para uma
festa realizada numa comunidade humilde afastada quase 50 quilômetros do centro
de São Paulo.
-
O bairro é longe. O IDH [Índice de
Desenvolvimento Humano] é baixo. As pessoas veem como periferia, bairro de
pobre. Não tem retorno nenhum para as empresas. – Barboza não mede as palavras
para enumerar as dificuldades contra as quais todos ali devem se unir.
-
Eu levei a proposta para o executivo de uma grande empresa de bebidas. Quando o
cara viu a localização no Google Earth, já descartou. – completa Marco Aurélio,
que vive na zona norte da cidade e se desloca de ônibus até o bairro da Colônia
aos sábados para as reuniões da festa. O fascínio de Marco pela figura de André
e seu envolvimento com a Colônia Fest ficam evidente na sua fala, quase um
puxão de orelha nos expositores.
-
Tá dando o sangue aqui! – diz, apontando para a porta por onde Barboza acaba de
deixar sala. – O cara tá correndo pra cima e pra baixo pra fazer a melhor festa
possível. Não dá pro pessoal ficar faltando às reuniões.
Minutos
depois, André volta com café fresco e serve um a um os presentes. Sua dedicação
em fazer o melhor em tudo parece contagiar os outros, que vão arregaçando as
mangas para o trabalho. “Eu posso fazer isso!” “Posso fazer aquilo.”
A
reunião termina e as pessoas vão retornando às suas famílias e ao curso normal
de seu fim de semana. Sinto-me impelido a colaborar de alguma forma e me
aproximo de André. Ele está “pilhado”, aceso com todas as propostas, ideias e
sabe-se lá mais o que se passa em sua “cabeça maluca”, como ele mesmo diz.
Sugiro
que eles se aproveitem da proximidade de datas entre a Côlonia Fest e a
Eurocopa, o campeonato europeu de futebol. Emissoras de televisão adoram
colônias europeias torcendo em trajes típicos por suas seleções. Então, é só
organizar algo interessante diante de um telão e jogar uma fagulha na cabeça
dos pauteiros e produtores. A ideia, que não chega a ser original, cai nas
graças do inquieto Barboza. Ele corre até o computador, pesquisa as datas de
jogos da Alemanha e comemora como se fizesse um gol, me cumprimentando
efusivamente. E parece que foi meu o passe para o gol dele.
Fico
feliz pela sua reação. Para mim, é uma pequena forma de recompensá-lo pelas
lições dos dias de convivência. Lições de otimismo de quem encontrou o recomeço
onde todos veem o fim.
-
O cemitério é meu oráculo! É onde eu recarrego minhas forças. Aqui eu choro...
Eu gosto mais daqui do que da minha casa. - O André me disse em uma de nossas
primeiras conversas, enquanto ele me apresentava o cemitério.
-
Eu dou ‘bom dia’ pra eles todos os dias. – continuou, admirando o seu lugar
favorito. Distraído, fiz a desnecessária pergunta:
-
Pra eles quem?
- Pra eles! – André repete, apontando as
lápides, com seu olhar de saci e sorriso malandro, que sempre me deixam na
dúvida se ele está mesmo falando sério. Assim como o saci de Monteiro Lobato,
Barboza comete travessuras, nunca maldades.

Fico muito feliz por saber e aprender um pouco com vc meu lider kkkkkk ooooo quanta saudades vlw exemplo 65 992506344
ResponderExcluirHoje tive o plazer de conhecer o André, fui para fazer uma investigação de paranormal no cemitério da colônia, e dei de frente com ele, s saber quem ele é, conheci ele, me contou toda a história do cemitério, o cara é uma fera, muito inteligente e muito educado, vou solta o vídeo no meu canal, cigano bruxo investigações paranormais,
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