A frase saiu da boca da mãe de seu amigo desse jeito, sem interrogação ou exclamação. Era afirmativa. Não era um convite. Não era uma celebração. Era uma certeza, um fato, uma necessidade prestes a ser atendida. Maria Tereza usava os óculos de lentes grossas que deixavam enormes seus olhos, um traço marcante do rosto gordinho de uma pessoa feliz de pouco mais de 50 anos. À sua frente, em páginas abertas sob os raios de sol que entravam pela janela, estavam os classificados da edição de domingo do jornal O Globo. O tom da sua voz e a sua postura eram calculadamente o que o garoto de 21 anos precisava naquele momento. Do sofá, ele sentiu uma ponta de esperança. Talvez a única nas últimas semanas.
***
Havia menos de três meses, Thiago experimentara pela primeira vez o gosto de voar. O transporte aéreo ainda estava num estágio inicial de popularização. E a sensação de entrar no avião para tentar desbravar um caminho profissional lhe causava um excitamento ainda maior. O voo rasante que quase tocava o Pão de Açúcar, a pista curtinha do aeroporto Santos Dumont, o apartamento da tia do amigo, as orientações para que o taxista não o enganasse no caminho até o Jardim Botânico, a infinita Lagoa Rodrigo de Freitas emoldurada pela janela do carro, o Cristo Redentor abençoando aquele momento, o estúdio do Fantástico, o encontro inesperado com uma simpática Fátima Bernardes num corredor sem graça de um prédio de labirintos. Tudo, absolutamente tudo, carregava em si a magia de um sonho. O mundo daquele jovem aspirante a jornalista expandia suas fronteiras de modo avassalador.
O que se seguiu foi muito rápido. Em menos de 15 dias, as poucas coisas que havia juntado em três anos e dois meses morando em Florianópolis estavam em uma caixa de papelão, três malas e uma mochila. O incentivo dos amigos numa festinha de despedida improvisada. O amor da namorada num aceno pela janela do ônibus que, mais de 15 horas depois, o entregaria à própria sorte na rodoviária do Rio de Janeiro. Thiago iria trabalhar na TV Globo.
A cidade que, no primeiro contato lhe parecera tão maravilhosa, mostrava então sua face hostil, malandra, como se dissesse o tempo todo o quanto é preciso ser esperto para sobreviver. Naquele paredão de cabeças aguardando o desembarque dos passageiros do ônibus, nenhuma era conhecida. A única pessoa que lhe estendeu a mão foi um carregador do terminal, que lhe cobrou R$ 12 para levar suas coisas 20 metros adiante. A partir dali, tinha que ser com ele. E seria. E foi.
O apartamento da mãe de um amigo em Copacabana era pequeno e a sensação de que estava incomodando não permitiu que ali ficasse por mais que três dias. Um colega de faculdade, que havia aportado no Rio de Janeiro e vivia de favor na sala de estar do apartamento de outros quatro rapazes no Leblon, lhe ofereceu abrigo, mas ainda estava longe de ser o ideal. Ansioso por resolver a questão da moradia na Cidade Maravilhosa, Thiago cometeu seu maior erro.
Não é pequena a oferta de quartos para alugar numa cidade como o Rio de Janeiro. Os bairros, principalmente os da zona sul, estão cheios de anúncios de hospedagem temporária para turistas e pessoas que vêm de outros estados para tentar a vida na capital fluminense. Os preços são variados. E a qualidade dos quartos e o caráter dos locatários nem sempre ficam evidente à primeira vista, como o garoto iria logo descobrir.
O apartamento na rua Ronald de Carvalho, região do Lido, em Copacabana, foi o início e o fim da procura de Thiago por um quarto para dormir. Moravam nele a mãe, a filha pequena, o padrasto, a avó e uma cadela um pouco grande demais para o ambiente e para o gosto do jovem. Foram simpáticos e pareciam hospitaleiros. O quarto, ao lado da área de serviço, estava adequado às suas necessidades. Tinha uma cama e uma TV. O banheiro, no corredor até a cozinha, seria de seu uso exclusivo. "Ok!", pensou e já pagou adiantado os R$ 280 do primeiro mês. Mudou-se em seguida.
