A um sinal da orquestra, o burburinho se organiza, as pessoas se levantam e se voltam todas para o fundo da igreja, olhando para a porta principal. Bem grande, imponente, antiga, duas folhas pesadas, madeira boa, toda trabalhada em reentrâncias e fechaduras, mais pela estética que pela praticidade.
Normalmente, a porta principal é ladeada por duas entradas laterais por onde, a essa altura, estão correndo as crianças mais impacientes, fugindo das suas mães desejosas de manter o penteado e evitar alguma gafe. Elas prometem safanões para mais tarde e desviam da equipe de organização da cerimônia, que conversa baixinho entre si pela comunicação de seus fones e microfones de lapela, tentando ser invisível.
Primeiro, entram os casais de padrinhos, que, dependendo da ocasião, são muitos. Vez ou outra, os vestidos das madrinhas são variações do mesmo tom. Facilita a identificação e claramente prejudica algumas e favorece outras. A música para a entrada deles pode ser uma "releitura" de algum hit pop, o que dá um caráter de descontração ao momento. E, por mais padrinhos que tenham sido convocados, esta é uma passagem rápida, leve e não muito relevante no contexto geral da cerimônia.
A mudança de música é a senha para que todos se voltem novamente para o fundo da igreja. Uma nova expectativa é criada. A melodia é mais clássica e normalmente remete à infância, algo mais família. A porta, que novamente havia sido fechada, não demora a se abrir. E ele entra com a mãe. É um momento bonito.
Visivelmente emocionado, ele consegue se mostrar descontraído. Vê conhecidos pelo caminho, brinca com colegas de trabalho, é provocado por velhos amigos, percebe lágrimas nos olhos das tias, sorri para os cinegrafistas, retarda os passos para os fotógrafos. Está muito bem vestido, claro. Terno sob medida, com colete, abotoaduras e outras coisas que nem sabia que existiam e não saíram barato. Gravata e sapatos escolhidos com cuidado. Cabelo cortado, barba feita. Por mais que ninguém vá dizer, de modo geral, ele não difere muito dos outros homens ao redor. Eventos como estes não são feitos para eles se destacarem.
A orquestra inicia uma canção qualquer que todos sabem que não tem outro sentido a não ser preencher aquele espaço onde nada vai acontecer. Haverá uma quebra. Uma preparação. Ele se posiciona no altar, na diagonal oposta à porta, novamente fechada, e ali vai esperar alguns minutos que podem parecer infinitos.
Os convidados sabem que ainda não é hora. O momento é de sorrir para os conhecidos, olhar as paredes da igreja, os afrescos, os profetas que ali estão retratados, Elias, Miqueias, Daniel, santos, anjos, símbolos místicos, alfa, ômega, vestidos curtos demais, despojamento em excesso, elegância de onde não se espera, ousadia de alguns, as garotas bonitas ou nem tanto que mais tarde vão brigar pelo buquê, a semelhança do rapaz que toca o violoncelo com certo jogador de futebol. Checar redes sociais na igreja, pode?
Do altar, ele olha para a porta. Do lado de fora, ela olha para a porta.
Por mais que o ano seja 2014, as relações tenham se transformado, a vida esteja diferente, os significados dos ritos e dos símbolos já não sejam mais os mesmos, tudo o que eles querem é que aquela porta se abra pela última vez naquela noite.
Os primeiros acordes tocam - a música dela é inconfundível, não há o que inventar - e a porta se abre. É um momento especial.
Ela é vista pela primeira vez pela maioria daquelas pessoas. Acaba ali uma série de curiosidades: como é o vestido, o véu, a maquiagem, o cabelo e tantas outras coisas que as pessoas projetam e sonham e realizam na vida da protagonista que entra de branco, dos pés à cabeça. Páginas em branco prestes a serem escritas.
Ela caminha com o olhar fixo na direção do altar. Sabe que qualquer desvio é a lágrima certa. O olho já brilha, molhado. O sorriso é verdadeiro, embora nervoso. Certamente, está surda neste momento. Blindada. Não pensa sequer no quanto esperou por aquele momento. Muito menos, nas inúmeras vezes, que temeu que aquela hora chegasse. Apenas caminha. Sabe que está chegando.
Ele, por sua vez, esquecido pelo mundo na função de coadjuvante, a mesma que vai ocupar de bom grado até o fim da cerimônia, aproveita para olhá-la sem ser olhado. Livremente. Como se fosse a primeira. Como se fosse a primeira vez. Naquele instante, ele tem certeza de tudo.
Um anel, um sim, pobreza, riqueza, saúde, doença, alegria, tristeza, até que a morte os separe. Pode ser que não seja bem assim. Pode ser que dali três anos ou três meses, tudo mude, tudo acabe. Mas, naquele instante, naqueles segundos em câmera lenta, a mulher de branco que está ali, com a mão estendida em sua direção, lhe basta.
Muito legal!
ResponderExcluirMuito obrigado, Bruna!
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