A primeira noite foi o suficiente para perceber o quanto havia sido infantil na decisão de alugar o primeiro quarto visitado. O chuveiro não esquentava, o que, numa noite atípica de frio no Rio de Janeiro, o fez amanhecer com dor de garganta. A TV não funcionava e o colchão da cama era duro como uma tábua e acabou com sua coluna.
Os dias que se seguiram trouxeram ainda mais surpresas desagradáveis. Os outros moradores do apartamento não tinham hábitos de limpeza. A cozinha era nojenta. E, por várias vezes, ele via cair no chão uma folha de alface ou um ovo cru e ali permanecer por dias seguidos, com a cachorra passeando por cima deles tranquilamente. Apesar de ser a casa de uma família, não havia geladeira. Apenas um freezer. Então, por exemplo, o leite passava o dia sendo congelado e, à noite, ficava descongelando à temperatura ambiente para ser consumido no dia seguinte. Para Thiago, não poderia haver nada mais absurdo.
Consultou a dona do apartamento sobre a possibilidade de ficar hospedado ali apenas metade do mês, pegando, assim, metade do dinheiro de volta. Ela, claro, negou, dizendo que já havia gastado a quantia toda. E assim, ele ficou. Procurando um lugar melhor para seu segundo mês no Rio de Janeiro, enquanto enchia seu quarto com sacolas de frutas, água e Toddynho e ouvia os jogos de futebol pelo rádio. Sentia-se só e escrevia desabafos quase adolescentes em um caderno de brochura.
Em seus primeiros dias na TV, Thiago trabalhava predominantemente à noite. Os dias se tornavam lentos e longos, em caminhadas sem fim pelas ruas de Copacabana para tentar passar o maior tempo possível longe daquele apartamento. Até que um dia, ele descobriu que, se os dias por ali eram ruins, as noites poderiam ser ainda pior.
Chegou em casa já perto da meia-noite e bateu à porta. Nada. Insistiu. Silêncio. Mais uma vez. Luzes apagadas. Todos haviam saído.
Thiago tinha medo da cachorra que vivia no apartamento, assim como de quase qualquer outro cachorro. Por isso, fizera um acordo com a dona: ele ficava fechado entre a cozinha, a área de serviço e seu quarto, enquanto a cadela ficava trancada no restante do apartamento. No entanto, a parte que lhe cabia na casa não tinha, até então, uma segunda chave. Sempre que ele chegava da rua, alguém aparecia para lhe abrir a porta. Sempre, menos naquele dia.
Trancado para fora, o jovem jornalista desceu à rua para esperar alguém da família chegar. E então, descobriu que boa parte das mocinhas que se anunciavam nos adesivos colados nos orelhões da Telemar - da "baianinha morenaça que acaba de chegar ao Rio com seios furando à blusa" à "Babinha, que lambe até a última gotinha" - vivia por ali, em meio a toda sorte de vagabundos, pilantras, bêbados, agiotas e tipos assim.
Não dava mais para viver ali. Essa era uma certeza que o rapaz tinha. Por outro lado, o mês estava acabando e ele não tinha conseguido nada melhor.
- Hum, Thiago! O mês vence hoje... Vai ficar mais um mês com a gente? - ela o abordou na cozinha, enquanto bebia água.
- O mês vence amanhã. E não, não vou ficar mais um mês com vocês. - foi mais ríspido do que ele mesmo se julgava capaz.
- Mas, você já achou um outro lugar pra ficar? - a pergunta dela tinha o cinismo de quem sabia a resposta.
- Não, ainda não... Tô procurando. - ele engolia a água com raiva.
- Se precisar ficar uns dias a mais, a gente acerta...
- Acerta coisa nenhuma - ele cortou nervoso. Acerta coisa nenhuma! Você me alugou um quarto com uma TV que não funciona, um chuveiro que não esquenta, aqui não tem geladeira... E você quer me cobrar um dia que eu fique a mais?
- Mas, eu não posso ficar no prejuízo... - o sorrisinho que escapava naquele rosto gordo e moreno o deixou ainda mais irado.
- Tá bom! Eu vou embora amanhã. Não sei pra onde, mas vou embora amanhã.
A frase, dita de forma tão visceral, e o clima pesado que acompanhou a caminhada dele até o quarto davam a certeza de que não poderia haver blefe. Fosse para onde fosse, ele precisava deixar aquele apartamento no dia seguinte. Lembrou-se na hora de um colega de estágio que havia conhecido um mês antes e que lhe dissera algo como "se precisar de alguma, pode contar comigo, vai lá pra casa". Apesar da vergonha pela situação, aquela lhe parecia a única opção no momento.
Igor tinha uma família estruturada, daquelas com pai, mãe, irmã e avó por perto, num apartamento bem confortável em Botafogo. A ideia de Thiago era não causar muitos problemas. Seriam apenas dois ou três dias, o suficiente para encontrar um novo quarto para jogar sua caixa de papelão, suas três malas e sua mochila.
Foram dias de caminhadas intensas sob um calor infernal em pleno final de agosto carioca. Quase como uma súplica, ele perguntava a cada porteiro: "Você sabe de quarto para alugar nesse prédio?". Botafogo, Laranjeiras, Flamengo, Catete. O garoto não se lembrava de já ter andado tanto. Queria muito resolver aquela situação. Não porque se sentia pressionado a deixar o apartamento de Igor. Pelo contrário, a família do novo amigo o recebia muito bem, como dificilmente se faz com um desconhecido. Mas, Thiago precisava encontrar onde morar logo para receber sua namorada, que já tinha as passagens compradas para visitá-lo e, de Santa Catarina, começava a reclamar pela falta de notícias, pela ausência das ligações e, principalmente, das longas conversas que costumavam ter pela internet.
Uma semana se passou e, por mais que ele se esforçasse, nada aconteceu. É certo que sua imaturidade, sua pouca prática na cidade grande, seu desconhecimento da mecânica da vida para certas situações do dia a dia atrapalhavam no desfecho. Afinal, não poderia ser assim tão difícil alugar um quarto para morar no Rio de Janeiro.
Em meio a tanta pressão, encontrou espaço para relaxar no convite dos novos amigos para participar de uma pelada no outro lado da cidade. Fazia anos que não tinha uma turma para jogar futebol e, naquele momento, mais do que nunca, sentia a necessidade de estabelecer novas relações, conhecer pessoas.
Em uma disputa imprudente com o goleiro adversário, percebeu que seu tornozelo não estava legal. No calor da partida e do corpo, continuou jogando. Só foi se dar conta da dor e do estrago horas depois, na casa da família de Igor. Seu pé direito ficou roxo e assustadoramente inchado. Não falou para ninguém. Não tinha plano de saúde, não queria ficar sem trabalhar e não queria dar ainda mais dor de cabeça para as pessoas que o hospedavam. Mas, a dor não passava. O inchaço não desaparecia. O roxo só fazia ficar mais escuro.
Até que um dia, um colega do trabalho notou o estado do pé de Thiago. E indignou-se com a falta de cuidados. "Você quer perder seu pé?" As pessoas ao redor encorparam o discurso e Igor se ofereceu a levar o amigo ao pronto socorro de um hospital público perto de sua casa. O atendimento foi demorado e a tala de gesso e atadura que lhe fizeram era nitidamente precária e inadequada. Pelo menos, conseguiu um atestado de duas semanas para o trabalho.
O problema é que, além de não trabalhar, Thiago não poderia mais bater perna em busca de uma morada. Passava os dias sozinho, deitado no sofá com o pé para cima ou tentando se arrastar de muletas pelo apartamento da família de Igor. A única pessoa que via era a avó do amigo, que morava no mesmo prédio e lhe levava o almoço atenciosamente.
Com menos de um mês no estágio dos sonhos de tanta gente, ele estava pronto para desistir. Não queria mais.
Telefonou para a mãe, que acompanhava tudo de mãos atadas em sua cidade perdida no interior do Paraná. Não queria preocupá-la, mas não aguentou. Chorava tanto que mal conseguia falar. Abrir mão daquela oportunidade, voltar para casa derrotado e ter que encarar todos seus amigos e colegas como "o cara que não deu certo na Globo" doía muito mais que o pé retorcido. Sua mãe quis falar com a mãe do amigo que o hospedava e pediu ajuda. De mãe para mãe.
No dia seguinte, um domingo, Maria Tereza abriu o jornal e disse sem meias palavras:
- Vamos arrumar um lugar para você morar.
A mulher correu os olhos espertos pelas páginas dos classificados.
- Nossa! Esse é aqui do lado. "Alugo quarto para moça."
- Mas, é pra moça... - Thiago sublinhou timidamente.
- Ah, vamos ligar lá! - Tereza estava decidida. E não haveria argumentos que a segurassem.
Do outro lado da linha, a senhora que oferecia o quarto tentou mais uma vez destacar que o mesmo era para uma moça.
- Mas, eu tenho aqui um menino ótimo! A senhora vai adorar ele! Olha só: estamos indo aí agora! - completou a mãe do Igor, praticamente batendo o telefone na cara da outra, já juntando as coisas para sair.
O prédio ficava mesmo à meia quadra dali, na esquina seguinte. Tereza ia à frente, com Igor e Thiago, de muletas, a segui-la. Tocaram o número 702 no interfone. Uma mulata bonita de 1,80m - que, depois, se soube ser dançarina da companhia de Jaime Arôxa - veio recepcioná-los na porta. Ela se chamava Luana e morava com a Dona Altina, a anunciante do quarto.
A porta pantográfica e o cheiro marcante do elevador indicavam a idade da construção. Do corredor do sétimo andar, dava para ver por entre as plantas na janela a área de serviço do apartamento de Dona Altina. Ela esperava na porta, com um sorriso que não passava despercebido. Os cabelos eram curtos, pintados de loiro, os olhos, bem claros, entre o azul e o verde. Tinha 75 anos, mas passava facilmente por bem menos. As primeiras impressões entre ela e o garoto não poderiam ser melhores. Ele via a hospitalidade em pessoa. Ela, um menino com cara de bonzinho. Mesmo assim, ela se preocupou: "meu Deus! Ele é deficiente! Será que ele vai conseguir se virar num quartinho tão minúsculo?".
O quartinho minúsculo dos pensamentos de Dona Altina se materializava diante dos olhos de Thiago. Assim que olhou para aquele espaço de 1,90m de comprimento por 1,70m de largura, o garoto já descartou a hospedagem e desanimou. A simpatia da senhora era imensa, mas, como colocar todas as suas coisas ali? O quarto tinha apenas uma pequena cama, um guarda-roupa de duas portas e uma sapateira pendurada atrás da porta. Não tinha janelas. Ficava ao lado do tanque e da máquina de lavar roupas, com um banheiro anexo, sem pia e com o chuveiro sobre a privada. O aluguel custaria mais caro que o de Copacabana: R$ 400 por mês, um pouco menos da metade de seu salário de estagiário.
Para ele, estava decidido que, infelizmente, não era possível ficar ali. Sentaram-se para conversar na sala, toda enfeitada com quadros e uma série de madonas de barro, feitas pela própria senhora, que era artista plástica. O apartamento todo era bem pequeno. Havia somente mais um quarto, onde Luana dormia aos pés da Dona Altina.
Mas, algo naquela conversa, naquele momento, fez Thiago se dar conta de que a vida não é matemática. Estavam ali, diante dele, uma mulher que havia prometido à sua mãe que o ajudaria a todo custo e uma senhora disposta a ignorar a restrição de gênero do anúncio em nome de uma empatia imediata inexplicável. O negócio estava fechado.
***
Nove anos depois, nos encontros esparsos e apaixonados que celebram a improvável amizade incondicional entre o menino e a idosa, ninguém se atreve a dizer que não valeu a pena.
Belo texto meu irmão! Que dureza, hein?! Bom que valeu a pena. Abraço!
ResponderExcluirValeu a pena! Ê... Ê...
ResponderExcluirAbraço, meu velho!
Eu já tinha lido, mas acho que desenvolvi alguma espécie de "apaixonamento" por esse texto... Sempre que preciso de forças eu volto aqui para lê-lo novamente!
ResponderExcluirTenho muito orgulho de ser sua amiga! Você é admirável, Thiago!